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PAPER
GATHERERS: WORK, MEANING AND BUSINESS MANAGEMENT
RESUMO:
O presente
trabalho parte
de uma pesquisa
desenvolvida
por
professores e
alunos da Faculdade
Estácio de Sá em
Juiz
Fora, há dois
anos,
com os catadores de
papel da APARES -
Associação dos Catadores de
Papel e Resíduos
Sólidos de
Juiz de Fora,
subsidiada pela
AMAC - Associação
de Apoio
Comunitário da
Prefeitura Municipal.
Nosso trabalho
consistiu em
buscar junto
àqueles
atores, o
significado que
a atividade
que realizavam
tinha em
suas
vidas, os
obstáculos que
impediam o crescimento
da associação e o
desenvolvimento
de ações
que os preparassem
para a gestão
de seu
negócio. A
nossa intenção
foi de trazer à
tona o
problema da
exclusão social,
os mecanismos
capitalistas
perversos que
impedem os catadores de se emanciparem economicamente e
socialmente, e
através da pesquisa-ação,
alertá-los para a
necessidade de
conhecer e praticar
os novos
modelos de
gestão de
negócios, como
forma de
garantir sua
inclusão
social e
permanência do
mercado de trabalho.
Palavras-chave:
Catador de papel,
Associação,
significado do
trabalho, gestão
de negócios
ABSTRACT: The present
study arises from a research developed by
professors
and students of the Faculdade
Estácio de Sá, from Juiz
de Fora, along
the last two years, whose subject was the paper gatherers of
APARES - Associação
dos Catadores de Papel e
Resíduos
Sólidos de Juiz
de Fora -,
subsidized by the municipality through AMAC -
Associação de Apoio
Comunitário da
Prefeitura
Municipal. Our work was to search, among
those people, the meaning which the activity thy did had in
their lives, the obstacles which impeded the associations
growth and the development of actions which would prepare
them for their business management. Our goal was to manifest
the problem of
social
exclusion, the perverted capitalist mechanisms which hinder
the economic and
social
emancipation of the gatherers, and, throwgh action-research,
warn them about the necessity of knowing and practicing new
business management models, as a way to assure their
social
inclusion and their continuation in the work market.
Key-words: Paper gatherer, association, meaning of work,
business management
1.
Introdução
O trabalho
constitui e explica grande
parte
da sociedade capitalista.
Os processos
de socialização, a construção de
identidades, as formas
de dominação
e resistências, os
mecanismos
de inclusão e exclusão,
seja na área
da educação, da
política, da economia,
ou quanto
à discriminação das
minorias
étnicas e da desigualdade dos direitos
entre
os homens e as
mulheres, têm origem
nas situações
laborais e nas relações
sociais
estruturadas na atividade
produtiva.
Assim,
o trabalho, como
ato
concreto, individual
ou
coletivo, é por
definição, uma experiência
social. Seja ele
opressivo ou
emancipador, tripalium (tortura)
ou
prazer, alienação ou
criação, salutar
ou
doentio, em todas as
suas
ambivalências, ele
não
se limita à jornada laboral,
mas
repercute sobre a
totalidade da vida
em sociedade (CATTANI, 1996),
engendrando significados e
sentidos
de existência.
A trajetória
desses significados tem
um
conteúdo bastante
perverso
quando o olhar se dirige
para
os países que
foram colonizados de forma
predatória pelo
empreendimento mercantilista
europeu, como os da
América Latina.
Inicialmente, a cultura
indígena
foi considerada como
incapaz
de produzir, sendo
associada à preguiça,
ao pecado e ao
atraso, e por
isso, sob
o peso das armas
e da
ideologia euroetnocentrica, foi em
sua grande
totalidade, destruída. A seguir, o
problema
da falta de
braços
levou à nódoa da
escravidão
e ao concurso dos migrantes,
durante
mais de quatro
séculos
e meio. Especificando o
caso
brasileiro, as conseqüências
desse tipo de colonização
deixaram marcas
profundas, claras e
visíveis
nos dias de
hoje
– a marginalização dos negros e
dos seus
descendentes, os colocam fora
do mercado de trabalho,
ou
ganhando salários
menores,
ou desempenhando atividades
de mais baixo
status
social. (GAMBINI, 1998).
No caso
do Brasil, a partir de 1980, o
país,
já industrializado e urbanizado passou a
viver
um problema inverso.
Em
vez de faltarem braços,
a questão passou a ser a
falta
de emprego para
os que
queriam trabalhar. A partir
da década
seguinte, anos e
anos
de baixo
desempenho econômico
foram aumentado, progressivamente,
o número
de pessoas que
não
conseguem emprego.
Além
desse baixo
desempenho
econômico, surge uma grande
transformação na estrutura
administrativa
e tecnológica das
empresas: é nula
a criação de
empregos
industriais; modifica-se
profundamente
a organização dos
processos
fabris; altera-se o perfil de
habilidades,
educação e qualificação dos
trabalhadores; enfraquece-se a
base sindical organizada; aprofunda-se a
automação on-line,
flexível e abrangente; poupa-se o
capital
de giro com
a minimização dos estoques;
enxuga-se o sistema
de administração das
empresas,
com a supressão de níveis
hierárquicos e com as
terceirizações; articulam-se
redes eletrônicas
de suprimento com
fornecedores
e distribuidores. (BARELLI,
2003). As conseqüências
em relação ao
número
de empregos são
evidentes.
Enquanto no paradigma
da Segunda
Revolução Industrial
a maior produção
significava empregar
maior número de
trabalhadores, inaugura-se
agora a época do
crescimento
sem emprego. No
caso
do Brasil, lembra Barelli, ficamos só
com
o “desemprego”, porque
também
não houve crescimento.
O desemprego
amarga a vida
de muitos
brasileiros, e tanto
pior quando
se trata daqueles
literalmente
excluídos do sistema: os
sem
educação e qualificação profissional,
os sem teto,
os sem
condições mínimas de
sobrevivência, os sem
assistência médica,
os sem proteção
do Estado. A
falta de vínculo
empregatício
gera salários
menores,
falta de proteção
legal
e a ausência da
contagem
do tempo de
aposentadoria. Inseridos neste espaço
de segregação social, é
que se encontram as pessoas
que exercem a atividade
de catar papel nas
ruas,
objeto do presente
estudo.
Assim, a pobreza e a
necessidade de manutenção
da dignidade na
miséria, levam à construção
de estratégias
de sobrevivência, fazendo
com
que o individuo ou o
coletivo
procurem formas de
inserção
social.
Mas,
por mais
maciça que seja a
realidade
dos poderes e das
instituições
e sem alimentar
ilusões
sobre seu
funcionamento, De Certeau (1990)
sempre discerne um
movimento de resistências,
as quais fundam
por sua
vez microliberdades, que
utilizando recursos
insuspeitos, deslocam a
fronteira da dominação
dos poderes sobre
a multidão
anônima. O autor dá
atenção
à liberdade
interior
dos que não
se conformam com o
que é organizado e instituído.
Ele acredita na criatividade
do mais fraco,
que
através de táticas é
capaz
de escapulir do poderes
vigentes.
Esses atos de
resistência
se concretizam através de uma
prática
no cotidiano de pessoas
comuns, a que De
Certeau dá o nome
de artes
de fazer. Arte
no sentido de burlar,
de cambiar, de ser
capaz de viver
em áreas
fronteiriças, em
lugares
transitórios. São as
astúcias
das pessoas
comuns que
invertem a ordem a
seu
favor, que De Certeau irá
estudar. Interessa a ele
as redes
de uma antidisciplina que
vão
sendo tecidas no dia-a-dia.
Segundo
o autor, o
racionalismo
ocidental não se dá
conta
que as pessoas
ainda hoje
podem agir através
de um
modelo que se
remonta
às astúcias
milenares
dos peixes disfarçados
ou
dos insetos camuflados.
Escondida sob o
rótulo
de consumidores, de dominados,
a gente
ordinária vai construindo, nas
práticas
do cotidiano, mil
maneiras
de empregar o produto
que
é imposto pelas
classes
dominantes.
Na fila
dos que
lutam pela
sobrevivência, a partir da
construção de táticas,
que como disse De
Certeau, conseguem transformar a
própria
realidade, e, aqui,
literalmente, a partir do
que as classes
consumidoras descartam, encontra-se o catador de
papel que
apesar de inserido na atividade
da coleta de lixo
urbana,
são freqüentemente
explorados. Sem
informação,
desprovidos de representação
legal, sem
reconhecimento
de categoria
profissional,
sem financiamento das empresas
de crédito, vendem
sua
mercadoria para
intermediários
que os vendem às indústrias
de reciclagem (GROSSI, 1998).
Na contra-mão dessa
situação, iniciativas
da sociedade civil
organizada e do poder público
apoiam o trabalho
dos catadores de papel, como
é o caso
da APARES, que recebe o
apoio da AMAC – Associação
Municipal de Apoio
à Comunidade,
órgão
do governo municipal.
O desafio
de construir e consolidar
direitos
de cidadania e
particularmente
os direitos
sociais, para
uma população que
vivendo abaixo da
linha
da pobreza, encontra-se
hoje
frente às perversas ameaças
da modernidade capitalista
tardia
e da globalização,
que
cada vez
mais
a desloca para a periferia
do sistema, gerando uma
dura realidade
que
exige reflexões e muitas
ações.
Assim, o cooperativismo,
o associativismo, surgem como
iniciativas
solidárias que se apresentam
como
um espaço de
vivência
e valores não
hegemônicos,
bem como, apresentando a
capacidade
de gerar efeitos
equivalenciais, se tornando, dessa forma,
uma ação estratégia
contra a miséria e a
pobreza. (CORTIZO, OLIVEIRA,
2004).
O que
no entanto se percebe, é
que
dentro de pouco
tempo,
obstáculos vão se
configurando e dificultando o avanço, o
crescimento
e desenvolvimento dessas
iniciativas, o que
é compreensível
e natural já
que
elas estão inseridas dentro
de um modelo
econômico,
que hoje,
como
em nenhum
momento
da história, tem
como
palavra de ordem, a
competição, como forma
de sobreviver
num mercado
extremamente
mutante.
Tal
situação foi observada na APARES. Se
por
um lado, a
associação
possibilita a organização
um
espaço que dá
conteúdo
prático à luta dos
catadores que sobrevivem do
que
é descartado pela
sociedade
(LAGES, 2005), possibilitando inclusão a
social
e a elaboração de
novos
sentidos de subjetividade e de
identidade
social, por
outro
lado, as dificuldades
encontradas colocam em
cheque
sua sobrevivência.
2
Perfil
e estruturação da APARES
Com
o objetivo de
organizar os catadores de papel
da cidade de Juiz
de Fora, em
torno
de uma Associação,
maneira
essa de proporcionar-lhes maior
autonomia,
melhores condições de
trabalho e inserção
social, a AMAC - Associação
Municipal de Apoio
Comunitário de Juiz
de Fora apoiou a
formação
da APARES, em 1998.
Coube à AMACJF: ceder
as instalações, o
galpão,
que possui em
torno
de 600 m2, onde os catadores
fazem a triagem
do lixo; a
responsabilidade
pelo pagamento dos salários
de um contador,
de um
auxiliar administrativo e de
um
prensista; a cessão de
equipamentos
– prensa e
balança; a
doação de uma cota de
alimentos
básicos utilizados no almoço
dos associados; e,
ainda, a doação
de uma cesta
básica mensal a
cada
catador. A AMAC também garante
creche
para os filhos dos catadores e
encaminha os adolescentes
para os
programas a eles
destinados, por
esse órgão.
Segundo
Regina Caeli de Souza Cunha,
responsável
pela desenvolvimento
do programa, a
idéia inicial
era que
dentro
de algum tempo
a APARES se tornasse autosustentável, desatrelando-se da
AMAC. Mas
isto não aconteceu. A
APARES é totalmente depende
daquele órgão
público. O valor
gerado pela
atividade
dos catadores não é
suficiente
para arcar com
as despesas. Além
disso existem sérios
problemas
de infra-estrutura no
galpão, o que
já propiciou um
incêndio no local (o
gasto
com a restauração foi
feita pela AMAC) e o
mobiliário
é bastante
precário. E, ainda,
o produto
disponível
para a coleta dos
associados
tem diminuído devido à
competição ser
hoje bem forte,
uma vez que
outras classes
sociais mais
favorecidas disputam com o
catador a coleta
do papel na cidade,
fato
esse que denuncia o
empobrecimento
das pessoas de forma
geral.
No entanto,
o fato mais
agravante
é que os
associados não
possuem condições de se
tornarem os próprios
gestores do seu
negócio.
Tal situação é
conseqüência
do baixo índice
de escolaridade
e da dificuldade dos
coletores
na adoção de novos
comportamentos, no que
se refere à falta
de coesão do
grupo devido
a lideranças
negativas
que acaba por
dificultar
a internalização de valores
éticos
e de um efetivo
trabalho
de equipe em
prol
de uma meta única
- o
trabalho cooperativo.
A falta
de registro da Associação
é também
um impedimento de
crescimento.
Segundo G., 32 anos,
sete
anos coletando papel nas
ruas:
Nós
temos muitas
dificuldades
porque
a
Associação
não
é registrada, e se a APARES fosse registrada,
para
nós
seria
melhor,
porque
muitas
pessoas
deixam de
doar
o
material
por
ela
não
ter
o
registro.
Igual
à
Caixa
Econômica
Federal,
nós
já
conversamos
com
o
pessoal
de
lá,
eles
tentaram
fazer
um
convênio
com
a
gente
para
doar
o
papel.
Ta
escrito
e
tudo,
mas
eles
estão esperando o
registro
da APARES.
Assim
também,
outras
empresas
para
fazer
a
doação
precisam desse
registro,
e
nós
não
temos.
O cooperativismo
pressupõe igualdade,
prudência
ecológica e solidariedade,
mediado por
princípios
de justiça,
democracia
e auto-gestão. É dessa forma
que
o cooperativismo se caracteriza
como
uma possibilidade de inclusão no
mercado
de trabalho, mas
principalmente
como um
espaço
de politização, de aprendizado
e de construção
coletiva de cidadania.
(CORTIZO, M. Del Carmem, OLIVEIRA,
Adriana L., 2004). Mas essa
consciência
cooperativista é difícil de
ser
construída, uma vez
que
a cultura do “jeitinho
brasileiro”,
que preconiza a esperteza,
a malandragem, a ação
através
de estratégias
que
fogem aos padrões
morais
foi fortemente internalizada no
decorrer
de mais de quinhentos
anos.
A APARES conta
hoje com
quarenta catadores capacitados para a
atividade,
mas somente dezessete freqüentam a
associação sistematicamente. Essa
capacitação
é um
pré-requisito para
que o catador possa se associar.
Ela
consiste num curso de quarenta
horas
em que
são
abordados temas
que
envolvem habilidades básicas,
específicas e de gestão.
A Associação
segue os princípios do
cooperativismo, se organizando
em cinco
comissões: a de coordenação,
a de fiscalização, a de cultura
e lazer, a de
meio ambiente o
conselho fiscal,
cargos esses
que são
ocupados
pelos catadores.
Dentre
os dezessete associados,
com
faixa etária
entre
dezoito a sessenta anos e na
sua
quase totalidade,
analfabetos, a maioria
são homens.
Com o trabalho chegam a
ganhar,
em média, de meio
a um salário
mínimo.
Esse valor sofre
variações devido à
dinâmica
sazonal influenciada pela
oscilação do consumo
da população. Em
épocas
do ano marcadas
por um
comércio mais
intenso
ele aumenta, no
entanto
a produção diminui consideravelmente no
período
de chuvas, quando
a atividade
não é desenvolvida,
pois
não se pode vender o
papelão
molhado. Nesses períodos,
a situação dos catadores se
agrava,
pois se não coletam o
papel
nas ruas, eles
não
têm o que vender,
e assim
não ganham nada.
A APARES sofre a
concorrência dos outros
coletores que
não
são associados e
que
vendem os produtos
direto
para os depósitos de papel;
a concorrência da
própria
população que
também
separa e vende o material
selecionado
(latinhas, papelão, pet); a
concorrência
do DEMLURB – Departamento de
Limpeza Urbana
do Município, que
com seus
caminhões recolhem o lixo
que foi separado e o encaminha para
a Usina de
Triagem do
município; e principalmente
a falta de
consciência
ecológica da população
que ainda
não se habituou a separar
o lixo doméstico
em resíduos
secos
e os úmidos.
A
falta
de um transporte
próprio, a máfia dos
donos de depósito
da cidade que
além
de explorar o trabalho dos
catadores, contribuem de forma
pontual para
o com o
alcoolismo de
muitos coletores e
para
a manutenção de uma
cultura
perversa em
que
a trapaça media a relação
que
deveria ser profissional,
são
outros sérios
problemas
que aquelas instituições
enfrentam. A solução para
tantos
problemas viria de uma infraestrutura
que
permita a venda dos
resíduos
diretamente às fábricas,
sem a mediação dos depósitos.
3
Metodologia
A pesquisa
foi realizada através de duas
etapas. Na primeira,
o método
empregado foi o etnográfico, realizado durante
os meses de agosto a
dezembro
de 2005, e utilizou a entrevista
aberta,
com o uso de uma
câmara
de vídeo. O
objetivo geral
era de detectar o
significado
do trabalho para os
associados, considerando a
atividade
que realizavam e seus
reflexos em
suas
vidas pessoais e
pública: a reação
das pessoas
da rua quanto
à sua
presença; dos motoristas; do
comércio
local, buscando, ainda,
compreender o sentido dos
diferentes
significados que os
associados
internalizavam a partir do
discurso
ecológico, promovidos pela
Amac, e de que forma
a atividade
contribuía com a melhoria da
auto-estima.
A
segunda
etapa, realizada de dezembro
de 2004 a dezembro de 2005,
teve como
método a pesquisa-ação, que
objetivou levantar os dificultadores
relacionados à administração
da Associação, e a
partir daí, desenvolver
treinamentos focados em
tais
dificuldades. Os treinamentos foram realizados
por
alunos e professores
do curso de
Administração
da Faculdade Estácio de Sá,
que
receberam os treinamentos adequados para
que
pudessem estar ministrando os
cursos
a um público,
que
como já foi
dito, é na sua
grande maioria
analfabeto.
A seguir,
então, estaremos relatando o
desenvolvimento
da pesquisa.
3 A
dinâmica
do trabalho, a
rotina e o
significado
social do lixo
Diz Roberto DaMatta (1987)
que “casa” e “rua”
designam entidades
morais, esferas de
ação
social, províncias
éticas
dotadas de positividades, domínios
culturais institucionalizados, capazes
de despertar
emoções, reações,
leis,
orações, músicas e
estéticas. Contrapondo a rua
à casa, o autor
nos diz que
na rua passamos
por indivíduos
anônimos e desgarrados, quase
sempre maltratado, sem
voz. Somos na rua
“subcidadãos”, e por
isso
nosso comportamento é
sempre negativo.
Assim, joga-se lixo
na rua, desrespeita-se o
sinal de trânsito,
depreda-se a coisa comum,
não
se tem vergonha da
desordem. A rua
é lugar do povo,
da massa, da
prostituição, da malandragem,
da anomia.
E é nesse
espaço
que as pessoas
são
ninguém, que o
excluído
circula e deixa à
mostra
uma ferida social:
o Brasil progrediu dos excluídos necessários
(que
o capitalismo dizia ser
temporário
e em prol
de um
futuro que seria
bom
para todos) aos excluídos
desnecessários, forjando atores
incômodos
politicamente, ameaçantes socialmente
e desnecessários economicamente.(NASCIMENTO, 1995). Se no
Brasil colônia,
índios e negros se
constituíam como
mercadoria
disponível e necessária,
o modelo de desenvolvimento
adotado pelo país
acabou por
concentrar os níveis de
carência
e privação cada
vez
mais aos bens
imprescindíveis
à sobrevivência
física,
como salienta Denise Juncá (2004, p.108).
Mas
se os excluídos que perambulam
à procura
de sobrevivência,
são
vistos, como disse
DaMatta sobre a
lógica
da rua, como
entes
perigosos, um
bando
de gente suja
com
propensão ao alcoolismo, à
vagabundagem, candidatos ao
banditismo, o que
se verifica é a reapropriação, pelos
catadores de papel, desse
espaço
de anomia, conferindo-lhe significados
de dignidade
e honestidade
através
do trabalho que
realizam. As associações
a que pertencem
são em
grande parte
responsáveis
por essa inversão de
significados,
quando através da
conscientização da importância
da preservação
e do cuidado com
o meio
ambiente, engrandece e dá sentido
ao trabalho do catador de papel.
Como
diz BM., 24 anos:
Muitas
pessoas
critica a
gente,
fala
que
tipo
assim:
que
pessoa
porca,
fica mexendo no
lixo,
mas
mal
ele
sabe
que
se
não
fosse a
gente
era
arriscado
já
ter
cortado
mais
de
não
sei quantas
árvores,
e
que
hoje
em
dia
não
é
preciso
de
cortar
porque
tem a
reciclagem,
entendeu?
Igual
a
gente
fez
um
curso
aqui
e
eles
levou a
gente
pra
ver
a
importância
que
é
nosso
serviço,
porque
se
não
for a latinha amassada vendida
pra
eles
derreter
e
fazer
outra,
pra
mandar
para
o
comércio
de
novo,
eles
iam gastam
muito
o
dobro
de
energia,
eles
economizam
com
o
nosso
serviço.
O discurso
da consciência
ecológica, promovido pelas
associações de catadores, é internalizado
pelos associados,
assim como
possibilita uma nova
linguagem,
mais conectada com
o mundo do
capital: o lixo
é um produto,
que catado e reciclado, faz a empresa
economizar e ter mais
lucro.
Z., 44 anos,
também inverte sua
posição
social através de
seu
trabalho com o lixo:
Eu
sinto
muito
orgulhosa
do
que
eu
faço,
você
não
trabalha
com
reportagem,
você
não
se sente
orgulhosa
do
que
você
faz? Uma
dentista
não
sente
orgulhosa
de
ser
dentista?
Assim
a
mesma
coisa
é
eu.
Fico
muito
orgulhosa
de
catar
papel,
porque
primeiro
é o
meu
sustento,
sustento
dos
meus
filhos,
porque
eu
não
tenho
pensão,
não
tenho
salário,
não
tenho
nada,
eu
vivo
disso,
eu
vivo
de
papel.
Segundo
é uma
experiência
de
vida,
porque
hoje
o catador de
papel
é o
último
serviço
na
lista
de
escala
do
mundo,
mas
se o
brasileiro
reparar
na
sociedade,
no
meio
ambiente,
ele
é o
primeiro
serviço.
Porque
sem
o
ar
você
não
respira,
sem
uma
árvore,
sem
um
rio,
sem
uma
cachoeira,
sem
a
chuva.
E
para
que
a
chuva?
A
chuva
tem
que
ter
o
rio,
o
rio
tem
que
ter
rede
de
esgoto.
E se
você
deixar
o
lixo
todo
ir
para
a enchurrada,
para
a
rede
de
esgoto,
pras
mata,
como
você
vai
poder
amanhã
ser
um
cidadão
brasileiro?
(...)
Então
eu
me
sinto
muito
orgulhosa
de
passar
na
sua
casa
para
catar
o
seu
lixo.
A
APARES participa efetivamente
da individuação dos catadores de resíduos
sólidos.
Eles se vêem diferentes
dos demais. São
treinados, qualificados para essa
atividade:
A
Associação
é
diferentes
dos
outros
depósitos
aí
em
que
os catadores
vão
pra
rua,
e
aí
chega
lá
e rasgam o
lixo
todinho,
aí
o
pessoal
fica
assim
com
o
pé
atrás
com
o catador.
Por
isso
é
que
nós
temos trainamento. A
gente
aprende e
ensina
a
não
rasgar
o
saco
de
lixo,
a
espalhar
o
lixo,
a
não
beber.
A
gente
aqui
não
aceita
que
o catador beba na
hora
do
serviço,
não
aceita
que
ele
saia
fazendo
sujeira
por
aí.
Aqui
mesmo
na
frente
da
Associação.
Quando
a
gente
vê
que
a
porta
ta
suja,
nós
vai e
limpa.
(G, 32
anos).
Coletar
resíduos sólidos é uma
profissão, que
gera o sustento da
família.
Ainda nas palavras de
G.:
(...) é
muito
difícil
você
criar
seus
filhos,
entendeu? Se
você
fica
em
casa,
você
não
tem
como
dar
uma
alimentação
pra
eles
direito.
Eu
não
tenho.
Eu
não
dou
tudo
pra
eles,
tudo
que
eles
quer,
mas
pelo
menos
eu
não
deixo
faltar
pra
eles
o
leite,
o
pão
de
manhã.
Às
vezes
meus
filhos
pedem
iogurte,
eu
dou
eles.Catar
papel
é uma
profissão
honesta.
Você
está trabalhando,
não
está tirando
nada
de
ninguém.
Só
disso
aí
já
fico
orgulhos,
saber
que
estou tirando
meu
sustento
do
meu
próprio
suor.
Assim
como o trabalho dos catadores
oferece o sustento da
família,
orgulho por
ser
trabalhador e estar inserido no
mercado
de trabalho, ele
também
é fonte de discriminação
social.
Ainda na fala de G.:
(...) o
jeito
que
as
pessoas
me
olham... Às
vezes
você
está indo
com
o
carrinho,
as
pessoas
atravessam
para
o
outro
lado
da
rua,
isso
eu
já
passei
muito.
Ou,
ainda, como
fala
NN, 44 anos, três
anos
da rua coletando papel:
Ainda
tem
certas
pessoas
que
tratam a
gente
com
descaso,
né?
Ainda
não
tem o
respeito
que
o catador de
papel
deveria
ter.
Eles
acham
que
o catador de
papel
é a
mesma
coisa
que
o
lixo.
Mas
se sentem na pele a
discriminação
que sofrem por uma
parcela
da sociedade, uma outra
já
enxerga o catador de papel
como cidadão,
trabalhador:
Mas
tem
muita
gente
que
respeita,
que
já
separa o
papel
pra
gente,
já
chama
e
entrega
o
papel
pra
gente.
Tem
muita
gente
hoje
que
já
se conscientizaram,
que
o
trabalho
do catador de
papel
é
um
serviço
pra
sociedade.
E, como
diz G., 32 anos:
Mas
tem muitas
pessoas
que
passam
perto
de
você
e
te
dá
mais
orgulho
ainda
de
você
estar
catando
seu
material,
porque
às
vezes
uma
pessoa
chique,
importante,
passa
ali
e pára,
te
dá
atenção,
ou
então
de
cumprimenta.
Só
isso
daí faz
você
se
sentir
mais
feliz
de
estar
trabalhando, e
você
vê
que
aquela
pessoa
está se importando.
Laços
de solidariedade e
união são
construídos, o sentido de
família
é reconstituído, através das
cooperativas. Diz W. 22 anos
que saia
para ajudar a mãe
a catar papel
quando
tinha oito
anos
de idade:
Aqui
é uma
casa,
cheio
de
irmão,
ora
cê
briga
com
um,
cê
briga
com
outro.
Tem
hora
que
cê
ta
bem
com
um,
num tá
bem
com
o
outro,
mas
se
um
passar
mal
lá
fora,
todo
mundo
vai
atrás
dele
pra
ajudar.
(NN, 44
anos)
Como
foi visto
anteriormente, De Certeau (1994) afirma
que a cultura
popular encontra
táticas
para desfazer a ordem
estabelecida, e aqui no
caso, a da miséria
e da exclusão
social e econômica. E,
ainda, que o
sistema
constrói redes
tão
apertadas que é
impossível
sair fora delas, mas
que a partir das referidas
táticas, o vencido da história
pode construir
um campo
em
que ele possa
sobreviver. Podemos pensar, a
partir das falas
dos catadores, e a partir de De Certeau,
que o cooperativismo
é também uma
maneiras
de colocar na agenda a
reivindicação
de seu status
de cidadão, e em
suas vidas, a
esperança.
4 Administrando a
APARES
Apesar
de realizar negócios
comerciais,
não tendo como
finalidade
principal a obtenção do
lucro, as organizações
associativistas que
integram o emergente
terceiro
setor têm como
objetivo
apresentar respostas e
alternativas
ao problemas de
nossa
época, sobretudo àqueles
decorrentes das rápidas mudanças sociais
e tecnológicas (DOMINGUES, CRISTOFOLI, 2004),
que
acarretam para as populações
mais
pobres o alto
risco
de sobrevivência, e o
abismo
social.
Os
novos
paradgmas da globalização e
todas as suas
conseqüências, aterradoras para
grupos
sociais desfavorecidos sócio-economicamente,
colocam na ordem do
dia
uma série de
novos comportamentos
necessários para fazer
frente às novas
tecnologias, à aceleração
do tempo, à desfragmentação do
espaço e das coletividades,
ao crescimento do
individualismo, provocados pelas
novas formas
de comunicação,
transporte
e produção. (BAUMANN, 1998).
No
entanto, o que
se observou na APARES foi o total
despreparo dos seus
associados
para essa nova visão:
de que o trabalho
que
realizam é um
negócio
que precisa
ser
gerido de acordo
com alguns
pressupostos mercadológicos e de gestão
de empresas,
sem a perda do
seu
caráter solidário e
cooperativista.
Dentre
as dificuldades levantadas,
destacamos algumas delas, que
foram objeto
de nossa pesquisa-ação,
que
se refere à baixa produtividade
decorrente, devido
a vários fatores:
·
Falta de
tecnologia
e informação
·
Falta de
um
planejamento
estratégico
·
Significativa
deficiência
na gestão de
pessoas
·
Modelo
paternalista
de gestão
administrativa
·
Lideranças
desmotivadas
·
Desconhecimento
total
dos processos contábeis
·
Inexistência
de espírito
empreendedor
·
Forte
expectativa
quanto ao apoio do poder
público
·
Falta de
controle
de qualidade
A partir
de tal
diagnóstico, foi realizado uma
série de treinamentos de curta
duração, que
se desdobraram em
quatorze módulos, na
forma de mini-cursos, cada
um com
carga horária
específica, variando entre
quatro
a oito horas/aula
cada curso. Os
treinamentos foram ministrados pelos
professores
da Faculdade Estácio de Sá e
pelos
discentes, participantes da pesquisa.
A maior parte
dos mini-cursos foram realizados nas
dependências da Faculdade
Estácio de Sá, e outros, no
próprio
espaço da APARES.
Face
à pouca quantidade
de horas
destinadas a cada
módulo, queremos enfatizar
que os treinamentos oferecidos, tiveram o
objetivo de abrir
um espaço de
discussão
para os associados da APARES,
através
de mediadores (monitores
e professores),
que
pudessem contribuir de forma
positiva
com a construção e
ampliação
de uma consciência
crítica e pela
busca
de soluções para
as questões
levantadas. Os mini-cursos se organizaram da forma
que
segue, e ao final dos
mesmos,
todos os membros
participantes receberam Certificado
de Conclusão
de Curso, emitido
pela
Faculdade Estácio de Sá:
1.
Cultura
Brasileira
2.
Globalização
3.
Liderança
e Formação
de Equipes
4.
Ética
5.
Marketing
Pessoal
6.
Relacionamento
Interpessoal
7.
Português
através
de imagens
8.
Técnicas
de compra
e venda
9.
Meio
Ambiente
10.
Gestão
de Negócios
11.
Noções
de Informática
12.
Noções
de Contabilidade
13.
Planejamento
Estratégico
14.
Noções
de Marketing
Os dificultadores
que se apresentaram foram mais
constantes nos
cursos
técnicos, como o de
Contabilidade
e de Informática. Foi
visível
a dificuldade da
grande
maioria dos associados
de compreender a linguagem
contábil e virtual. Muitos
dos membros
tinham dificuldades
em
lidar com as mãos
e os dedos no
manuseio
do mouse, demonstrando
dificuldades
bastante primárias referentes
à educação, no
que se refere ao movimento
de pinça
que habilita a criança
a segurar um
lápis.
A Contabilidade,
apesar de ter sido considerada “difícil”,
conseguiram compreender
que muitos dos
processos
contábeis que se faz
hoje
na APARES, não estão
corretos, precisando serem revistos.
Os cursos
relacionados ao Marketing, à
Vendas, ao Meio
Ambiente, à Gestão
de Negócios, à
Cultura
Brasileira à Globalização,
e ao Português através
das imagens, deixaram os
professores e monitores
surpresos, pela
compreensão
que demonstraram sobre
os assuntos. Tal
fato
tem lógica, uma
vez que
sem saber nomear
conceitos e teorias
administrativas, eles têm a
prática, no seu
cotidiano. Demonstraram estar
sintonizados com o
processo histórico,
econômico e cultural que
colocaram a grande
maioria
da população
brasileira
às margens do
sistema.
A questão
considerada mais
grave
foram as relativas ao comportamento
organizacional – questões
referentes
à liderança, ao
trabalho em
equipe, e, principalmente à
ética. Verificou-se que
uma percepção
bastante paternalista
da associação, em
que
alguns grupos tentam
se beneficiar, inclusive
alterando o peso
dos produtos na
balança,
para mais, quando
se trata dos
membros que
são considerados “de dentro”
do grupo. Existe
também
desconfianças quanto às
lideranças
do grupo, que
apoiam tal
situação e nada faz
para
modifica-la, até
mesmo
porque elas se
beneficiam desse esquema. As
equipes
trabalham sem
metas, sem
objetivos, sem
qualquer
tipo de cobrança. O
ambiente
organizacional é mantido sob
uma certa
tensão, que
apesar
de haver um
discurso
de igualdade, ele
não
acontece na prática. A
comunicação
é feita através
da “rádio
peão”, ou seja,
um
permanente clima de
fofoca
predomina no ambiente de
trabalho.
Mais
recentemente, foi necessário
que
a AMAC colocasse um
funcionário
da Prefeitura para
fiscalizar
o processo de pesagem
dos produtos,
fato decorrente dos enormes
desvios que estavam
ocorrendo.
Tais
atitudes são
compreensíveis, face à
miséria
em que vivem,
mas
é também um
forte
impedimento para que
a Associação mantenha
seu
caráter cooperativista e para
que
ela possa crescer e se
tornar
auto-sustentável.
O curso
de Planejamento
Estratégico
foi recebido com
grande
entusiasmo, pois os
associados
vislumbraram a possibilidade, de a partir
da própria
Associação, se movimentarem em
busca de sua
ampliação
e desenvolvimento, uma
vez
que até
então
sempre aguardaram a iniciativa
da AMAC e da Prefeitura
Municipal para
mantê-los.
Considerações
Finais
Vimos que a
globalização
e o acelerado avanço
tecnológico, trouxeram consigo
uma série
de transformações, quanto à
natureza
do trabalho, exigindo
adaptação
do mundo – tanto
nos
países ricos
como
nos países
pobres. No entanto,
este último
foi mais
gravemente
atingido por essa
nova
fase do capitalismo,
que
sofre com a falta
de emprego
e proteção do
Estado, vendo crescer
vertiginosamente o trabalho
informal, o que
significa falta de seguridade e
proteção
social e queda na
renda.
Mediante
esse
quadro, o cooperativismo
surge como prática
de resistência, seja à
exclusão do mercado
de trabalho, seja à exclusão
cultural e social. No
entanto,
como foi visto, as
dificuldades
de manutenção da APARES
são
muitas. Elas se reúnem num
conjunto
de entraves que
se referem à falta de
consciência
da população que
ainda
não se habituou a separar o
lixo
orgânico do lixo
seco, reduzindo a coleta
seletiva; à falta
de um espaço
físico maior
que
permitiria a inclusão de
novos associados;
à concorrência
desleal
dos depósitos de papel
da cidade
e a concorrência de
outros
catadores de papel da cidade;
à falta
de vontade
política
do governo municipal
em
investir naquelas entidades,
tornando-as parceiras do órgão
de limpeza
urbana da cidade,
dentre
outros.
Por
outro,
como transparece na fala
dos catadores, a realidade é
apropriada
com novos
significados, a partir de
sua integração
à associação. O
discurso
de conscientização política, de
cidadania, o discurso
ecológico, veiculados através
daquelas instituições,
assim como os
cursos
de capacitação oferecidos aos
associados, e, ainda,
as redes de
solidariedade tecidas entre
os mesmos, acabam
por
construir um novo
cenário em
que
os catadores de papel retomam
seu
lugar no mundo da
produção
capitalista. Mais
que
isso, apesar de
sofrerem restrições da
sociedade, os catadores interagindo
com os valores
sociais do meio
em
que circulam, se colocam como
atores
de uma linguagem
que
se direciona à defesa dos
seus
direitos; ao encorajamento que
propicia o desafio às regras
estabelecidas; à ampliação de
uma visão
individualista para uma
visão
coletivista do trabalho; à explicitação das
relações
de poder econômico
e social; às
práticas de solidariedade
e apoio emocional.
Tais
ações, apesar de
não
terem intenção de
substituir o Estado,
se configuram como
iniciativas
que, articulando parcerias
com a sociedade
civil
tira da anomia e da fome,
pessoas antes
destinadas a desaparecerem dos espaços
oficiais
do sistema, restituindo-lhes
dignidade
e identidade
humana.
Vimos também,
que no sistema
associativista, como o da
APARES, é possível
inserir pequenas
economias
no sistema
produtivo,
desde que
elas
estejam conscientizadas de que
a sustentabilidade da Associação
depende de que
seus associados
desenvolvam uma visão de
que
são gestores de um
negócio, e que
esse negócio,
gerador do produto
que
vendem para o mercado,
precisa
estar sintonizado com as
políticas
desse mercado.
No entanto,
os associados da APARES,
para que
possam vir a desenvolver a
visão
acima colocada, precisam de um
grande investimento
que
consiste na realização de
parcerias
que envolvam o poder
público,
empresas privadas,
comunidade
e Ong’s.
Tal
necessidade advém de uma série
de dificultadores que têm
como
gênese: o processo
histórico
da economia e da
cultura
brasileira fundada no escravismo;
o descaso do
Estado pelos
desfiliados do sistema; o
analfabetismo; o lixo
como cultura do
descartável; a falta
de consciência
coletiva e o crescente
individualismo, marcas
da cultura de
massa e da sociedade de
consumo, presentes
hoje na sociedade.
A resposta
dos associados da APARES aos
cursos
ministrados, foram surpreendentes
para
os monitores,
face à facilidade
que a maioria deles
apresentou na compreensão dos
conhecimentos
que estavam sendo transferidos.
Apesar
de possuírem baixíssima escolaridade,
eles
possuem uma grande
experiência
no mundo do trabalho.
E foi essa experiência,
que serviu de instrumento
para que os
fundamentos
e conteúdos pudessem
ser mais
facilmente absorvidos.
Acreditamos que
a maior conquista
dos treinamentos realizados se refere à visão
e à conscientização que os
membros
da APARES passaram a ter.
Perceber a Associação
como um
negócio,
que deve ser bem
administrado, tanto
em
termos de recursos
materiais
como de recursos
humanos.
Consciência de que a
falta
dessa visão compromete a
ética
da Associação colocando
em
risco sua
sobrevivência
no mercado e o
respeito
da comunidade.
Um
fruto concreto dos
treinamentos foi a realização
de um
churrasco que os
associados
organizaram para levantar
recursos
para a APARES. O valor arrecadado
foi destinado à concertos nas
instalações
do depósito, onde
funciona a associação.
O projeto
continua no ano de 2006 e tem
como
ação a realização do
Planejamento
Estratégico para
desenvolvimento
e crescimento da APARES.
Ele
já foi iniciado e
conta
agora com a
parceria
da Faculdade Estácio de Sá, do SEBRAE, da
AMAC, da APARES e de outras empresas
da cidade.
Os depoimentos
dos participantes dos mini-cursos foram
altamente positivos.
Para a maioria, a
importância
maior foi a nova
visão
que conseguiram ter
sobre
a Associação: uma
micro empresa que
tem que ser
administrada com
eficiência, ser
auto-sustentável,
que precisa
aumentar
a produtividade através da
diversificação
de novos produtos,
que
precisa se manter no
mercado
buscando novas
parcerias. Acrescentaram, no
entanto, que
as horas de curso
foram muito poucas,
que
precisavam de mais.
Mas
foram dois depoimentos
que
mais nos afetou. O de
uma mulher catadora de
papel há oito
anos, S.(52 anos):
Eu
nunca
pensei
que
um
dia
em
minha
vida
eu
fosse
entrar
numa
Faculdade,
e
sentar
numa
cadeira
assim,
numa
sala
assim,
poder
ir
a
um
banheiro
igual
ao daqui,
conversar
com
professores
que
dão
aula.
E o depoimento
de J. (58 anos):
Sempre
ouvia o
pessoal
falando da
tal
informática
e
quando
eu
cheguei
aqui
e fui
mexer
no
computador
eu
pensei: é
ele
ou
eu.
Nunca
vi
coisa
mais
difícil
no
mundo.
Mas
não
dá
vontade
agora
de
largar.
Eu
queria
continuar
aprendendo.
Bem,
cidadania
tem muitos
significados!
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n. ¼.
Psicóloga,
especialista, mestre e
doutoranda
em Psicossociologia
pela
Universidade Federal
Rio
de Janeiro.
Docente
na Faculdade Estácio de Sá –
Juiz
de Fora/MG.
E-mail: sonialages@ig.com.br
Discente, aluna
do 9o . período do
curso de Administração
da Faculdade Estácio de Sá/Juiz
de Fora
|