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Na nossa coluna escrevemos muito sobre a
floresta amazônica, o Pantanal e sobre grandes temas ambientais,
mas quase nenhuma linha sobre o Cerrado. Porém, não estamos sós
nessa negligência. Isto de certa forma reflete o que ocorre na
sociedade em geral, onde o bioma é considerado como de "segunda
categoria". Por isso, a destruição resultante da pecuária e da
agricultura parece sempre incomodar bem mais quando atinge áreas
da Amazônia, do que quando destrói o Cerrado, menos exuberante
que a floresta tropical. Então, aproveitei que na terça-feira
próxima, dia 11 de setembro, comemora-se o dia do Cerrado, para
começar a sanar esta falha.
O Cerrado abrange boa parte do Brasil Central,
além de ocorrer como manchas tanto dentro de áreas da floresta
amazônica quanto nos domínios da Mata Atlântica em São Paulo e
no Paraná. É o segundo bioma brasileiro em extensão e ocupava
originalmente cerca de 25% do território nacional. A sua
paisagem caracteriza-se por uma gama bem ampla de feições, que
variam desde campos limpos, compostos quase exclusivamente de
gramíneas (um grande "pasto" nativo), até o cerradão, de porte e
estrutura semelhantes a uma floresta. Entre estes extremos há
inúmeros graus intermediários, como o campo sujo, campo cerrado
e cerrado sensu strictu. Este último, que é a sua forma mais
típica, apresenta-se como um campo de gramíneas e plantas
herbáceas, entremeados de arbustos e árvores baixas. Estes
geralmente possuem uma forma bastante característica, com
troncos retorcidos, de casca grossa, e com folhas duras e
espessas.
Junto com a Mata Atlântica, o Cerrado é o
outro bioma brasileiro que integra a lista dos 'Hotspots'
(pontos quentes) de biodiversidade global, de acordo com um
critério que seleciona biomas com pelo menos 1.500 espécies de
plantas endêmicas - que só existem ali e em nenhuma outra parte
- e que já perderam 75% ou mais de sua vegetação original.
O Cerrado quase sempre foi olhado com certo
desprezo. A razão provavelmente está, além do já citado visual
menos exuberante de sua vegetação, no aspecto algo ressequido
que assume nas longas estações secas anualmente enfrentadas pelo
Brasil Central. O seu solo também foi considerado pobre e pouco
apropriado para a agricultura durante a maior parte de nossa
história. A atividade predominante era a pecuária extensiva de
gado. Esta, da forma como era praticada, preservava, bem ou mal,
parte da biodiversidade local.
Mas as coisas foram mudando. Primeiro,
desenvolveram-se variedades de soja adaptadas ao solo e ao clima
do Brasil Central. Depois, o país foi aos poucos entrando na era
do agribusiness. Com tudo isso, o Cerrado sofreu grandes golpes.
O "correntão" (forma de desmatamento bastante destrutiva na qual
uma corrente bem grossa é amarrada a dois fortes tratores que,
ao se deslocarem, arrastam a corrente e tudo o mais que estiver
em seu caminho) correu solto. E, em pouco tempo, as suas
paisagens maravilhosamente heterogêneas cederam espaço a enormes
e monótonas monoculturas de soja. O milho, o arroz e o feijão
vieram logo atrás (e a cana está rondando por aí). Em diversos
locais, a pecuária "modernizou-se", e foram introduzidas
variedades de gramas exóticas (não nativas do país). Dentre
elas, a famigerada Brachiaria africana, que se adaptou muito bem
às condições locais. Se por um lado a gramínea favoreceu muito a
nossa pecuária, por outro passou a reproduzir-se livremente e a
competir com espécies nativas, até mesmo dentro de parques e
áreas protegidas. Nessas áreas, a gramínea africana, além de
sufocar a vegetação nativa, obstrui o deslocamento da fauna
nativa e facilita a propagação de incêndios.
Outra praga ambiental que acomete o cerrado é
a produção de carvão. Quem já andou pelo Brasil Central
certamente viu os fornos de carvoeiros em algum local. Soltando
fumaça, numa paisagem desolada e com pilhas de toras e pedaços
de árvores nativas aguardando sua vez de queimar para a produção
de carvão vegetal, são uma triste metáfora do nosso modelo de
desenvolvimento. Parte considerável deste carvão serve para
abastecer siderúrgicas, principalmente em Minas Gerais. É
lamentável que ainda recorram a esta tecnologia tosca e
primitiva, tão ao gosto do empresariado tupiniquim, e não
possuam políticas de emprego de carvão originado de silvicultura
(ou, melhor ainda, de coquinhos de palmeiras, que contribuiriam
para a própria recuperação do Cerrado).
Para completar o "kit destruição", a
construção de Brasília, nos anos 1960, e de diversas estradas
impulsionou a devastação de grandes parcelas do cerrado. Por
essas e outras que, de acordo com dados da EMBRAPA, o bioma
conta com apenas 5% de sua extensão original com áreas
relativamente intactas e superiores a 2000 hectares (mínimo
necessário para uma proteção razoavelmente eficaz).
Mas, tudo bem, pensará o leitor. O ecossistema
é feio mesmo, não serve pra nada e tem mais é que ser
aproveitado para produzir comida. Nada mais enganoso. Em
primeiro lugar, o potencial turístico do cerrado preservado é
enorme. Primeiro, por sua fauna característica, muito mais
visível nos moldes dos safáris africanos que a fauna amazônica,
que pode ser apreciada por muitas pessoas com apreço pelo
ecoturismo. Segundo, porque dentro do bioma encontramos algumas
paisagens exuberantes, principalmente onde há água, com chapadas
e rios cristalinos de corredeiras e cachoeiras, formações
geológicas exóticas e centenas de flores tão diferentes quanto
belas. Parque Nacional das Emas, Chapada dos Guimarães, Jalapão,
Chapada dos Veadeiros... a lista é imensa e a descrição, mesmo
que resumida, das belezas dessas áreas, tomaria várias páginas.
Não está tudo bem com a destruição do Cerrado,
em segundo lugar, porque toda esta destruição na verdade pouco
traz de concreto ao país. As monoculturas da soja são em boa
parte mecanizadas, empregam pouca gente e uma parcela
considerável é voltada à exportação. E a grande maioria do
processamento, esmagamento (para extração de óleo) e exportação
são feitos por empresas estrangeiras, que remetem lucros ao
exterior. E, de mais a mais, a quantidade de emprego e renda
produzidos pela exportação de gêneros alimentícios in natura ou
pouco processados é muito menor quando comparada a outros
setores. Acho que não compensa toda a destruição que causa.
Serve só para os sucessivos governos anunciarem garbosamente nos
jornais televisivos noturnos "novos recordes na safra de grãos".
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