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Vou tentar aqui fugir da
tentação de criticar ou analisar
problemas ambientais (há tantos que é
difícil tentar sair do foco pessimista)
e esboçar uma sugestão. O tema é
fiscalização da Amazônia, uma das ações
necessárias para conter o desmatamento
na região (outras, por exemplo, são uma
maior presença do Estado como provedor
de serviços e o estímulo a atividades
produtivas pouco impactantes). Antes de
mais nada, é bom que se esclareça que
não sou ingênuo e sei que o problema da
fiscalização falha na Amazônia é antes
de tudo político e não técnico ou
operacional. O IBAMA muitas vezes sabe
de crimes ambientais em andamento e não
tem poder bastante para coibi-los como
deveria. É claro que em muitos casos,
pelo número de funcionários reduzido, o
IBAMA simplesmente não fica mesmo
sabendo das irregularidades. Mas supondo
que houvesse vontade política, a
fiscalização seria relativamente simples
e barata, como espero demonstrar a
seguir.
A proposta é a criação
de centros logísticos de fiscalização.
Cada centro seria responsável por uma
área média de 300 km de raio e, dessa
forma, fiscalizaria aproximadamente
280.000 km². Como a Amazônia possui
cerca de 4 milhões de km², com cerca de
14 unidades cobriríamos toda a região.
Esses centros logísticos poderiam
localizar-se nas grandes ou médias
cidades da Amazônia. Sua forma precisa é
uma questão menor, uma vez que a
localização exata (e, portanto, a área
de atuação) dependeria da
disponibilidade de cidades.
A idéia apóia-se nas
facilidades proporcionadas pelos
satélites, na infra-estrutura e no
know-how do INPE (Instituto Nacional de
Pesquisas Espaciais) e da ONG Imazon.
Ambos já possuem programas de
monitoramento de desmatamento via
satélite que seriam a fonte inicial de
dados, além possivelmente dos dados
obtidos pelo Sivam, programa que
continua tão misterioso como quando
começou.
Em termos de
infra-estrutura, cada local deveria
contar com um helicóptero. Como os
helicópteros não precisam de pistas de
pouso, podem descer em qualquer lugar, e
dado que possuem velocidade de cruzeiro
entre 200 e 250 km/h, mesmo as áreas
mais distantes de cada centro poderiam
ser alcançadas em no máximo duas horas.
Paralelamente, e
dependendo da situação de cada local, os
centros deveriam contar ainda com
picapes e voadeiras, para acesso a áreas
mais próximas ou para complementar as
abordagens iniciais feitas pelos
helicópteros.
Imagino o
funcionamento destes centros da seguinte
forma: o órgão central do sistema, que
poderia estar em Manaus, Belém ou
Brasília e que teria amplo acesso às
imagens fornecidas pelos satélites, ao
detectar indícios de desmatamento em
alguma região, acionaria o centro mais
próximo do local, fornecendo as
coordenadas geográficas. Uma equipe
seria então deslocada até o local para
averiguação. Mas as atividades dos
centros não se resumiriam apenas a
atuação na reação a problemas. A
fiscalização poderia ser ativa, com
patrulhamentos aéreos constantes (aqui
sim, o sistema do SIVAM poderia auxiliar
bastante). Deveriam ter ainda um
trabalho de inteligência ativo, de
mapeamento das propriedades, verificação
tributária, acompanhamento da situação
das propriedades que recebem empréstimos
e financiamentos, detecção de tendências
de desmatamento ou queimadas.
Em termos de pessoal,
imagino que cada centro devesse contar
com equipes da Polícia Federal para
apoio e proteção nas operações. Para a
fiscalização ou trabalhos nos centros,
imagino cada um com equipes de diversos
órgãos: IBAMA, para a fiscalização de
irregularidades ambientais; Instituto
Chico Mendes (ICMBio), caso existam
unidades de conservação na área de
abrangência do centro; Ministério do
Trabalho, para a fiscalização do
cumprimento de leis trabalhistas;
Receita Federal, para a análise de
irregularidades no pagamento de impostos
das propriedades; INCRA, para a
verificação de problemas fundiários.
Todos juntos no mesmo local, trabalhando
de forma integrada e coordenada.
Poderia, quem sabe, haver até mesmo uma
Delegacia de Polícia, para atuação
imediata em alguns casos. Os centros
poderiam ainda contar com membros do
Ministério Público destacados para atuar
nas diferentes frentes de trabalho dos
mesmos (ambiental, trabalhista e
fundiária). A presença do Poder
Judiciário, com a finalidade de agilizar
os processos, completaria um quadro
ideal.
Tenho esperanças no
trabalho dos novos profissionais que
estão ingressando agora no serviço
público por conhecer pessoalmente alguns
das novas levas do IBAMA e do ICMBio,
pessoas idealistas, comprometidas com a
causa ambiental e que trabalham dura e
seriamente. Também gosto da idéia de
órgãos integrados, por imaginar que eles
diminuem a burocracia e facilitam o
diálogo e a interação.
Como todos os governos
gostam de siglas, ótimas para efeito de
marketing, proponho até um nome para os
centros: CIFAs, Centros Integrados de
Fiscalização da Amazônia. A fiscalização
eficiente certamente não resolverá
sozinha o complexo problema de
desmatamento na Amazônia, mas é um passo
fundamental. Pelo menos este esquema
mostra que o que parecia uma tarefa
impossível pode ser relativamente fácil,
basta querer. Agora como conseguir que
queiram, aí é que está a nossa luta.
Rogério Grassetto
Teixeira da Cunha, biólogo, é doutor em
Comportamento Animal pela Universidade
de Saint Andrews. |