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RESUMO:
Este
artigo pretende discutir o processo de colonização empreendido no Estado
de Rondônia a partir da década de sessenta do século passado e sua
relação com a degradação do meio ambiente, bem como mostrar que as bases
históricas da estrutura agrária continuam sendo fortalecidas no país,
inclusive nas áreas destinadas aos pequenos produtores rurais.
PALAVRAS-CHAVE:
Amazônia; Rondônia; colonização; meio ambiente.
INTRODUÇÃO
A racionalidade empreendida pelo governo brasileiro no planejamento da
colonização na Amazônia demonstrou o quanto as idéias estão distantes da
realidade, ou o quanto elas não traduzem as verdadeiras intenções dos
planejadores.
A análise do processo de colonização empreendido a partir da década de
sessenta do século XX em Rondônia é bastante esclarecedora sobre a
questão da posse da terra no Brasil. Uma política que foi gestada com o
objetivo de distribuir terras para famílias pobres, na realidade,
tornou-se uma facilitadora para o aumento e manutenção da tradição
agrária brasileira: o latifúndio.
As frentes de expansão com a colonização na Amazônia tiveram duas
contribuições importantes para o empresariado agrário na região: fizeram
a derrubada inicial nas áreas de floresta e serviram para o fornecimento
de mão-de-obra. É importante lembrar que este artigo tem o objetivo de
apenas fazer um breve histórico da colonização e a sua relação com a
destruição do meio ambiente, sem, portanto, entrar no aspecto dos ganhos
ou das perdas econômicas e sociais dessa política pública criada pelo
governo brasileiro.
Uma breve história da colonização em Rondônia
A colonização da Amazônia a partir da década de sessenta do século
passado foi uma estratégia do Estado
brasileiro para garantir a ocupação da região, expandir os mercados e
servir como válvula de escape para os problemas no campo que se
avolumavam em outras regiões do país. De acordo com Tavares dos Santos
(1989) ela se deu em função da disponibilidade de terras devolutas, ação
estatal, migração induzida, institucionalização da propriedade privada,
regime disciplinar sobre os colonos e a criação e manutenção de exclusão
social.
Para executar a colonização, o governo teve que implementar políticas
públicas de suporte, como a criação da Superintendência do
Desenvolvimento da Amazônia – SUDAM, reestruturar o Banco da Amazônia,
criar o Instituto de Colonização e Reforma Agrária – INCRA e o Programa
de Redistribuição de Terras e Estímulo à Agricultura do Norte – PROTERRA,
sendo estes últimos, de acordo com as metas do Plano de Integração
Nacional – PIN.
Dois aspectos são importantes no processo de colonização na
Amazônia, e em especial em Rondônia: a categoria do vazio demográfico e
a migração incentivada através da propaganda ufanista (característica do
governo militar) do “Eldorado”.
A categoria do vazio demográfico trouxe graves conseqüências para as
populações indígenas (na época, algumas ainda sem contato com a
sociedade envolvente), seringueiros e pequenos posseiros habitantes na
região. Conforme Amaral (2004, p. 64) “[...] o Estado institui um “vazio
social” em um território ocupado milenarmente por nações indígenas,
secularmente por caboclos originários da época do extrativismo da
borracha e modestamente por posseiros”. Estigmatizando-os de atrasados e
incapazes foram taxados como culpados pelo atraso da região, o que os
colocou à margem do processo.
A primeira tentativa do governo brasileiro em colonizar o hoje Estado de
Rondônia se deu no período de
1945 a
1969 com as colônias agrícolas. Mas é com o Decreto-Lei de 1º de abril
de 1971, do Poder Executivo, determinando uma faixa de
100 km
de cada lado das rodovias federais para colonização, que houve a efetiva
ocupação do Estado, tendo o eixo da BR 364 como ponto de partida.
As nomenclaturas dadas inicialmente pelo INCRA aos projetos de
colonização foram: Projetos Integrados de Colonização – PIC e Projetos
de Assentamentos Dirigido – PAD. No Projeto Integrado de Colonização, o
Governo Federal através do INCRA assume a responsabilidade da
distribuição de lotes, de organização territorial, e de instalação da
infra-estrutura de apoio aos colonos; no Projeto de Assentamento
Dirigido, o beneficiário da distribuição de terra era mais
especializado, com um pouco mais de recursos e experiência com crédito
bancário. Se o primeiro projeto era destinado ao camponês, o segundo
voltava-se especialmente ao profissional liberal. Outra diferença
importante nestes dois tipos de assentamento era o tamanho da área: nos
PICs
100 ha
e PAD lotes de 250, 500 e 1000 ha.
A propaganda do governo na época provocou um processo de procura pela
terra própria tornando a migração tão acentuada que os projetos de
colonização (e distribuição de terras) não atenderam ao grande
contingente de pessoas, especialmente para Rondônia, uma vez que a
iniciativa da colonização na Transamazônica havia fracassado. Esse fluxo
migratório ganhou tamanha proporção que fez o INCRA mudar o sistema de
distribuição de terras para atender a essa demanda. O novo modelo a ser
utilizado foi o Projeto de Assentamento Rápido – PAR, porque:
[...] em decorrência da impossibilidade de atendimento da demanda por
terras na região, de invasões de áreas fora dos projetos de colonização
oficiais, o que forçou o INCRA a criar projetos de assentamento rápido,
objetivando regularizar as ocupações a assistência aos migrantes, que
mesmo nos projetos oficiais foi se tornando precária, nos projetos de
assentamento rápido era inexistente. Tem-se, assim, uma rápida visão das
razões que permitiram a ocupação descontrolada naquela área, com efeitos
perversos sobre o meio ambiente da região, especialmente no que se
refere à devastação florestal e à exaustão do solo (PEREIRA, 1997, p.
80).
Muitos dos Projetos Assentamento Rápido foram criados para regularizar
as áreas que haviam sido invadidas em função do grande fluxo migratório
de pessoas ávidas por seu “pedaço de terra”.
E a questão ambiental como era tratada na época? Não era uma preocupação
das esferas governamentais. O importante era assentar os colonos que se
deslocaram até Rondônia; o desmatamento e a queimada foram incentivados
pelo órgão de colonização, porque, o INCRA ao assentar o colono,
inicialmente dava um documento chamado de “autorização de ocupação”, de
caráter provisório; o título definitivo era entregue após seus técnicos
vistoriarem o terreno comprovando se o dono morava no local, se havia
derrubado 50% da área de floresta e feito o plantio de culturas
agrícolas. A prática da derrubada da floresta se institucionaliza porque
“... possibilitava reivindicações pela terra...” (FEARNSIDE, 2005, p.
114.), nas invasões das áreas públicas sem controle pelo Governo e nas
de reservas.
A invasão de terras move as populações para as diferentes áreas do
Estado e é o motor dos grandes conflitos pela posse de terra. Vale
acrescentar que ela se dá tanto pelo pequeno posseiro, como pelo grande
fazendeiro, motivadas pela falta de controle dos órgãos governamentais,
pela conivência das autoridades e de políticos com intenções
eleitoreiras.
A valorização das propriedades agrícolas fomentando a venda e a
especulação financeira daquelas distribuídas pelo INCRA intensifica-se
na década de 80 do século passado como conseqüência da queda dos preços
dos produtos agrícolas, pelos diferentes planos econômicos dos governos
brasileiros e pela abertura de áreas de florestas influenciada pela
abertura de novas estradas. A descoberta de áreas de garimpo para lavra
manual – que retirou grande parcela de trabalhadores do campo para se
destinar a essa atividade – contribuiu para um significativo êxodo rural
no Estado.
Os compradores das propriedades distribuídas pelo Governo são os membros
das classes mais abastadas do Estado, que encontram no meio rural um
meio de expandir seus investimentos com uma atividade lucrativa e de
pouco custo com mão-de-obra: a pecuária. A partir de então, o
desmatamento intensifica-se
em Rondônia. Fearnside
(2005) afirma que essa é uma das principais causas do desmatamento em
larga escala da floresta amazônica, aliada a outras como a extração de
madeira e o plantio de culturas mecanizadas como a soja (FEARNSIDE, 2003
e ALENCAR et al., 2004).
Considerações finais
A colonização em Rondônia planejada pelo governo militar brasileiro teve
início com o PIC Ouro Preto no ano de 1971. A partir desse ano o meio
ambiente tem passado por um processo violento de antropização.
Inversamente ao que aconteceu em outras tentativas de ocupação da
Amazônia, onde as massas deslocadas a essa região vinham apenas como
mão-de-obra, desta vez, o migrante vinha como colono para ser dono do
seu empreendimento. Este era o sonho. Nem todos conseguiram realizar.
A solução para o desmatamento da Amazônia é um desafio tão grande quanto
as suas dimensões. O que se configurou com a colonização de Rondônia e
continua acontecendo é que passado um determinado tempo o pequeno colono
não encontra mais condições para manter-se na terra: deve vendê-la e
partir para abrir novas áreas de florestas, favorecendo o surgimento de
grandes fazendas nas áreas de colonização. De acordo com o exposto neste
artigo, duas ações são fundamentais: garantir a permanência das famílias
de pequenos produtores em suas terras e instituir uma política de
regularização fundiária. A primeira medida é necessária porque são os
pequenos produtores quem abre a floresta; a segunda porque a falta de
controle sobre as terras favorece a invasão, o conflito e o surgimento
das grandes propriedades que são reconhecidamente os que mais danos
causam ao ambiente com a implantação de grandes áreas de pastagens.
Bibliografia
ALENCAR, A;
NEPSTAD, N; MCGRATH, D; MOUTINHO, P; PACHECO, P; DIAZ, M. D. C. V. e
FILHO, B. S. Desmatamento na Amazônia: indo além da emergência
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2004, 89p.
AMARAL, Januário. Mata virgem: Terra Prostituta. São Paulo:
Terceira Margem, 2004.
FEARNSIDE, Philip
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______. A
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FERREIRA, Leandro
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PEREIRA, José
Matias. O
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SANTOS, José Vicente Tavares dos. O Processo de Colonização Agrícola no
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