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Resumo
A partir da
revalorização dos
conhecimentos
tradicionais, vêm se
desenvolvendo cada vez
mais trabalhos com o
intuito de compreender a
relação
das comunidades
tradicionais
com o meio natural e
suas características
culturais, visando o uso
sustentado dos recursos
naturais. O conceito de
paisagem tem sido parte
fundamental destes
estudos, pois permite
correlacionar os
elementos
socioculturais com os
fatores físico-naturais,
na
compreensão de sua
suas práticas e
caracterização da
relação com
a natureza.
Palavras-chave:
conhecimentos
tradicionais,
recursos naturais,
relação com a natureza,
características
culturais, práticas
produtivas.
Resumen
Desde la
revaluación
de los conocimientos
tradicionales, se han
desarrollado
más
trabajos con la
intención de
entender la relación de
las comunidades
tradicionales
con el
entorno natural
y las
características
culturales con
miras
a
la
utilización
sostenible
de
los
recursos
naturales.
El
concepto
de
paisaje ha
sido
parte
fundamental
de
estos
estudios, ya que
permite
relacionar
los
elementos
socio-culturales con los
factores
físico-naturales, en la
comprensión
de
sus
prácticas, y la
caracterización de la
relación con la
naturaleza.
Palabras clave:
los conocimientos
tradicionales,
recursos naturales, la
relación con la
naturaleza, las
características
culturales, las
prácticas de producción.
Revalorização e estudo
dos conhecimentos
tradicionais
As comunidades
tradicionais como um
todo passam a ter seus
conhecimentos
revalorizados a partir
de 1980
quando começam a surgir
e se expandir movimentos
socioambientais
preocupados com a
conservação e a melhoria
das condições de vida da
população rural,
motivados pela crescente
consciência sobre a
crise ecológica do
planeta e pela crescente
acumulação de evidências
empíricas, mostrando a
incapacidade dos
sistemas produtivos
modernos para realizar
um uso correto dos
recursos naturais.
Acompanhando esta
tendência, no Brasil
ocorre o surgimento e
fortalecimento de
movimentos como
Movimento dos Povos
Indígenas, dos
Seringueiros, dos
Quilombolas, dentre
outros, com o intuito de
receberem o merecido
reconhecimento do
governo pelo seu
conhecimento e
valorização dos recursos
naturais, que os mantém
até hoje.
Nas últimas três décadas
tem-se acompanhado o
desenvolvimento de
inúmeros projetos e
investigações sobre as
formas de uso e manejo
dos recursos naturais
pelas comunidades
tradicionais, o
aparecimento de
publicações
especializadas (Indigenous
Knowledge and
Development Monitor,
Etnoecológica, Journal
of Ethnobiology, etc.),
a criação de núcleos ou
sociedades de
investigadores e a
realização de numerosos
congressos nacionais e
internacionais focados
em tais temas. Com
relação aos autores que
vem trabalhado com a
referida temática
destacamos os seguintes:
Victor Manuel Toledo,
Narciso Barrera-Bassols,
Antonio Carlos Diegues,
Miguel Altieri, Scot
Hoefle, Chantal
Blanc-Pamard, Paul
Claval dentre outros,
que vem
empregando esforços
na busca da
revalorização destes
saberes destacando sua
importância frente ao
domínio da dimensão
científica sobre os
potenciais dos recursos
naturais e do
desenvolvimento
sustentável.
Os saberes de
comunidades tradicionais
derivam das limitações
impostas pelas condições
naturais, tendo nesse
sentido uma grande
capacidade para se
adaptar às
especificidades dos
ecossistemas. O
desenvolvimento de um
sistema de conhecimentos
tradicionais é coerente,
portanto, com a
manutenção e o uso
sustentado dos
ecossistemas naturais
(DIEGUES et al,
1999, p. 20).
O estudo de tais saberes
pode ser realizado por
meio de um complexo
integrado de conceitos:
o sistema de crenças (kosmos),
o conjunto de
conhecimentos (corpus),
e de práticas
produtivas (praxis),
e que torna possível
compreender as relações
que se estabelecem entre
a percepção,
representação e manejo
da natureza (TOLEDO e
BARRERA-BASSOLS, 2009,
p. 17).
A representação dos
elementos naturais por
uma comunidade
tradicional está ligada
à forma como esta
coletividade se apropria
da natureza, a partir do
momento que passa a
modificá-la por meio de
suas práticas
produtivas. A
ideologização da
realidade é levada ao
âmbito geográfico por
Milton Santos na idéia
de espaço como uma
natureza alterada ou a
segunda natureza.
A relação com a natureza
e as vertentes do
conceito de paisagem
Atualmente a interação
sociedade-natureza
apresenta-se um tanto
quanto conflituosa, pois
o homem por meio de suas
técnicas passa a
explorar a natureza não
somente de forma
sustentável, ou seja,
passa a alterar a
paisagem, não levando em
consideração seus
limites e
potencialidades. A
compreensão científica
da natureza pelo viés
das práticas e saberes
das comunidades
tradicionais passa pelos
conceitos e noções
geográficos como
paisagem, lugar e
território.
A noção de
paisagem ao longo da
história do pensamento
geográfico teve várias
abordagens, morfológica,
funcional, histórica,
espacial e simbólica
(CORRÊA & ROSENDAHL,
1998). A partir da
década de 1970 o
conceito de paisagem na
ciência geográfica ganha
novas dimensões com a
emergência de uma Nova
Geografia Cultural, em
virtude da incorporação
de novos elementos como
percepção,
representação,
imaginário e simbolismo
(CASTRO, 2002).
O conceito de paisagem
na perspectiva
morfológica apresentada
por Carl Sauer citado
por Corrêa e Rosendahl é
vista como,
[...] um
conjunto de formas
naturais e culturais
associadas em uma dada
área, é analisada
morfologicamente,
vendo-se a integração
das formas entre si e o
caráter orgânico ou
quase orgânico delas. O
tempo é uma variável
fundamental. A paisagem
cultural ou geográfica
resulta da ação, ao
longo do tempo, da
cultura sobre a paisagem
natural [...] (SAUER,
1998 apud CORRÊA &
ROSENDAHL, 1998, p.9).
A visão de Sauer de uma
paisagem descrita e
analisada pelo que ela é
associando-se as
modificações por ela
sofridas devido à ação
do homem traz uma idéia
de paisagem que possui
em sua matriz fortes
elementos culturais
(elementos materiais e
imateriais),
comparativamente à
concepção científica da
época que dicotomizava a
natureza da ação humana.
Este método novo de
análise da paisagem
(baseado na
morfologia-fisiografia
dos elementos
paisagísticos), de
acordo com Sauer, tem
bases epistemológicas
ligada à geografia
agrária, que respondia
aos estudos das
comunidades rurais da
sociedade francesa,
ainda fortemente ligada
à estrutura agrária dos
pequenos agricultores.
Por tanto, a análise da
paisagem rural nesta
perspectiva é
importante, pois
embasa-nos no sentido de
proporcionar o
desenvolvimento de
estratégias que
contemplem tanto saberes
vernaculares, como os
recursos naturais e a
influência do homem na
sua modelagem, além de
ajudar a entender como a
criação de geossímbolos
refletem a apropriação
de certos elementos da
natureza.
Para Milton Santos em
sua obra a Natureza do
Espaço a paisagem é
entendida como “um
conjunto de formas que,
num dado momento,
exprime as heranças que
representam as
sucessivas relações
localizadas entre homem
e natureza. O espaço são
as formas mais a vida
que as anima" (SANTOS,
2006, p.103).
Contudo o conceito de
paisagem também é
utilizado nos trabalhos
de caráter físico da
ciência geográfica. Nas
palavras de Ab’Sáber “a
paisagem é sempre uma
herança em todo o
sentido da palavra:
herança de processos
fisiográficos e
biológicos, e patrimônio
coletivo dos povos que
historicamente as
herdaram como território
de atuação de suas
comunidades, que neste
caso se inserem as
comunidades tradicionais
(AB’ SÁBER, 2003).
Neste sentido é
importante salientar que
as comunidades
tradicionais
historicamente
através da percepção da
paisagem e da
implantação de suas
práticas agrícolas vêm
adaptando seus cultivos
às condições
ecológicas, locais, e
desenvolvendo
conhecimentos
particulares acerca dos
elementos paisagísticos,
pois
a transformação da área
modificada pelo homem e
sua apropriação para uso
próprio são de
importância fundamental
para planejar a forma de
uso dos recursos
naturais contidos na
paisagem. Para Bertrand,
A
paisagem não é a simples
adição de elementos
geográficos
disparatados. É, em uma
determinada porção do
espaço, o resultado da
combinação dinâmica,
portanto instável, de
elementos físicos,
biológicos e antrópicos
que, reagindo
dialeticamente uns sobre
os outros, fazem da
paisagem um conjunto
único e indissociável,
em perpétua evolução
(BERTRAND, 1972a, p.
141).
Ainda para o mesmo
autor, a tríade
Geossistema, Território
e Percepção formam o
método que
possibilitaria o
entendimento de como as
coletividades se
relacionam com as
paisagens. Portanto,
subsume abordagem
complexa, integrando as
vertentes sociais e
naturais para a
compreensão do fenômeno
(BERTRAND e BERTRAND,
2002b).
A partir da análise da
paisagem é possível
estabelecer perspectivas
quanto às formas de uso
e apropriação de certos
recursos naturais, a
melhor forma de se
realizar estes usos, e
prever os possíveis
problemas ambientais que
serão gerados por tal
exploração.
Atualmente presenciamos
inúmeros casos de
exaustão de determinados
recursos naturais isso a
priori deve-se
a uma apropriação
desregrada da natureza
com caráter predatório e
degradador, num processo
constante de alteração
das paisagens. Neste
sentido é mister
destacar a paisagem como
elemento transformado e
transformador-condicionador
(marca e matriz ) (Berque,
2004), que compõe
aspectos culturais
relevantes
da sociedade, exprime
características próprias
de determinada cultura
(comunidade) seus
valores, e perspectivas
futuras.
O significado da
paisagem para
comunidades tradicionais
pode ser compreendido
pelas atividades
exercidas sobre esta e
que foram ou estão sendo
desenvolvidas e que são
materializadas nas
formas criadas
socialmente e que
produzem geossímbolos
diversos sobre o espaço
que vão representar as
práticas sociais
(materiais e imateriais)
de uma determinada
comunidade.
Para Romero e Jiménez a
paisagem,
[...]
adverte os tipos e
intensidades do
aproveitamento do solo,
das conseqüências das
atividades humanas sobre
o sistema natural e a
intensidade dos impactos
ambientais, ao mesmo
tempo que desperta a
necessidade de proteção
frente a certas
alterações provocadas
pelo homem [...]
(ROMERO; JIMÉNEZ, 2002,
p. 23 p.).
Tomando por base os
autores acima citados,
entende-se que quaisquer
que sejam as formas de
intervenções antrópicas
na paisagem elas causam
alterações (lembramos da
segunda natureza
enfatizada por Milton
Santos) segundo as
necessidades das
coletividades, podendo,
na maioria das vezes,
resultar em alterações
negativas sobre os
processos ecosistêmicos.
O sistema societário das
comunidades tradicionais
é estabelecido por uma
interface entre os
elementos
geobiocenóticos e
socioculturais,
incluindo aí o sistema
econômico. Neste sentido
completando o raciocínio
Bolós afirma que,
[...] a
diversidade das
paisagens rurais é fruto
da forma de ocupação e
exploração do território
e em definitivo, do
tratamento concedido aos
recursos naturais. E que
a diversidade espacial
da paisagem rural se
baseia igualmente nas
diferentes formas de uso
e exploração própria de
cada cultura e nas
características naturais
climáticas e físicas das
paisagens [...]
(BOLÓS, 1992, p. 14).
Considerações
Com a revalorização dos
conhecimentos
tradicionais, passa a
haver uma maior procura
para se estudar tais
comunidades, e entender
como se dá sua relação
com a natureza, surgindo
importantes pensadores
que apontam as
diretrizes para a
realização de tais
estudos (citados no
início do texto). O uso
sustentado dos recursos
naturais é um
pressuposto que advêm da
gênese destas
comunidades, pois a
compreensão das
limitações físicas, e a
superação destas,
pressupõem uma enorme
capacidade de adaptação
as adversidades, dos
diferentes períodos
históricos.
Para o estudo de
comunidades tradicionais
deve-se buscar aliar as
relações socioculturais
aos elementos
físico-naturais,
tentando entender como
as alterações antrópicas
transformam e alteram o
meio e como este, por
sua vez, proporciona o
desenvolvimento de
certas práticas que
futuramente irão
caracterizar
culturalmente uma
determinada comunidade.
Assim o conceito de
paisagem, torna-se peça
fundamental ao aporte
teórico-metodológico
capaz de proporcionar um
estudo completo acerca
de tal temática.
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Disponível em:
http://ojs.c3sl.ufpr.br/ojs2/index.php/made/article/
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Acesso em: 3/7/2010
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