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Um dos dois pilares da crise
ambiental atual é o consumismo desenfreado. O outro
é a quantidade de gente por aqui (não estou com isto
querendo justificar ou sugerir medidas extremistas,
apenas constato um fato: o excesso de gente somado
ao consumismo são as causas principais da crise
ambiental que presenciamos). Atualmente, criam-se
falsas necessidades, tudo para estimular o consumo,
este deus supremo da sociedade atual. Repare o
leitor, por exemplo, que já há muito tempo criou-se
a obrigação de beber sucos com canudinho. Por que
isto? Se pensarmos bem, não há razão, é só uma falsa
necessidade criada, que já virou hábito cultural. Se
em nossa casa tomamos direto no copo, por que
precisamos então do bendito canudinho em público? Se
for por questão de higiene, ele não resolve nada,
pois, se o estabelecimento não produz os sucos de
maneira higiênica ou se não lava direito os copos,
não é o canudo que irá resolver o problema. Para
piorar, em alguns locais os canudos vêm agora
embalados um a um. É um absurdo completo. Já ouvi
falar também de guardanapos de papel individualmente
acondicionados, mas felizmente ainda não tive o
desprazer de ser apresentado a eles. Infelizmente,
porém, já me deparei com pequenos pedaços de fio
dental para uso único, embalados em envelopinhos
tipo "band-aid". Cúmulo dos cúmulos.
Uma idéia simples e efetiva (portanto boa) no
sentido de resolver este problema (e chamar a
atenção para o consumismo sem causa) é a campanha,
proposta pelo prefeito londrino Ken Livingstone em
fevereiro, para que a população consuma água "torneiral"
em vez de água mineral. Na verdade, a idéia não é
nova e diversos prefeitos já lançaram campanhas
similares (entre eles os de Nova Iorque, Veneza e
Chicago). A idéia seria boa para o bolso e para o
meio ambiente.
Mas o que a pobre e inocente água mineral fez de
errado? Pensem comigo. O problema começa na
extração. Em alguns locais do Brasil, por exemplo,
há denúncias de sobre-exploração das reservas, o que
pode acarretar problemas futuros. O processo de
extração consome ainda alguma energia e demanda
recursos, instalação de fábricas etc.
No entanto, o pior está na embalagem e no
transporte. Para engarrafarmos a água, consumimos
uma quantidade enorme de plástico (ou vidro em
alguns poucos casos), substâncias que não se
degradam rapidamente na natureza. Mesmo imaginando
um percentual alto de reciclagem, haverá sempre uma
quantidade considerável de produção de PET virgem.
E, de qualquer jeito, tanto a produção quanto a
reciclagem são processos industriais, que consomem
energia e recursos naturais. No caso da produção
pura e simples, pior ainda. Considerando que dados
oficiais apontam que apenas cerca de 1% do lixo da
cidade de São Paulo é reciclado, podemos concluir
que, pelo menos no Brasil, a maior parte das
garrafas escapa à reciclagem e/ou descarte adequado
e irão enfeitar rios e lagos boiando alegremente ou
entupir lixões e aterros sanitários.
Tem mais. Depois de engarrafada, a água precisa ser
transportada. Aqui, novamente consumimos energia,
com os caminhões e, em alguns casos, até navios.
Isto porque em diversas partes do mundo tornou-se
chique consumir água importada. Melhor ainda se vier
de um país tradicional (como a famosa Perrier
francesa) ou de algum local aparentemente exótico
(imagine o impacto marqueteiro de uma água das
rochas das ilhas Seychelles ou "a pureza da água de
degelo das geleiras da Patagônia").
Para termos uma idéia do custo, as matérias
reproduzidas pelos jornais brasileiros sobre a
campanha em Londres citam um estudo segundo o qual
se emite o equivalente a 0,3 gramas de CO2
para a produção de um copo de água "torneiral" de
Londres, enquanto que, se a água fosse mineral das
marcas Volvic ou Evian, o valor seria a bagatela de
185 gramas do gás, 616 vezes mais.
O interessante disto tudo é que consumir água
mineral tornou-se mania, lá e cá. Consome-se a toda
hora e sem necessidade. Em cidades dotadas de um
eficiente tratamento de água (coisa que infelizmente
não ocorre em todo o Brasil), a mania é não só
inútil, como perdulária em termos de recursos
pessoais e, principalmente, do planeta.
Eu, mesmo sem saber destas contas, já havia reduzido
muito meu consumo de água mineral, levando
garrafinhas do tipo "squeeze" para diversos locais,
ou reutilizando garrafinhas PET já usadas. Agora vou
reduzir ainda mais. De preferência a quase zero.
Podemos ver a mania do consumo de água mineral em
pessoas comprando garrafinhas para levar ao
trabalho, para consumir nas academias, para servir
visitas em suas casas. Neste campo, também vemos
ainda outra necessidade criada: os garrafões de 20
litros, sempre com a indefectível pilha de copinhos
descartáveis do lado. E por aí vai.
Gostei da idéia do prefeito não porque ache que ela
vai resolver todos os problemas. O impacto geral
certamente é pequeno (porém, se a ajuda não é muita,
ela certamente colabora em não aumentar ainda mais a
crise). Seu maior valor está em tornar evidentes os
efeitos ambientais deletérios do consumismo sem
causa e, espero, em fazer-nos refletir, um pouco que
seja, sobre as conseqüências de nossos atos e da
estrutura social insana que criamos para viver.
Proponho até que se lance uma nova música de axé
como marketing da campanha:
"Bebeu água? Não!
Tá com sede? Tô!
Olha, olha, olha, olha a água torneiral
Água torneiral
Água torneiral
Água torneiral
Do Candeal
Pro ambiente ficar legal"
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