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Por uma destas viradas da
vida, passei, há cerca de dois anos, a trabalhar em algo
que nunca tinha imaginado fazer: escrever artigos sobre
temas ligados à criação animal e ao processamento de
carnes. Pela natureza do trabalho, comecei a freqüentar
eventos nesta área, como feiras ou encontros
científicos. Neles, tomei contato com um mundo de
máquinas, equipamentos e processos que nem de longe
imaginava que poderiam existir. Mas, além disso, também
passei a perceber o enorme cuidado (de nutrição, saúde e
alguns parâmetros de bem-estar) devotado à criação de
alguns animais, tais como aves e suínos, em cuja
produção e comércio o Brasil possui posição mundial de
destaque. O lado negativo da moeda é que a criação
animal em confinamento gera diversos problemas
ambientais.
Pois bem, vendo todos
aqueles cuidados e refletindo sobre a triste realidade
sócio-econômica de grande parcela da população do nosso
país, veio-me à mente uma idéia totalmente absurda (que
não se pense em colocá-la em prática), mas que tem o
valor de desnudar algumas contradições existentes em
nossa sociedade atual. Aberrante que seja (aliás,
justamente por isso), e pela náusea e choque que
naturalmente provoca, ela pode ajudar a aumentar a
consciência sobre estas mesmas incoerências. A intenção
última é que o absurdo nos ajude a refletir sobre as
nossas próprias atitudes frente a estas contradições e,
quem sabe, modificar o nosso comportamento. A idéia:
criação confinada de gente. Vejamos.
***
A superfície agrícola e a quantidade de
água necessária para a produção de um quilo de carne são
muito maiores que para a produção de um quilo de
qualquer vegetal. Isto porque boa parte da energia
presente na ração vegetal que é dada aos animais é
dissipada pelo seu metabolismo. Basta lembrar que
ingerimos, em média, de 1 a 2 quilos de comida por dia,
mas, mesmo em fase de crescimento, nosso peso não
aumenta neste valor. Por isto que, para produzir um
quilo de carne gastam-se alguns quilos de vegetais e,
portanto, água, que, além disso, é necessária em grandes
quantidades para outros aspectos da criação animal e do
processamento da carne.
Pois bem, alimentando-se
as pessoas com os mesmos ingredientes das rações
estaríamos economizando uma grande quantidade de terras
agricultáveis e de água, ambos recursos escassos, e
resolvendo o problema da fome.
Mas, pensará o leitor, os
animais confinados recebem alimentação baseada
principalmente em soja e milho, altamente calóricos,
além de ser uma dieta sem graça e repetitiva,
principalmente se aplicada por longo tempo. A zootecnia
tem as soluções, no entanto. Como os animais às vezes
também podem recusar-se a comer a quantidade de alimento
necessária à sua engorda, já há no mercado substâncias
que aumentam a palatabilidade da ração (sua
receptividade por quem deve consumi-la). Isto para
estimular os porquinhos e franguinhos a comerem. O mesmo
poderia ser utilizado conosco, adicionando diversos
sabores e aromas à ração, apenas com uma maior
diversidade de sabores para contentar nosso gosto pela
variedade. Vide, por exemplo, os salgadinhos de milho,
tão populares em nossa sociedade.
Quanto ao alto índice
calórico, também não há com o que se preocupar. As
rações são cuidadosamente formuladas para fornecerem as
quantidades exatas que os animais precisam tanto de
energia quanto de proteínas. E mais: os pormenores de
cálculo vão até à composição da dieta em termos da
quantidade exata de cada aminoácido que os animais
precisam, complementando com aminoácidos sintéticos
quando necessário. E elas já contêm naturalmente uma
grande quantidade de fibras! As contas também incluem
minerais necessários. Portanto, em termos nutricionais,
a dieta seria ideal. Assim, resolveríamos diversos
problemas de saúde pública, como (ainda) a desnutrição
de parte da nossa população, a obesidade (que aumenta
rapidamente em todas as camadas) ou deficiências
nutricionais específicas de proteínas ou vitaminas. Além
disso, como a ração é dada em quantidade suficiente e
igual para todos e como os recipientes seriam feitos de
forma a evitar disputas (como ocorre na criação animal),
não haveria brigas, nem mesmo crimes por comida.
Em termos de saúde
física, os ganhos com a criação de gente seriam
diversos. Os animais de criação confinados modernamente
recebem diversas vacinas e são monitorados
constantemente. Além disso, a entrada de insetos,
roedores e pássaros nas granjas é controlada ao máximo,
para evitar a transmissão de doenças. Até o acesso de
pessoas e veículos é restrito e feito com extremos
cuidados nos melhores estabelecimentos, com o intuito de
evitar contaminações externas. A preocupação com a água
de beber dos animais também existe, e recomenda-se
tratá-la adequadamente, o que ajuda a prevenir diversas
doenças. Porém, para muitos brasileiros, água tratada
ainda é um luxo. Bem, com tudo isso, percebe-se que
estes animais recebem maiores cuidados de saúde que boa
parte da população brasileira. Mais um ponto a favor da
criação confinada de gente.
Recentemente, a criação
animal em alguns locais viu-se às voltas com o problema
do banimento do uso de antibióticos promotores de
crescimento. Explico. Tradicionalmente, os criadores
ministravam antibióticos aos animais, pois isto
acelerava seu crescimento (por razões não completamente
esclarecidas). Tal prática foi banida em diversos
países, e começou-se a buscar alternativas. Entre elas,
o emprego de fitoquímicos com ação bactericida, enzimas
digestivas e probióticos. Este último caso nada mais é
do que a administração de bactérias benéficas ao
organismo, como as presentes no Yakult® ou em diversos
produtos da linha dos iogurtes. Olha só que chique!
Poderíamos ainda ter alguns pequenos luxos, ou ter a
nossa digestão facilitada.
Em termos de bem-estar,
continuaríamos marcando gols. Após perceber que
temperaturas muito quentes ou muito frias interferem na
produtividade, os recintos passaram a ter sua
temperatura controlada, seja por meio de aquecedores,
seja por meio de equipamentos que resfriam o ar (enormes
ventiladores, exaustores ou nebulizadores). Assim,
procura-se ao máximo garantir o conforto térmico dos
animais. Para quem vive nas ruas ou em condições
precárias nas favelas e alagados, estas condições não
estariam nada mal - desde que, é claro, podendo sair
para passear de vez em quando.
Em termos de geração e
tratamento de dejetos, os proveitos continuam
acumulando-se. Com o aumento da consciência ambiental
global (pequeno, é verdade) houve um aumento da pressão
(pequeno, é verdade) sobre algumas atividades
poluidoras, dentre elas a criação animal. Porém, com a
invenção dos mecanismos de créditos de carbono, a
situação começou a melhorar. Cresceu o interesse no
tratamento adequado de resíduos, de forma a gerarem
menos gases causadores do efeito estufa. Isto porque a
diferença de emissão entre os métodos antigos e novos
pode ser comercializada na forma dos tais créditos.
Muito bem, o primeiro
ganho com a criação de gente seria que os dejetos seriam
produzidos uma vez só, apenas por nós, ao invés de duas
(pelos animais e depois por nós). Em segundo lugar,
poderia haver tratamento para os dejetos humanos. Não
esquecendo que a quase totalidade do esgoto brasileiro
não é tratado adequadamente e não se têm feito os
esforços necessários para mudar este quadro. Inúmeros
locais não contam nem mesmo com redes de coleta. Por
fim, como os humanos são animais conscientes, seria
fácil termos locais separados para as nossas
necessidades fisiológicas (leia-se banheiros). Isto
facilita a criação, pois, com os animais de corte, isto
não é possível. A criação de gente é sem dúvida a
solução do futuro.
***
Além do absurdo da idéia, à qual
obviamente não me subscrevo, ressalte-se que algumas (ou
todas) as melhorias na criação animal decorrem
basicamente de dois fatores: a busca incessante do lucro
e a pressão de compradores exigentes. Nenhum deles
existiria na hipotética criação de gente, a menos que se
começasse a inventar requintes nazistas cada vez maiores
(fornecimento de gente para diversas funções, controle
da reprodução,etc.).
Rogério Grassetto Teixeira da Cunha, biólogo, é
doutor em Comportamento Animal pela Universidade de
Saint Andrews. E-mail:
rogcunha@hotmail.com
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