.ISSN 1678-8419  

Revista Partes - Ano V - 18/07/2006 23:14:13 

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Dejetos e biodigestores: da porcaria à luz
Por Rogério Grassetto Teixeira da Cunha

A palavra “porco” costuma evocar idéias negativas nas pessoas, sendo sinônimo de sujo e sem higiene. Apesar dos esforços da suinocultura industrial no Brasil (que possui reconhecidos padrões de qualidade) em modificar a imagem do animal, é fato que os suínos geram uma quantidade enorme de dejetos, problema amplificado pela sua produção altamente intensiva. Se não tratados adequadamente, a disposição destes dejetos no ambiente causa a poluição de rios e lagos, o que por sua vez acarreta a diminuição da qualidade da água para consumo humano, disseminação de doenças, mortandade de peixes, com outros efeitos vindo em cascata.

Mas pior do que isso, os dejetos suínos (e de animais em geral, incluindo os dos seres humanos) também têm influência sobre o efeito estufa. A razão para isto é algo complexa. Estes dejetos são normalmente acumulados em grandes quantidades, o que favorece a sua decomposição anaeróbica, ou seja, sem oxigênio. Quando a decomposição de qualquer matéria orgânica (e dejetos não passam de matéria orgânica pura) se dá na presença de oxigênio, o resultado principal é a liberação de gás carbônico para a atmosfera. Isto, por si só, não interfere na conta do efeito estufa, pois este volume de gás carbônico (mais aquele resultante do consumo e digestão da carne) é equivalente ao que foi retirado da atmosfera pelas plantas que produziram a ração dos animais. Mas na ausência de oxigênio, os microorganismos decompositores produzem outras substâncias, dentre elas o gás metano, aparentado quimicamente do gás de cozinha, que possui um efeito de aquecimento da atmosfera vinte vezes maior que o do gás carbônico. Neste caso, a “conta do aquecimento” não fecha.

É aí que entram os biodigestores, estruturas hermeticamente fechadas nas quais se acumula grande quantidade de dejetos (ou de qualquer matéria orgânica). Com isto, estimula-se a digestão anaeróbica da matéria orgânica e, por conseqüência, a produção de metano, gerando um produto final chamado de biogás. Este gás pode ser utilizado de diversas formas após ser purificado, seja em equipamentos adaptados a uma menor pressão em relação aos botijões (fogões, aquecedores, lampiões), seja em geradores de energia elétrica. Assim, apesar de o processo inicialmente estimular a produção do danoso metano, acaba por gerar somente gás carbônico e água, que são os resultados da queima do biogás, como se tivesse havido somente digestão aeróbica.

Mas há mais vantagens. O produtor pode reduzir custos, ao economizar gás e/ou energia elétrica. Assim, além de evitar a poluição dos rios, o uso do biogás pode reduzir a demanda por gás de cozinha ou por energia elétrica. Claro que o efeito isolado sob o ponto de vista energético e de aquecimento global é pequeno, mas, se um percentual grande de propriedades passar a adotar este esquema, ele pode representar algo mais significativo. E, nesta guerra contra o aquecimento e o uso desvairado de recursos naturais, qualquer ajuda é bem-vinda.

Outra vantagem é a utilização da sobra dos dejetos, após a passagem pelo biodigestor. Este resíduo pode ser utilizado como fertilizante para agricultura (normalmente, após uma etapa adicional de tratamento e tomando-se alguns cuidados), possuindo teores consideráveis de nitrogênio e fósforo, mas com uma probabilidade de disseminação de doenças reduzida. O uso de dejetos animais como fertilizante, particularmente os de suínos, já vem ocorrendo há algum tempo como forma útil de eliminação dos mesmos. Porém, o uso agrícola sem tratamento, muito comum ainda, gera problemas semelhantes ao descarte puro e simples nos rios.

Com tantas vantagens, por que o uso de biodigestores não é mais comum ou mesmo estimulado? Bem, quando a idéia aportou por aqui, no final dos anos 70, a prática até foi incentivada e teve uma procura razoável. Mas os projetos precisam ser cuidadosamente planejados de acordo com as características e tamanho das propriedades e é necessária assistência técnica qualificada aos produtores. Como isto não ocorreu, esta primeira leva de biodigestores acabou se esvaindo.

Com a entrada em vigor do Protocolo de Kyoto, houve um interesse renovado pelos biodigestores. Como eles permitem uma redução na emissão de gases do efeito estufa em relação a outros métodos de tratamento de dejetos, a sua implantação pode permitir a comercialização de créditos de carbono, ou seja, dejetos virando dinheiro. O interesse é tanto que, em diversas propriedades no Brasil, a instalação dos biodigestores está sendo financiada (a custo zero) por empresas internacionais interessadas nos créditos. O produtor compromete-se a fornecer os dejetos e as informações necessárias ao cálculo dos créditos e recebe parte do lucro de sua comercialização, recebendo o biodigestor depois de 10 anos em regime de comodato.

Com a implantação em larga escala dos biodigestores e com o devido apoio técnico e cuidados na aplicação de biofertilizante, podemos ter uma solução que favorece a todos: o produtor, pois se livra de um problema sério e ainda ganha com isto (energia barata, fertilizante e agora dinheiro); o meio ambiente local, com uma poluição reduzida; e o ambiente global, com uma redução de emissões de gases. Além disso, não há qualquer razão que nos impeça de também aplicar a idéia na criação de aves (que cresce em ritmo acelerado no Brasil), de bovinos, ou mesmo no tratamento de esgoto doméstico. Neste caso (se for tecnicamente viável), o poder público poderia contar com uma fonte de energia limitada, mas barata.

Publicado originalmente no Correio da Cidadania, jornal dirigido por Plínio de Arruda Sampaio (www.correiocidadania.com.br) edição nº 508. E publicado com a autorização do autor

 

Rogério Grassetto Teixeira da Cunha, biólogo, é doutor em Comportamento Animal pela Universidade de Saint Andrews.
E-mail: rogcunha@hotmail.com

 



 

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