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A palavra “porco” costuma evocar idéias negativas nas
pessoas, sendo sinônimo de sujo e sem higiene. Apesar dos
esforços da suinocultura industrial no Brasil (que possui
reconhecidos padrões de qualidade) em modificar a imagem do
animal, é fato que os suínos geram uma quantidade enorme de
dejetos, problema amplificado pela sua produção altamente
intensiva. Se não tratados adequadamente, a disposição
destes dejetos no ambiente causa a poluição de rios e lagos,
o que por sua vez acarreta a diminuição da qualidade da água
para consumo humano, disseminação de doenças, mortandade de
peixes, com outros efeitos vindo em cascata.
Mas pior do que isso, os dejetos suínos (e de animais em
geral, incluindo os dos seres humanos) também têm influência
sobre o efeito estufa. A razão para isto é algo complexa.
Estes dejetos são normalmente acumulados em grandes
quantidades, o que favorece a sua decomposição anaeróbica,
ou seja, sem oxigênio. Quando a decomposição de qualquer
matéria orgânica (e dejetos não passam de matéria orgânica
pura) se dá na presença de oxigênio, o resultado principal é
a liberação de gás carbônico para a atmosfera. Isto, por si
só, não interfere na conta do efeito estufa, pois este
volume de gás carbônico (mais aquele resultante do consumo e
digestão da carne) é equivalente ao que foi retirado da
atmosfera pelas plantas que produziram a ração dos animais.
Mas na ausência de oxigênio, os microorganismos
decompositores produzem outras substâncias, dentre elas o
gás metano, aparentado quimicamente do gás de cozinha, que
possui um efeito de aquecimento da atmosfera vinte vezes
maior que o do gás carbônico. Neste caso, a “conta do
aquecimento” não fecha.
É aí que entram os biodigestores, estruturas hermeticamente
fechadas nas quais se acumula grande quantidade de dejetos
(ou de qualquer matéria orgânica). Com isto, estimula-se a
digestão anaeróbica da matéria orgânica e, por conseqüência,
a produção de metano, gerando um produto final chamado de
biogás. Este gás pode ser utilizado de diversas formas após
ser purificado, seja em equipamentos adaptados a uma menor
pressão em relação aos botijões (fogões, aquecedores,
lampiões), seja em geradores de energia elétrica. Assim,
apesar de o processo inicialmente estimular a produção do
danoso metano, acaba por gerar somente gás carbônico e água,
que são os resultados da queima do biogás, como se tivesse
havido somente digestão aeróbica.
Mas há mais vantagens. O produtor pode reduzir custos, ao
economizar gás e/ou energia elétrica. Assim, além de evitar
a poluição dos rios, o uso do biogás pode reduzir a demanda
por gás de cozinha ou por energia elétrica. Claro que o
efeito isolado sob o ponto de vista energético e de
aquecimento global é pequeno, mas, se um percentual grande
de propriedades passar a adotar este esquema, ele pode
representar algo mais significativo. E, nesta guerra contra
o aquecimento e o uso desvairado de recursos naturais,
qualquer ajuda é bem-vinda.
Outra vantagem é a utilização da sobra dos dejetos, após a
passagem pelo biodigestor. Este resíduo pode ser utilizado
como fertilizante para agricultura (normalmente, após uma
etapa adicional de tratamento e tomando-se alguns cuidados),
possuindo teores consideráveis de nitrogênio e fósforo, mas
com uma probabilidade de disseminação de doenças reduzida. O
uso de dejetos animais como fertilizante, particularmente os
de suínos, já vem ocorrendo há algum tempo como forma útil
de eliminação dos mesmos. Porém, o uso agrícola sem
tratamento, muito comum ainda, gera problemas semelhantes ao
descarte puro e simples nos rios.
Com tantas vantagens, por que o uso de biodigestores não é
mais comum ou mesmo estimulado? Bem, quando a idéia aportou
por aqui, no final dos anos 70, a prática até foi
incentivada e teve uma procura razoável. Mas os projetos
precisam ser cuidadosamente planejados de acordo com as
características e tamanho das propriedades e é necessária
assistência técnica qualificada aos produtores. Como isto
não ocorreu, esta primeira leva de biodigestores acabou se
esvaindo.
Com a entrada em vigor do Protocolo de Kyoto, houve um
interesse renovado pelos biodigestores. Como eles permitem
uma redução na emissão de gases do efeito estufa em relação
a outros métodos de tratamento de dejetos, a sua implantação
pode permitir a comercialização de créditos de carbono, ou
seja, dejetos virando dinheiro. O interesse é tanto que, em
diversas propriedades no Brasil, a instalação dos
biodigestores está sendo financiada (a custo zero) por
empresas internacionais interessadas nos créditos. O
produtor compromete-se a fornecer os dejetos e as
informações necessárias ao cálculo dos créditos e recebe
parte do lucro de sua comercialização, recebendo o
biodigestor depois de 10 anos em regime de comodato.
Com a implantação em larga escala dos biodigestores e com o
devido apoio técnico e cuidados na aplicação de
biofertilizante, podemos ter uma solução que favorece a
todos: o produtor, pois se livra de um problema sério e
ainda ganha com isto (energia barata, fertilizante e agora
dinheiro); o meio ambiente local, com uma poluição reduzida;
e o ambiente global, com uma redução de emissões de gases.
Além disso, não há qualquer razão que nos impeça de também
aplicar a idéia na criação de aves (que cresce em ritmo
acelerado no Brasil), de bovinos, ou mesmo no tratamento de
esgoto doméstico. Neste caso (se for tecnicamente viável), o
poder público poderia contar com uma fonte de energia
limitada, mas barata.
Publicado originalmente no Correio da Cidadania, jornal
dirigido
por
Plínio de
Arruda
Sampaio (www.correiocidadania.com.br)
edição nº 508. E publicado com a autorização do autor |