Frei Betto
foi muito feliz ao afirmar no artigo "Amazônia
Devastada" que "o governo está mais
preocupado com a repercussão do desmatamento amazônico
no exterior, capaz de prejudicar as exportações de
grãos, álcool e carne, do que com a preservação da
floresta, patrimônio da humanidade".
Lembrei-me dessa passagem do texto ao ler nos jornais,
em meados de fevereiro, que a popularidade de Lula
continua alta e subindo. Segundo pesquisas, seu governo
é bom ou ótimo para 53% dos brasileiros e ruim ou
péssimo para apenas 14%. Já a aprovação pessoal de Lula
cresceu para 67%, a melhor desde dezembro de 2003.
Apesar dos muitos desvarios cometidos pelo governo
nesses mais de cinco anos e da luta hercúlea da grande
imprensa em capitalizar estes erros para abalar Lula e o
PT, tudo se mantém tranqüilo pelos lados do Planalto.
Isso acontece porque a maior parte dos brasileiros
avalia o governo pela quantidade e pela qualidade dos
itens que seu dinheiro consegue comprar durante o ano.
Se sua despensa está mais cheia e com produtos mais
caros do que no ano passado e se cresceu o número de
eletrodomésticos espalhados pela casa, o governo é bom.
E ponto final. E o fato é que nossa economia apresenta
os melhores resultados dos últimos anos, a inflação está
controlada, o desemprego está caindo e o país cresce, em
boa parte devido às tais exportações que tanto preocupam
nosso presidente.
Lula sabe que duzentas crises, sejam elas reais ou
fabricadas pela mídia, não seriam tão prejudiciais aos
seus planos de poder quanto uma queda de dois pontos
percentuais no PIB de 2008. O povão pode até não
entender muito de redução nas taxas de crescimento
econômico nem de saldo da balança comercial negativo,
mas entende bem quando esses problemas chegam na porta
da sua casa, via menos dinheiro no bolso.
A partir daí fica mais fácil entendermos a quase nenhuma
preocupação de Lula com a biodiversidade. Se crises que
geram manchetes de jornais por semanas e sacodem o
Congresso Nacional não conseguem abalar o governo, o que
esperar da aparentemente desimportante devastação da
Amazônia, que a muitos pode parecer mais uma preocupação
de intelectuais que não têm nada melhor para fazer?
Aliás, não vai faltar quem ficará reclamando do "chato
que inventou de monitorar a mata por satélites,
colocando em risco nossos superlativos índices de
exportação de matérias-primas".
Alguma coisa está errada quando a sobrevivência política
dos homens públicos depende da continuidade da tomada de
decisões (ou da ausência delas) que comprovadamente
levarão a civilização ao colapso.
As razões que podem ser dadas ao crescimento da
destruição da última grande área selvagem do mundo são
muitas. Temos desde a dificuldade de fiscalização do
imenso território até a necessidade de levar as benesses
da nossa sociedade para, como defendeu Lula, "os 25
milhões de brasileiros que habitam a Amazônia Legal" (a
maior parte deles nas áreas periféricas da floresta ou
em umas poucas ilhas urbanas já desenvolvidas, é bom
destacar). Mas nenhuma dessas desculpas vai ser boa o
bastante para, daqui a algumas décadas, explicarmos para
os representantes das futuras gerações por que, de posse
de todas as informações, não conseguimos, no começo do
século 21, tomar as atitudes necessárias para mudar o
rumo da nossa caminhada rumo ao caos.
|