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Resumo
Utilizando-se
de técnicas e
ferramentas do
Diagnóstico Rural
Participativo (DRP) para
a compreensão da gestão
e manejo de recursos
naturais no Faxinal
Taquari dos Ribeiros,
município de Rio Azul
(PR), buscou-se a
caracterização das
práticas produtivas
(calendário de cultivos
e itinerário técnico)
com o intuito de inferir
acerca da forma de
manejo a que o recurso
solo é exposto e usado
pelos agricultores de
tal comunidade, bem como
um mapeamento
participativo dos tipos
de terras revelando a
história agrícola deste
povo.
Palavras-chave:
Diagnóstico Rural
Participativo,
estratégias, recursos
naturais, conhecimento
vernacular, agricultores
faxinalenses.
Resumen
Utilizando
de
técnicas y
herramientas
del
Diagnóstico Rural
Participativo (DRP)
para la comprensión de
la gestión y manejo de
recursos naturales en el
Faxinal Taquari dos
Ribeiros,
municipio de
Rio Azul (PR), buscó
la caracterización de
las prácticas
productivas
(calendario
de
cosechas
y
el itinerario
técnico),
con el fin de deducir la
forma de gestión que el
recurso suelo queda
expuesto y utilizado por
los agricultores de esta
comunidad, así como un
mapeo participativo de
los tipos de tierras
agrícolas que muestra la
historia de este pueblo.
Palabras clave:
Diagnóstico Rural
Participativo,
estrategias, los
recursos naturales,
conocimientos
vernáculos,
agricultores
faxinalenses.
Introdução
O Diagnóstico Rural
Participativo (DRP) é um
conjunto de técnicas e
ferramentas que permite
que comunidades rurais
ou não realizem o seu
próprio diagnóstico e
possam autogerenciar o
seu planejamento e
desenvolvimento. De
forma que os membros da
comunidade se reúnam
compartilhem
experiências, analisem
seus conhecimentos, e
possam traçar suas
próprias metas de acordo
com suas necessidades
(VERDEJO, 2006, p. 6).
A pesquisa
desenvolvida a partir do
DRP terá seus dados a
partir não da análise do
pesquisador, mas sim das
informações fornecidas
pelos membros da
comunidade, baseando-se
em seus conceitos e
critérios de explicação.
Em que o pesquisador e
sua equipe devem
interferir o mínimo
possível deixando os
membros da comunidade
realizar sua própria
análise do meio.
O DRP ainda tem
por objetivo fomentar o
desenvolvimento
sustentável, com bases
na agricultura
tradicional, buscando
valorizar os recursos
naturais e o
conhecimento vernacular
adquirido empiricamente.
De acordo com Contreras
et al,
“En la base del DRP está
La revalorización de los
recursos y conocimientos
locales, o “la localidad”
(CONTRERAS et al.,1988,
p. 9).
O Sistema Faxinal
Taquari dos Ribeiros tem
passado atualmente por
um processo de
transformação
socioespacial devido à
inserção de monocultivos
comerciais intensivos
(com ênfase na
fumicultura) e
à ausência de políticas
públicas de
desenvolvimento local.
Devido a esta
dificuldade se tem
trabalhado com os
agricultores
faxinalenses através da
percepção dos mesmos, no
desenvolvimento de
estratégias de melhor
aproveitamento dos
recursos naturais
visando uma maior
conscientização e
otimização com relação
aos recursos que eles
dispõem.
Materiais e métodos
O seguinte
trabalho foi
desenvolvido com
agricultores familiares
(faxinalenses), que tem
como componente central
do sistema de produção a
fumicultura intensiva, e
em menor proporção
a produção de
policultivos
tradicionais.
Shanner citado por
Ribeiro define sistema
de produção como “um
arranjo de atividades
agrícolas e
não-agrícolas,
gerenciados em função do
ambiente socioeconômico
e agroecológico e de
acordo com os objetivos,
preferências e recursos
da família” (SHANNER
1992, apud RIBEIRO et
al., 1999, p. 28).
Metodologicamente
lançou-se mão de algumas
ferramentas do DRP como
entrevistas
semi-estruturadas que
permitem aos
entrevistados se
expressarem livremente,
e em lugar e momento
apropriados ao ato. A
entrevista proporcionou
a
coleta de informações
sobre: o itinerário
técnico, os equipamentos
utilizados, a renda e os
custos de produção por
cultivo, e calendário de
cultivos.
Sendo realizada com
9 agricultores, a
entrevista seguiu os
seguintes critérios de
amostragem para o
universo de pesquisa de
82 famílias: maior
número de
estabelecimentos por
subacia hidrográfica,
posse legal da
terra, atividade
principal, vínculo
matrimonial e relação de
trabalho.
Outra técnica foi o
mapeamento participativo
das terras, realizado
nas terras de plantar
pelos agricultores
faxinalenses, com o uso
dos recursos
iconográficos em
conversa com estes no
seu local de trabalho
(terras de plantar) ou
em suas residências.
Baseando-se no roteiro
de questões abertas e
fechadas de acordo aos
eixos temáticos
abordados pela
entrevista
semi-estruturada.
Resultados e discussão
Através das
entrevistas
com a comunidade foi
possível a elaboração do
calendário de cultivos,
em que eles
compartilharam
informações acerca da
época de plantio e
colheita dos cultivos
principais (fumo, milho,
feijão e forrageiras).
Percebendo-se que as
espécies sucessionais cultivadas
nas glebas ocorrem de
forma a privilegiar a
completude do ciclo do
fumo
em maior área útil
possível, reservando-se
parcelas menores para o
cultivo do milho no
verão e aveia no inverno
(figura 1).
A fumicultura acaba
ocupando maior período
de tempo e o maior
espaço físico dentro do
sistema produtivo local,
fazendo convergir grande
parte dos recursos
(humanos e naturais) no
desenvolvimento desta
atividade.

FIGURA 1 –
Calendário de cultivos
do subsistema
fumo-milho-aveia e
outros cultivos
Fonte:
Equipe PNPD-CAPES (2008)
Org.:
FLORIANI, N. (2010)
Por outro lado a
elaboração de um
itinerário técnico
possibilitou a
compreensão da
relação entre as etapas,
as técnicas, os
instrumentos e recursos
disponibilizados na
produção do componente
central do sistema de
produção: a fumicultura
intensiva.
Apresentando-se as
seguintes etapas:
semeadura; transplante;
preparo da terra;
adubação; controle do
mato; controle
fitossanitário;
colheita; e secagem,
resultando na venda do
produto (quadro 1).
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QUADRO 1.
Descrição do
itinerário técnico
da fumicultura
intensiva
praticada no
faxinal
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O Itinerário
Técnico do
subssistema
fumo-milho-aveia é
marcado
inicialmente pela
atividade de
1.semeadura do
fumo no mês de
Junho. A maioria
dos agricultores
utiliza os
cultivares de fumo
Virginia e NC55,
semeadas em
bandejas de isopor
com capacidade de
200 a 220 mudas.
Em copo da bandeja
são colocados
insumos como
substrato de fibra
de coco, adubos
sintéticos, água e
agrotóxicos. Estas
bandejas ficam
dispostas em
fileiras em uma
estufa, denominada
por eles de
“piscina”,
esperando a planta
emergir e se
desenvolver até o
momento de seu
transplante.
Passados três
meses da
emergência das
plântulas nas
bandejas,
procede-se nos
meses de setembro
e outubro ao 2.
transplante
das mudas nas
‘terras de
plantar’. Anterior
ao transplante é
realizado nos
meses de agosto e
setembro o 3.
preparo da terra,
utilizando para
tanto vários
instrumentos, tais
como o arado de
aiveca, a
carpideira, o
soterrador, a
grade-de-disco,
que com exceção
deste último, são
tracionados por
força animal (por
cavalos e mulas).
A gradagem é por
vezes realizada
contratando-se
serviços
motomecânicos de
tratorização,
junto aos vizinhos
da comunidade.
Enquanto a terra é
revolvida,
realiza-se a 4.
adubação com
produtos
sintéticos como a
uréia ou
formulados como o
NPK 10-18-20
(convencionalmente
utilizados pelos
agricultores), que
se misturam à
palhada dos
cultivos de
inverno. Quando da
demora do
transplante, é
realizado o 5.
controle do mato
que, quando feito
por meio de
herbicidas, obriga
o agricultor a
realizar o
transplante
somente quinze
dias após a
aplicação do
mesmo. Depois do
plantio da muda
também geralmente
é realizada
adubação de
cobertura aos 30
dias de
desenvolvimento da
plântula. O manejo
das herbáceas
espontâneas é
também feita por
capina, realizada
por meio da enxada
manual ou pela
carpideira
tracionada por
cavalos. 6. O
controle
fitossanitário
é realizado
durante todo o
ciclo vegetativo
da planta,
fazendo-se uso
contínuo de
fungicidas e
inseticidas. Antes
da colheita é
realizado o
desponte como
técnica de
controle de
brotos. O desponte
é feito com a
finalidade de
prolongar o
estágio vegetativo
da planta,
permitindo que as
folhas cresçam
para além do seu
normal
fisiológico, por
não concorrerem
por nutrientes com
os órgãos
reprodutivos.
7. A colheita
inicia-se em torno
de oitenta a
noventa dias após
o plantio. É
realizada por
integrantes da
família, ocorrendo
o pagamento à
diaristas, o
pagamento pelo
serviço com parte
do produto
(parceria) e,
eventualmente, a
troca de dias de
serviço com
vizinhos. Desde o
início até o
término da
colheita levam-se
aproximadamente
três meses,
dependendo do
tamanho da área
cultivada. Envolve
a classificação
das folhas segundo
o valor que
atingirá com seu
tamanho e peso
durante a
comercialização.
Em primeiro lugar
são colhidas as
folhas do
“baixeiro”,
localizadas nas
partes inferiores
do caule, próximas
a superfície do
solo, chegando às
folhas menores do
topo. Os fardos
são colocados em
carroças e levados
às estufas
alimentadas por
lenha e
eletricidade, por
sete dias. Após a
8. secagem,
as folhas são
novamente
separadas de
acordo com sua
qualidade e
agrupadas em
fardos,
permanecendo nas
estufas, até sua
venda. |
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Fonte: Equipe
PNPD-CAPES (2009). |
O
mapeamento das terras de
plantar por parte dos
agricultores teve como
tema central o recurso
natural solo, tido como
o mais importante pelos
agricultores, o qual
proporciona a manutenção
de sua forma de vida, e
de onde provém seu
sustento. A seguinte
frase dita por um
agricultor faxinalense
exprime bem a
importância da “terra”
para eles: “Sem ter a
terra é como estar com
sede ter água e não
poder pegar”.
Os diferentes tipos de
terras diagnosticados
pelos agricultores nas
áreas de plantar (Terra
Banca, Preta, Roxa,
Areia, e Batumadeira)
bem como os usos de cada
uma destas e a forma de
manejo a que são
submetidas, refletem
suas fragilidades e
potencialidades. Na
medida em que podemos
correlacionar essas
terras a duas ordens de
solos: os neossolos e os
cambissolos, sendo solos
jovens estes têm
limitações para uso
agrícola. Neste sentido
a cultura do fumo
torna-se até o momento a
única alternativa viável
para a manutenção da
agricultura familiar, e
desenvolvimento
econômico dos moradores
de Taquari dos Ribeiros,
devido as
características dos
solos, e a baixa
exigência do fumo quanto
aos nutrientes. O
agricultor sabendo das
características e
qualidades do recurso
solo que é a base de sua
existência torna-se
capaz de realizar seu
próprio diagnóstico do
meio, necessitando
apenas de técnicas e
estratégias de trabalho
mais apropriadas ao uso
e manejo de tais
recursos devido, as
especificidades de cada
tipo de solo, e isso
torna-se possível com a
colaboração de
pesquisadores, que ao
invés de propor um
projeto para tais
agricultores devem
construir junto a eles
alternativas de renda
que os mantenham no
campo, e além disso, que
ajudem a manter seu modo
de vida.
As práticas agrícolas,
isto é, as variadas
técnicas utilizadas,
pelos agricultores
buscam adaptar-se e às
condições
sócio-econômicas e
ambientais nas quais
trabalham (GARCIA FILHO,
1995) tentando
relacioná-las aos
recursos de que eles
dispõem para o manejo da
‘terra’.
Desta forma o
entendimento das
práticas produtivas dos
agricultores
faxinalenses torna-se
elemento fundamental
para o desenvolvimento
de técnicas e táticas
que melhor se enquadrem
ao ambiente onde ele
está inserido.
Conclusão
O DRP demonstrou-se
muito importante na
aquisição de dados, e
intercâmbio entre os
pesquisadores e os
agricultores
faxinalenses. Bem como
do entendimento das
práticas agrícolas por
eles desenvolvidas,
possibilitando a
compreensão da forma
particular que eles têm
de se relacionar com o
meio que habitam, e de
identificar suas
potencialidades e
fragilidades.
A análise
conjunta da realidade da
comunidade faxinalense
tem proporcionado além
da interação entre ambos
os atores que compõem o
quadro de sujeitos
(pesquisadores e objetos
de pesquisa), uma
análise mais completa
das condições
socioambientais desta,
bem como um diálogo mais
concreto, que vêm
possibilitado trocas
mais palpáveis visando à
elaboração de
estratégias sustentáveis
de uso e manejo dos
recursos locais.
A concretização deste
objetivo está calcada na
valorização dos recursos
naturais, e conhecimento
vernacular empiricamente
produzido, que até hoje
proporciona um
equilíbrio estável na
relação
agricultor-natureza, e
na interface, ou seja,
na união entre o saber
local culturalmente
arraigado e profundo
conhecedor do lugar e de
suas especificidades, e
o conhecimento
científico
disciplinar-metodológico.
Referências
CONTRERAS, A.; LAFRAYA,
S.; LOBILLO, J.; SOTO,
P.; RODRIGO, C. Los
Métodos del Diagnóstico
Rural Rápido y
Participativo.
Valencia, España, 1998.
Disponível em: <http://www.camafu.org>.
Acesso em: 23 jul. 2010.
GARCIA FILHO, D. P.,
Análise e diagnóstico de
sistemas agrários – Guia
metodológico.
INCRA/FAO,
1999,
65 p.
RIBEIRO, M. F. S;
MIRANDA, M.; MIRANDA, G.
M.; CHAIMSOHN, F. P.;
BENASSI, D. A.; GOMES,
E. P.; MILLEO, R. D. S.
Diagnósticos de Sistemas
de Produção. In: DONI
FILHO, L.; TOMMASINO,
H.; BRANDENBURG, A. (Org).
Seminário Sistemas de
Produção: conceitos,
metodologias e
aplicações.
Curitiba: UFPR, 1999, p.
26-43.
VERDEJO, M. E.
Ministério do
Desenvolvimento Agrário.
Secretaria da
Agricultura Familiar.
Diagnóstico Rural
Participativo.
Brasília, 2006, p. 61.
Informações sobre os
autores
Juliano Strachulski (STACHULSKI,
J.) graduando do 4º ano
do curso de Bacharelado
em Geografia pela
Universidade Estadual de
Ponta Grossa e
participante de projeto
de iniciação científica,
possui o seguinte e-mail
para contato:
julianomundogeo@gmail.com.
Nicolas Floriani (FLORIANI,
N.) Doutor em Meio
Ambiente e
Desenvolvimento (UFPR).
Fez doutorado sanduíche
no Laboratoire
Dynamiques Sociales et
Recomposition des
Espaces (ParisX). É
Professor do programa de
Pós-graduação
em Geografia, da
Universidade Estadual de
Ponta Grossa.
Possui o seguinte
e-mail:
florianico@gmail.com.
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