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ISSN 1678-8419         última atualização em: sexta-feira, 30 de novembro de 2007 19:17:22                                               

 
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SÓCIO AMBIENTAL

 

Dinheiro no Lixo      
Danilo Pretti Di Giorgi  
publicado em 30/11/2007
 
Trabalho em um dos sindicatos mais vanguardistas do Brasil e num teatro de primeira linha, gerido por um colégio que educa filhos do topo da elite financeira e intelectual nacional. Nenhuma das duas instituições (que defendem a reformulação virtuosa da sociedade) possuem esquemas de separação de lixo visando sua reciclagem.
 
Além do problema da falta de educação num sentido mais amplo, as pessoas não parecem dispostas a dedicar-se à reciclagem. Quando você começa a fazê-lo, precisa começar a pensar sempre em onde colocar cada coisa, limpar o que pode ser reaproveitado etc. Freqüentemente também não há coleta na porta de casa, e é preciso se organizar para levar o lixo para um lugar mais distante.
 
Venho me esforçando para fazer isso há muitos anos e posso garantir: não é nada que dê muito trabalho ou que atrapalhe minha vida. Muito pelo contrario. No caso do lixo orgânico, por exemplo, tenho um ótimo adubo para o meu jardim. De forma geral, este trabalho é amplamente recompensado pelo sentimento de que estou fazendo, um pouquinho que seja, para compensar os danos causados pelo meu consumo e da minha família. Procurando neutralizar minhas emissões de carbono, para usar um termo da moda.
 
Mas essa não é a regra. Apesar de um crescimento na preocupação com a questão ambiental, menos de 1% dos cerca de 15 milhões de quilos de lixo produzidos por dia pela cidade de São Paulo vai para reciclagem. Enquanto isso, cinco dos sete aterros sanitários da metrópole estão lotados. Qual o significado disso? A minha visão não é muito otimista: parece que a sociedade não entende a gravidade do problema ambiental. Ou, se entendem, as pessoas não conseguem organizar sua vida com se tivessem entendido.
 
Conversei com os atuais responsáveis pelo lixo da prefeitura atual, do PFL (não consigo engolir o "Democratas") e da anterior, do PT. Um empurra para o outro a falência do modelo de reciclagem, mas ninguém consegue explicar porque ele não dá certo.
 
A idéia da reciclagem começou a ganhar corpo no Brasil no início dos anos 1990. Desde então, as informações sobre as conseqüências do desequilíbrio ecológico, que afinal estavam na origem da iniciativa que ali nascia, ficaram a cada ano mais catastróficas. Falava-se, então, de desmatamento e extinção de espécies, mas aquecimento global e outros terrores do gênero ainda eram assuntos para iniciados.
 
Pois bem, como explicar que, quase 20 anos depois, e com as subseqüentes e sombrias previsões para o futuro do planeta, a maior cidade do País, que concentra os grandes centros da intelectualidade, com as melhores escolas e altos índices de alfabetização comparativamente aos números gerais do Brasil, não consegue reciclar nem 1% do seu lixo?
 
Com algum esforço não seria complicado reaproveitar uma porcentagem bem maior do lixo paulistano. Se houvesse uma consciência dos políticos e da população, um esquema de separação, coleta e destinação dos resíduos poderia resolver o problema sem grandes crises. Além do mais, lixo reciclável é dinheiro e gera trabalho e renda para a parcela mais carente da população. É dinheiro indo, literalmente, para o lixo.
 
Reparem que quando falamos, por exemplo, em parar o desmatamento da Amazônia, esbarramos em obstáculos de difícil transposição, como o imenso território e a dificuldade de fiscalização. Outro exemplo complicado é a urgente redução da emissão de carbono por automóveis, tema que encontra forte resistência tanto do poder econômico, representado pelas indústrias, quanto dos usuários de veículos.
 
No caso da reciclagem em cidades como São Paulo, porém, as dificuldades seriam muito menores. Bastaria boa vontade, tanto de quem deveria separar o lixo como de quem define os esquemas para sua destinação e planeja programas educacionais de conscientização – o estado.
 
Foi atribuída a Nelson Rodrigues a frase "sem paixão não dá nem para chupar um picolé". Talvez esteja aí uma pista a indicar as razões para esta frustrante marca paulistana de menos de 1%.
 

 

 

 
  

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