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Danilo Pretti
Di Giorgi
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| publicado em
30/11/2007 |
Trabalho em um dos sindicatos mais vanguardistas do
Brasil e num teatro de primeira linha, gerido por um
colégio que educa filhos do topo da elite financeira e
intelectual nacional. Nenhuma das duas instituições (que
defendem a reformulação virtuosa da sociedade) possuem
esquemas de separação de lixo visando sua reciclagem.
Além do problema da falta de educação num sentido mais
amplo, as pessoas não parecem dispostas a dedicar-se à
reciclagem. Quando você começa a fazê-lo, precisa
começar a pensar sempre em onde colocar cada coisa,
limpar o que pode ser reaproveitado etc. Freqüentemente
também não há coleta na porta de casa, e é preciso se
organizar para levar o lixo para um lugar mais distante.
Venho me esforçando para fazer isso há muitos anos e
posso garantir: não é nada que dê muito trabalho ou que
atrapalhe minha vida. Muito pelo contrario. No caso do
lixo orgânico, por exemplo, tenho um ótimo adubo para o
meu jardim. De forma geral, este trabalho é amplamente
recompensado pelo sentimento de que estou fazendo, um
pouquinho que seja, para compensar os danos causados
pelo meu consumo e da minha família. Procurando
neutralizar minhas emissões de carbono, para usar um
termo da moda.
Mas essa não é a regra. Apesar de um crescimento na
preocupação com a questão ambiental, menos de 1% dos
cerca de 15 milhões de quilos de lixo produzidos por dia
pela cidade de São Paulo vai para reciclagem. Enquanto
isso, cinco dos sete aterros sanitários da metrópole
estão lotados. Qual o significado disso? A minha visão
não é muito otimista: parece que a sociedade não entende
a gravidade do problema ambiental. Ou, se entendem, as
pessoas não conseguem organizar sua vida com se tivessem
entendido.
Conversei com os atuais responsáveis pelo lixo da
prefeitura atual, do PFL (não consigo engolir o
"Democratas") e da anterior, do PT. Um empurra para o
outro a falência do modelo de reciclagem, mas ninguém
consegue explicar porque ele não dá certo.
A idéia da reciclagem começou a ganhar corpo no Brasil
no início dos anos 1990. Desde então, as informações
sobre as conseqüências do desequilíbrio ecológico, que
afinal estavam na origem da iniciativa que ali nascia,
ficaram a cada ano mais catastróficas. Falava-se, então,
de desmatamento e extinção de espécies, mas aquecimento
global e outros terrores do gênero ainda eram assuntos
para iniciados.
Pois bem, como explicar que, quase 20 anos depois, e com
as subseqüentes e sombrias previsões para o futuro do
planeta, a maior cidade do País, que concentra os
grandes centros da intelectualidade, com as melhores
escolas e altos índices de alfabetização
comparativamente aos números gerais do Brasil, não
consegue reciclar nem 1% do seu lixo?
Com algum esforço não seria complicado reaproveitar uma
porcentagem bem maior do lixo paulistano. Se houvesse
uma consciência dos políticos e da população, um esquema
de separação, coleta e destinação dos resíduos poderia
resolver o problema sem grandes crises. Além do mais,
lixo reciclável é dinheiro e gera trabalho e renda para
a parcela mais carente da população. É dinheiro indo,
literalmente, para o lixo.
Reparem que quando falamos, por exemplo, em parar o
desmatamento da Amazônia, esbarramos em obstáculos de
difícil transposição, como o imenso território e a
dificuldade de fiscalização. Outro exemplo complicado é
a urgente redução da emissão de carbono por automóveis,
tema que encontra forte resistência tanto do poder
econômico, representado pelas indústrias, quanto dos
usuários de veículos.
No caso da reciclagem em cidades como São Paulo, porém,
as dificuldades seriam muito menores. Bastaria boa
vontade, tanto de quem deveria separar o lixo como de
quem define os esquemas para sua destinação e planeja
programas educacionais de conscientização – o estado.
Foi atribuída a Nelson Rodrigues a frase "sem paixão não
dá nem para chupar um picolé". Talvez esteja aí uma
pista a indicar as razões para esta frustrante marca
paulistana de menos de 1%.
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