|
Introdução
Desde
tempos
antigos
há referências
à natureza
da Amazônia, que
mais
que
uma
biodiversidade
tem uma sóciodiversidade
que
é a construtora de
um
saber
ambiental que
não
destrói o meio
ambiente.
Sua
lógica
é da economia
para
a satisfação
de suas
necessidades
materiais
culturais (valor
de uso),
onde
as relações
com
o dinheiro
(valor
de troca)
é um
complemento
de sua
vida
e não
é uma motivação para
enriquecer.
Assim
seu
modo
de vida
é de uma
economia
moral
e não
está embasada no
dinheiro
ou
lucro.
A pluricultura,
principalmente
ao redor
da casa,
é composta
por
plantas
utilizadas para
as necessidades
de cada
membro
da família
(enfermidades
específicas: dor
de cabeça,
de barriga,
febre,
resguardo,
entre
outras), para
alimentos
específicos,
o mesmo
para
o tratamento
dos animais.
Essa produção
familiar
não
usa
a força
de trabalho
familiar
somente
para
fins
de mercado.
Isso
já
é um
caminho
da natureza
e suas
particularidades
e aplicabilidades e engendra
um
etnoconhecimento adequado,
portanto, fazem parte
da vida
dos grupos
étnicos.
O conhecimento
tradicional destes
povos
em
suas
próprias lógicas
não
é mercadoria,
portanto
o ato
de patentear
e monopolizar
o conhecimento
(propriedade
intelectual)
é estranho
e até
ofensivo
a sua
lógica
de economia
moral.
Nesta lógica,
evitam comercializar
com
pessoas
de sua
própria
família
porque
sabem que
no ato
de compra
e venda
alguém
sai perdendo.
Etnoconhecimento
Uma das
importâncias
do etnoconhecimento é verificada
quando
observamos as
plantas
frutíferas que
compõem a diversificada
dieta
alimentar
não
só
de povos
indígenas
amazônicos
como
extra-amazônicos.
Portanto,
é de um
aumento
e diversificação,
domesticação
de plantas,
isto
ocorre desde
o neolítico,
aproximadamente 10
mil
anos.
Exemplos
como
o abacaxi,
mamão,
mandioca,
e urucu,
conforme
Balée (1993).
Esse
conhecimento
específico
é parte
fundamental
de uma forma
de conhecer
e de trabalhar
com
a natureza,
de modos
de vida
ligados ao entorno
como
união
necessária
e não
como
a área
agrícola
do capitalismo.
Esses
são
espaços
de fora
da vivência
da maior
parte
da sociedade.
A diversificação
é para
melhorar
as condições
dos habitantes
e seus
usos
diversos,
desde
folhas,
raiz
e como
chamativa
para
animais
(pacas,
tatus,
cotias, macacos,
entre
outros),
não
só
para
fins
de alimentação
como
de retirar
pena,
plumas
das aves
para
rituais
e outros
eventos
sociais
e culturais.
O etnoconhecimento é
fundamental
para
caça,
pesca,
coleta,
roça
e de plantas
medicinais.
Isso
é aprendido e
apreendido
desde
criança,
seja nos
ambientes
fluviais
de vertentes,
estações
secas
ou
de chuvas,
onde
a observação
tem um
papel
muito
importante.
Mas,
esse
conhecimento
é permeado e plasmado
em
contato
com
a cultura,
pois
se fosse só
observação
sem
a cultura
todos
os povos
indígenas
teriam os mesmos
conhecimentos
a respeitos
de ambientes
ecológicos
similares,
o que
não
acontece,
portanto o
etnoconhecimento é uma
criação
cultural, e não
somente
observação
da natureza.
As formas
capitalistas
não
usam e em
muitos
casos
desprezam o etnoconhecimento, o
resultado
são
os sérios
danos
causados não
só
na área
amazônica
brasileira
como
no planeta,
como
os efeitos
danosos das
emissões de
carbono
oriundo
das queimadas.
O
que existe é
uma cartografia
social
indígena
de seu
ambiente
que
não
é somente
relacionada ao
inventário de
sua
biogeografia,
também é de
sua
geomorfologia,
pedologia,
hidrografia,
climatologia, é essa
ciência
indígena,
saber
tradicional da
natureza,
com
a cultura
que
faz com
que
os índios
sejam
conhecedores de
suas
terras
e capazes
de sobreviverem e reproduzirem-se nela.
Por
isso
para
seu
cotidiano,
índios
e camponeses têm
que
conhecê-la, não
só
dando nomes
e utilidade
e também
um
sentido
social.
Com
a biodiversidade
de plantas
e animais,
eles
utilizam, por
seleção,
apenas
alguns
exemplares
e o fazem das
mais diversas
maneiras,
por
exemplo:
não
são
todos
os peixes
que
servem para
a alimentação,
uns servem para
ser
iscas
para
outros
peixes;
que
tipo
de madeira
utilizar
para
as casas,
que
tipo
de palha
serve para
o telhado,
que
tipo
de envira (casca
ou
corda
usada para
amarrar)
pode ser
usada depois
de uma caçada,
que
tipo
de resina
e medicinal
e qual
tipo
é veneno,
isso
entre
tantos
outros
exemplos.
Essa cartografia
informa diariamente
como
proceder
em
cada
época
do ano
para
a manutenção
da família
e do grupo
visando não
só
os seus
interesses
presentes
como
o dos filhos,
portanto,
eles
têm uma noção
de previsão
de impactos
a diferentes
profundidades
de tempo
futuros.
Etnoconhecimento: o
trabalho
como
demarcador
territorial e
Propriedade
Intelectual
Nesse
transecto
social
o uso
da natureza
em
forma
de propriedade
territorial,
de terreno
demarcado, é
básico
para
muitos
grupos
familiares
para
os quais
a propriedade
da terra
é de quem
nela trabalha,
o que
choca
com
os interesses
dos
proprietários
absenteístas.
Como
alternativa
a isso,
vem o processo
de recriação
do campesinato e da indianidade
sob
bases
de territorialização
que
é construída pelo
próprio
grupo.
Em
situações
concretas é a
construção da
casa,
por
exemplo.
Após
a aquisição
de um
pedaço
da Natureza
faz-se uma roça,
um
pasto,
uma cerca,
constrói-se ou
compra
equipamentos
(terçados,
canoas,
enxadas,
cordas,
entre
outros)
e aí
se torna
dono,
não
no sentido
capitalista
do termo,
como
proprietário,
torna-se dono
porque
territorializa-se nessa
fração
da Natureza
pelo
ato
do trabalho,
socialmente
e familiarmente
engendrado em
um
lote,
por
exemplo,
ou
em
uma área
indígena,
o beneficiamento
ou
benfeitoria
foi feita
por
algum
grupo
social,
visando não
o mercado
e sim
a (re)produção/satisfação
de suas
necessidades
básicas enquanto
grupo
social.
A
lógica
do trabalho
camponês
e indígena
é de preservação
e não
de destruição,
buscam um
equilíbrio
com
base
no etnoconhecimento, especificamente etnoecológico, o
trabalho
sustenta
a família
que
respeita
as matas,
os cursos
d’água;
fazem isso
como
elemento
de seu
universo
cultural provido de uma
lógica
moral,
isso
inclui sua
religiosidade, no
que
diz respeito
a(os) Deus(es)
criador(es)
da natureza.
Essa ética
do modo
de vida
vê
no trabalho,
a lógica
do uso
da terra
como
extensão
de seu
corpo
cultural, logo
é terra
de vida
e não
de especulação
ou
reserva
de valor.
Por
isso
essas formações
territoriais
baseadas na saber
tradicional e na
economia
moral
são
solidárias ao
seu
igual,
por
isso
nessas culturas
as “farmácias”
caseiras não
são
escondidas,
os “remédios”
não
são
vendidos.
Esse
procedimento é o
oposto da
lógica
do mercado
que
defende a
propriedade de
patentes
com
o intuito
de garantir
para
indústrias
farmacêuticas - e derivadas
como
a biotecnologia
- que
a natureza
seja somente
matriz
de recurso
natural
e sem
reconhecer
que
as informações
oriundas do etnoconhecimento foram à
base
para
a produção
de novos
medicamentos
entre
outros.
Portanto
as práticas
agroecológicas
são as
formas
como
os conhecimentos
a respeito
daquilo que
é alimento,
tempero
ou
“remédio”
(medicina
popular),
principalmente
nos
cultivos ao
redor da
casa
- sítio- que
revela as
necessidades de
cada
grupo
social
(individual
ou
coletivo
familiar)
cultivador das
plantas, sejam
necessidades
típicas de
crianças,
adultos
ou
idosos.
Isso
exige um
conhecimento
acumulado e
práticas
específicas de
cultivo e
aplicação.
Fato
interessante é
que
em
alguns
casos
algumas plantas
são
identificadas pelo
seu
equivalente da
indústria
farmacêutica,
por
exemplo,
tetraciclina
é o nome
de um
planta,
e a origem
do nome
é o medicamento
industrializado.
Isso
na aparência,
mas
na essência
são
práticas
culturais, como
a interpretação
intelectual
do mundo
com
que
interage. Isto
não
é meramente
uma mediação, um
contato
entre
o mundo
dito
“real”
com
o mundo
dos “espíritos”,
é uma vivência
cotidiana
entre
os dois
mundos.
“Por
esta razón, cuando hablamos de los “derechos de propiedad
intelectual”
o “conocimiento
indígena”
estamos frecuentemente entrando en un territorio
inexplorado.
La mayoría de los pueblos no-indígenas no creen ni comprenden la
compleja interrelación en las cosmologías
indígenas
y toman de alguna manera
una
visión
prosaica
del conocimiento.
Esto
también hace
que
la protección de lo
que
en
términos
indígenas
son los espíritus de la
selva,
sea un
tema
particularmente
difícil
de conceptualiza. En muchas
sociedades
sudamericanas, ciertos
especialistas
obtienen
una
destreza
técnica
en actividades productivas y curativas a
partir
de relaciones
especiales
con el
mundo
espiritual.”
(GRAY:
1992: 52-53)
A
constituição do
saber
constituído
Ao
trabalharem
para
a formação
das áreas
de cultivos (roças,
sítios,
entre
outros),
os camponeses e
índios
constroem um
miniecossistema, articulado
entre
as necessidades
da família
ou
grupo
social
com
as potencialidades da
natureza.
Busca-se nas potencialidades da
natureza
aliada
ao etnoconhecimento as
bases
para
a satisfação
das necessidades
materiais
e míticas que
são
próprias de cada
formação
territorial,
que
possui uma
economia
moral,
mas
só
são
possíveis
de serem efetivadas
pelo
saber
ambiental que
está ligado dialeticamente à
formação
territorial
de uma especifica
economia
moral,
isto
é identificado
em
três
bases:
Relações
Técnicas
- gênero
de vida
e sistemas
agrícolas;
Princípios
Morais
- ser
humano
(homem/mulher),
Deus
e Terra;
Etos -
camponês
e indígena.
No
trabalho
que
respeita
a terra
(natureza),
se extrai o que
ela
pode dar
(alimentos)
sem
causar
danos
ao miniecossistema
construído
ou
aos espaços
naturais
( |