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Danilo Pretti Di
Giorgi |
| publicado em
27/10/2008 |
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Imagine se, como no livro Revolução
dos Bichos, de George Orwell, os animais do planeta
tivessem senso crítico e opinião, ou, como em Senhor
dos Anéis, obra de J. R. R. Tolkien, as árvores
fossem capazes de fazer reuniões para decidir o que
é melhor para sua floresta. Teríamos hoje a maior
parte dos seres vivos do planeta a comemorar as
possíveis conseqüências ambientais positivas da
crise.
Num cenário recessivo, seriam grandes as chances de
redução nas emissões de carbono, no consumo de
madeira nativa e na demanda por novas áreas de
floresta para criação de gado e plantio de soja.
Cairia também o crescimento do consumo de energia
elétrica e, assim, arrefeceria a pressão para a
construção de novas hidrelétricas em áreas de
floresta virgem; até mesmo as linhas de
financiamento para obras de grande porte
escasseariam. A pesca industrial também seria
reduzida, o que daria um respiro para as espécies de
peixes marinhos ameaçados de extinção. Com a queda
da produção e do consumo, seria menor a quantidade
de mercadorias transportadas entre as cidades e
países, com menos caminhões queimando o óleo diesel
de quinta qualidade que polui as estradas e cidades
brasileiras com seus índices indecentes de emissão
de enxofre. Uma recessão faria diminuir o número de
celulares (e suas baterias venenosas) sendo jogados
no lixo a cada minuto. Com a queda nas vendas de
automóveis e demais produtos industrializados que
utilizam minério de ferro e outros minerais em sua
produção, as reservas desses recursos naturais (que
são finitas, não custa relembrar) e a natureza ao
redor delas seriam poupadas. Com retração da
economia, as pessoas consumiriam menos e cairia a
produção de lixo, tornando menos urgente encontrar
soluções para a superlotação dos aterros sanitários
e dos famigerados lixões.
Enquanto arrancamos os cabelos preocupados o
crescimento do desemprego, nossos bichos e árvores
falantes celebrariam as notícias deste outubro de
2008, segundo as quais a Petrobras reduziu a
previsão de investimentos e ampliou os prazos para a
exploração do petróleo na área do pré-sal. Mais: o
governo Lula prevê cortes nos investimentos em
infra-estrutura e nas obras do PAC, algumas delas
verdadeiros desastres ambientais programados.
Há ambientalistas que argumentam que a crise pode de
alguma forma ser prejudicial, ao inibir
investimentos e decisões governamentais
ambientalmente positivas. Os debates travados na
reunião de cúpula da União Européia, realizada este
mês, reforçam a tese: nove integrantes do bloco,
liderados pela Itália de Berlusconi, usaram a crise
econômica como razão para colocarem-se contra um
plano já acordado meses atrás, que prevê redução em
20% da emissão de gases que provocam o efeito estufa
até 2020. Para Berlusconi, "as empresas italianas
não estão em condições de arcar com as despesas para
atingir essas metas".
Mas o histórico recente de desrespeito a acordos de
emissão de gases mostra que esse caminho não merece
ser levado a sério por quem realmente se preocupa
com a questão ambiental. O famoso Protocolo de Kyoto,
por exemplo, assinado em 1997, morreu de desgosto
por ter sido sistematicamente desrespeitado pelos
governos signatários – e isso apesar de que suas
metas de redução eram consideradas insuficientes
para conter os efeitos das emissões.
A provável redução no direcionamento de recursos
para conservação é outra preocupação válida. Mas
arrisco afirmar que os benefícios da retração na
degradação ambiental em caso de recessão superariam
em muito eventuais problemas com corte de verbas
para projetos de proteção e conservação.
Seja nos próximos meses ou daqui a cinco, 15 ou 100
anos, a derrocada desse sistema econômico é
inevitável, uma vez que se baseia em premissas
insanas e insustentáveis, como a de que os recursos
naturais que o alimentam têm suprimento infinito e
que o crescimento econômico constante e ilimitado é
possível. Em algum momento, a escassez de recursos
em geral, em especial os minerais (muitos com data
marcada para acabar, como destacado neste espaço no
artigo
O preço do
índio),
será um dos fatores que vão inviabilizar a
perpetuação do sistema linear de
extração-produção-consumo no qual estamos
mergulhados e nos afundando. Mas tenho esperança de
que não precisaremos secar as fontes para
interromper essa espiral de insanidade.
Apesar de saber que toda a humanidade, incluindo eu,
minha família e amigos, sofrerão na pele as duras
conseqüências de um mergulho recessivo da economia,
tendo a ficar do lado dos bichos e vegetais
encantados e torcer para que o remédio amargo seja
tomado logo desta vez, e o quanto antes. Porque,
dada a velocidade que a destruição assumiu nas
últimas décadas, apesar de ainda termos hoje grandes
pedaços de floresta relativamente intactos, muitos
peixes no mar e alguns rios limpos e livres de
represas, corremos o risco de perder tudo isso em
poucos anos.
As conseqüências das barbeiragens protagonizadas por
homens elegantes que usam gravatas de milhares de
dólares mostram que talvez não seja necessário
esperar que as geleiras derretam, o sertão vire mar
nem a Amazônia transforme-se num deserto para que o
caos se instale entre nós. Melhor que ele venha logo
enquanto ainda temos grande parte da biodiversidade
do mundo intacta. E tomara que aprendamos alguma
coisa de útil com sua chegada.
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Danilo Pretti Di Giorgi é jornalista.
Danilo Pretti Di Giorgi é jornalista.
E-mail:
digiorgi@gmail.com
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