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Revista Partes - Ano V - 02/11/2006 21:54:40 

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O gato subiu no telhado
Por Rogério Grassetto Teixeira da Cunha




No domingo, dia 1º de outubro, o jornal britânico Daily Telegraph noticiou que o secretário de meio ambiente do Reino Unido, David Milliband, iria propor uma espécie de privatização da Amazônia em um encontro de ministros dos 20 países maiores consumidores de energia, em Monterey, no México. A medida, que o diário afirmava ser endossada pelo primeiro-ministro Tony Blair e imaginada como parte de um plano para lidar com as mudanças climáticas globais, incluiria a criação de um órgão internacional para comprar a floresta e em seguida estabelecer uma espécie de fundo, através do qual árvores seriam vendidas a pessoas ou grupos interessados em sua preservação.

A reação no Brasil foi imediata. A Folha de São Paulo do dia 4 de outubro relata que Tasso Azevedo, diretor do Serviço Florestal Brasileiro, disse que "se alguém tem essa intenção, não tem muito conhecimento do que é a Amazônia. Hoje, 75% da região pertencem ao Estado. São áreas que não podem ser vendidas". A mesma matéria noticia que o governo britânico, por meio do porta-voz do Departamento de Ambiente, Penny Fox, afirmou que tal proposta não seria discutida em Monterey. O jornal afirmava ainda que o governo britânico negou que tivesse tais planos de privatização (embora a citação nominal do porta-voz se referisse somente à discussão em Monterey e não à idéia em si).

A sugestão não é nova. No ano passado, Pascal Lamy, então comissário de comércio da União Européia - e que viria a tornar-se diretor-geral da OMC -, havia sugerido transformar as florestas tropicais (sendo a Amazônia de longe a maior delas) num bem público mundial, propondo uma certa "gestão coletiva". Na ocasião, essa declaração foi também fortemente rechaçada por Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores.

Agora ficamos sem saber se o governo britânico defende ou não a tal privatização. Caso seja verdade, é uma idéia péssima. Não vou aqui analisar questões de soberania nacional e nem possíveis interesses escusos por trás da proposta, mas sim ater-me ao tema principal desta coluna, o meio ambiente, embora aquelas sejam questões também extremamente relevantes.

Em primeiro lugar, a sua justificativa é bastante ruim. É fato que o Brasil é um grande emissor de gases do efeito estufa, e que isto se dá principalmente pela expansão desenfreada dos desmatamentos na região amazônica, não por um alto nível de consumo de combustíveis fósseis, como nos países desenvolvidos. Este corte de árvores ocorre tanto devido ao lucrativo mercado de madeiras quanto, e principalmente, à expansão da fronteira agrícola, sendo gado e soja os dois principais atores, fatores que atuam associados.

Mas também é fato que o principal responsável pelo efeito estufa continua sendo o consumo insano de combustíveis fósseis pelas nações ditas desenvolvidas. Seguindo esta lógica, antes de criarmos um "consórcio internacional" para gerir a Amazônia, poderíamos pensar, por exemplo, em criar um para administrar o petróleo. Nele, todos os países teriam o mesmo direito de consumo, que seria regulado apenas pelo tamanho da população. Assim, Burkina-Faso e Japão, por exemplo, teriam direito ao mesmo consumo per capita.

Um segundo ponto frágil da proposta é que a eficácia de tal medida seria altamente questionável. Só quem não conhece a Amazônia acha que apenas delimitando-se uma área consegue-se preservá-la. Embora seja uma etapa importante, isto por si só não resolve o problema, como bem mostra a enorme quantidade de invasões de parques e reservas indígenas e o contínuo desrespeito às leis pelas madeireiras e fazendeiros. A razão disto é a situação de ausência completa do Estado na maior parte da região ou, pior, a sua conivência mesmo com uma situação à margem da lei e, ainda, a enorme carência de recursos humanos e materiais para fiscalização. A não ser que este pessoal esteja pensando também em formar ou contratar milícias e exércitos particulares para proteger a floresta.

Por fim, se os governos dos países desenvolvidos estivessem realmente preocupados com o futuro das florestas, algumas medidas seriam muito mais eficientes. Por exemplo, proibir completamente a importação de madeiras nobres ou da soja plantada em áreas de fronteira agrícola na Amazônia, algo de fácil operacionalidade, através de companhias auditoras independentes. Mais: proibir a compra de carne de animais que tivessem sido alimentados com esta soja, também exeqüível, através da rastreabilidade da produção animal. Por fim, restringir a importação somente a produtos cuja cadeia inteira, externa e interna, seja completamente limpa, para impedir que a parte 'suja', proveniente da fronteira agrícola, seja despejada no mercado interno brasileiro ou em países sem tais restrições (os exportadores que não me ouçam).

É curioso notar que a preocupação com a Amazônia venha agora pela ótica predominante do aquecimento global, e não pelos inúmeros problemas sociais e ambientais extras que o desmatamento acarreta. É interessante também que a solução seja proposta usando o quintal dos outros, mas não se fale nada de mudanças significativas no padrão de vida, que é o que realmente ajudaria a pelo menos estancar o problema.

Mesmo com o recente desmentido do governo britânico, acho bom ficarmos atentos. A estratégia, de resto já usada em diversos outros setores, pode ser muito bem a de soltar uma declaração aqui, outra acolá, e ver a reação. Não se surpreenda o leitor se, de repente, algumas das mentes colonizadas nacionais, sempre prontas a servir a interesses externos, começarem também a defender a idéia. As táticas podem ser variadas: uso de eufemismos (como "gestão coletiva", "fundo internacional") para não ferir algum sentimento nacional que porventura ainda reste; apelos para conceitos de grande empatia como "bem mundial", "patrimônio da humanidade"; campanhas difamatórias sobre a nossa incapacidade de gerir aquele bem, de resto infelizmente embasadas em verdade.

Olho vivo. O gato está subindo no telhado .

Publicado originalmente no Correio da Cidadania
www.correiocidadania.com.br .

 

Rogério Grassetto Teixeira da Cunha, biólogo, é doutor em Comportamento Animal pela Universidade de Saint Andrews.
E-mail: rogcunha@hotmail.com

 



 

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