ECOSSOCIALISMO:
CONSTRUINDO UMA
NOVA
UTOPIA
William
Jorge Gerab
(Dezembro de 2005)
Preâmbulo: As Origens
do presente Trabalho
Já
havia algum tempo que
eu pretendia reunir
num texto algumas
idéias, demonstrando
que um novo projeto de
sociedade já esta em
geração no movimento
social e na imaginação
da população no
Brasil. Este novo
projeto possui
semelhanças, mas,
também importantes
diferenças, em relação
a outros projetos
alternativos,discutidos
há mais tempo. Essa
pretensão foi,
oportunamente,
reforçada por uma
proposta de trabalho.
Em
junho de 2000 o texto
Ambientalismo como
Forma de Luta, foi
feito a pedido do
amigo Gilberto Silva,
jornalista da revista
eletrônica
www.partes.com.br,
que estava preparando
um trabalho na sua
assessoria parlamentar
na Câmara Municipal de
São Paulo. No final do
ano passado (2005), o
Roberto Kyriakakis, do
escritório Acthon –
Planejamento Ambiental
S/C Ltda., pediu para
atualizar e ampliar
aquele texto (de 4
para 30 pgs.), pois
pretendia publicar uma
coletânea de textos
sobre a questão
ambiental.
No
primeiro texto a
preocupação se resumia
a destacar a
importância social,
histórica e
metodológica do
processo de degradação
do meio ambiente na
formação da
consciência política e
na elaboração
programática dos
movimentos e partidos
políticos. Nesse
segundo,
Ecossocialismo:
Construindo uma Nova
Utopia, é somada a
proposta de uma nova
estrutura social, que,
além de promover
melhores condições
para a sobrevivência
humana, resolvendo
algumas dificuldades
de coexistência entre
os grupos humanos,
visa, também, garantir
o espaço físico para a
realização dessa nova
sociedade, resolvendo
a grave crise
ecológica, com a qual
se defronta a
humanidade e o seu
planeta.
O
lançamento do
Manifesto
Ecossocialista, por
Michel Löwy e outros,
em 2001 na França, nos
poupou o desgaste de
patinarmos, sem sair
do lugar, pela
ausência da formulação
dessa nova ideologia.
Esse texto, então,
está limitado
à divulgação do
ecossocialismo e à
busca das suas bases
sociais em nosso país,
apontando para as
lutas e dificuldades
de alguns dos
movimentos sociais
mais importantes no
Brasil de hoje. O
mesmo faz com algumas
das questões, que vêm
conquistando espaço
central, não só na
mídia, mas também no
rol das principais
preocupações da
sociedade, inclusive
dos seus setores mais
carentes, que são os
primeiros a sentir os
danos da crise
ecológica.
Mais
uma vez, portanto,
venho pedir a sua
paciência e atenção,
trazendo-lhe uma
contribuição para o
debate de questões,
que são do nosso
interesse comum.
Aguardo seus
comentários, críticas
e sugestões.
Um
abraço,
William
Jorge Gerab
(fevereiro/2006,
revisto em maio/2007).
ECOSSOCIALISMO:
CONSTRUINDO UMA NOVA
UTOPIA
William
Jorge Gerab
Resumo
................................................................
1
Introdução:
Acontecimentos
Inquietantes
Demonstram que os
Problemas
Têm
Dimensão Planetária
................................................................
1
1- Do
Sócio-Ambientalismo ao
Ecossocialismo
.........................................................................
2
1-1-
Resgatar a Unidade do
Conhecimento....................................................
4
1-2-
Emprego para Todos
Enquanto For Preciso
Trabalhar para Viver
...........................................
5
1-3-
Denunciar o Caráter
Predatório e Desumano
do Sistema de
Classes..............................................6
2- O
Capitalismo
Retardatário do Brasil
Reproduz os Erros de
Forma ampliada
......................................
7
2-1- A
questão dos
transgênicos
...........................
7
2-2- A
questão das
Florestal.................................
9
2-3-
Sobre a Transposição
do Rio São Francisco
..... 9
2-4- A
Cobrança pela Água e a
Privatização desse
Recurso
............................................................
11
2-4-1-
Quando as Regras de
Mercado Não Funcionam:
Quanto Maior a
Oferta
de Água, Mais Cara Ela
Fica!
.............................................................
12
2-5-
Outro Destino para o
Lixo e para as Pessoas
que Vivem Nele
.......................................................
13
2-6-
Lutar pela Reforma
Urbana
........................................................................
15
2-6-1-Aprofundar um
Projeto Dinâmico e uma
Metodologia Adequada
para Reforma nas
Complexas Condições
Urbanas Atuais
.................................
16
2-6-2-
Por Que Setores
Populares se Mobilizam
pela Reforma Urbana
...............................................
18
3- A
Realidade dos
Movimentos sociais
........................................................................
20
3-1- As
Novas Exigências para
a Revitalização dos
Movimentos
Sociais............................................
23
4-
Programas Econômicos
Alternativos para o
País e Meio Ambiente
.................................................
24
5-
Ecossocialismo:
Soluções para as
Maiorias Populares
.........................................................
27
5-1-
Descartar as Falsas
Divergências e Buscar
a Unidade nas Lutas
............................................
28
6-
Epílogo: Os Limites da
Hegemonia
........................................................................
31
6-1- A
Emergência do Local
.......................................................................
32
6-2-
Países Dependentes X
Desenvolvidos – A Luta
pela Vida
..................................
33
ECOSSOCIALISMO:
CONSTRUINDO UMA NOVA
UTOPIA
William
Jorge Gerab
Dezembro
de 2005.
Resumo
No
texto “Ambientalismo
como Forma de Luta”,
tanto devido à
proposta e ao espaço
definido (quatro pgs.),
quanto pelo momento
das lutas políticas e
ambientais,
tentava-se, apenas,
apresentar uma nova
forma de buscar a
mobilização e
organização de amplos
setores populares, em
direção à melhoria das
condições de vida para
todas e todos e por
sociedade com
distribuição de renda
mais eqüitativa e com
justiça social. No
presente trabalho,
lançado o Manifesto
Ecossocialista em
2001, na França, com
adesões de militantes
em diversos outros
países nos anos
seguintes, trata-se de
ir além da divulgação
de uma nova utopia e
aprofundar sua
ideologia, apontando
suas preocupações
programáticas
obrigatórias, tentando
dimensionar e
posicionar cada tema
adequadamente.
Mesmo
que, ainda não se
possa pretender um
programa
ecossocialista mais
definido para o
Brasil, é importante
que se comece a
apontar essas
passagens, desde já,
dignas de destaque
para que a proposta vá
assumindo as suas
feições de projeto
factível. Às análises
e implicações
político-ideológicas
dessa nova utopia,
foram somados os
seguintes temas:
desemprego, lixo,
reforma urbana, as
chamadas grandes
catástrofes naturais,
a preservação das
florestas, os
transgênicos, a
transposição do Rio
São Francisco, a
cobrança pelo uso da
água, inserções num
programa econômico
alternativo para o
país.
Introdução:
Acontecimentos
Inquietantes Demonstram que os
Problemas Têm Dimensão
Planetária
Cerca de
dois anos antes do
Tsunami e três antes dos
furacões e inundações
gigantes, esses últimos
atingindo o próprio país
sede da economia
capitalista mais
poderosa, era possível
prever, claramente, que
se havia ultrapassado
limites perigosos e que,
mais uma vez, fortes
sinais indicavam serem
necessárias urgentes
retificações de
procedimentos humanos
muito desastrosos.
Robert Kurz, sociólogo e
ensaísta alemão, no seu
artigo para o caderno
“Mais!”, do jornal Folha
de São Paulo, de 6 de
outubro de 2002, “O
Desenvolvimento
Insustentável da
Natureza”, constatava:
“As
inundações e secas
ocorridas nos últimos
meses no mundo todo
anunciam uma nova e
grave dimensão da crise
ecológica.
As
inundações de julho a
setembro deste ano,
ocorridas em todo o
mundo, entrarão na
história das catástrofes
naturais como um triste
recorde. Numa extensão
jamais vista desde o
início dos registros
meteorológicos na
modernidade, regiões
gigantescas foram
inundadas
simultaneamente na
Europa, na África, na
Ásia, na América do Sul
e na do Norte.”
Mais
adiante, acrescentava:
“..., temos que nos
haver com alterações da
natureza socialmente
produzidas, sobre as
quais os ecologistas
alertam em vão já faz
décadas. O resultado são
”catástrofes sociais da
natureza”, que se
propagam de maneira
irreversível. Por que a
percepção dos nexos
ecológicos, existente há
anos, é socialmente
ignorada de forma tão
obstinada?
Manifestamente o
problema da relação
entre processos
socioeconômicos e
naturais precisa ser
reformulada a fundo.”
Nos
parágrafos finais,
conclui:
“... A catástrofe
subseqüente da inundação
na Alemanha, na
república Tcheca e na
Áustria causaram, em
semelhança com a Ásia,
danos de bilhões de
Euros.
Devido
aos cofres vazios do
Estado, o chanceler
alemão Gerhard Schroeder
teve de colocar em
questão o pacto
estabelecido da União
Européia. A enchente
assumiu dimensões que
tocam a política
financeira. É cada vez
mais evidente: crises
econômicas e destruição
ecológica se entrelaçam
em uma catástrofe global
única. As leis físicas
não podem ser
manipuladas nas
estatísticas, e os
“pragmáticos realistas”
do sistema do mercado
global afundam
literalmente na água
suja e na lama.”
Outros
“fenômenos
socioeconômicos-naturais”
acontecem
consecutivamente: o
jornal Gazeta Mercantil,
de 18 de outubro de
2003, noticiou o desgelo
de geleiras eternas, o
caso do pico do
Kilimanjaro na África,
com todas os seus
efeitos ecossistêmicos
e, também, na cultura
das populações locais,
que atribuíam a geleira
aos planos dos seus
deuses. Essas análises e
notícias alarmantes,
apenas vieram se somar
às que já vinham
marcando crescentemente
os noticiários, como as
que reportavam as
questões de fundo de
eventos internacionais
sobre o meio ambiente,
como a Conferência
Rio-92 e a Rio+10:
•Alterações nos sistemas
reprodutivos da flora na
Amazônia – que já sofre
com grandes queimadas.
•O Buraco
na camada de Ozone e o
efeito estufa, alterando
o clima, aquecendo o
planeta, promovendo
enchentes e
desertificações.
•Poluição
(ex: Baía de Minamata –
década de 60),
degradação
(desmatamentos,
deslizamentos,
assoreamento, exploração
econômica predatória –
como na mineração),
comprometimento da água
potável.
•Matérias
primas esgotáveis
escasseando e pondo em
risco os sistemas
produtivos (combustíveis
fósseis, madeira etc.).
1- Do
Sócio-Ambientalismo ao
Ecossocialismo
A
proposta do presente
trabalho é a de
atualizar um outro,
escrito há mais de cinco
anos, “Ambietalismo como
Forma de Luta” –
jun/2000, cujo conteúdo
ainda se mantém válido e
necessário. Mas, a idéia
do ambientalismo pode e
deve ser fortalecida com
propostas, que vêm sendo
formuladas pelo esforço
de identificação e
aprofundamento das
conseqüências sociais
desse pensamento. Um
viés importante desse
esforço formalizou-se em
2001, com o lançamento
do Manifesto
Ecossocialista na França.
Ecossocialismo é a
proposta de, a um só
tempo, construir-se uma
nova sociedade - sem
classes, estamentos ou
camarilhas dominantes -
e um novo relacionamento
entre sociedade e meio
ambiente, seja ele de
predominância urbana ou
não. Pressupõe,
portanto, um processo de
transformação, no qual
as degradações humana e
ambiental, prevalecentes
no capitalismo, darão
lugar a uma sociedade
não hierarquizada, sem
privilégios de qualquer
espécie, cujos
desenvolvimentos humano
e econômico aconteçam
protegendo os
ecossistemas e
garantindo os recursos
naturais necessários às
próximas gerações.
Quem luta
pela vida em geral,
sendo que vida só é
verdadeira se ocorrer
com boa qualidade, luta
também pela diversidade,
tanto das espécies,
quanto no interior
delas. Por isso quem
pensa meio ambiente
precisa se apropriar das
questões sociais, como a
luta contra a
concentração de renda,
que gera miséria para
grandes contingentes
humanos, a luta contra
todos os tipos de
discriminações, como as
de raças e etnias, as de
gênero e orientação
sexual, as que oprimem
portadores de
necessidades especiais e
as que atingem faixas
etárias, consideradas
não-produtivas.
Não é sem
razão que o relatório da
Comissão Mundial de Meio
Ambiente e
Desenvolvimento (CMMAD)
da ONU, intitulado
“Nosso Futuro Comum” e
coordenado pela Primeira
Ministra da Noruega, Srª.
Gro Brundtland, datado
de 1987, coloca o
“Combate à Pobreza” como
uma das questões de
princípio para o fim da
degradação ambiental.
O mesmo
aconteceu quando na
Conferência das Nações
unidas para o Meio
Ambiente e o
Desenvolvimento,
conhecida como Rio-92,
realizada em junho
daquele ano com a
participação de 170
países. Foi aprovada a
“Agenda 21”, que
estabelece metas para o
presente século e onde
encontramos a Seção 1,
do Capítulo 1, com o
tema “Dimensões
Econômicas e Sociais”, o
Capítulo 2 “Cooperação
Internacional para
Acelerar o
Desenvolvimento
Sustentável dos Países
em Desenvolvimento e
Políticas Internas
Correlatas” e o Capítulo
3 “Combate à Pobreza”.
Por outro
lado, quem luta pelo fim
da exploração do homem
pelo homem, quem luta
para que os objetivos do
desenvolvimento
econômico e do
desenvolvimento humano
em geral deixem ser os
juros, os lucros e as
rendas e passem a
privilegiar a
sobrevivência e melhoria
da qualidade de vida
para todas e todos, têm
que se preocupar,
também, com a garantia
do espaço físico para a
realização dessa sua
utopia. Isto é, os
socialistas têm que se
preocupar, também, com a
preservação do planeta e
preservação com boa
qualidade.
A crítica
ambientalista às formas
de desenvolvimento, até
hoje adotadas, nos
apontam o profundo
equívoco de considerar
infinitos certos
recursos vitais (como
água potável e ar para
respirar), que são
esgotáveis e já estão em
situação de grave
fragilidade. Se
focalizarmos o aspecto
sistêmico da degradação
ambiental,
relacionando-o com os
processos de
desenvolvimento das
formas de sociedades
humanas adotadas,
estaremos construindo um
dos questionamentos mais
profundos ao capitalismo
e, também, apontando
para alguns graves
problemas das
experiências de
construção do
socialismo, mesmo que
essas últimas não
tivessem como principal
objetivo o lucro e não
lhes fosse uma
conseqüência obvia o
desperdício de recursos
e a degradação
ambiental.
Mas, a
contribuição do
ambientalismo não se
resume à crítica dos
sistemas produtivos. A
sua concepção de
desenvolvimento e as
suas propostas para o
uso de recursos
tecnológicos, fornecem
coerência às suas
críticas ao
desenvolvimentismo/produtivismo
(reprodução ampliada das
riquezas como valor
máximo) e permitem a
superação do funil
tecnocrático da
modernidade, atualizando
as respostas aos
problemas técnicos e
funcionais, tanto nas
atividades rurais,
quanto urbanas. Vem,
assim, a somar-se e a
atualizar as críticas e
alternativas, que os
socialistas opõem ao
capitalismo, já há muito
tempo.
As
chamadas tecnologias
limpas e às concepções
de obras muito mais
amplas do que as
permitidas pela busca do
maior lucro, no menor
prazo possível, mostram
que o ambientalismo tem
grandes contribuições à
construção de
alternativas de gestão
pública e de planos de
governo muito mais
eficientes (que atingem
os objetivos desejados),
eficazes (que atingem
esses resultados da
melhor forma, utilizando
os recursos mais
adequados e nos menores
prazos) e, até, menos
onerosos do que os
tradicionais. É,
justamente, por criar
alternativas, que visam
atender as necessidades
e interesses da
humanidade, preservando
adequadamente o meio
ambiente no qual ela
existe, que o
Ecossocialismo pode se
afirmar como utopia a
ser buscada pela maioria
das pessoas.
1-1-
Resgatar a Unidade do
Conhecimento
O
capitalismo para atingir
seus objetivos de
minimização dos custos e
de maximização dos
lucros teve que diminuir
as distâncias
econômicas, aplicar as
regras de mercado ao
trabalho humano e
fragmentar o
conhecimento. Precisava
trazer a matéria prima e
os demais fatores de
produção o mais próximos
possível, pagar os
menores salários, que
fossem possíveis e
especializar a
mão-de-obra, a ponto de
quem fizesse o parafuso
não soubesse onde
enroscá-lo. Tratava-se,
portanto de colocar
tudo, todos e todas em
função da produção, da
lógica de mercado e dos
ganhos de quem tivesse a
iniciativa de organizar
todos esses recursos – o
capitalista.
O
sociólogo Michael Löwi,
em seu texto O que é
Ecossocialismo,
publicado na revista
eletrônica Democracia
Socialista, ano II, nº
11, de abril de 2005,
diz o seguinte:
“A
racionalidade estreita
do mercado capitalista,
com seu cálculo
imediatista de perdas e
lucros, é
intrinsecamente
contraditória com uma
racionalidade ecológica,
que toma em consideração
a temporalidade longa
dos ciclos naturais. Não
se trata de opor os
"maus" capitalistas
ecocidas aos "bons"
capitalistas verdes: é o
próprio sistema, baseado
na concorrência
impiedosa, nas
exigências de
rentabilidade, na
corrida atrás do lucro
rápido, que é destruidor
do meio ambiente.
É
necessária uma
reorganização do
conjunto do modo de
produção e de consumo,
baseada em critérios
exteriores ao mercado
capitalista: as
necessidades reais da
população e a defesa do
equilíbrio ecológico.
Isto significa uma
economia de transição ao
socialismo, na qual a
própria população - e
não as leis do mercado
ou um bureau político
autoritário - decide,
democraticamente, as
prioridades e os
investimentos.”
Uma
dessas rupturas com as
imposições da lógica de
mercado, a qual queremos
nos referir, é a
superação da
fragmentação do
conhecimento, que a
especialização, a
serviço da produtividade
e barateamento do
produto, fez
cristalizar-se, a partir
do mercantilismo,
passando pela chamada
sociedade industrial e
que sobrevive na
sociedade
pós-industrial. O fato é
que, com a crise
ambiental, que coloca em
cheque a continuidade da
vida no planeta, obriga
ao resgate da visão da
interação entre as
partes, de totalidade e
da unidade dos elementos
componentes do universo
planetário.
É cada
vez mais comum se ouvir
que equipes
multidisciplinares
estudam e buscam
soluções para esse ou
aquele problema, que
pode ser urbano ou
rural, sempre misturando
os âmbitos das ciências
biofisicoquímicas com os
das ciências humanas e
vice-versa. A prática
multidisciplinar leva a
conclusões e soluções
interdisciplinares, pois
precisam comportar
elementos de todas as
disciplinas e, como
essas conclusões e
soluções precisam ser
unitárias, isto é, suas
demandas, ações e fases
têm que estar
integradas, chega-se à
transdisciplinariedade,
que é quando já não se
pode identificar
fronteiras entre as
diversas disciplinas.
Resgata-se, então, a
unidade do conhecimento,
só que num estágio muito
mais evoluído do que
aquele, com o qual
trabalhavam os sábios
até a idade média, o
qual o capitalismo
fragmentou, mas também
contribuiu para a
evolução, que hoje
possui. Temos, em novas
e melhores condições a
possibilidade de
discutir os problemas
atuais combinando
aspectos tão diferentes
como os de economia,
urbanismo, cultura,
política, etc. Por isso,
já no trabalho de seis
anos atrás,
relacionávamos a
problemática do lixo nos
grandes centros urbanos,
a questão do desemprego
e a demanda pela reforma
urbana. Como esses
aspectos não foram
objetos de tratamentos
adequados, aquele texto
mantêm a atualidade,
quase sem retificações.
1-2-
Emprego para Todos
Enquanto
For Preciso Trabalhar
para Viver
No Brasil
ainda estamos muito
longe do momento em que
trabalhar seja algo
quase dispensável, já
que a tecnologia poderá
atender a quase todas as
demandas. Estar
desempregado é uma
situação bastante
indesejável para
qualquer cidadão, de
qualquer época, mas,
particularmente sob o
neoliberalismo e seu
tipo próprio de
globalização, onde
desaparecem as vagas de
emprego ou postos de
trabalho de forma
irreversível (desemprego
estrutural). Se está,
assim, diante de uma
situação dramática.
Como,
nesta estrutura social e
econômica, todas as
coisas que precisamos
consumir para viver
tomaram a forma de
mercadoria, o termo
“desempregado”
tornou-se, praticamente,
sinônimo de “excluído”,
isto é, posto de lado,
rejeitado, sem acesso
aos bens e serviços
produzidos pela
sociedade formal. Quem
está nesta situação pode
acabar, por exemplo,
tendo sua moradia, de
forma precária, nas
encostas, nas regiões de
proteção aos mananciais,
enfim, onde ainda houver
espaço, pois não terá
escolha.
Quanto à
questão do emprego é
necessário pensar em
aumentar a oferta na
estrutura formal, com a
diminuição da taxa de
juros bancários para os
investimentos geradores
de empregos, com a
diminuição da jornada de
trabalho sem a
diminuição dos já parcos
salários, etc. Mas, se a
famigerada
irreversibilidade da
globalização neoliberal
se confirmar, faz-se
necessário o surgimento
de mais do que a
economia paralela, já
existente.
Temos, na
hipótese mencionada, que
tratar da construção de
uma verdadeira sociedade
paralela, com um sistema
produtivo próprio, um
sistema de distribuição
da produção próprio, uma
nova forma de
distribuição mais
eqüitativa das riquezas
produzidas e, de
preferência, com novas
relações sociais mais
justas e sem
discriminações, calcadas
na solidariedade. Neste
sentido, uma das
alternativas a serem
aprofundadas pelos
estudiosos e pelo
movimento social é a das
cooperativas, das micros
e pequenas empresas
solidárias, como
referências para a
construção de um quadro
de pleno emprego e de
novas relações de
trabalho.
O
Trabalho possui um
significado muito
especial dentre as
estruturas de
acolhimento urbano, pois
a sua existência em
abundância pode, não só
acolher bem aqueles que
vivem na cidade, como
também atrair
progressivamente novos
habitantes. De forma
inversa, a sua escassez
tende, não só a rejeitar
novos habitantes, como
também a expulsar a
parcela atingida dos
antigos moradores da
cidade. Além disso,
existem também os
aspectos referentes à
qualidade do trabalho,
que são definidos pela
própria estrutura
produtiva existente e
pela qualidade de vida
oferecida às pessoas
durante o período de
atividades.
Devemos
mencionar, também, o
peso do espaço destinado
ao trabalho no contexto
da cidade como um todo,
já que ele pode
prejudicar ou não o meio
ambiente, seja com
referência à postura que
é assumida frente aos
vários tipos de poluição
que pode gerar (do ar,
inclusive a sonora, da
água, etc.), seja com
relação à sua
localização e
contribuição à formação
da paisagem urbana.
1-3-
Denunciar o Caráter
Predatório e
Desumano do Sistema de
Classes
Estudando
o processo de
desenvolvimento das
cidades e de implantação
dos agronegócios, fica
evidente o caráter
predatório e desumano do
sistema de classes. Seus
malefícios atingem a
todos, mas suas elites
querem usar as classes
subalternas como “bode
expiatório” dos danos
que causam. Quando só se
quer preservar as
matérias primas - como
fontes de lucros - e a
qualidade de vida,
visando apenas o bem
estar dos mais ricos,
pode-se falar em
degradações isoladas,
como se fossem mera
conseqüência do
“progresso”, sem
atribuir
responsabilidades. Já se
ouviu governantes de
grandes cidades dizerem
que “...ai do povo se
não houvessem os grandes
congestionamentos no
trânsito, pois
significaria que não
teria progredido.”
Mas,
quando se quer
identificar o caminho
para evitar a degradação
ambiental e recuperar
áreas e elementos
ambientais degradados,
se têm que ir além e não
permitir que o lucro
seja o valor máximo nas
escolhas de
alternativas, o que põe
em cheque o próprio
sistema capitalista.
Essa tarefa pode até ser
iniciada por órgãos e
autoridades técnicas do
meio ambiente,
comprometidas
ou não com a estrutura
atual, só não podem
tirar todas as
conseqüências e externar
as conclusões lógicas.
Alguns,
porém, por ingenuidade
ou intenções
irreveláveis, concluem
que são os pobres,
precisamente, aqueles
que mais danos causam ao
meio ambiente
(residências
“subnormais”,
contaminação das águas
dos rios e represas,
sujeira geradora de
artrópodes e roedores,
etc.). É exatamente isso
o que fazem os países
ricos quando tentam, por
exemplo, jogar a
responsabilidade maior
da emissão de poluentes
sobre os países chamados
de emergentes ou do 3º
mundo.
Todas as
formas de exclusão
social, ainda mais
quando atingem a milhões
de pessoas, criam
inseguranças quanto à
capacidade humana para
preservar a sua própria
espécie. Até mesmo as
tendências naturalistas
mais radicais começam,
no final do século
vinte, a admitir que a
grande razão do debate
sobre a questão
ambiental é reverter o
papel de maior predador
ostentado pelo Homem.
Diga-se de passagem, que
sem a existência da
espécie humana sequer
haveria a percepção do
meio ambiente.
Por outro
lado, a ação do Homem,
condicionada pelas
estruturas sociais,
promoveu ou acelerou
desertificações (como a
que já se pode observar
em áreas dos pampas
gaúchos), fez progredir
cidades de forma
conflituosa com as
condições do meio
ambiente (grandes
conglomerados urbanos,
construídos, por
exemplo, nas regiões de
nascentes ou áreas de
expansão dos rios, nas
épocas das cheias).
Enfim, a ação humana,
sob o capitalismo,
transformou em um dilema
a própria permanência da
humanidade no planeta,
que é o seu habitat
natural.
Na
realidade, todo esse
tempo, o conceito de
planejamento econômico
vigente esteve voltado
para os interesses das
elites sociais (setores
financeiramente
privilegiados), que por
definição são
minoritárias, às quais
pouco importam os graves
danos ao meio ambiente,
como a poluição de rios
e reservatórios de água,
a contaminação da
atmosfera, a destruição
de parcelas da
biodiversidade etc.
Cabe, a quem tiver
clareza destes fatos,
contribuir para
conscientizar, mobilizar
e organizar a população
interessada na mudança
desta realidade e suas
tendências.
2- O
Capitalismo Retardatário
do Brasil reproduz
os Erros de Forma
ampliada
É
importante, agora,
tomarmos algumas
questões em destaque no
Brasil, através das
quais poderemos
verificar a
insuficiência das
soluções tradicionais.
As características do
Capitalismo no Brasil,
além de mantê-lo em
eterna dependência, seja
ela chamada de economia
semi-colonial, em
desenvolvimento ou
emergente, faz embaçar a
visão dos seus
governantes, quanto à
possibilidade de trilhar
caminhos para o
desenvolvimento, os
quais evitassem a
degradação ambiental.
Paulo Nogueira-Neto,
falando sobre a
participação do Brasil
na Conferência de
Estocolmo/1972,
refere-se à “política
ambiental” do período da
Ditadura Militar no
Brasil da seguinte
forma:
“O
Brasil, no começo, teve
uma atitude que foi
muito combatida por
outros países, que
surpreendeu outros
países. O país se
posicionou assim:
"Primeiro vamos
desenvolver, depois
vamos cuidar de meio
ambiente". Mas nós
tivemos sorte de estar
lá o secretário-geral do
Ministério do Interior,
Henrique Brandão
Cavalcanti, que tomava
grande parte das
decisões. Ele foi
fundamental na mudança
de posição do Brasil.”
(Entrevista no site do
PNUD - Programa das
Nações Unidas para o
Desenvolvimento - de 6
de abril de 2004,
primeira página.)
Atualmente, o arcabouço
jurídico sobre meio
ambiente ganhou bastante
em volume. Mas, a todo o
momento surgem projetos
de lei, que, não raro,
provocam regressões
nesse campo. O pior é
que, na prática, a ações
degradadoras continuam,
como se fossem grandes
tratores devastando
imensas áreas do país.
Isso acontece nas
regiões urbanas,
demandando medidas
abrangentes e
estruturais, como já
vimos. Acontecem,
também, nas regiões de
produção rural e de
preservação ambiental,
inclusive nos
ecossistemas frágeis
como a dos mangues,
pantanais, cerrados e
florestas. Na seqüência
veremos alguns dos
exemplos mais recentes,
dos problemas e da pouca
sensibilidade das
autoridades
governamentais em
abordar esses problemas.
2-1- A
questão dos transgênicos
No Jornal
Folha de S. Paulo, 23 de
maio de 2005, lê-se a
seguinte transcrição do
britânico “The
Independent”, da matéria
escrita por Geoffrey
Lean:
“Ratos
alimentados com uma
dieta rica em milho
geneticamente modificado
desenvolveram
anormalidades em seus
órgãos internos e
alterações em seu
sangue, segundo um
estudo. Os resultados
trazem à tona os velhos
temores de que a saúde
humana possa ser afetada
pelo consumo de
alimentos transgênicos.
O jornal
britânico "The
Independent" obteve
detalhes de um estudo
secreto realizado pela
companhia Monsanto, uma
gigante no ramo de
alimentos geneticamente
modificados, que mostra
que ratos alimentados
com o milho alterado
tinham rins menores e
variações na composição
de seu sangue.
Segundo o
relatório confidencial
de 1.139 páginas, esses
problemas de saúde não
apareceram em outro
conjunto de roedores,
alimentados com produtos
não-modificados para
servir de grupo de
controle para comparação
dos resultados.
As
revelações surgem em
meio a pedidos para que
os resultados sejam
tornados públicos,
enquanto os países
europeus se preparam
para votar sobre se o
milho modificado deve ou
não ser colocado no
mercado para consumo por
seres humanos.”
Os
interesses dos
agronegócios no Brasil,
que envolvem vultosas
quantias financeiras,
deveriam ser
regulamentados por um
Projeto de Lei, que foi
enviado pelo Executivo
ao Congresso. No que
tocasse aos produtos
transgênicos, as coisas
pareciam apaziguadas,
com os cuidados
previstos na matéria.
Mas, já haviam, pelo
menos, dois
complicadores: 1) estava
arrolada no mesmo PL a
problemática das
“células-tronco”, que
dividia as opiniões na
sociedade, sendo que uma
parcela dos católicos
oponham seus dogmas à
utilização do recurso no
âmbito da saúde; 2)
também, esta incluída no
texto a instituição da
CNTbio (Comissão
Nacional Técnica de
Biossegurança), de
composição arbitrária e
não discutida
suficientemente, fosse
na sociedade, fosse no
âmbito do Legislativo.
No
boletim eletrônico “MST
Informa” de 09/03/05, do
Movimento dos Sem Terra,
encontramos o seguinte
posicionamento:
“Há
exatamente uma semana
(04/03) assistimos,
estarrecidos, a
aprovação da Lei de
Biossegurança no
Congresso Nacional.
Foram 352 votos de
deputados federais a
favor da liberação total
do plantio e comércio de
sementes transgênicas no
Brasil. Ninguém
percebeu. Graças à
articulação entre os
grandes veículos de
comunicação, parte do
governo Lula e o próprio
Congresso, a população
tomou conhecimento
apenas da polêmica sobre
as células-tronco, tema
extremamente distinto da
transgenia.
Enviado à Câmara em
dezembro de 2003, o
projeto inicial do
governo era considerado
razoável pelos
movimentos sociais,
ambientalistas e
entidades da sociedade
civil, apesar de já
misturar a questão dos
transgênicos com a
pesquisa em
células-tronco. O
direito à precaução e o
direito ao esgotamento
das pesquisas
científicas sobre o tema
eram as únicas
exigências feitas. No
entanto, o projeto saiu
para o Senado bem
diferente do que entrou
na Câmara. Totalmente
deturpado, dava poderes
amplos e absolutos à
CTNBio - Comissão
Técnica Nacional de
Biossegurança, composta
por 15 técnicos,
escolhidos sem nenhum
critério democrático e
que podem decidir todas
as regras sem nenhum
mandato - ignorando-se a
experiência acumulada no
Ministério do Meio
Ambiente e do Ministério
da Saúde, responsáveis
constitucionais para
tomar decisões de
precaução. É de
conhecimento geral que a
tradição dos técnicos
que atuam na CNTBio é a
de liberação total do
plantio comercial de
sementes transgênicas,
sem nunca pedir estudos
de impacto ambiental,
competência apenas do
Ibama (Instituto
Brasileiro do Meio
Ambiente e dos Recursos
Naturais Renováveis), e
de riscos à saúde humana
e animal. Novamente na
Câmara, sob comando do
flamante Severino, o
projeto vindo do Senado
com alterações
estapafúrdias foi
aprovado em sua
totalidade.
Os
representantes do
agronegócio e das
transnacionais saíram
triunfantes. As empresas
poderão cobrar
livremente royalties
para soja, algodão,
milho, girassol e tudo
mais que vier. Apenas no
ano passado foram R$80
milhões em taxas
arrecadados pela
Monsanto só no Rio
Grande do Sul.”
2-2- A
questão das Florestas
O projeto
de lei 4776, de 2005,
encaminhado pelo
Executivo à Câmara dos
Deputados em
fevereiro/2005, pretende
criar três formas de
gestão de florestas
públicas: a criação e a
gestão direta de
Florestas Nacionais (flonas),
a destinação às
comunidades locais e a
concessão florestal, a
ser aplicada em
florestas naturais ou
plantadas e nas unidades
de manejo das Florestas
Nacionais. Em outras
palavras, cria a
possibilidade de gestão
de florestas nacionais
pelo setor privado,
através de concessão ou
aluguel. Assim,
escancaram-se as portas
para que empresas
multinacionais do ramo
de laboratórios ou de
qualquer outro ramo
possam, não só se
apropriar de produtos
das nossas florestas e
conhecimentos da nossa
fitoterapia indígena
Em
entrevista à revista
eletrônica da RITS (Rede
de Informações para o
Terceiro Setor), Aziz
Ab’Saber, posiciona-se
da seguinte forma:
“Se
houver aluguel de
flonas,
a intenção básica será
cortar madeiras nobres,
que estão distribuídas
no meio da floresta
irregularmente. Portanto
tem que fazer uma trilha
para chegar até uma
dessas árvores, fazer
uma clareira em volta
para a derrubada. Então
vem o grupo da
motosserra e corta,
depois faz-se o caminho
para o caminhão chegar
até o local e levar a
madeira embora. E, como
essas árvores estão
espalhadas
irregularmente pela
floresta – uma aqui,
outra a 200 metros,
outra a 500 etc. -,
pode-se imaginar o que
vai acontecer com a
continuidade da
biodiversidade regional.
Mas,
além de tudo, ao longo
disso, existem elementos
importantes na flora
regional para fármacos,
os quais o próprio
Brasil não conhece
totalmente. Sei de uma
grande instituição da
Amazônia que contratou
pessoas para estudarem a
parte bioquímica de
árvores, mas não
dispunha de instrumentos
especializados para
fazer pesquisa de
laboratório. Então,
nessa situação, aqueles
que tiverem uma outra
noção e uma outra
possibilidade de
trabalho laboratorial em
relação a fármacos vão
nos vencer.
E
depois vem aquele
problema de que lá fora
eles tentam formas de
dizer que a invenção é
deles etc. e ficam com a
produção. Tentaram fazer
uma espécie de lei
dizendo que o cupuaçu é
deles [Ab’Saber
refere-se ao registro
comercial do nome
“cupuaçu”, feito em 2003
pela empresa japonesa
Asahi Foods e cancelado
no ano passado, devido à
pressão de organizações
e comunidades amazônicas
e de parte da opinião
pública internacional].
Então não temos nenhuma
possibilidade de aceitar
de imediato o início da
exploração da floresta
dentro desse sistema.”
2-3-
Sobre a Transposição do Rio São
Francisco
Os
representantes do
Executivo Federal não
cansam de dizer, na
defesa do projeto de
transposição, que todos
os estudos prévios
cabíveis foram
realizados, que todos os
impactos ambientais
previstos e possíveis
foram considerados e
tudo redundou na sua
aprovação. Só que faltou
responder a um quesito
básico, de qualquer
estudo de impactos
ambientais,
principalmente num que
será executado com
verbas públicas: as
populações das áreas
diretamente afetadas (ADAs),
conhecem o projeto,
concordam com ele e
estão dispostas a arcar
com seus eventuais ônus?
Trata-se
do engajamento da
população de áreas
diretamente afetadas,
coisa que vai muito além
do mero convencimento.
Disso depende, não só o
caráter democrático da
decisão, que envolve
expectativas seculares
dos habitantes do
semi-árido nordestino,
mas, objetivamente, a
tolerância com os
desconfortos das obras e
os cuidados, necessários
para contribuir com a
manutenção do futuro
sistema de transposição.
Mais uma
vez recorrermos à
maturidade e clareza das
palavras do Professor
Aziz Ab’Saber, que, a
respeito desse assunto,
escreveu o especial para
o jornal Folha de S.
Paulo, “A Transposição
do Rio São Francisco”,
de 21 de fevereiro de
2005:
“É
compreensível que em um
país de dimensões tão
grandiosas, no contexto
da tropicalidade, surjam
muitas idéias e
propostas incompletas
para atenuar ou procurar
resolver problemas de
regiões críticas.
Entretanto, é impossível
tolerar propostas
demagógicas de
pseudotécnicos não
preparados para prever
os múltiplos impactos
sociais, econômicos e
ecológicos de projetos
teimosamente
enfatizados. Tem faltado
a eventuais membros do
primeiro escalão dos
governos qualquer
compromisso com
planificação metódica e
integrativa, baseada em
bons conhecimentos sobre
o mundo real de uma
sociedade prenhe de
desigualdades. Nesse
sentido, bons projetos
são todos aqueles que
possam atender às
expectativas de todas as
classes sociais
regionais, de modo
equilibrado e justo,
longe de favorecer
apenas alguns
especuladores
contumazes.
Pessoalmente, estou
cansado de ouvir
propostas ocasionais,
mal pensadas, dirigidas
a altas lideranças
governamentais.”
Mais
adiante, levanta os
seguintes aspectos do
ambiente vegetal,
físicos e hidrográficos
da região:
“O
Nordeste Seco,
delimitado pelo espaço
até onde se estendem as
caatingas e os rios
intermitentes,
sazonários e exoreicos
(que chegam ao mar),
abrange um espaço
fisiográfico
socioambiental da ordem
de 750.000 quilômetros
quadrados, enquanto a
área que pretensamente
receberá grandes
benefícios abrange dois
projetos lineares que
somam apenas alguns
milhares de quilômetros
nas bacias do rio
Jaguaribe (Ceará) e
Piranhas/Açu, no Rio
Grande do Norte.
Portanto, dizer que o
projeto de transposição
de águas do São
Francisco para além
Araripe vai resolver
problemas do espaço
total do semi-árido
brasileiro não passa de
uma distorção
falaciosa.”
Conclui
da seguinte forma:
“A
afoiteza com que se está
pressionando o governo
para se conceder grandes
verbas para início das
obras de transposição
das águas do São
Francisco terá
conseqüências imediatas
para os especuladores de
todos os naipes.
Existindo dinheiro - em
uma época de escassez
generalizada para
projetos necessários e
de valor certo -, todos
julgam que deve ser
democrática a oferta de
serviços, se possível
bem rentosos. Será
assim, repetindo fatos
do passado, que
acontecerá a disputa
pelos R$ 2 bilhões
pretendidos para o
começo das obras.
O risco
final é que,
atravessando acidentes
geográficos
consideráveis, como a
elevação da escarpa sul
da chapada do Araripe
-com grande gasto de
energia!-, a
transposição acabe por
significar apenas um
canal tímido de água, de
duvidosa validade
econômica e interesse
social, de grande custo,
e que acabaria,
sobretudo, por
movimentar o mercado
especulativo, da terra e
da política. No fim,
tudo apareceria como o
movimento geral de
transformar todo o
espaço em mercadoria.”
2-4- A
Cobrança pela Água e a
Privatização desse
Recurso
No dia 13
de dezembro de 2005, foi
aprovado com emendas o
Projeto de Lei 676/2000,
que dispõe sobre a
cobrança pela utilização
dos recursos hídricos de
domínio do Estado. A
matéria foi encaminhada
em 1998 pelo então
governador Mário Covas,
hoje falecido, sob a
inscrição PL nº. 20/98.
Os recursos gerados,
segundo previsões da
época do envio, seriam
da ordem de R$ 420
milhões ao ano, que,
como sempre, no final da
linha repasses, sairiam
dos bolsos dos
consumidores finais do
país.
A
contradição flagrante
desse acontecimento é a
de que o argumento de
fundo para a aprovação
do PL era a busca de um
uso mais criterioso da
água. Prevaleceram,
assim as concepções, que
entendem os problemas
ambientais como questões
de mercado, em
detrimento da visão da
educação ambiental e da
participação popular
como instrumentos de
construção de uma nova
cultura, na qual
tivessem primazia os
valores ambientais e
humanistas.
Mas, esse
debate, que é apenas uma
pequena parte de um
debate muito mais
abrangente, está longe
do fim. Como exemplo
disso, podemos citar a
notícia veiculada pelos
órgãos de imprensa em
maio de 2005, que
noticiaram debates e
mobilizações contrárias
à cobrança da água e de
repúdio à Suez Lyonesse,
a principal
multinacional de água
potável e serviços
sanitários do mundo, em
lugares tão distantes e
distintos como Buenos
Aires (Argentina),
Atlanta (Estados
Unidos), Nelspruit
(África do Sul),
Cochabamba (Bolívia),
Jacarta (Indonésia),
Paris (França), Manila
(Filipinas), Santiago
(Chile). No jornal de
São Paulo,
Correio da Cidadania,
da última semana de
fevereiro de 2005, Tiago
Soares publicou sua
entrevista com Tony
Clarke, “A Mecânica do
Saque”, que
reproduzimos,
parcialmente:
“Tony
Clarke é um dos maiores
especialistas na questão
da privatização da água.
Diretor do Instituto
Polaris, instituição
sediada no Canadá
dedicada à análise de
processos de
privatização ao redor do
mundo, Clarke é autor,
com a canadense Maude
Barlow, de “O Ouro
Azul”, clássico recente
do ambientalismo.
Presente
ao Fórum Social Mundial
em debate promovido pela
ONG Amigos da Terra,
Clarke concedeu
entrevista na qual
desvenda a mecânica do
saque dos recursos
hídricos pelas grandes
corporações. E como, no
fim das contas, isso
pode acabar nos levando
ao pior cenário
possível.
Tiago
Soares:
Para começar, gostaria
que o senhor desse uma
pequena explicação aos
leitores sobre o papel
da água dentro da atual
ordem econômica e
industrial.
Tony
Clarke:
Hoje, a água é para o
mundo o que o petróleo
foi durante o século 20.
Ela é o “ouro azul”,
essencial à vida, nosso
item mais valioso. Mais
que isso, ela é central
aos nossos sistemas
urbanos e industriais -
sistemas que exigem água
em quantidade
gigantesca, motivo pelo
qual contamos com cada
vez menos recursos
hídricos disponíveis.
Este
modelo de utilização faz
com que fiquemos
expostos a problemas
bastante sérios,
ecologicamente falando.
Sem medidas que
conservem e readequem o
modo como os recursos
hídricos são
administrados, eles
podem simplesmente
secar. E estamos falando
de um item absolutamente
essencial à
sobrevivência humana.
TS:
Em não poucos casos,
organismos financeiros
internacionais sugerem a
países em
desenvolvimento que o
setor hídrico seja um
dos primeiros abertos ao
capital privado.
Existiria realmente
alguma falha estrutural
nos sistemas públicos de
água e esgoto?
TC:
Não tenho qualquer
dúvida sobre a
eficiência do sistema
público, que considero
perfeito. O que acontece
é que, a partir do
momento em que se
privatiza este tipo de
serviço, você acaba
trilhando um caminho
bastante perigoso, cheio
de armadilhas.
TS:
Essas armadilhas, como
funcionam?
TC:
Em primeiro lugar, o que
acontece é que,
privatizados os serviços
de água e esgoto, os
tributos cobrados sobem
automaticamente,
simplesmente porque a
companhia tem a
necessidade e o
interesse de garantir
que seus lucros sejam
polpudos, que seus
acionistas tenham um bom
retorno financeiro. Além
disso, as companhias
precisam cobrir o
dinheiro que desembolsam
com a privatização, e
isso faz com que os
preços subam ainda mais.
TS:
E quais são as
conseqüências sobre os
usuários?
TC:
Este comportamento das
corporações obriga a
população a pagar preços
absurdos, cada vez mais
altos. Isso por um
serviço ao qual, até bem
pouco tempo, ela teria
acesso por bem menos
dinheiro. E o que
acontece em seguida,
obviamente, é que os que
podem pagar são
atendidos, e os que não
podem, têm a água
cortada. Logicamente, os
atingidos pelos cortes
são as famílias e
comunidades mais pobre.
No fim
das contas, isso nada
mais é do que negar às
populações pobres o
direito ao item
absolutamente essencial
à vida que é a água.
Este tipo de
desdobramento é sinal
bem claro dos problemas
presentes nos esquemas
de privatização
implementados em lugares
como Jacarta,
Joanesburgo, Buenos
Aires e Manila - um
processo no qual as
perdas ultrapassam em
muito os benefícios.”
2-4-1-
Quando as Regras de
Mercado Não Funcionam: Quanto
Maior a Oferta de Água,
Mais Cara Ela Fica!
Em
regiões como a do Estado
de São Paulo, com tantas
fontes para a captação
de água, estejam em uso
ou sendo alternativas
futuras, a cobrança pela
água deixa evidente que
os interesses dos
governantes e
administradores do
setor, responsáveis por
essa cobrança, não
coincidem com os
interesses da maioria da
população.
Quais as
fontes de abastecimento,
para exemplificar, do
Município de São Paulo?
No convite da Secretaria
do Verde e do Meio
Ambiente para o debate
“Águas de São Paulo e
Mananciais”, realizado
na sua sede em 15 de
março/2005, Mônica Borba
nos diz o seguinte:
“Apesar
de não ser percebido por
muitos, a cidade de São
Paulo se localiza em uma
bacia: a Bacia
Hidrográfica do Alto
Tietê. Conta com
mananciais importantes
como as represas
Billings e Guarapiranga.
Essas represas cobrem
extensas áreas nas
regiões sudeste e
sudoeste da Grande São
Paulo. Apesar de estarem
praticamente cercadas
por ambiente urbano, as
regiões das represas
ainda possuem alguns
grandes trechos cobertos
por matas. Elas oferecem
lindas paisagens,
possibilidade de lazer,
uma biodiversidade
importante e,
principalmente, água.
Atualmente, o Sistema de
Abastecimento
Metropolitano, conta com
oito Estações de
Tratamento de Água:
1)
Sistema Cantareira
- É o maior sistema
produtor. Capta água dos
rios Jaguari, Jacareí,
Cachoeira, Atibainha e
Juqueri. Produz 33 mil
litros de água por
segundo. Abastece 8,8
milhões de pessoas nas
zonas norte, central,
parte da leste e oeste
da Capital e os
municípios de Franco da
Rocha, Francisco Morato,
Caieiras, Guarulhos
(parte), Osasco,
Carapicuíba, Barueri
(parte), Taboão da Serra
(parte), Santo André
(parte) e São Caetano do
Sul.
2)
Sistema Baixo Cotia
- capta água do Rio
Cotia e produz 1.100 l/s
de água. Abastece 300
mil pessoas de Barueri,
Jandira e Itapevi.
3)
Sistema Alto Cotia
- Capta água da represa
Pedro Beicht e produz
1,3 mil litros de água
por segundo. Abastece
400 mil habitantes de
Cotia, Embu, Itapecerica
da Serra, Embu-Guaçu e
Vargem Grande.
4)
Sistema Guarapiranga
- o segundo maior
sistema produtor de água
fica próximo da Serra do
Mar. A água é
proveniente da represa
Guarapiranga.Produz 14
mil litros de água por
segundo e abastece 3,7
milhões de pessoas da
zona sul e sudoeste da
Capital.
5)
Sistema Rio Grande
- é um braço da Represa
Billings. Produz 4,2 mil
litros de água por
segundo e abastece 1,2
milhão de pessoas em
Diadema, São Bernardo do
Campo e parte de Santo
André.
6)
Ribeirão da Estiva
- capta água do Rio
Ribeirão da Estiva e
produz 100 l/s de água.
Abastece 20 mil pessoas
do Município de Rio
Grande da Serra.
7)
Sistema Rio Claro
- fica a 70 km da
Capital e produz 4 mil
litros de água por
segundo captada do rio
Ribeirão do Campo.
Abastece 900 mil pessoas
de Sapopemba (parte), na
Capital, e parte dos
municípios de Ribeirão
Pires, Mauá e Santo
André.
8)
Sistema Alto Tietê
- Produz 10 mil litros
de água por segundo
provenientes das
barragens Ponte Nova,
Paraitinga, Biritiba,
Jundiaí e Taiaçupeba.
Abastece 2,7 milhões de
pessoas da zona leste e
dos municípios de Arujá,
Itaquaquecetuba, Poá,
Ferraz de Vasconcelos e
Suzano.”
A
administração de um
recurso de tamanha
importância para a
cidade, não pode ser
vista como, apenas, mais
uma questão da área de
engenharia (execução,
manutenção e operação de
obras e equipamentos de
drenagem, contenção
etc.). Tanto na
elaboração do
diagnóstico, quanto no
planejamento e execução
dos projetos, o aspecto
sócio-ambiental é
decisivo para que sejam
alcançados os objetivos
de suprir as
necessi9dades vitais da
população e atender às
demandas das atividades
econômicas.
A visão
da água como mercadoria,
combinada às atividades
econômicas predatórias
do meio ambiente, tendem
a dificultar as
possibilidades de
utilização
ambientalmente
sustentável da água. Tal
postura pode, inclusive,
comprometer reservas
estratégicas, inclusive
as subterrâneas, sendo
incapazes de conter as
ações degradadoras, como
as que atingem do
Aqüífero Guarani,
por exemplo, com o
comprometimento da
qualidade das águas
através da contaminação
do solo, com formas de
captação inadequadas e
intersecções
prejudiciais aos lençóis
freáticos por obras mal
planejadas.
2-5-
Outro Destino para o
Lixo e para as
Pessoas que Vivem Nele
O
preconceito, que faz
sentirmos asco quando se
fala a respeito do lixo,
é muito conveniente para
as grandes empreiteiras
do setor. Quando
encaramos o lixo como,
simplesmente, algo do
que nos livrarmos, sem a
preocupação com o seu
destino, acabamos tendo
que pagar um preço muito
caro para que alguém
cuide disso. Justamente
por este fato e por não
enxergarmos os resíduos
sólidos (o lixo) como
fonte da reutilização de
matérias, é que um
número cada vez maior de
pessoas excluídas da
sociedade formal (sem
emprego, muitas vezes
sem ter onde morar)
acaba se misturando aos
“restos”, que como elas
são desprezados por
quase todos. Só muito
recentemente e, ainda,
de forma embrionária e
que começaram a surgir
as cooperativas de
coleta seletiva e
reciclagem do lixo.
Na
verdade, a visão de
pessoas e até de
famílias inteiras
trabalhando de forma
inadequada, comendo e
morando no meio do lixo
é um dos indícios da
falência desta estrutura
social, classista e
crescentemente
excluidora dos já
despossuídos. Mas, o
problema não se resume
nisso e deve preocupar a
todos, principalmente
aos moradores das
grandes cidades.
Em muitos
dos principais centros
urbanos do Brasil já não
se tem mais onde
estabelecer aterros
sanitários (depósitos de
resíduos com critérios
técnicos). É claro que
os "lixões", depósitos
clandestinos e/ou
inadequados de lixo de
vários tipos (doméstico,
industrial, de entulhos
etc.), continuam sendo
adensados e criados
criminosamente pelo país
afora. Todo esse
material, numa cidade
como São Paulo, por
exemplo, é produzido em
grandes quantidades - só
de lixo, armazenado
legalmente, temos cerca
de 15 mil toneladas
diárias
Neste
texto, vamos distinguir
dois encaminhamentos
para dos resíduos
sólidos. Um
encaminhamento seria o
do “tratamento”. O outro
seria o do “destino
final”. Não estão
incluídos, aqui, o
chamado entulho, restos
de materiais de
construção civil, que
quase não é reciclado no
Brasil atual e os
chamados “bagulhos”,
móveis e equipamentos
domésticos fora de uso.
Existem
pelo menos quatro
tecnologias para o
tratamento dos resíduos
sólidos: 1) a
“reciclagem”, que é
precedida pela coleta
seletiva e a triagem do
chamado lixo seco; 2) a
“compostagem” ou
reciclagem do lixo
orgânico para ser
utilizada no trabalho
com a vegetação; 3) o
“tratamento térmico”,
que visa a diminuição do
volume de lixo a ser
armazenado (fornos
cremadores do lixo
domiciliar - acima de
800°) ou a desinfecção
do lixo hospitalar
(fornos de microondas ou
ondas de rádio de baixa
freqüência - até 120°);
e 4) a “autoclave”, que
também faz a
desinfecção, utilizando
vapor de água e alta
pressão.
O “aterro
sanitário”, que utiliza
tecnologia para
armazenar o lixo sem
poluir, funciona como
quase a única destinação
final dos resíduos
sólidos, em São Paulo.
Atualmente, a maior
parte do lixo vai direto
para os aterros, mas
deve-se buscar o dia em
que os aterros serão o
destino, apenas, para a
parte do lixo restante
das diversas formas de
tratamento e para a
qual, ainda, não houver
tratamento adequado. Não
se pode esquecer, ainda,
que a fiscalização atual
é insuficiente para
acabar de vez com os
criminosos “lixões” –
locais onde é despejado
lixo domiciliar,
industrial e, até,
resíduos da área da
saúde (de hospitais,
farmácias etc.), ilegal
e clandestinamente.
Deve-se
dispor simultaneamente
das tecnologias
existentes,
utilizando-as de forma
combinada e adequada
para cada momento. A
composição e a
quantidade do lixo são
as referências básicas
para a definição do uso
combinado dessas
tecnologias. Este
conjunto de
procedimentos é
conhecido como “gestão
integrada dos resíduos
sólidos”.
Em todo
esse processo, por mais
moderno que seja, o
acompanhamento ambiental
continua indispensável,
desde os projetos no
papel, passando pela
escolha dos equipamentos
a serem utilizados e até
o cotidiano do
funcionamento de cada um
deles, já que os riscos
de poluição e/ou
degradação ambiental
nunca são eliminados por
completo. Além disso,
deve-se recorrer cada
vez menos a aquelas
tecnologias que
armazenam o lixo,
ocupando espaços
preciosos, como é o caso
dos aterros.
É claro
que campanhas
educacionais se fazem
necessárias. Em diversos
países do chamado 1º
mundo, por exemplo, são
feitas campanhas
intensivas e duradouras,
que buscam tornar
conhecidos os “3 R”:
Reduzir, Reutilizar e
Reciclar. Porém, o mais
importante seria a
criação das condições
necessárias para que a
população pudesse
acompanhar amiúde a
administração do lixo,
tanto para garantir que
as soluções utilizadas
atendessem aos seus
interesses (não
poluidoras,
economicamente viáveis e
sustentáveis, em termos
urbanos e ambientais),
quanto para inviabilizar
a corrupção no setor.
Além da
importância política
deste acompanhamento
popular, há também um
interesse
sócio-econômico a ser
destacado.
Principalmente, no caso
da reciclagem do chamado
lixo seco, mas também no
da compostagem, o
tratamento do lixo pode
ser operado, cada vez
mais, por pequenas
cooperativas
comunitárias. Essas
cooperativas comporiam o
sistema municipal,
contribuindo para a
viabilização do
gerenciamento integrado.
Isso evitaria o
gigantismo nesta área
(as grandes empreiteiras
e suas grandes
concentrações
geográficas da
atividade), além de
propiciar novas fontes
de emprego para a
população, tornar mais
fácil a administração
geral e o controle dos
recursos financeiros,
aplicados neste serviço
básico.
2-6-
Lutar pela Reforma
Urbana.
Na
verdade, as medidas de
fundo, para atacar com
eficiência o problema da
degradação ambiental,
mesclam-se com as que
deveriam ser tomadas
para resolver os
problemas da área
econômica e os da
sobrevivência e bem
estar das populações. Um
dos temas, que melhor
combina essas diversas
áreas é o da “reforma
urbana”. Mas, uma
reforma urbana combinada
ao desenvolvimento
sustentável, tem a
distribuição de renda
mais eqüitativa e a
justiça social, como
integrantes
imprescindíveis da
almejada harmonização
ambiental.
Ao
falarmos em reforma
urbana, estaremos
falando em problemas
estruturais da cidade,
que envolvem desde os
problemas de trânsito;
as insuficiências e
incorreções viárias; as
distorções do zoneamento
e dos planos diretores
(conjunto de políticas
públicas, serviços e
obras, que definem uma
dada forma de
desenvolvimento das
cidades), até, mudanças
culturais, as quais
passam pela questão
educacional,
viabilizando um novo
comportamento, mais
adequado aos próprios
interesses cidadãos de
toda a sociedade, etc.
Medidas
estruturais? Atenção!!!
Não estamos falando,
apenas, de recursos
gigantescos, que podem
ser ou não utilizados,
dependendo de interesses
econômicos e políticos
mais imediatos. Entramos
na seara das forças
políticas, que regeram o
surgimento e o
desenvolvimento das
cidades, sem as quais
não existiriam as
cidades que nós
conhecemos, com todas as
suas desigualdades e
injustiças sociais, mas
outras cidades e outros
tipos de ocupação do
espaço.
Isso não
quer dizer que, se
mexermos nessas
características
estruturais das cidades,
estaremos, forçosamente,
mudando também a
estrutura social, pois
são coisas diferentes,
embora mantenham um
estreito vínculo. Nos
países chamados
desenvolvidos existem
cidades estruturalmente
muito melhor resolvidas,
que convivem com
injustiças sociais
semelhantes às que nos
referimos. Entretanto, o
esforço para promover
mudanças estruturais na
maior cidade de um país
dependente ou “em
desenvolvimento”, por
exemplo, cuja elite
dominante é simplesmente
despótica, em termos de
importância política,
equivale ao esforço pela
efetivação da reforma
agrária, com a qual deve
estar em interação.
Alguns
podem pensar que há
nesse raciocínio um
exagero, que as medidas
de fundo necessárias se
resumiriam, no âmbito da
circulação, por exemplo,
em melhorias no sistema
viário e de transporte
coletivo, priorizando as
alternativas de subsolo
e aéreas, além de tornar
obrigatório o uso de
catalisadores e filtros
de fumaça. Poderíamos
responder a isso dizendo
tratar-se da ponta de um
iceberg, pois, ao
executar tais medidas de
acordo com os interesses
da maioria da população,
se estaria mudando os
valores imobiliários, as
características que
determinaram o atual
zoneamento da cidade e
alterando, sob diversos
aspectos, um quadro que
define a própria
existência dos
privilégios
caracterizadores da
sociedade de classes, em
que vivemos.
É claro
que, para construirmos
uma cidade, que possa
abrigar uma sociedade
com melhor distribuição
de renda, mais justa e
democrática, seria
indispensável a
participação de
crescentes setores
organizados da
população, que hoje não
participam da maioria
das decisões
importantes. Alias,
estes setores deveriam
ser integrados
imediatamente nesse
debate, já que a
poluição e a degradação
ambiental atingem a
todos e, de forma
particularmente aguçada
nas comunidades pobres,
às crianças, aos idosos
e às pessoas com a saúde
já debilitada. Temos,
portanto, tarefas para
os sindicatos, entidades
dos movimentos
populares, instituições
da sociedade civil
comprometidas com a
mobilização social etc.
2-6-1-
Aprofundar um Projeto
Dinâmico e uma
Metodologia Adequada
para Reforma nas
Complexas Condições
Urbanas Atuais
Sobre o
tema da reforma urbana,
cujo debate está muito
aquém das necessidades
vigentes, é importante
ocuparmos pelo menos
mais dois momentos do
presente trabalho. Este,
avança nos aspectos da
diversidade dos
interesses sociais em
jogo e nos aspecto
metodológico, que devem
ser contemplados pelas
políticas públicas, em
temas tão amplos e
complexos. Já, o próximo
momento, o item “3- A
Realidade dos Movimentos
Sociais”, aborda a
situação de alguns
desses movimentos,
entendendo que nestes
quadros está o potencial
de interação entre as
suas lutas específicas e
as demandas geradas pela
crise ecológica, o que
pode também contribuir
para a unificação das
lutas dos diversos
movimentos.
Na
monografia final do
Curso de Especialização
em Gestão Ambiental
(CEGA-5 / 1998) das
Faculdades de
Arquitetura e Urbanismo
e da Faculdade de Saúde
pública da Universidade
de São Paulo, “A
Distribuição do Espaço
Urbano e o Meio
Ambiente: o Caso dos
Bairros Lindeiros ao
Projeto de Corredor de
Ônibus Ibirapuera”,
logo na Introdução,
lê-se o seguinte:
“O caos
urbano da maior
metrópole da América
Latina tem algum tipo de
solução? Isso nos obriga
a pensar em
procedimentos e recursos
que superem o que já
existe, em mudanças
estruturais, em uma
reforma urbana. É
evidente que não existem
soluções prontas, se
quer se deve procurar
fórmulas muito precisas.
No máximo, podemos
pensar em fatores, os
quais deverão estar,
incondicionalmente,
presentes num projeto de
desenvolvimento
sustentável para a
cidade, o que já é um
bom começo.
Um desses
fatores, sem dúvidas, é
o tempo e isso nos
indica que teremos
providências de curto,
médio e longo prazos a
serem tomadas. Temos,
inclusive, que levar em
consideração o tempo,
que deverá ser consumido
para que possam ocorrer
mudanças profundas, numa
cidade com o grau de
consolidação dos
problemas e com as
dimensões, de São Paulo.
Concorrem, bastante,
para isso os conflitos
de interesses
econômicos, sociais e
políticos, que não
poderão ser evitados na
execução de um projeto
desse tipo. Portanto,
mais de uma geração de
habitantes participarão
do processo, o qual
permeará diversas
conjunturas, cada qual
com opiniões
majoritárias próprias, o
que prenuncia várias
marchas e contramarchas
na direção das soluções,
que finalmente serão
adotadas.
Outro
fator, do qual não
podemos esquecer,
também, é o de que,
tendo em vista a
realidade de São Paulo,
com suas injustiças e
desigualdades sociais e
econômicas estampadas
nas condições de
ocupação e de uso dos
seus espaços, é
indispensável que se
comece a pensar em
soluções de conjunto
para o seus grandes
problemas, já que, como
problemas estruturais da
cidade, estão
interligados.
Um outro
fator, ainda, é o da
forma de se chegar às
resoluções, que terá que
ser bastante democrática
e eficiente para, de
forma adequada a cada
caso, envolver toda a
população direta,
indireta e difusamente
ligada ao que estiver em
planejamento ou sendo
feito. Essas soluções
não poderão ser
efetivadas à partir,
simplesmente, de
resoluções
governamentais ou pela
vontade de grandes
urbanistas, por mais
geniais que sejam seus
projetos. Nada terá
efeito, se não tiver
passado pelo crivo do
imenso sujeito coletivo,
que dá vida e abrange
todos os espaços da
cidade: seus habitantes,
que na totalidade
almejam ser seus
cidadãos, embora nem
todos já tenham
concretizado esse
direito.
Podemos
afirmar, que para
atingirmos um nível de
desenvolvimento que
possa ser considerado
sustentável, teremos que
modificar aspectos
estruturais da cidade,
como: as questões
habitacional; das zonas
industriais e de
serviços; a implantação
adequada dos espaços
verdes; a
infra-estrutura de
lazer; a estrutura
viária ; o manejo dos
rios e córregos; a
operacionalização de
certas tarefas de
saneamento básico,
envolvendo o sistema de
esgotos e a disposição
dos detritos sólidos. É
evidente que as mudanças
deste tipo imprescindem
das negociações, dos
acordos, dos plebiscitos
e de outras formas de
resoluções, envolvendo
campanhas elucidativas
etc.. Não podemos
esquecer que tudo isso
é, apenas, reflexo da
estrutura social vigente
no país, que, sob os
contextos econômico e
político, é fonte de
terríveis injustiças,
facilmente constatáveis
a olho nu.
Por essas
e por outras razões é
que a questão da
participação popular não
é uma questão simples de
resolver. As formas, já
definidas em lei, como
as “audiências
públicas”, são apenas
referências iniciais
para aquilo, que deverá
vir a ser uma
participação popular
efetiva. Na verdade,
devemos estar abertos
para várias formas
diferenciadas e
criativas da presença
popular nas resoluções,
que terão que responder
a problemas
diversificados e
complexos. Quando se
tratar de uma obra, por
exemplo, os munícipes
com formação técnica e
as ONGs (Organizações
Não Governamentais),
ligadas ao assunto
precisarão de espaço
próprio, até para que
possam contribuir na
elucidação das questões
e oferecer os seus
projetos para o amplo
público, que finalmente
decidirá.
Certamente, derivados
desses ou não, haverão
outros fatores a serem
arrolados num debate de
tal importância.
Todavia, os que
arrolamos até aqui são
suficientes para
iniciarmos a abordagem
do tema escolhido.
O esforço
cristalizado no presente
trabalho se juntará à
aqueles, que pretendem
adotar como norte a
busca de um
desenvolvimento
sustentável, envolvendo
uma justa distribuição
de renda entre a
população. Isso
pressupõe a superação
das posturas
concentradoras de
riquezas nas mãos de
poucos particulares e,
também, de uma outra,
derivada da primeira,
que é a da gestão da
coisa pública voltada
para interesses não
públicos. Essas
posturas, juntas e
combinadas a outras do
mesmo caráter, são as
principais responsáveis
pelo atual estado de
degradação do meio
ambiente. Se lembrarmos
que São Paulo é uma
cidade, que pertence a
uma sociedade de classes
sociais bem distintas e
complexas, concordaremos
com o resgate de um
pensamento de Gramsci,
feito por Maria
Immacolata Lopes (1994):
“Numa
sociedade de classes, a
diversidade de situações
objetivas produz um
complexo campo de
representações onde
coexistem culturas não
somente diferentes, mas
desniveladas basicamente
em dois planos, a
cultura hegemônica e as
culturas subalternas,
conectadas com a divisão
em classes e a
conseqüente distribuição
diferenciada do poder e
da fruição cultural.”
Pela
abrangência e
profundidade das
questões envolvidas,
tanto em termos
espaciais, quanto
históricos, teremos que
enquadrar a temática
deste trabalho no debate
sobre a necessidade de
uma reforma urbana,
colocada para a cidade
de São Paulo e toda a
sua região
metropolitana. Mas, não
se trata de qualquer
reforma. Resumindo o que
falamos acima, a reforma
que temos como
referência é uma capaz
de conquistar um
desenvolvimento
ambientalmente
sustentável, que
imprescinda da boa
qualidade de vida para
toda a população. Assim
é, não por megalomania
dos autores, que se
restringiram a estudar
uma área bem delimitada
da capital, mas por não
haver outra forma de
sanear a cidade nas suas
funções indispensáveis,
descritas por Le
Corbusier:
habitar, circular,
trabalhar, lazer e
patrimônios histórico e
ambiental, além de todas
as demais funções,
derivadas dessas ou não,
necessárias para os fins
já colocados.”
2-6-2-
Por Que Setores
Populares se Mobilizam
pela Reforma Urbana
O jornal
“São Paulo Nossa Cidade”
de setembro/2005,
organizado pelo
Instituto Polis, São
Paulo/SP. Reproduzimos a
sua página 6, que traz
matéria bastante
esclarecedora sobre a
compreensão dos
movimentos sociais
interessados numa
reforma urbana, escrita
pelo representante do
mencionado Instituto no
Fórum Nacional de
reforma Urbana, Nelson
Saule Junior.
“Reivindicações
da Marcha
Nacional
da Reforma Urbana
A Marcha
Nacional da Reforma
Urbana e pelo Direito à
Cidade, uma iniciativa
dos movimentos sociais
urbanos, de âmbito
nacional: CONAM –
Confederação Nacional de
Associação de Moradores,
MNLM – Movimento
Nacional de Luta pela
Moradia, UNMP – União
Nacional por Moradia
Popular e CMP – Central
de Movimentos Populares,
do Fórum Nacional de
Reforma Urbana e da
Frente Nacional pelo
Saneamento Ambiental,
vem sendo discutida e
construída desde o
início deste ano pelos
movimentos e fóruns de
reforma urbana de todo o
país e tem como objetivo
sensibilizar o governo
brasileiro e a sociedade
para as profundas
desigualdades sociais
existentes nas cidades,
especialmente para a
falta de moradia digna e
saneamento ambiental.
Neste caminho, a marcha
foi integrada à
Plataforma Brasileira da
Ação Global contra a
Pobreza.
Moradia
digna para a população
de baixa renda
1. A
regulamentação e
implementação da Lei
11124/2005, que cria o
Fundo e o sistema
Nacional de Habitação de
Interesse Social. A
garantia de recursos do
lucro operacional do
FGTS para o FNHIS, bem
como de recursos do FDS,
Fundo de desenvolvimento
Social, é de, no mínimo,
1,2 bilhões do Orçamento
Geral da União (OGU) em
2005.
2. O
atendimento da demanda
dos movimentos de
moradia de 50.000 novas
unidades habitacionais
ainda este ano e de
100.000 novas unidades,
de padrão adequado, por
ano, a partir de 2006.
3. A
destinação de terras
vazias e dos prédios
desocupados ou
parcialmente ocupados da
União para habitação de
interesse social.
4. A
implementação de uma
Política Nacional de
Prevenção de despejos
Forçados.
5. A
continuidade do Programa
Crédito Solidário com a
mudança das regras que
não tem permitido o
acesso ao crédito para a
população de baixa
renda. O reconhecimento
das
associações/cooperativas
como entidades jurídicas
que possam ser titulares
do financiamento. O
reconhecimento dos
terrenos/imóveis
públicos e dos
terrenos/imóveis ainda
não regularizados como
garantia para o
financiamento. A
eliminação da cobrança
de taxas de análises e
de abertura de crédito.
A eliminação da
exigência de que as
famílias não tenham
restrição ao seu
cadastro por problemas
com o SPC ou SERASA. A
ampliação do limite de
financiamento. O apoio e
a capacitação pelo
Ministério das Cidades
dos grupos
beneficiários. A
articulação pelo
Ministério das Cidades
de Comitês Municipais de
Apoio ao Programa.
Regularização fundiária
1. Apoio
e financiamento público
para a prestação dos
serviços de assistência
técnica e jurídica
gratuita para a
população de baixa
renda.
2.
Regularização das terras
remanescentes de
quilombos: que a União
proceda à titulação das
comunidades
remanescentes de
quilombos, mediante os
reconhecimento pela
Funda Cultural Palmares,
e a demarcação e
titulação, pelo INCRA,
de acordo com o Decreto
nº 4.887/03.
3.
Discussão pública do
Projeto de Lei que
revisa a Lei de
Parcelamento do Solo:
que seja pactuada com a
Comissão de
Desenvolvimento Urbano
da Câmara dos Deputados
agenda de Audiências
Públicas nos Estados
para a discussão do
Projeto de Lei nº.
3057/2000 de revisão da
Lei 6.766/79.
Saneamento ambiental e
serviços
1. O
acompanhamento do
Projeto de Lei 5296/05,
que cria a Política
Nacional de Saneamento
Ambiental, encaminhado
pelo governo, após amplo
debate nacional com a
sociedade, para a sua
aprovação na íntegra no
Congresso Nacional.
2.
Tarifas Sociais de
Energia Elétrica e Água:
que o Ministério de
Minas e Energia, o
Ministério das Cidades e
Ministério do
Desenvolvimento Agrário
constituam um programa
nacional de tarifa
social, com critérios
baseados nas
desigualdades sociais e
regionais, e nas
condições econômicas dos
moradores e de
assentamentos de baixa
renda. Este programa
deve ser instituído com
anuência do Conselho
Nacional das Cidades,
reconhecendo o direito à
tarifa social aos
inscritos em programas
sociais governamentais
que residam em imóveis
com até 90 m2,
de padrão de moradia
popular ou nas Zonas
Especiais de Interesse
Social registradas pelos
Municípios.
Mobilidade e transporte
1. A
promoção de políticas
que garantam o direito
ao transporte público de
qualidade através de
recursos permanentes
para o setor; o
barateamento das tarifas
através da justiça
social e tributária; a
priorização do uso do
viário para o transporte
público; a integração
entre os vários modais
de transporte; a
ampliação do sistema
metro-ferrovias nas
regiões metropolitanas;
a ampliação das
ciclovias e ciclo-faixas;
a paz no trânsito
através de campanhas;
liberação de recursos
contingenciados; e
medidas que garantam
acessibilidade para as
pessoas com deficiência
e mobilidade reduzida.
2.
Barateamento das tarifas
de transporte
público:propor ao
Presidente da República
que determine a retomada
dos trabalhos do Pacto
Federativo pelo
Barateamento das Tarifas
entre Governo Federal e
Municípios (estes com a
participação dos
Estados), MDT (Movimento
Nacional pelo Direito ao
Transporte) e Frente
Parlamentar do
Transporte Público,
paralisados desde julho
de 2004.
Justiça
1.Punição
dos culpados pelo
assassinato de sem-tetos
de Goiânia: a
federalização do
julgamento dos crimes
contra os direitos
humanos ocorridos no
despejo arbitrário e
violento ocorrido em
fevereiro desse ano em
Goiânia e a punição dos
culpados pelo
assassinato de dois
sem-teto durante a
desocupação realizada
por um efetivo de 3 mil
homens da polícia
militar de Goiás, que
despejou cerca de 15 mil
pessoas da
ocupação”Sonho Real”, em
3 horas, na denominada
Operação Triunfo.
Chamamos a atenção para
o fato de até agora
terem morrido quase 10
pessoas pelas condições
insalubres dos ginásios
onde as famílias foram
alocadas. Até o presente
momento, os governos
Federal, Estadual e
Municipal não garantiram
o atendimento
habitacional às
famílias.
2. Fim da
criminalização dos
movimentos populares: em
vários estados do Brasil
têm ocorrido prisões e
perseguições pelo poder
judiciário contra
lideranças dos
movimentos sociais. \Um
dos casos mais
emblemáticos é o de Luiz
Gonzaga da Silva, o Gegê,
líder do movimento Sem
Teto, ameaçado com
prisão preventiva sem
ter cometido crime
algum.Que o Ministério
da Justiça – Secretaria
de direitos Humanos,
levante, em conjunto com
a sociedade civil, todas
as perseguições e
prisões envolvendo
lideranças dos
movimentos populares,
para que, em discussão
com os Estados, possam
cessar tais
perseguições.”
3- A
Realidade
dos Movimentos sociais
È
importante abordarmos,
ainda que brevemente, a
situação e os impasses
políticos, em que se
encontram alguns
movimentos sociais. Esse
esforço pode contribuir
para o conhecimento das
especificidades, de
caminhos ainda não
explorados e do que há
de comum entre os
diversos movimentos. Com
isso se poderá pensar em
soluções capazes de
contribuir para a
superação dos impasses e
num processo, que
promova a unificação das
lutas comuns e a
combinação das ações
sobre temas em
interação. A caminhada
ecossocialista passa
pela conscientização a
este respeito de
parcelas significativas
da população.
O
movimento sindical
sofre uma dura
realidade:
·
o toyotismo, um dos
nomes da nova estrutura
de produção industrial,
reduziu drasticamente os
postos de trabalho,
reduzindo também
estoques de matérias
primas, peças de
reposição dos
equipamentos e insumos,
jogando grande
contingentes de
profissionais no
desemprego;
·
a competitividade
internacional incentivou
a terceirização e a
desregulamentação do
trabalho (retirada de
direitos trabalhistas),
visando a redução dos
gastos adicionais aos
salários;
·
os sindicatos viram suas
bases reduzidas por
essas duas razões e
enfrentam dificuldades
para se unificarem, seja
em termos de ampliação
da base territorial, de
categorias afins ou de
acordos políticos, que
viabilizem as
unificações;
·
como se não bastasse, o
ímpeto reformista,
acordado pelo governo
Lula com o empresariado,
aponta para a
consolidação no corpo da
legislação de todos
esses ataques aos
interesses dos
trabalhadores e para a
debilitação da própria
estrutura sindical, com
propostas de sindicatos
por ramos de atividades
e não mais por
categorias profissionais
(pulverizando-os), com
aumento da interferência
do Ministério do
Trabalho na vida
sindical etc.
O
Movimento dos Sem Terra
(MST) é um dos
movimentos da sociedade
civil com maior
reconhecimento político
nos últimos anos. Isso
se deve à sua
representatividade, já
que reúne parcela
significativa dos
trabalhadores rurais sem
terra, sempre defendendo
seus legítimos
interesses nos contatos
e negociações com as
autoridades, com os
proprietários de terra e
nas ações conjuntas com
os demais movimentos
sociais.
Não
deixou de apoiar o
governo Lula, apesar da
crise política aberta em
meados de 2005 e de
divergir da sua política
econômica. Tal apoio
pode ser devido ao
acordo político de até o
final do mandato se
atingir ao número de 430
mil famílias assentadas
e à parceria do governo
com entidades, que o
auxiliam em atividades
de caráter técnico ou de
ajuda aos assentamentos.
Todavia, faltando um ano
para o final da atual
gestão do governo
federal, apenas 45% do
acordo de assentamentos
foi cumprido e a relação
entre o governo e as
entidades, que apóiam o
MST, está sendo colocada
em cheque no Parlamento.
No boletim eletrônico
“MST – Informa”, de 25
de novembro de 2005,
abordando o relatório da
Comissão Parlamentar
Mista de Inquérito
(CPMI) da Terra, a
Secretaria Nacional do
MST diz o seguinte:
“As
acusações feitas pelos
parlamentares da direita
recaem sobre a
utilização dos recursos
públicos. Salientamos
que o MST, enquanto
movimento social, não
tem poder legal de
acessar os recursos
públicos. As famílias
nos assentamentos rurais
celebram parcerias com
entidades comprometidas
com a Reforma Agrária.
Entre estas inúmeras
entidades, existem
alguns convênios com a
ANCA (Associação
Nacional de Cooperação
Agrícola), CONCRAB
(Confederação Nacional
de cooperativas de
Reforma Agrária) e
ITERRA (Instituto
Técnico de Capacitação e
Pesquisa da Reforma
Agrária), que estão
sendo investigadas. O
MST tem orgulho do
trabalho realizado por
estas entidades, que são
idôneas e sérias no
trato com a coisa
pública. Ajudam a
combater o
analfabetismo, constroem
a saúde alternativa nas
áreas rurais e trabalham
pela preservação do meio
ambiente, entre outras
iniciativas. Desenvolvem
na prática a vida no
campo, tornando-o um
lugar bom de se viver.
São entidades parceiras
e autônomas, que
respondem por suas ações
e fluxos financeiros. O
MST por sua história é
um movimento
independente de partido
político, ONGs,
entidades, sindicatos e
igrejas e manterá como
princípio político essa
linha.
Compartilhamos abaixo a
entrevista especial
concedida pelo deputado
federal João Alfredo (PSOL-CE),
relator da CPMI da
Terra,... :
J.A:
Se identificamos como
principais problemas a
concentração fundiária,
a grilagem de terras, a
violência no campo e o
trabalho escravo,
apontamos soluções nesse
sentido. A primeira
solução é que o governo
tem que cumprir a sua
meta. Falta pouco mais
de um ano para o final
do mandato governo e
apenas 45% das metas de
assentamento foram
cumpridas. Isso é muito
baixo. E o que é mais
grave: no orçamento do
próximo ano, os recursos
para o pagamento das
desapropriações foram
cortados em 40%. Também
é preciso cumprir as
metas nas outras áreas.
Na questão da titulação
das posses de boa-fé, de
até 100 hectares, apenas
1% do combinado foi
cumprido. Do ponto de
vista do
georeferenciamento, que
é a realização do
cadastro pra levantar o
problema da grilagem de
terra, especialmente no
Pará, apenas 1% foi
cumprido. Nessa linha
administrativa entra
também o fortalecimento
do Incra.”
Os
movimentos populares,
dos sem tetos, sem
atendimento de saúde,
sem transporte, sem
creches e escolas, sem
segurança pública e sem
outros serviços e
equipamentos públicos,
mesmo quando a
desatenção de que são
vítimas está em
evidência na mídia, não
enfrentam dificuldades
menores ao se depararem
com as leis injustas e
as insensíveis políticas
oficiais.
Os
governos neoliberais,
como os que vigem no
Brasil desde Collor
(início dos anos 90),
numa espécie de
prestidigitação
(magia ilusória),
pretendem responder à
demandas desses setores
sociais com as chamadas
políticas sociais
compensatórias, a
exemplo do “Bolsa
Família”, “Fome Zero”
etc. Como o próprio nome
sugere, trata-se de
medidas paliativas para
as situações agudas de
miséria, buscando
amortecer as
insatisfações. Sem
pretender, de fato, a
implantação de políticas
econômicas, que diminuam
o desemprego, melhorem
os salários e iniciem um
processo de melhoria de
vida para os bolsões de
miséria espalhados pelo
país, o que permitiria
que seus integrantes
superassem as terríveis
dificuldades, que
enfrentam.
Para
absorver e colocar à
serviço dos objetivos
neoliberais as antigas
entidades beneficentes,
Organizações Não
Governamentais (ONGs) e
até algumas associações
do movimento social,
voltadas à melhoria das
condições de vida da
população, o segundo
Governo Fernando
Henrique Cardoso criou a
Lei Federal das OSCIP –
Organizações Sociais de
Interesse Público (n°
9.790/99), tornando-as
dependentes dos recursos
governamentais. Várias
dessas entidades já
vinham sendo cooptadas
pelo estado, de diversas
formas, há décadas. Mas,
com essa lei, foram
literalmente
transformadas em
prolongamento do Estado,
no que tange aos
serviços sociais,
perdendo qualquer
potencial contestatório
da política global dos
diversos governos nesse
setor.
Assim
como aconteceu com o
movimento sindical e os
movimentos populares, o
Movimento Estudantil
(ME), também, foi
vitimado por políticas
governamentais. Essas
políticas, por um lado,
visam submeter as
universidades aos
interesses
imperialistas,
privatiza-las e dividir
a base do movimento com
as políticas de cotas
para afrodescendentes, e
com os exames para
avaliar o ensino.
Por outro
lado, as diretrizes
governamentais pretendem
isolar as direções,
criando as condições
para a degeneração das
mesmas. A multiplicação,
sem critérios de
faculdades e
universidades
particulares, além de
criar sérios problemas
no âmbito da formação
acadêmica, propriamente
dita, as instituições de
nível superior, que
tinham alguma tradição
de participação dos seus
alunos no movimento
estudantil, tornaram-se
minoritárias.
Contraditoriamente,
mesmo sendo beneficiadas
com empréstimos de
recursos públicos a
baixíssimos juros, as
instituições
universitárias privadas
têm funcionado com cerca
de 40% de suas vagas
para estudantes não
preenchidas.
Ainda
falando sobre esse
segundo aspecto, é
preciso destacar a
atribuição às entidades
gerais do ME (UEEs e
UNE) da administração
burocrática e financeira
das “carteirinhas”, que
além de documento de
identidade estudantil,
serve para reduzir o
preço do ingresso no
cinema, outras
atividades culturais e
para pagar meia passagem
nos transportes
públicos. Muito dinheiro
passou a circular nessas
entidades, sem que
precisassem de qualquer
esforço para conquistar
o apoio dos estudantes e
sem que tivessem que
lhes prestar contas. O
destino de direções, que
se descolam das suas
bases é o de perder de
vista os interesses
dessas últimas e,
conseqüentemente, perder
a legitimidade e a
representatividade.
Como
resposta à queda
constantes na qualidade
do ensino, fruto de
propostas pedagógicas
equivocadas, do baixo
investimento em
materiais, equipamentos
e, principalmente, da
baixa remuneração dos
profissionais de ensino
e trabalhadores
administrativos da
área., os governos
neoliberais,
particularmente o
governo Lula, tem
acenado com uma reforma
universitária, que nada
mais pretende do que
realizar os objetivos
históricos das propostas
oficiais desde a década
de 60:
·
fazer com que a oferta
de ensino superior deixe
de ser uma obrigação do
Estado e passe a ser uma
atividade de mercado,
condicionada pela oferta
e a procura, sendo
limitada pelo potencial
de geração de lucros,
·
importar modelos dos
países capitalistas
hegemônicos, inclusive
pagando royalties,
·
afastar a possibilidade
de uma formação
acadêmica voltada para
os interesses da maioria
da população brasileira,
·
destinar essa formação
para o cumprimento das
atribuições dos países
dependentes ou em
desenvolvimento no
contexto da divisão
internacional do
trabalho (no caso do
Brasil, seria
desenvolver uma vocação
menos direcionada à
pesquisa científica e à
indústria e mais de
agropecuária
exportadora).
Apesar de
toda essa pressão,
principalmente dos
Estados Unidos, através
Banco Mundial, do
próprio governo de Lula
da Silva e de uma ONG
francesa, ORUS, dirigida
por Edgar Morin,
o que espera os
profissionais de nível
superior recém formados,
muitas vezes ainda com
as dívidas contraídas
para financiar os
estudos, é um alto nível
de desemprego. Assim, a
política educacional em
vigência se mostra
inviável, por não
atender o seu objetivo
de suprir o mercado de
trabalho com
profissionais
adequadamente formados,
contribuindo para
minimizar o desemprego
estrutural (existem
vagas, mas não as e os
profissionais com
formação adequadas para
elas).
3-1- As
Novas Exigências para a
Revitalização dos
Movimentos Sociais.
Sem a
pretensão de
solucionarmos, aqui, os
impasses verificados nos
movimentos sociais,
algumas constatações já
são possíveis:
A
necessidade de
superação das
posturas corporativistas,
que estreitam a visão
dos problemas e das
demandas apenas para o
próprio setor social de
atuação, tornando-se um
obstáculo para as
possíveis unificações
das lutas.
A clara
definição dos objetivos
de cada luta, as
implicações desses
objetivos (não só para o
setor específico, mas
para os outros setores e
movimentos e, também,
para a situação política
mais geral), os métodos
adequados e os recursos
a serem
disponibilizados, tudo
isso propiciando uma
definição mais objetiva
das prioridades, fazem
parte do que poderíamos
chamar de
planejamento estratégico,
envolvendo desde o
cotidiano das entidades
representativas, até as
mobilizações maiores e
unitárias.
A
Agenda 21, como um
recurso, que pode ser
utilizado pelos vários
setores e que, não só
possibilita, como a
própria evolução requer
o cruzamento
intersetorial e
interregional das
Agendas 21. Em rápidas
palavras, consiste em se
elaborar um levantamento
dos problemas
(setoriais, regionais ou
locais) e a
hierarquização dos
mesmos, promovendo a
participação das bases
sociais nisso e nas
ações para a conquista
dos objetivos definidos.
A sustentabilidade
ambiental das soluções
encontradas deve ser
vista como uma questão
de princípio,
contribuindo para a
inauguração da ética de
uma nova cultura.
Do ponto
de vista internacional,
dos países e seus
estados e municípios, a
qualidade da Agenda 21
depende da capacidade
dos movimentos de
pressionarem pela
participação popular e
pela democracia nas
decisões. Mas, do ponto
de vista local (das
comunidades), existem
propostas metodológicas
para essa atividade, que
podem ser utilizadas,
como a do “Questionário
de Referência para a
Elaboração da Agenda 21
pelas Comunidades”.
Todas as
preocupações e sugestões
apontadas neste subitem
se complementam,
compondo um esforço de
superação da visão
fragmentada da realidade.
Como vimos, essa
fragmentação veio com o
mercantilismo,
aprofundou-se na chamada
sociedade industrial,
sempre visando a
maximização dos lucros
dos capitalistas, mas
que a lógica da
dominação burguesa
encarregou-se de
alastrar para todas as
áreas do conhecimento.
Agora,
com a crise geral do
sistema capitalista, que
com a globalização ficou
sem ter para onde
alastrar o seu mercado
e, sem exportar suas
contradições, as
economias hegemônicas,
seus modelos funcionais
e suas lideranças
políticas fragilizam-se,
com os seus problemas
internos escapando dos
seus antigos e, agora,
obsoletos mecanismos de
recalque e com a
insatisfação popular
crescendo. A essa crise
geral do capitalismo
combina-se a crise
ecológica, provando que
o planeta não pode mais
ficar a mercê desses
seus poderosos algozes.
Trata-se, mais uma vez,
de se providenciar o
enterro de um incômodo
cadáver. Mas, sabendo
que essa não será, uma
tarefa fácil, se terá
que procurar
alternativas coerentes,
possíveis e convincentes
aos olhos das maiorias
populares insatisfeitas.
4-
Programas Econômicos
Alternativos
para o
País e Meio Ambiente
Um grupo
de economistas vem
produzindo manifestos
anuais, desde de 2003.
Esses manifestos
conseguem reunir cerca
de 300 nomes, dentre os
quais estão os de
professores
universitários, como
Reinaldo
Gonçalves (UFRJ) e José
Juliano de Carvalho
(USP), dirigentes de
órgãos representativos
da categoria
profissional, como
Rafael da Cunha (SERGS)
e Maria Neusa Costa (SEMG)
e dirigentes de
movimentos sociais, como
João Pedro Stedile (MST)
e Dirlene Marques (FSM).
Apresentam alternativas
à política econômica do
governo Lula, indicam a
possibilidade de
diminuir a dependência
do Brasil, em relação
aos países
imperialistas, de conter
o ritmo de
empobrecimento das
classes intermediárias,
de gerar empregos e de
diminuir a pobreza.
Com essas
posturas, tais programas
alternativos, contribuem
para a redução dos
problemas ambientais,
pois, havendo recursos
para investimentos
internos, pode-se
discutir a ampliação e
melhoria dos
equipamentos de
saneamento básico, por
exemplo. Diminuindo a
pobreza da população e
promovendo a reforma
agrária, pode-se pensar
em boas condições de
vida para as populações
do campo e das cidades,
diminuindo a degradação
ambiental em ambas as
situações etc. Mas,
comparando os fatos de
2003 e 2004,
conseguiram, também,
fazer uma quase profecia
do fraco crescimento,
muito próximo estagnação
econômica, desenhado em
2005:
“O surto
do modesto crescimento
econômico deste ano não
deve iludir a ninguém:
1.
A base de
comparação utilizada é
com o ano de 2003,
quando houve queda do
produto.
2.
O
crescimento observado
concentra-se nas áreas
de exportação e de bens
de consumo duráveis,
enquanto os setores
produtores de bens não
duráveis, onde se
concentra o consumo das
massas, apresenta um
comportamento distinto,
com alguns de seus
segmentos estagnados ou
mesmo em queda.
3.
O
crescimento apurado
efetivamente é ainda
muito baixo para ter
qualquer efeito
relevante sobre a
geração de emprego.
4.
A renda
do trabalho cai pelo
quinto ano consecutivo.
5.
Esse
crescimento não reduz a
vulnerabilidade externa
do país que, ao
contrário, tende a
agravar-se diante do
elevado nível de
endividamento externo,
baixas reservas
internacionais,
crescente
desnacionalização
(inclusive, da
infra-estrutura) e
regressão do sistema
nacional de inovações.”
Como nos
dois anos anteriores, em
2005 atualizaram e
reforçaram suas
posições, frente à
insensibilidade
governista, que tem
aprofundado os problemas
nacionais:
“Mas
nosso principal inimigo
é aquele que afirma a
idéia de que não existem
alternativas. Abaixo,
estamos propondo um
conjunto de medidas que
indica o início de uma
alternativa nacional e
popular para a crise
atual. Elas podem e
devem ser tomadas neste
momento em que amplas
maiorias ainda defendem
mudanças estruturais
para nosso país e
apoiariam com valentia e
intensa mobilização um
programa de natureza
popular. Se aplicadas,
elas inauguram um novo
tempo para as maiorias
que travarão sem vacilar
uma longa luta para
construir uma República
democrática, destinada a
fortalecer a soberania
nacional e superar para
sempre o
subdesenvolvimento.
1.
Baixar as taxas de juro
real (Selic) para o
mesmo nível praticado
nos Estados Unidos e em
países vizinhos da
América do Sul, como
Venezuela e Argentina,
ou seja, ao redor de
2,5% ao ano, e não os
atuais 19,75%. Controlar
as taxas de juros
cobradas pelos bancos
aos comerciantes e
consumidores que chegam
a mais de 100% ao ano.
2.
Mudar a atual política
de superávit primário no
orçamento da União, que
destina vultosos
recursos públicos,
apenas para pagar juros.
Aplicar os 80 bilhões de
reais, recolhidos pelo
governo nesse ano, em
investimentos que gerem
emprego, em educação,
agricultura familiar,
Reforma Agrária, saúde e
moradia.
3.
Dobrar o valor do
salário mínimo e o piso
do valor das
aposentadorias para 454
reais mensais, neste ano
de 2005, e ampliá-los
para 566 reais, em maio
de 2006, visando
distribuir renda e
melhorar as condições de
vida dos mais pobres,
honrando assim os
compromissos assumidos
pelo Governo Lula na
campanha eleitoral.
4.
Recuperar o controle
governamental e público
sobre o Banco Central e
sobre a política
monetária. Impedir a
autonomia do Banco
Central, que já está
sendo adotada pelos seus
diretores, em conluio
com os interesses dos
banqueiros e do capital
financeiro
internacional.
5. Não
assinar acordo da Alca,
e não aceitar regras da
OMC (Organização Mundial
do Comércio) que afetem
a economia brasileira e
os interesses do povo.
6.
Realizar uma auditoria
pública da dívida
externa, como determina
a Constituição, e
renegociar seu valor, já
pago diversas vezes.
Usar os recursos
enviados para o exterior
em seu pagamento, para
investir em educação e
direitos sociais.
7.Mudar as atuais regras
de reajuste das tarifas
de serviços públicos
fundamentais como
energia elétrica, água,
telefone e transporte
publico. Revisar e
reduzir as atuais
tarifas que alcançaram
valores proibitivos e
espoliantes de todo povo
brasileiro, em prol de
grupos oligopólios que
passaram a dominar o
setor depois da
privatização.
8.
Paralisar de imediato as
rodadas dos leilões de
exploração de áreas de
petróleo. Mudar a lei
9478/97 e garantir a
nacionalização do
Petróleo com a
exclusividade da
exploração pela
Petrobras.
9.
Garantir a participação
de representantes da
sociedade brasileira e
dos próprios
trabalhadores em todos
os conselhos de
administração das
empresas públicas e
autarquias, em todos os
níveis: federal,
estaduais e municipais.
10.
Adotar uma política que
proteja a riqueza
nacional, combatendo a
remessa de dólares para
o exterior, em forma de
transferências,
superfaturamento das
transnacionais, lucros,
royalties, etc.,
garantindo sua aplicação
no Brasil. Promover a
repatriação dos recursos
enviados de forma legal,
porém ilegítima. Adotar
medidas que protejam
nossa economia da
vulnerabilidade
externa.”
Mesmo
havendo interação entre
as posições propugnadas
pelos economistas, que
assinaram esses
manifestos e as
propostas
ecossocialistas, não é
demais que, por
iniciativas coletivas ou
individuais, tais
propostas sejam
encaminhadas e/ou
divulgadas,
independentemente,
buscando o intercâmbio
de conhecimento e um
processo de aproximação
política. Na
oportunidade do
Manifesto de 2004, o
autor do presente
trabalho enviou, entre
outras, as seguintes
propostas, que procuram
destacar aspectos
ambientais:
“3ª)
Seria importante incluir
no Manifesto um item que
falasse no incentivo,
quando se envolvesse
recursos públicos, à
utilização das chamadas
tecnologias limpas (não
degradadores, não
poluentes e que não
desperdicem recursos
naturais ou
utilizem aqueles
recursos, cuja renovação
já esteja comprometida),
inclusive visando à
manutenção e ampliação
da capacidade de
produção de energia do
país.
4ª) Como
existem outras formas de
evasão de recursos, que
não as especificamente
monetárias, seria
importante incluir,
também, a proposta de
elaboração de normas de
controle mais severo,
contendo proibições,
altas taxas para a
exploração e criação de
um forte e eficiente
sistema de fiscalização,
sobre o uso de grandes
porções de terra para as
monoculturas
(principalmente a da
soja), o acesso à água
(seja de superfície,
seja de aqüíferos) e a
subtração de espécimes
vegetais ou da fauna,
seja em pequena ou larga
escala. Caberia, aqui,
ainda, sugerir que o
governo federal levasse
à OMC, proposta de
norma, que
inviabilizasse o
registro de
exclusividade de uso de
um recurso natural,
próprio de um país, por
outro país.”
5-
Ecossocialismo: Soluções
para as Maiorias
Populares
Se
socialismo é o fim de
todos os tipos de
opressão de parcelas dos
seres humanos sobre
outras parcelas de seres
humanos, é preciso
mencionar a luta dos
setores oprimidos. A
humanidade não poderia
ser considerada como
tal, se fosse composta
apenas por homens
brancos, com a formação
corporal predominante,
heterossexuais e em
idade produtiva. A
diversidade humana, com
todas as suas
características de
origem geográfica, de
etnias e raças,
culturas, códigos éticos
e morais e os
correspondentes
costumes, compõem um
ecossistema humano. As
formas de
desenvolvimento desse
ecossistema não podem
destruir ou
descaracterizar sua
diversidade, pois isso
seria o próprio fim da
humanidade, enquanto
tal.
É próprio
da luta pelo socialismo
a garantia da
subsistência da espécie
humana, enquanto tal, e
nisso têm papel
essencial as lutas pela
liberação da mulher,
contra os racismos, pela
liberdade de opções de
sexualidade, contra a
discriminação e pelos
direitos dos portadores
de deficiência física ou
mental e as lutas pelos
direitos dos idosos. Faz
parte dessas lutas e da
busca de um
desenvolvimento
sustentável para a
humanidade. Mas,
justamente por isso, é
necessário o
questionamento das
culturas, que abrigam
algum tipo de opressão a
esses setores sociais,
como: o apedrejamento de
mulheres por questões
comportamentais, em
países africanos; e como
os fatores
socioeconômicos e
culturais, que provocam
o assassinato de filhas
mulheres ou esposas, em
países asiáticos.
Temos,
agora, que tirar uma
outra conclusão do que
se está falando. Ao
lutar por uma saída da
espécie humana para as
dificuldades
estruturais, trazidas
pelo capitalismo, não se
pode conter esta luta no
interior de qualquer
fronteira ou limite
geográfico. A condição
para superarmos a
exploração do homem pelo
homem, construindo o
socialismo, é o fim do
capitalismo em todo o
planeta. Não precisamos
ser grandes estudiosos
de economia para saber
que as relações de
exploração existentes
entre patrões e
empregados, acontecem,
também, no plano
internacional.
O
capitalismo torna a sua
exploração e opressão
internacionais. Assim,
as classes sociais e a
luta entre elas são
internacionais. Isso
acontece através das
empresas multinacionais,
que exploram diretamente
os trabalhadores de fora
dos seus países-sedes;
dos juros extorsivos do
capital financeiro ou
das ações dos governos
dos chamados países
desenvolvidos, de
protecionismo ao mercado
interno ou de caráter
belicoso, frente a
países militarmente mais
fracos.
Uma das
formas, pelas quais os
países hegemônicos
espoliam os países menos
desenvolvidos, é a de
lhes pagar preços
desvantajosos pelos seus
produtos exportados,
dificultando-lhes o
crescimento econômico e
impedindo-os de competir
em igualdades de
condições. Há uma troca
desigual entre países de
tecnologia avançada e
países, cuja exportações
mais significativas são
de produtos com baixo
valor agregado (sem
beneficiamentos). Assim,
a luta pela
independência, tanto
política, quanto
econômica, dos países
menos desenvolvidos é,
também, passagem
obrigatória da luta pelo
ecossocialismo.
Mas, é
urgente, ainda,
identificar mais uma
barreira para que a
perene procura da
felicidade humana possa
prosseguir. O
imediatismo e a busca
cega pelo lucro do
capitalismo, fizeram com
que a sua história
fosse, também, a
história da degradação
do planeta pelo único
agente vivo, capaz de
fazer isso,
conscientemente, em
grande escala. Com o
advento da chamada
sociedade industrial,
que hoje tomou as
feições do
“produtivismo” e à qual
sucumbiram, também,
diversas experiências de
construção do
socialismo, essa
degradação ganhou um
ritmo acelerado, que
coloca em xeque a
própria sobrevivência do
Planeta Terra.
Para
identificar melhor o que
é colocar em xeque a
sobrevivência do
planeta, podemos repetir
os exemplos do processo
de destruição da camada
de Ozônio da atmosfera
terrestre e o efeito
estufa; da destruição de
ecossistemas, provocando
o desaparecimento de
espécies vivas e da
cadeia alimentar, no
topo da qual está o ser
humano; da destruição de
florestas e matas
ciliares, com o
comprometimento dos
afloramentos e dos
corpos d'água em geral;
da poluição, cotidiana e
por grandes acidentes,
do ar e do solo.
Está
colocada, então, não só
para os socialistas, mas
para todos os seres
humanos, sensibilizados
pela vasta degradação
ambiental, a seguinte
questão: na luta para
salvar a humanidade da
barbárie, a que conduz o
capitalismo, é preciso
abarcar, também, a
salvação do planeta. A
humanidade não
sobreviverá sem o uso
racional dos recursos
naturais
(matérias-primas), sem
preservação dos bens
indispensáveis à
sobrevivência da
humanidade (as outras
espécies animais, a
vegetação, o ar, a água,
o solo – minerais em
geral), sem transformar
as ações humanas, que,
em todo o mundo,
provocam grandes
catástrofes planetárias
(efeito estufa,
destruição de
ecos-sistemas, soluções
industriais e de
produção energética
poluidora etc.). Por
isso o socialismo atual
precisa ser, além de
internacionalista,
ecossocialista.
Não
existirá um Brasil livre
e íntegro, enquanto
estiver sitiado pelas
chantagens dos países de
maior acumulação
capitalista, com os seus
monopólios tecnológicos
e especulações
financeiras. Assim como,
não existirá um Brasil
Socialista, com a sua
economia dominada pelos
banqueiros, pelos
devastadores
agronegócios, pelas
indústrias de
tecnologias poluidoras,
com cidades degradadas,
sem os corpos d’água,
sem pantanais e mangues,
sem sertões e caatingas,
sem cerrados, sem Mata
Atlântica e sem Floresta
Amazônica.
5-1-
Descartar as Falsas
Divergências e Buscar
a Unidade nas Lutas
Pierre
Rousset, no seu texto
publicado em 1998, “O
Ecológico e o Social –
Combates, Problemas,
Marxismos”, demonstra
como as questões
ambientais não podem
mais ser dissociadas das
sociais, inclusive nos
programas políticos dos
partidos e nos programas
e planos de ação
governamentais. Nos
itens I, subitem 5.
Verdes e vermelhos:
questionamentos cruzados
e II. Articulação das
lutas, esse autor coloca
as dificuldades, mas
também o caminho aberto
por imposição da
realidade para a
articulação entre as
visões as militâncias
socialistas e
ambientalista. Vale a
pena transcrevermos
esses itens do trabalho:
“5.
Verdes e vermelhos:
questionamentos
cruzados.
“Uma
questão de fundo está
colocada para os
militantes da
transformação social:
eles serão capazes de
integrar efetivamente o
problema ecológico, e a
todos os níveis de sua
reflexão e ação? Apesar
do tempo perdido, um
certo progresso se
manifesta neste domínio;
mas muito ainda
permanece por ser feito
e numerosos são os
obstáculos. E os que se
apóiam na referência
ecológica (ou ao menos
em uma referência
ecológica que se diz não
socialista) serão
capazes de pensar a
transformação social e
tirar conseqüências
políticas e
reivindicativas? Neste
caso, para além de
declarações de
intenções, a reposta não
é evidente.
Ao
introduzir um domínio de
conhecimento e de ação
que ficou no mínimo
marginal na teoria
socialista (as relações
sociedades/natureza), a
ecologia política
questiona os “vermelhos”
e o pensamento marxista.
Mas, por estar
intrinsecamente ligado
ao funcionamento de
nossas sociedades, a
ecologia política
questiona também os
“verdes”, em particular
se rejeitam a referência
marxista: com que
instrumentos conceituais
e em relação a que
projeto político eles
pensam a necessária
transformação social?
II.
Articulação das lutas
A crise
ecológica e a crise
social são, em ampla
medida, alimentadas por
mecanismos idênticos.
Interesses de grandes
lobbies econômicos,
ditaduras cada vez mais
exclusivas dos mercados,
ordem mundial encarnada
pela OMC, FMI, BM, G7,
etc. contribuem para o
esgotamento tanto dos
seres humanos quanto da
natureza. Fatores comuns
operam nas crises
sociais e ecológicas
contemporâneas, remédios
comuns podem e devem ser
desenvolvidos: é preciso
quebrar o cerco do
“liberalismo econômico”,
colocando no centro as
escolhas que atendem as
necessidades humanas e
as demandas ecológicas.
Daí a convergência
imediata que encontramos
entre o ecológico e o
social. Porém, mesmo
quando nos restringimos
aos pontos mais simples
nestes campos de
convergência, novos
questionamentos surgem
anunciando a necessidade
de reavaliações mais
amplas. Tomemos aqui
cinco exemplos:
1. A
defesa dos serviços
públicos.
O exemplo
dos transportes nos
mostra o quanto a lógica
do serviço público é
necessária para
responder de forma
coerente aos imperativos
sociais e ecológicos. A
lógica liberal exige a
redução da rede
ferroviária às formas e
linhas “rentáveis”,
favorecendo em
contrapartida o
crescimento das vias
rodoviárias. Ela
alimenta também uma
concorrência selvagem
entre modos de
transporte
(ferrovia/rodovia, mas
também ferrovia/ aéreo)
que produz escolhas
irracionais do ponto de
vista social e
ecológico. A imensa
predominância do
caminhão no transporte
de mercadorias se deu
graças à enorme expansão
da rede rodoviária e
responde às exigências
da produção em fluxo
descontínuo, “just in
time”. A produção em
fluxo descontínuo
exerce, além do mais,
uma considerável pressão
sobre a organização do
tempo de trabalho,
especialmente para sua
variação ao longo do
ano. A concorrência do
transporte aéreo
justificou a prioridade
absoluta dada ao TGV
(trem de grande
velocidade) pelo SNCF
(sistema nacional de
estradas francês), cujos
custos ambientais
(construção de novas
vias em área própria) e
sociais (pressão sobre
os orçamentos e
endividamento às
expensas da
capilarização da rede)
são consideráveis. Os
salários, as condições
de trabalho e as normas
de segurança são
totalmente
desconsiderados em nome
da rentabilidade
competitiva,...
As
exigências sociais
(transportes públicos
baratos, rede cobrindo
todo o território,
normas de trabalho e de
salário aceitáveis) e
ecológicas (redução dos
meios de transporte mais
poluentes, fisicamente
os que mais destroem e
energeticamente os mais
custosos) impõem a
necessidade do
desenvolvimento de
transportes coletivos na
lógica do serviço
público. Isto também
ocorre em outras áreas.
Mas esta
constatação não encerra
o debate sobre a
organização
contemporânea do serviço
público. De fato, os
monopólios de Estado
estão sujeitos a
elaborar suas políticas
em função de objetivos
não democráticos (na
energia, por exemplo,
relação entre empresas
petrolíferas e
intervenção imperialista
na África, ou relação
entre a indústria
nuclear civil e
militar), segundo os
modos de gestão e os
modelos produtivos
estreitamente
capitalistas, em função
de normas de
rentabilidade que tomam
por referência os
monopólios privados. O
monopólio estatal não é,
portanto, suficiente
para garantir a execução
de uma política de
serviços públicos e seu
caráter democrático. Um
serviço público exige
uma política pública que
não tenha como motor a
busca da maximização dos
lucros.
2. A luta
contra a poluição.
Cada vez
mais temos consciência
dos custos humanos (com
relação à saúde, alta de
preços, etc.) e naturais
(com relação à
biodiversidade) das
poluições, bem como do
papel que jogam
numerosos interesses
econômicos estabelecidos
no seu agravamento: a
preponderância do
automóvel, poluição
atmosférica e problemas
crescentes de saúde nos
centros urbanos; a
preponderância da
agroindústria e a brutal
poluição das águas na
Bretanha, ou a poluição
dificilmente reversível
dos lençóis freáticos na
Ile de France; a
preponderância do lobby
nuclear e a acumulação
de longo prazo de
dejetos radioativos na
França; a preponderância
dos grandes interesses
privados e o aumento
socialmente insuportável
do custo da água potável
no norte e a imensa
falta de acesso à água
potável no sul... Em
cada uma destas áreas,
combate ecológico e
combate social exigem
uma lógica alternativa
que se oponha àquela dos
grupos econômicos
dominantes.
A
gravidade dos problemas
de poluição contribui
para a evolução das
consciências. Torna-se
mais difícil apresentar
as questões ditas
ecológicas como
marginais, estranhas às
questões sociais, como
preocupações elitistas,
um luxo pequeno burguês.
A crise da vaca louca
representou
provavelmente um ponto
de inflexão maior,
análogo a Tchernobyl
para a questão nuclear:
ela trouxe à tona a
extensão do perigo
intrínseco ao modo de
produção das
agroindústrias. O
combate contra as
poluições questiona de
conjunto o modelo
produtivo, tem
implicações profundas
para a política de
ocupação do território e
traz várias questões
sobre a relação entre
pesquisa científica e os
poderes estabelecidos
(institucionalizados,
políticos e econômicos).
Abre assim um campo de
reflexões fundamental.
3. Em
defesa do emprego.
Uma
política de proteção
ambiental gera empregos
em inúmeros setores. E
tem mais. As lógicas
econômicas dominantes,
que superexploram a
natureza, criam também o
desemprego. Este é
claramente o caso da
agroindústria que
desertifica os campos de
dois pontos de vista:
dos espaços (redução
drástica da variedade de
paisagens e da
biodiversidade) e humana
(redução drástica do
emprego e êxodo rural).
Este é também o caso da
indústria
automobilística que
demite massivamente ao
mesmo tempo em que
aumenta sua capacidade
de produção e impõem sua
ditadura sobre os modos
de transporte, de
ocupação do território e
de desenvolvimento
urbano. Lógicas
sócio-econômicas
alternativas permitem
definir um modo de
produção menos
predatório com relação a
natureza ou a qualidade
de vida, e mais rico em
empregos.
Uma
alternativa ecológica ao
modelo dominante permite
geralmente repartir
melhor (e portanto
aumentar) o emprego
assegurando uma
descentralização da
produção. É evidente no
campo energético, a
indústria nuclear exige
uma concentração
extrema, mas isso vale
também para outros
setores, como nos
transportes. Levar em
consideração as
múltiplas possibilidades
da questão ecológica
aumenta o leque de
“ocupações”. A ecologia
se inscreve no esforço
conjunto de redução do
emprego e de
redistribuição das
atividades sobre o
território.
4. Abolir
o sistema da dívida.
O
“desenvolvimento pelo
endividamento”,
impulsionado pelas
potências financeiras do
norte produziu um
sistema de controle da
política econômica dos
países devedores
(sobretudo do sul) e o
fortalecimento dos
poderes do FMI e do
Banco Mundial (inclusive
no norte). O serviço da
dívida e os cânones
ultraliberais da OMC tem
conseqüências dramáticas
para as sociedades
humanas (destruição das
proteções sociais, das
culturas
alimentícias,...) assim
como sobre a natureza
(destruição dos recursos
naturais para
exportação...) Os
mecanismos fundamentais
deste sistema de
dominação devem ser
combatidos tanto do
ponto de vista social
quanto ecológico.
As regras
comerciais instauradas
pelo GATT e depois pela
OMC, reforçam a
dominação das grandes
multinacionais do norte.
Impondo a abertura dos
mercados locais a seus
produtos, elas acentuam
as dependências
(inclusive as
alimentares), fragilizam
os equilíbrios sociais e
aumentam irracionalmente
as trocas
internacionais,
alimentando assim a
crise energética e
ecológica. O projeto do
AMI negociado na OCDE
ilustra até onde podem
ir as lógicas
destrutivas e
anti-democráticas. Os
famosos “mercados
financeiros” são
incapazes de
solidariedade entre
pessoas da mesma geração
(a Bolsa de Nova York
baixa quando os números
do desemprego são
“muito” bons!) – e são
mais ainda incapazes da
solidariedade entre
gerações que a ecologia
demonstrou ser decisiva.
5. Longo
prazo e democracia.
A questão
ecológica exige
considerar os danos
ambientais a um prazo
muito longo, os ritmos
naturais têm tempos
muito diferentes
daqueles do mercado,
necessariamente curtos.
Inúmeras necessidades
sociais (educação,
saúde,...) exigem
também, para serem
corretamente tratadas,
um tempo mais longo que
aquele do “rei mercado”
– o que aliás é uma das
principais razões para
que sejam serviços
públicos. Danos
ecológicos e
necessidades humanas
exigem conjuntamente que
nossas políticas
alternativas integrem
dimensões de tempo de
longo prazo que a
solidariedade entre
gerações destaca. A
ecologia, além da defesa
das necessidades
sociais, dá uma nova
legitimidade à noção de
planificação, pois o que
é considerar o longo
prazo se não planejar?
Porém a ecologia também
contribuiu com as
críticas de fundo das
experiências
burocráticas ocorridas
no leste.
A
ecologia política
enriquece a reflexão
sobre democracia e,
especialmente, as
relações entre
solidariedades e
responsabilidades, entre
presente e futuro, entre
diversos níveis de
espaços territoriais –
local, regional,
nacional, internacional.
Ela revaloriza a
política na definição de
escolhas produtivas e
nos força a renovar a
concepção de
planejamento por outras
razões, pois este deve,
de agora para frente,
incorporar uma série de
preocupações e objetivos
ambientais (medidas de
fluxos de energia,
pressão sobre os
recursos naturais,
preservação da
biodiversidade e da
diversidade de
ecossistemas, correção
das perigosas evoluções
induzidas no equilíbrio
da biosfera,etc.)”
6-
Epílogo: Os Limites da
Hegemonia
Como as
fortíssimas ondas de
vento radiativo, que
resultaram das explosões
atômicas em Hiroshima e
Nagasaki, os ventos
resultantes da queda das
experiências do chamado
socialismo real, do
leste europeu, também
varreram as esperanças
de parcelas
significativas dos
integrantes da esquerda
e, de forma menos
direta, atingiram os
movimentos sociais,
debilitando os seus
ímpetos de luta e
tornando os seus
objetivos mais
imediatistas.
Confundia-se o fim de
uma experiência, que
fora usurpada pelas
burocracia autoritárias
e antidemocráticas de
estados e partidos, com
o fim de uma ideologia,
que propugnava a
existência das condições
materiais para acabar
com a miséria e garantir
a verdadeira igualdade
direitos sociais para
todas e todos.
Vitoriosos da chamada
“guerra-fria”, os
capitalismos hegemônicos
dos Estados Unidos e da
Europa Ocidental não
tardaram a exercitar,
livremente, os seus
poderes de donos
absolutos do mundo.
Aprofundou-se o
neoliberalismo e a
globalização, com
pressões para a retirada
de todos os obstáculos,
que o antigo
imperialismo enfrentava,
como defensas
alfandegárias de países
menos poderosos,
aplicou-se medidas de
extinção em massa de
empregos e fim de
regulamentos de proteção
à mão-de-obra desses
países, medidas de
retaliação econômica ou
política aos que se
pusessem no caminho, daí
vieram as restrições
para exportações ao Irã
e a pecha de “eixo do
mal” a esse país, à
Coréia não
colaboracionista e a
outros países.
Se
olharmos o comportamento
desses países
hegemônicos com relação
à necessidade de
definição de áreas e
procedimentos para a
proteção ambiental,
ficará ainda mais clara
a ameaça, representada
por suas políticas para
diversos outros países e
para todo o planeta. Na
conferência da
Organização Mundial do
Comércio (OMC) realizada
em Pequim, em dezembro
de 2005, ficou evidente
a intenção de impor aos
dependentes ou em
desenvolvimento que se
restrinjam mais, no
comércio internacional,
às áreas agropecuárias.
Poderiam, assim, tanto
impor suas sementes
transgênicas e importar
os respectivos produtos,
a preços mais baixos do
que produziriam; quanto
continuar emitindo gazes
destruidores da camada
de ozônio, para que não
cessassem de crescer os
lucros de suas
indústrias poluidoras.
Ao mesmo
tempo, os EEUU, sob
Bush, se ausentam de
encontros internacionais
sobre temas como o
racismo e o meio
ambiente. Esse
governante sequer
assinou o tratado de
Kyoto, de redução da
emissão de gazes
degradadores da
atmosfera terrestre. O
mais trágico é que esse
tratado visa, apenas,
uma diminuição gradativa
das emissões, num ritmo
insuficiente frente às
necessidades e, ainda,
permite que os países
não poluidores vendam
cotas dos seus limites
de poluição para os
países, que ultrapassam
esses limites.
6-1- A
Emergência do Local
Um
aspecto da chamada
realidade pós-moderna,
pós-sociedade industrial
ou pós-sociedade de
massas é a da
importância crescente,
que as populações das
regiões de produção
agropecuária e,
principalmente, das
cidades vêm assumindo em
termos de influência nas
tendências políticas a
serem assumidas pelos
governos. É possível de
se notar isso nos países
economicamente mais
desenvolvidos, mas é
muito mais evidente nos
países, que vivem com
menores recursos
materiais, com menos
acumulação de riquezas,
onde as populações
locais e sua força de
trabalho são as fontes
imediatas de recursos.
Tal
quadro aponta para uma
possível redistribuição
do poder, sendo que no
âmbito formal, os
poderes nacionais
centrais tendem a se
enfraquecer, perdendo
instrumentos de mando
(ministérios menores,
menos dinheiro para
obras, menos influência
sobre os órgãos de
repressão etc.), frente
aos poderes municipais.
Esse vetor aponta,
também, para uma
redistribuição dos
recursos públicos,
podendo redundar numa
redistribuição de renda,
que mexa com o processo
de concentração
produzido pelo
neoliberalismo e a
globalização.
Mas, não
se pode criar falsas
expectativas com essa
“emergência do local”.
Como uma resultante de
processos e
contra-processos de
determinada forma de
desenvolvimento, ela
pode tanto ajudar,
quanto prejudicar a
redistribuição mais
eqüitativa da renda. Não
mais contará com um
poder central forte,
que, ao menos
teoricamente, poderia
fazer o papel de Robin
Wood, reunindo recursos
de diferentes origens e
investindo mais onde
estão os mais pobres.
Por outro lado, com a
proximidade, que os
poderes municipais têm
da população e seus
problemas sociais, o
ataque a esses problemas
pode se tornar mais
obrigatório e até mais
adequado.
Seja para
a melhoria das condições
de vida das maiorias
populares ou não, essa
“emergência do local”
constitui-se num
contra-ponto à
elitização colocada pelo
neoliberalismo e sua
globalização. Os
movimentos sociais,
dificilmente, poderão
ser descartados dos
cenários políticos,
contrariando as
intenções dos que querem
impor derrotas
devastadores às
mobilizações e
criminalizar as
lideranças e
organizações, que
frutificam dessas
mobilizações. Para
definir esse processo em
favor das maiorias
exploradas e/ou
oprimidas, fortalecendo,
implodindo ou
transformando esse
processo de “emergência
do local”, dois fatores
são imprescindíveis: o
crescimento dos
movimentos sociais e a
construção de uma nova
utopia, que resgate a
esperança de um futuro
melhor para a humanidade
e para o planeta.
6-2-
Países Dependentes X
Desenvolvidos – A Luta
pela Vida
Nos
países de tradição
colonial e
semi-colonial,
atualmente mais
conhecidos como países
dependentes e em
desenvolvimento a lógica
do desenvolvimento
econômico vincula-se
profundamente a essa
condição. Isto é, as
ações tiveram,
historicamente, um
caráter espoliativo, de
só tirar o máximo
proveito, sem dar nada
em troca e sem deixar
nada no lugar. É por
isso, que o próprio
processo de acumulação
capitalista nesses
países, quando se
realizou, aconteceu
parcialmente e num ritmo
muito mais lento.
Nesses
países se não produz
para que seus habitantes
e seu meio ambiente
possam viver com
qualidade, mas para que
capitalistas externos se
apropriem. A exemplo do
que aconteceu com a
fragmentação do
conhecimento, o
importante é o que é bom
para as classes
hegemônicas. Até mesmo a
visão dos capitalistas
residentes é a de que a
maioria da população e o
meio ambiente locais
nada merecem do que foi
produzido, além do
essencial para que a
produção continue.
Como
exemplo de uma ação
degradadora contínua,
verificar a história da
degradação dos rios e
córregos da bacia do
Tietê, em São Paulo.
Teremos sempre que nos
remeter às várias fases
do desenvolvimento da
grande metrópole, que a
utilizou como mera
destinatária dos esgotos
e resíduos, desde o
período colonial, até
que, com a
industrialização e o
superpovoamento sem
regras, suas águas
tivessem que demonstrar,
de diversas maneiras, o
esgotamento desse tipo
de relacionamento entre
sociedade e hidrografia:
enchentes, doenças, mau
cheiro, grandes despesas
para a limpeza, etc.
Tomemos,
agora, a política
econômica dos quatro
últimos governos
brasileiros, inclusive o
de Lula, que só pode
negociar sua ascensão
com os setores burgueses
hegemônicos devido ao
prestígio junto à
maioria carente da
população. Preocupados
em preservar os
interesses dos
banqueiros e dos grandes
capitalistas
internacionais, acabaram
priorizando a alta taxa
de juros para conseguir
manter a inflação
baixíssima e um alto
saldo positivo de suas
contas (superávit
primário), deixando de
fazer investimentos
essenciais (como
hospitais, estradas e
escolas) no país para
pagar, até
antecipadamente, os
credores internacionais,
mesmo quanto se depara
com crescimento
econômico muito aquém do
necessário e, até, aquém
do que o próprio governo
estimara.
Mesmo
contra as vontades dos
capitalistas residentes
e estrangeiros, a opção
para a sua não
incorporação, como um
outro estado de algum
dos países capitalistas
centrais e, até, para
poder manter o atual
quadro de espoliação da
sua população, matérias
primas e meio ambiente
em geral, os países nas
condições iguais e
piores do que a do
Brasil terão que
afirmar-se, enquanto
economias nacionais e
estabelecerem limites
mais claros à tal
espoliação.
Configura-se, então,
mais um aspecto da crise
do capitalismo, a qual,
diferentemente das
resolvidas pelas duas
guerras mundiais do
século XX, não poderá
encontrar solução no
âmbito internacional,
pois tem caráter global,
colocando em xeque o
atual relacionamento
entre as nações.
Incluindo-se nesse
quadro as atuais
guerras, cujas razões
dadas ao público foram
desmascaradas como
falsas, mais o
terrorismo
internacional, que
ameaça estar presente em
todos conflitos entre
interesses do
capitalismo central e
parcelas populares de
países pobres, com suas
lideranças, propensas à
exacerbação na ação
política. Mais um
detalhe dessa pintura
macabra é o da dívida
externa dos países
dependentes desaguando
sobre as suas populações
assalariadas, que, com
seus parcos
recebimentos, pagam
tarifas, taxas e
impostos cada vez mais
altos. Tudo isso
pressiona, exige uma
tomada de posição pelos
maiores prejudicados, as
maiorias populares
exploradas e oprimidas
de todos os países.
Assim, se
quisermos que do caos
brote uma nova proposta
de sociedade, que seja a
saída para a humanidade
e para o planeta
sobreviverem em boas
condições, teremos que
construir uma nova
utopia, capaz de
responder a estas
necessidades. Aqui,
estamos propondo a
alternativa
Ecossocialista.
William Jorge Gerab,
graduado em
Sociologia e
Política, com
especialização em
gestão ambiental.
A idéia deste
manifesto
ecossocialista foi
lançada por Joel
Kovel e Michael Löwy
no painel sobre
ecologia e
socialismo realizado
em Vincennes, cidade
próxima de Paris, em
setembro de 2001.
Além dos dois,
assinaram: David
Barkin, Arran Gare,
Howie Hawkins,
Richard Lichtman,
Peter Linebaugh,
Ariel Salleh, Walt
Sheasby, Ahmet Tonak,
Victor Wallis
(Estados Unidos),
Laurent Garrouste,
Jean-Marie Harribey,
Pierre Rousset,
Bernard Teisseire
(França),
Charles-André Udry
(Suíça), Cristobal
Cervantes, José
Tapia (Espanha),
Renan Vega
(Colômbia), Isabel
Loureiro, Marcos
Barbosa de Oliveira,
Renata Menasche
(Brasil). No seu
Lançamento. No
Brasil, em 2003,
foram agregadas mais
47 assinaturas.
|