Antes de tudo, quero saudar a atitude dos companheiros,
tanto do Luiz Claudio Afonso, quanto do Álvaro, de não se omitirem
frente a um debate tão decisivo para a qualidade ambiental (que redunda
na própria qualidade de vida), não só do nosso país, mas também do nosso
planeta. Temos que nos lembrar, também, não se tratar apenas de uma
discussão técnica, mas sim sobre a escolha do mundo em que queremos
viver. Resgatemos o raciocínio ecossocialista: não construiremos uma
sociedade mais justa se não salvarmos o planeta, assim como não
salvaremos o planeta se não construirmos uma sociedade mais fraterna.
Antes de decidirmos de quais fontes virá o montante de energia, que
precisamos, temos que estudar e debater muito, não só quais devem ser
essas fontes, mais todos os pressupostos (de onde virão os recursos e
quais as tecnologias a serem utilizadas etc.) e as conseqüências (riscos
e garantias de eliminá-los, o que será afetado com cada escolha e como
serão resolvidos e mitigados os problemas causados etc.). Aí reside a
nossa primeira divergência com a postura assumida pelo Governo Lula,
pois claudica às pressões dos grandes investidores, que querem
aprovações açodadas dos órgãos ambientais para os seus empreendimentos.
Lula alega a necessidade de acelerar o desenvolvimento econômico do
país, mas de qual desenvolvimento ele está falando? Ninguém, em sã
consciência, há de querer um falso desenvolvimento, que traria a todos
grandes prejuízos a curto, médio e longo prazos. Decisões amadurecidas
não serão alcançadas, utilizando-se o recurso à energia nuclear como um
aríete para derrubar a resistência dos técnicos em meio ambiente e dos
ambientalistas, que precisam de mais tempo, justamente para estudar os
projetos, como os das usinas hidroelétricas nos afluentes do Rio
Amazonas (isso para não pensarmos em pressões para excluir ou diminuir
exigências consideradas essenciais).
Ninguém pode duvidar da possibilidade de utilização desse e de outros
tipos de expedientes ainda mais grosseiros, depois do que vem
acontecendo na implantação do projeto de transposição do Rio São
Francisco (desrespeito a acordos feitos com representantes da população
local e de movimentos sociais, de âmbito nacional) ou do tratamento dado
ao Ibama e seus funcionários (mudar a estrutura da instituição, como
punição por não ter chegado às conclusões, que o governo queria).
Mas, supondo-se que Lula queira, realmente, levar o projeto das
usinas nucleares às últimas conseqüências, é importante puxarmos um
pouco pela memória. Se pesquisarmos encontraremos em jornais, não muito
antigos, notícias sobre vazamentos nas usinas de Angra dos Reis / RJ,
inclusive mencionando rachaduras em paredes de compartimentos
importantes. Acharemos, ainda, técnicos e professores, de saberes
reconhecidos, afirmando que a tecnologia utilizada em Angra é de uma
tecnologia, que foi sucatada, antes mesmo de ser utilizada na Alemanha,
pois teve a sua concepção questionada e rejeitada. Os jornais atuais têm
noticiado que a Alemanha vem deixando de utilizar a tecnologia nuclear
como fonte de energia de uso cotidiano.
Um outro aspecto, que compromete a energia de origem nuclear e o fato
de ainda não estar resolvido o problema da destinação final do lixo
gerado, que é altamente contaminante, maléfico e possui um longo período
de atividade. Isso torna o argumento de que esse tipo de energia não
produz os gazes do efeito estufa complemente inócuo.
É evidente que as reações à utilização de usinas nucleares não são
meras emoções. Apesar de ser até bom que certas atitudes provoquem forte
indignação em amplas camadas populares, principalmente quando colocam em
risco as suas próprias vidas e a vida em geral no planeta.