|
Resumo:
A Amazônia deixou de ser apenas um desafio para o
desenvolvimento sustentável regional e nacional, tornando
decisivamente uma questão vital para o desenvolvimento
sustentável global. Envolta nas contradições da modernidade
contemporânea, que alimenta a idéia de um progresso
ilimitado, contrastando com a escassez e finitude dos
recursos naturais, a região amazônica tornou-se alvo de
interesses e pressões externas, notadamente pelos recursos
estratégicos e vitais que dispõe para a segurança
planetária. O Plano Amazônia Sustentável – PAS -, surge como
caso emblemático de inserção da Amazônia num esforço de
governança.
Palavras-chave:
Amazônia – sustentabilidade - desenvolvimento sustentável –
governança - cooperação internacional - sociedade civil.
Abstrat:
The Amazônia left of being only one challenge
for the regional and national sustainable development,
decisively becoming a vital question for global the
sustainable
development. Involved in the contradictions of modernity
contemporary, who feeds the
idea of a limitless progress, contrasting with the
insufficiency of the natural
resources, the Amazon region became object of interests and
external pressures, mainly
for the strategical and vital resources that it offers for
the planetary security.
The “Plano Amazônia Sustentável” - PAS -, appears as
emblematic case of insertion of
the Amazônia like a governance effort.
Key
words:
Amazon region – sustainability - sustainable development –
governance - international cooperation - civil society.
Introdução
Um dos grandes
desafios para a compreensão da Amazônia de hoje é
refletir suas vias de desenvolvimento e perspectivas no
cenário das transformações tencionadas pelas demandas
políticas, econômicas, sociais e ecológicas num mundo cada
vez mais globalizado e interdependente. Essa percepção
implica numa visão holística e abrangente de uma
problemática que deixou de ser somente regional e nacional,
tornando-se efetivamente de caráter global (Oliveira, 1994).
Essa realidade apresenta-se multidimensional, expressando a
crise da modernização capitalista e as possibilidades de
transição para um novo modelo de desenvolvimento fundado no
ideário da sustentabilidade (Silva, 1997; Stroh, 1998).
Ao contrário
de noções correntes e ilusórias como ‘vazio demográfico’,
‘pulmão do mundo’, ‘natureza intocada’; mistificações e
reducionismos já tão criticados (Ab’saber, 1992; Benchimol,
1992; Kitamura, 1994; Gonçalves, 2001), a Amazônia faz parte
da história da penetração do capitalismo na fronteira, com
sua lógica de dominação imanente, desenfreando uma disputa
pela posse da terra, acirrando conflitos e contradições em
áreas rurais e urbanas e, fundamentalmente, estabeleceu uma
abissal desigualdade na apropriação do espaço econômico,
político e socioambiental da região.
A crescente
internacionalização das economias e o aumento da
interdependência dos sistemas políticos em escala global
constituem aspectos importantes desse cenário, no qual as
redes informacionais, financeiras e mercantis assumem
caráter estratégico, colocando-se em discussão o princípio
da soberania das nações e o papel do Estado, à medida que as
fronteiras nacionais vão perdendo importância, ou ganhando
novos significados (Becker, 1992).
Contudo, pela
sua privilegiada geografia, estruturas geológicas,
diversidade cultural de suas populações e detentora de
inestimável patrimônio de florestas, recantos ecoturísticos,
jazidas minerais e mananciais de água doce, commodities
do futuro; a maior fronteira de recursos naturais do
planeta – mega-bioma que desafia saberes tradicionais e o
conhecimento científico, diante das potencialidades e
serviços que pode disponibilizar - biotecnologia, seqüestro
de carbono, ciclos hidroquímicos, dentre outros (Fearnside,
1996; Kitamura, 1997); tem uma importância fundamental na
gestação de um novo modelo de civilização – com a utilização
racional de sua biomassa, conciliando o desenvolvimento
sócio-econômico com a proteção do meio ambiente no plano
local, regional, nacional e global (Silva, 2005).
Este trabalho busca refletir
a inserção da Amazônia na agenda da governança global (global
governance) que constitui o desafio essencial para a
gestão do presente e do futuro da Amazônia. Seu alcance
abrange do micro ao macro (povoados, municipalidades,
cidades, estruturas nacionais, transnacionais e
planetárias). Governança global não significa governo
mundial, mas uma ação coletiva envolvendo múltiplos atores
com a finalidade de gerir problemas comuns, que melhorem as
condições de vida no planeta (ibidem).
O interesse
público e seu questionamento
Distinguem-se
o interesse público – o da coletividade – do interesse de
todos – o do conjunto de indivíduos que compõem a
comunidade. Assim como a vontade geral não é a vontade de
todos, o interesse público não é a soma dos interesses de
cada indivíduo (Le Preste, 2000). Portanto, o interesse de
cada criador de gado implicado na tragédia dos bens
comunais (Hardin, 1968), reside na exploração máxima dos
bens comunais, mesmo que isto não seja do interesse geral –
ao menos a longo prazo. Se os criadores não puderam emigrar,
azar deles. Em outros casos, isto pode conduzir a aceitar um
mal ambiente local, se isso permitir atingir um fim mais
desejável. Exemplos existem para demonstrar que as decisões
dos governos são contrárias aos clamores das comunidades
locais (Le Preste, 2000).
Muitas iniciativas foram
implementadas na Amazônia, mesmo que trouxessem grandes
perturbações ecológicas e sociais locais, as justificativas
se fundamentaram sobre um argumento econômico (os
custos locais menores que lucros nacionais contabilizados),
sobre um argumento político (uma minoria não pode se
opor a medidas proveitosas para o conjunto), e sobre
argumentos ambientais (o desenvolvimento de fontes de
energia mais limpas com relação a outros métodos, os quais
aumentam o efeito estufa, a poluição atmosférica, o
desmatamento e o risco de acidentes) (ibidem).
Iniciativas outras procuram
mudar esse quadro, como o Programa Nacional de Meio Ambiente
– PNMA, Experimento de Grande Escala Biosfera-Atmosfera –
LBA (The Large Scale Biosfere-Atmosphere Experiment in
Amazônia), Fundo para o Meio Ambiente Global – GEF (Global
Environment Facility), dentre outras (Silva, 2005).
Governança
Os consideráveis impactos
negativos causados nas populações e no meio ambiente,
aliados a vários eventos importantes ocorridos na Amazônia,
geraram pesadas críticas no Brasil e no exterior e,
conseqüentemente, ajudaram a tornar a região amazônica alvo
de publicidade internacional. Cabe aqui sublinhar que o
Banco Mundial teve um papel de destaque na Amazônia, posto
que ele foi responsável por viabilizar, na época, vários
projetos de desenvolvimento social e ambientalmente nocivos
(Fearnside, 1996).
Em virtude destes
acontecimentos, algumas iniciativas promissoras foram
tomadas na segunda metade da década de 1980 com o propósito
específico de corrigir erros passados causados pelas
políticas públicas de desenvolvimento. Embora estas
iniciativas tenham sido auspiciosas, a mudança efetiva de
comportamento em relação ao meio ambiente só pôde de fato
ser verificada nos anos 1990. As questões ambientais
passaram a ocupar uma posição central nas campanhas para as
eleições presidenciais de 1990 (Hall, 1991; Barbanti Jr.,
1998).
Apesar dos avanços visíveis
e do caráter inovador da iniciativa, o Programa Piloto
apresentou uma série de dificuldades, especialmente visíveis
na limitação enfrentada pelos Projetos Demonstrativos Tipo A
- PD/As, que priorizaram muito mais as demandas para o
financiamento dos projetos do que a produção de modelos com
possibilidades de disseminação. Além do mais, o enfoque
sobre as técnicas de produção não foi acompanhado por
medidas (capacitação gerencial, marketing, etc.)
relacionadas à viabilização das cadeias produtivas (Barbanti
Jr., 1998). Cabe também apontar a permanência dos problemas
fundiários na Amazônia, embora algumas ações tenham sido
tomadas no âmbito do Projeto de Proteção às Populações e
Terras Indígenas - PPTAL e do Projeto Reservas Extrativistas
- RESEX; por sua vez, poucos avanços puderam ser verificados
na articulação entre o Programa Piloto e outros importantes
programas ambientais, como, por exemplo, o Programa Nacional
de Florestas - PNF, o Programa Nacional de Meio Ambiente -
PNMA e o Fundo Nacional de Meio Ambiente - FNMA, apesar de
serem todos eles coordenados pelo Ministério do Meio
Ambiente - MMA e financiados com recursos nacionais e
estrangeiros. Ao mesmo tempo, determinadas dificuldades
administrativas, no âmbito dos governos federal e estadual,
contribuíram para uma certa lentidão na implementação do
Programa Piloto, o que prejudicou em parte a consecução dos
seus objetivos (MMA/Comissão de Coordenação Brasileira do
PPG7, 2002). Não obstante estas limitações, os resultados
alcançados e, a própria iniciativa do PPG7. não deixam de
ser significativos (Serra & Fernández, 2004).
O Governo Federal lançou, em
1998, um programa, denominado de Eixos Nacionais de
Integração e Desenvolvimento (ENID), que remonta a antiga
concepção de desenvolvimento dos governos militares. A
delimitação dos Eixos obedeceu a quatro critérios
específicos: a malha de transporte existente; a hierarquia
funcional das cidades; a identificação dos focos dinâmicos
no país; e a caracterização dos ecossistemas nas diferentes
regiões brasileiras (BNDES/Consórcio Brasiliana, 2000). Em
função destes critérios, o território nacional foi dividido
em nove Eixos, a saber: Arco-Norte; Madeira-Amazonas;
Araguaia-Tocantins; Oeste; Sudoeste; Transnordestino; São
Francisco; Rede Sudeste; e Sul.
No tocante à região
amazônica, os Eixos, na verdade, repetem a lógica do modelo
de desenvolvimento passado, na medida em que grande parte do
seu sucesso está baseada na infra-estrutura viária, ou seja,
a competitividade nos mercados nacional e internacional
depende fundamentalmente da capacidade de transportar
consideráveis volumes de mercadoria a longas distâncias com
velocidade e eficiência. É exatamente em relação à expansão
da infra-estrutura viária na Amazônia que os impactos
socioambientais seriam preocupantes, posto que a
pavimentação das diversas rodovias, que abrangeria cerca de
4.600 km de estradas na região, está prevista nos Eixos.
Isto resultaria, na ampliação de fronteiras econômicas,
causando adversos no meio ambiente, tais como o
desmatamento, provocado pela pecuária, agricultura e
exploração madeireira, em função da facilidade de penetração
em antigas áreas isoladas; diminuição da pluviosidade, por
causa do acentuado desmatamento, com o aumento do período de
seca; e desestímulo na adoção de práticas produtivas mais
sustentáveis, como o manejo florestal e o sistema
agroflorestal [ ...] (Ipam/Isa, 2001).
Depois de quase duas décadas
sem investimentos expressivos na Amazônia, o governo federal
está planejando ações que podem alterar a paisagem regional:
Primeiro, uma ampliação do sistema de transporte regional
através do Programa Eixos Nacionais de Integração e de
Desenvolvimento. Essa iniciativa, a mais importante desde a
pavimentação da BR 364 (Cuiabá-Porto Velho) no início dos
anos 80, aumentará a oferta de recursos naturais (em
especial, madeira) e terras para a agropecuária (Shneider et
all, 2000)..
Segundo, o Ministério do
Meio Ambiente está implantando uma nova política florestal,
cujo ponto central é a ampliação e consolidação de uma rede
de Florestas Nacionais e Estaduais na Amazônia Legal. As
Florestas Nacionais, Estaduais ou Municipais são Unidades de
Conservação de Uso Sustentável, cuja finalidade é produzir
bens (produtos madeireiros e não-madeireiros) e
serviços ambientais. O governo pode manejar diretamente
essas florestas ou conceder o direito de uso para
instituições privadas ou de economia mista (Veríssimo et
allii, 2000). Essas iniciativas governamentais oferecem
oportunidades e riscos. Os riscos derivam dos investimentos
em infra-estrutura (os quais por vezes desconsideram os
impactos ambientais negativos das obras) e das
dificuldades de ordenar o avanço da fronteira agrícola e
controlar o desmatamento na região.
As oportunidades derivam do
acúmulo de experiências e informações (socioeconômicas e
biológicas) que revelam uma Amazônia com diferentes
vocações, incluindo agropecuária (em áreas mais restritas),
produção florestal, serviços ambientais e proteção da
biodiversidade.
Não há como o governo ficar
passivo. Ou ele procura redirecionar as forças econômicas
que estão degradando a Amazônia ou esse patrimônio nacional
será apropriado para fins privados, perpetuando a visão
imediatista e predatória que tem caracterizado o
desenvolvimento da região até o presente. O Governo federal
tem que assumir a governança.
Governança é a capacidade de
gerar respostas administrativas às demandas sociais que se
apresentam ao governo. Quando se agrega o adjetivo social ou
democrático, a governança passa a sugerir que a competência
técnica e a agilidade se espraiem pela representação social,
ampliando e descentralizando o processo decisório no
município (Ricci, 2004).
À medida que a Amazônia vai
sendo desmistificada, os programas de desenvolvimento tendem
a mudar, especialmente a partir da Conferência Mundial das
Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento de 1992.
Reconhece-se, pelo menos no discurso, que a riqueza maior da
Amazônia é sua biodiversidade e sua floresta, e que
existindo várias Amazônias é mister desenvolver programas
que atendam à realidade local (Aragón 1998; Pavan, 1996),
No futuro, as mudanças
tecnológicas e de atitude podem gerar benefícios econômicos
para os trópicos úmidos (biodiversidade, produtos
não-madeireiros, ecoturismo, exploração madeireira
sustentável, agricultura ecológica etc.) acima dos
valores atuais. Ao prevenir a degradação da floresta no
presente, estaríamos preservando este ecossistema para uso
potencial no futuro. Esse argumento justifica a criação de
Unidades de Conservação de Uso Sustentável (por exemplo,
Florestas Nacionais e Reservas Extrativistas) como um
mecanismo para manter a opção de uso do solo no seu valor
econômico e biológico mais alto possível (Schneider, 2004).
Plano Amazônia Sustentável
O descaso com a região
amazônica sempre foi latente, porque os governos se
preocupavam mais com a região centro-sul, considerada o
coração do Brasil, o centro financeiro do País. Os
investimentos na Amazônia sempre eram feitos de maneira
estanque, sem planejamento. O Estado agia somente nos casos
emergenciais quando a região estava em crise. Cessavam os
problemas, que ficavam incubados, o Estado voltava novamente
suas atenções para o coração econômico do País, o centro-sul
(França, 2005).
Parte integrante da Política
Nacional de Desenvolvimento Regional, o Plano Amazônia
Sustentável (PAS) destaca-se como iniciativa para propor
estratégias e linhas de ação que unem a busca do
desenvolvimento econômico e social com o respeito ao meio
ambiente. Trata-se de uma iniciativa do Governo Federal em
parceria com os estados da região amazônica, coordenada pelo
Ministério da Integração em conjunto com o Ministério do
Meio Ambiente, Ministério do Planejamento, Orçamento e
Gestão, Casa Civil e Secretaria Geral da Presidência da
República.
O PAS constitui um conjunto
de estratégias e orientações para as políticas dos Governos
Federal, estaduais e municipais. Reúne sob uma mesma
orientação muitas das ações inovadoras empreendidas em
programas já existentes, fomentando sinergias. Além disso,
pretende sinalizar caminhos para o desenvolvimento da
Amazônia aos setores produtivos e à sociedade. Ao considerar
a bacia amazônica e o bioma florestal como referências, vai
mais além, situando a Amazônia brasileira em sua importância
estratégica para a integração continental.
Mudando padrões de
formulação de política
A promoção de arranjos
produtivos locais - APLs, baseados em vantagens comparativas
associadas à diversidade, se ressente da persistência de
fraturas no tecido social. A experiência mostra que o
sucesso de APLs está fortemente condicionado pela harmonia
entre atores sociais relevantes, na medida em que requer a
sinergia de ações no processo produtivo. Essa visão é
secundada pelas mais recentes teorias de desenvolvimento,
assim como por farta evidência empírica, que associam
desenvolvimento tanto com a formação de consensos entre
grupos sociais, quanto com a sinergia entre Estado e
sociedade na construção de políticas públicas. Tal objetivo,
comum a qualquer plano de desenvolvimento, é de importância
ainda maior para a Amazônia, em função da herança de
antagonismos e fragilidade institucional legada pelas
políticas desenvolvimentistas dos governos anteriores.
A geração de um novo modelo
de desenvolvimento para a Amazônia, em harmonia com as
diretrizes governamentais de crescimento econômico, inclusão
social e sustentabilidade socioambiental, requer um processo
de implementação do PAS orientado por um novo paradigma de
planejamento.
Construindo estratégias
locais e regionais
A concepção do PAS baseia-se
na visão de que o processo de desenvolvimento depende da
construção de instituições adequadas e da mobilização de
sinergias entre Estado e sociedade.
O PAS reconhece a Amazônia
como um mosaico extremamente variado de territórios urbanos
e rurais diferenciados, em que comunidades, tribos e demais
grupos sociais vivem, estabelecem conexões, se relacionam
com a natureza e investem intenso significado cultural e
simbólico. Dessa forma, a proposta de implementação do PAS
não chega ao nível de detalhamento operacional, mas se
restringe a propor diretrizes estruturantes que balizem
amplos processos de negociação com os atores sociais
relevantes.
Estratégias de Implementação
Um dos maiores desafios a
enfrentar no ordenamento do território reside na
compatibilização de interesses de ordem privada com
interesses de ordem coletiva. Isso se manifesta na
destinação de terras públicas, bem como nas ações públicas
de mitigação de efeitos e para as áreas protegidas, com as
decorrentes da implantação da infra-estrutura e dos grandes
projetos. Uma questão central é assegurar direitos de
populações mais vulneráveis tais como produtores familiares,
populações tradicionais e comunidades indígenas frente aos
processos de expansão de atividades econômicas na fronteira
amazônica.
A estratégia preconizada
pelo PAS é ampliar a presença do Estado na região em todos
os níveis. O governo federal deve garantir maior
governabilidade sobre os movimentos de ocupação e
transformação socioprodutiva em determinadas áreas. Tal
presença manifesta-se também por meio da oferta de serviços
públicos essenciais, como educação, segurança, saúde,
habitação, assistência técnica, regularização fundiária e
justiça.
Estratégias para as
Macrorregiões Amazônicas
Arco do
Povoamento Adensado
Corresponde ao arco povoado
do sul e leste da hiléia, envolvendo as grandes extensões de
cerrado do Mato Grosso, Tocantins e Maranhão e as áreas
desmatadas do sudeste do Pará, de Rondônia e do sul do Acre.
A dinâmica dessa macrorregião, que apresenta os mais altos
índices de renda per capita e de desenvolvimento humano, é
ditada pelo intenso movimento de urbanização, Neste sentido,
como saneamento e melhoria geral na provisão dos serviços
públicos urbanos merecem ações específicas, bem como a
consolidação da malha viária e a expansão das redes de
telecomunicações. O mesmo se dá com a promoção da economia
popular, que sustenta amplas cadeias de produção e consumo
nas cidades da região.
Entre as atividades
econômicas nessas áreas, a alta produtividade na produção de
grãos deve compor a agenda estratégica do Plano, ao lado do
controle da erosão do solo e da poluição das águas. O
estímulo à pecuária e a suas indústrias correlatas (frigoríficos
e laticínios) pode integrar-se ao complexo produtivo da
soja. As empresas do ramo da mineração e metalurgia devem
participar mais ativamente dos esforços de desenvolvimento,
não só mediante pagamento de royalties, como na
mobilização de recursos financeiros para investimento nessa
macrorregião.
No campo energético, o
domínio da tecnologia do biodiesel abre novas perspectivas e
revigora as chances de ampliação de um uso mais intensivo
dos recursos nas unidades de produção agropecuárias e
agroindustriais de menor porte, permitindo a inclusão dos
pequenos produtores rurais. Além da produção de energia
hidroelétrica gerada por novas tecnologias. Por outro lado,
os sistemas agroflorestais e os produtos florestais não
madeireiros reclamam atendimento às necessidades básicas dos
projetos experimentais já existentes. Estes demandam
provisão adequada de crédito, acesso aos mercados,
capacitação gerencial, comercial e técnica das organizações
de produção e difusão de tecnologias promissoras.
Amazônia Central
Esta área abrange um vasto
território entre os rios Xingu (leste), Madeira (oeste),
Mato Grosso (sul) e as Guianas (norte), compreendendo o
centro e o oeste do Pará e o leste do Amazonas. Essa
macrorregião convive com forte expansão de novas fronteiras
agropecuárias, principalmente ao longo dos eixos rodoviários
e fluviais. É grande a proporção de áreas florestais, terras
indígenas unidades de conservação, o que a torna
particularmente vulnerável. O foco da ação deve ser o
ordenamento da expansão em torno de rios e rodovias, o
fortalecimento da produção familiar, a exploração da
floresta sustentável, a agregação de valor à produção local
e a aceleração do ritmo da ação conservacionista.
Amazônia
Ocidental
A terceira macrorregião
compreende vastas extensões que, permanecendo distantes de
grandes rodovias implantadas no passado, são comandadas
ainda pelo ritmo da natureza. É imensa sua potencialidade,
não só de florestas como farta em disponibilidade de água e
de recursos naturais, que ainda permanecem distantes das
grandes rodovias. A sociodiversidade é uma das grandes
riquezas, com forte presença de populações indígenas e
caboclas e das forças militares. A concentração da economia
industrial em Manaus não rompeu com o domínio do
extrativismo e da circulação fluvial da Amazônia Ocidental.
A região corresponde aos estados do Amazonas, de Roraima e à
maior parte do Acre, embora sejam baixos os índices de renda
per capita e de desenvolvimento humano.
Vigilância e expansão
orientada devem ser as palavras-chaves para a ação política
nessa área, onde são cruciais as contribuições do Sistema de
Proteção da Amazônia (SIPAM) e do Sistema de Detecção de
Desmatamento em Tempo Real (DETER).
O Plano da
BR-163 Sustentável
A rodovia BR-163, no trecho
Cuiabá-Santarém, possui 1.765 KM e atravessa uma das regiões
mais importantes da Amazônia do ponto de vista do potencial
econômico, diversidade biológica, riquezas naturais e
diversidade étnica e cultural. O estado precário das
rodovias na região tem sido um grave obstáculo para o
desenvolvimento e melhoria da qualidade de vida de sua
população. Pavimentá-la, uma reivindicação popular de mais
de três décadas, tornou-se prioridade do Governo Federal.
A pavimentação da rodovia
sem um plano consistente poderia acelerar os impactos
sociais e ambientais indesejáveis em sua área de influência.
Tanto o Governo quanto as organizações da sociedade civil
alertam que as obras de infra-estrutura devem ser
combinadas a medidas de combate à violência e à grilagem de
terras públicas, bem como a alocação de recursos financeiros
para apoio à agricultura familiar e às populações
tradicionais.
O Plano BR-163 sustentável
inclui o asfaltamento da rodovia em um planejamento mais
amplo, que contempla ações de ordenamento do território,
infra-estrutura, fomento a atividades econômicas
sustentáveis, melhoria dos serviços públicos e outras ações
voltadas à inclusão social e ao fortalecimento da cidadania.
Financiamento do
Desenvolvimento Regional
Os instrumentos de
financiamento da região amazônica precisam ser reorientados
de acordo com as diretrizes do Plano Plurianual de
Investimento - PPA de crescimento econômico com inclusão
social e sustentabilidade ambiental.
Essas diretrizes implicam a
reorientação dos financiamentos e investimentos ora
praticado na região, em especial os destinados pelos fundos
constitucionais e pelas instituições de crédito e
financiamento oficiais.
Neste sentido, o PAS pode
representar uma oportunidade pioneira de institucionalização
de iniciativas de articulação público-privado nacional com
parceiros internacionais que demonstrem interesse em
participar de um novo modelo sustentável de desenvolvimento,
que também pode servir de referência para outras
experiências similares no mundo.
Microfinanças como
instrumento de desenvolvimento local
O projeto de pesquisa
pretende avaliar a aplicação (efetividade) do Programa de
Microfinanças (Microcrédito), em relação a seus impactos,
quanto à geração de emprego e renda, para as populações (em
economias) mais carentes de recursos, como da Região
Norte, especificamente Porto Velho.
A avaliação da microfinanças
é fundamental para entendimento se de fato insere no mercado
de crédito parcelas da população antes dele excluídas, além
de revelar a capacidade de massificação destes instrumentos,
em conformidade à capacidade destes programas ou atividades
oferecem respostas aos problemas relacionados à assimetria
de informação do mercado de crédito.
Por conseguinte, este
projeto enquadra-se dentro das diretrizes do PAS, quando se
refere a acesso ao crédito por segmento da população – de
baixa renda urbana - que não preencham os requisitos,
usualmente exigidos em operações bancárias, procura resposta
à inserção dessa camada da população que vive na
marginalidade do mercado produtor e consumidor.
Conclusões
Os desafios de
uma interpretação moderna da Amazônia e dos caminhos que
contribuam na implementação de vias sustentáveis no seu
desenvolvimento passam inevitavelmente pela cooperação
internacional. O Plano Amazônia Sustentável – PAS, não caiu
do céu. Não foi um gesto altruísta de ‘bondade universal’,
mas também não está ligado a nenhuma ‘conspiração
imperialista’. A partir de uma visão não-reducionista,
admite-se que seus fundamentos políticos-ideológicos
expressam condensações contraditórias de projetos anteriores
de desenvolvimento para a região.
A Amazônia se
tornou objeto de preocupação política do governo brasileiro,
decisivamente pela pressão externa, ou seja, ao invés de
soberanamente tomar iniciativa em termos de políticas
eficazes e de longo prazo para a região, o governo
brasileiro age de forma reativa as demandas exógenas.
A contribuição da região
para a Governança não diz respeito apenas ao seu importante
papel nas mudanças climáticas e reservas de
sócio-biodiversidade que abriga, mas essencialmente por
apontar em direção a um novo patamar civilizatório,
fundamentado no aproveitamento sustentável dos recursos
renováveis. A busca de alternativas e um futuro sustentável
para a Amazônia não ocorrerão sem uma ampla articulação do
capital social, de forças nas diferentes esferas de espaço,
território, poder e identidades. A contemporaneidade reflete
avanços em direção a constituição de padrões de governança
mais democráticos e policêntricos.
Referências Bibliográficas
AB’SABER, A. Domínios de natureza no Brasil: ordens de
criticidade. O caso da Amazônia. In: VELLOSO, J. P. R.
(Org.) A ecologia e o novo padrão de desenvolvimento no
Brasil. São Paulo: Livraria Nobel S. A, (1992).
ARAGÓN, Luis E. (Org.).
Amazônia 21: Uma Agenda para um Mundo Sustentável.
Brasília: UNAMAZ/SCA, (1998).
ARAGÓN, Luis E. Há
futuro para o desenvolvimento sustentável da Amazônia?
NAMAZ/SCA (2003).
BARBA, C. H. Orientações
básicas na elaboração do artigo científico. <http//:
www.unir.br>
(2006) Acesso em 14.07.2006.
BARBANTI
JR., O. Urban dimensions in rural livelihoods:
implications for grassroots development and sustainability
in the Brazilian Amazon. London: London School of
Economics and Political Science, (PhD thesis). (1998).
BECKER, B.K. Geografia
Política e Gestão do Território no Século XXI. Uma
reflexão a partir do Brasil. Revista Brasileira de
Geografia. Rio de Janeiro, (1992).
BENCHIMOL, S. Amazônia: a guerra na floresta. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira (1992).
BRASIL/MINISTÉRIO DA INTEGRAÇÃO NACIONAL-MI. Plano Amazônia
Sustentável. Brasília (2006).
DE
LA TORRE, Luis Carrera. Políticas y estratégias de
desarrollo sustentable en la región amazónica. In: Pavan,
Crodowaldo (Org.). Uma
estratégia Latino-Americana para a Amazônia.
São Paulo: Fundação Memorial da América
Latina. Vol. 3, p. 204-229, (1996).
FRANÇA, S. F. Processo de
ocupação da Amazônia e suas estratégias de integração,
desenvolvimento e segurança. Revista Múltipla, Brasília,
10(18): 137 – 161, (junho – 2005).
GONÇALVES, C. W. P. Amazônia, Amazônias. São Paulo:
Contexto, (2001).
GOODMAN, D., HALL, A. (Ed.). The future of Amazonia:
destruction or sustainable development?
London: Macmillan, (1990).
HARDIN, G. A Tragédia dos Comuns.Tradução do autor
(2006).
IPAM – Instituto de Pesquisa
Ambiental na Amazônia/ISA – Instituto Socioambiental. Avança
Brasil: os custos ambientais para a Amazônia. In: BARROSO,
A. C. (Org.). Sustentabilidade e democracia para as
políticas públicas na Amazônia. Rio de Janeiro: FASE, p.
41-66, (2001). (Série Cadernos Temáticos, n. 8). (2001).
KITAMURA, P. C. A Amazônia e o
desenvolvimento sustentável. Brasília: EMBRAPA, (1994).
______. Amazônia: produtos e serviços naturais e as
perspectivas para o desenvolvimento sustentável regional.
In: ROMEIRO, A. R., REYDON, B. P & LEONARDI, M. L. A.
(Orgs.). Economia do Meio Ambiente: teoria, políticas e a
gestão de espaços regionais. Campinas: UNICAMP.IE.
(1997).
LE PRESTE, P. Ecopolítica
Internacional. São Paulo. Ed. Senac, (2000).
RICCI, RUDA. governança
solidária ou democrática: uma nova elaboração de governo
democrÁtico no Brasil (2004).<
http://www.cultiva.org.br/textos/governaca_solidaria.doc.
> acesso em 12.07.2006.
SERRA, M. A. &
FERNANDÉZ, R. G. Perspectivas de desenvolvimento da
Amazônia: motivos para o otimismo e para o pessimismo.
Economia e
Sociedade, Campinas, v. 13, n. 2 (23), p. 107-131, jul./dez.
(2004).
SCHNEIDER,
R. R. Government and the economy on the Amazon frontier.
World Bank Environment Paper Number 11, Washington, D.C. 65
p. (1994).
SCHNEIDER, R. R. et al.
Amazônia Sustentável: limitantes e oportunidades para o
desenvolvimento rural. tradução:
Tatiana Corrêa. - Brasília: Banco Mundial; Belém: IMAZON,
(2000).
SILVA, A. T.
Desafios políticos e
socioambientais da governança global na amazônia: a
emergência do programa piloto para a proteção das florestas
tropicais do Brasil (ppg-7).
NAEA/UFPA, (2005).
STROH, P. Y. Sustentabilidade da biodiversidade florestal
da Amazônia: um desafio complexo de construção da
democracia participativa. Mimeo. Brasília, (1998)
TCA – Tratado de
Cooperação Amazônica.
Programs and Projects of The Amazon
Cooperation Treaty. Quito:
TCA, (1992).
VERÍSSIMO, A.; SOUZA JR., C.;
SALOMÃO, R. & BARRETO, P. Identificação de Áreas com
Potencial para a criação de Florestas Públicas de Produção
na Amazônia Legal. Ministério do Meio Ambiente (MMA),
Organização das Nações Unidas para a Agricultura e
Alimentação (FAO). 35 p. (2000).
|