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Danilo Pretti Di
Giorgi |
| publicado em
02/02/2009 |
Em dias de calor
paulistano, por falta de
uma praia ou de um rio
limpo para nadar,
enchemos no quintal uma
pequena piscina
portátil. Dia desses,
domingo de verão, deixei
meu filho dentro da
baleia azul de plástico
e pedi para que
mantivesse a mangueira
ali dentro apenas até
enchê-la. Saí de perto
e, logo depois, quando
voltei para ver a
quantas andava o
processo, vi que a
piscininha estava cheia,
mas meu menino não havia
fechado a torneira:
brincava com o jato
d'água, direcionando-o
para onde sua imaginação
infantil mandava, ora
regando o jardim, ora
brincando de fazer
chover.
Já me preparava para
falar-lhe sobre a
importância ecológica de
economizar água, um
recurso tão valioso e
tal e coisa, quando me
contive e resolvi
deixá-lo brincar em paz
pelo menos por mais
alguns minutos. É que me
lembrei que o uso
doméstico corresponde a
uma parcela ínfima da
água doce usada pelos
seres humanos no Brasil.
Os dados variam um pouco
dependendo da fonte
consultada, mas, grosso
modo, 70% do total é
consumido no agronegócio,
20% na indústria e
apenas 10% corre pelos
canos das casas e
apartamentos.
Entretanto, quando o
problema é abordado
pelos grandes meios de
comunicação e em
campanhas de órgãos
públicos, é lembrado
apenas o "comportamento
leviano" dos urbanos,
que aliviam o calor
lavando um carro, uma
calçada ou se divertindo
numa piscininha. Ou que
se refazem de um dia
cansativo tomando um
banho um pouco mais
demorado no inverno.
Reparem que o foco é
sempre direcionado
apenas para o consumidor
doméstico: devemos tomar
banhos de cinco minutos,
usar a água da lavadora
de roupas para lavar o
quintal e fechar a
torneira enquanto
escovamos os dentes.
Lavar o carro? Só se for
com balde, porque assim
você gasta não sei
quantas vezes menos água
do que com mangueira.
Por que esta patrulha,
que faz-nos, cidadãos
comuns, ficarmos
neuróticos a ponto de
censurar uma criança por
brincar com a água? Por
que não direcionam sua
artilharia também para
as gigantes da indústria
alimentícia, como as
processadoras de carnes,
altamente poluidoras e
que utilizam grandes
quantidades de água
limpa em seus processos,
muitas vezes
devolvendo-a contaminada
para o ambiente?
Por que não questionam o
sojicultor e o
sucroalcooleiro que, ao
irrigarem suas
megaplantações com água
limpa, levam de volta
para os rios e impregnam
a terra com venenos,
como agrotóxicos e
fertilizantes produzidos
a partir de petróleo?
Ou, ainda, por que não
questionam a necessidade
de alguns processos que
consomem (e poluem)
quantidades enormes de
água, como, por exemplo,
as indústrias de aço e
de tecidos, refinarias
de petróleo e
cervejarias, entre
muitas outras? Eu tenho
um palpite: porque eles
ganham rios de dinheiro
com as atividades que
poluem os rios.
O mesmo raciocínio pode
ser utilizado com
relação ao consumo de
energia elétrica.
Enquanto fazem-nos
sentir culpados pelo
banho quente ou por
deixar a geladeira
aberta por mais do que
alguns segundos, a
produção de alumínio
responde sozinha por
mais de 5% de toda a
energia elétrica
consumida no Brasil.
Vale destacar que, na
quase totalidade dos
casos, os processos
produtivos, sejam eles
na indústria ou no
agronegócio, não são
eficientes, até porque
muitas vezes as empresas
contam com subsídios
governamentais e pagam
pouco energia elétrica
que consomem (e
normalmente usam a água
sem nenhum custo). Quase
sempre há perdas
significativas desses
insumos, que poderiam
ser reduzidas com um
pouco de boa vontade
para a tomada de algumas
medidas relativamente
simples. Mas não se vê
governo ou mídia
cobrando a implementação
dessas medidas. Um
grande mistério.
É verdade que, na maior
parte dos casos, a água
usada no agronegócio e
na indústria não passa
por tratamento para
tornar-se saudável para
o consumo, como a que
chega às nossas
torneiras. São as
chamadas águas de reuso
ou aquelas captadas
diretamente dos rios.
Poder-se-ia, portanto,
contra-argumentar por
aí. Mas perceba que a
alta cada vez mais
acentuada no custo dos
processos de purificação
da água está ligada
diretamente com o
crescimento da poluição,
a maior parte dela
causada pelos, voltando
para o começo, processos
industriais e
agropecuários. Trata-se
de um ciclo interligado
em todas as suas muitas
fases, que não pode ser
analisado separadamente.
Pior: o próprio poder
público, que cobra da
população uma atitude
responsável, não parece
importar-se: quase a
metade (45%) de toda a
água que se retira de
mananciais para
abastecer as capitais
brasileiras é perdida
antes de chegar às casas
e atender à população,
na maior parte dos casos
por conta de vazamentos
nas tubulações (ou,
importa-se sim, mas
importa-se apenas em nos
culpar, não em resolver
o problema). Não, não é
brincadeira. São dados
oficiais do Ministério
das Cidades, a partir de
informações fornecidas
pelos órgãos estaduais:
quase metade da água
tratada pelas "Sabesps"
Brasil afora não chega
nas torneiras pela falta
da manutenção. Então, ao
invés de focar apenas no
consumidor, os governos
poderiam cuidar da parte
que lhes cabe e
consertar os canos. Mas,
não!
Mais alguns dados
alarmantes relacionados
ao governo (e perceba
que "governo" quando
tratamos desse tipo de
questão são todos, os
atuais e passados, desde
sempre): apesar de ser
bastante divulgado que
mais de 60% das
residências no Brasil já
contam com coleta de
esgoto, pouca gente
lembra que apenas 6% do
esgoto é tratado. O
restante é despejado in
natura em rios e lagos,
novamente encarecendo o
tratamento da água que
chega às casas e
alimentando o ciclo da
sujeira e do descaso.
A moral dessa história é
que continuamos nós,
cidadãos comuns, arcando
com todo o ônus e
passando longe do bônus.
Para não mexer com
interesses poderosos
(dos quais são parte
integrante), governo e
mídia preferem
transferir o problema
para o elo mais fraco,
eu, você e nossos
filhos, mesmo que
possamos fazer muito
pouco pela solução do
problema. Veja só: somos
180 milhões,
responsáveis por 10% do
consumo. Não seria mais
inteligente compartilhar
os esforços com aqueles
que consomem os 90%
restantes, ainda mais
considerando que eles
são em número
infinitamente inferior?
E trabalhar arduamente
para eliminar as perdas
na rede de distribuição
e para universalizar o
tratamento de esgotos?
Não vou, por conta
disso, deixar de
economizar água. Vou
também continuar
adotando as práticas
defendidas nas
reportagens especiais
que sempre surgem nos
meios de comunicação
sobre o colapso do
abastecimento nas
grandes cidades - até
porque elas são
"tecnicamente"
incontestáveis. Varrerei
a calçada, apesar de
saber que a vassoura
hidráulica é muito mais
divertida. Aproveitarei
a água da piscininha e
captarei água da chuva
para regar meus vasos
nos dias de seca, apesar
do trabalho que dá.
Fecharei a torneira
enquanto escovo os
dentes, apesar de adorar
o barulhinho da água
correndo enquanto medito
durante minha higiene
bucal. Farei tudo que
venho fazendo, sabendo
que minha parte faz
diferença. Mas não me
peça para não deixar as
crianças se divertirem
brincando de guerra de
água no quintal num dia
de calor.
Danilo Pretti Di
Giorgi é jornalista.
E-mail:
digiorgi@gmail.com
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