|
Após soar o apito final na Alemanha – espero que decretando
mais um título mundial de futebol para o Brasil, consagrando
definitivamente o gênio de Ronaldinho Gaúcho–, três palavras
vão começar a ser repetidas como um mantra por candidatos a
todos os cargos em disputa nas eleições de outubro deste
ano: crescimento da economia. O crescimento vai ser vendido
como a panacéia que resolverá todos os problemas da nação. A
oposição vai mirar suas metralhadoras giratórias no "pífio"
crescimento deste ano, comparando o percentual ao alcançado
por outros países do continente e do mundo. O governo vai
devolver comparando seu resultado em quatro anos com a média
durante o reinado tucano, vencendo por uma cabeça de
vantagem. A China será citada como exemplo a ser seguido,
com seus dois dígitos de expansão no ano passado. Até mesmo
candidatos a cargos legislativos darão preferência ao tema
para seduzir o eleitor. Do PCO ao PFL, o coro vai entoar o
mesmo tom.
Realmente não é fácil ir contra esta maré. Por pior que seja
a distribuição de renda no Brasil, é inegável que a expansão
do PIB acaba melhorando a vida de quase todos. Se o país
tivesse crescido 10% e não 2,3% no ano passado,
representantes de todas as camadas sociais se beneficiariam.
Mesmo com a vergonhosa distribuição de renda no país, quando
o tamanho do bolo aumenta, as migalhas também se tornam mais
fartas (na forma de caixas de papelão de eletrodomésticos
novos para os catadores de lixo, por exemplo).
Mas a coisa muda de figura quando falamos seriamente sobre
meio ambiente e quando pensamos no que vai acontecer no
mundo que queremos deixar para as futuras gerações. Não há
mágica que permita a expansão contínua e constante da
economia, pois os recursos necessários para a produção dos
bens de consumo são limitados. Alguns deles são finitos e
outros renováveis, mas nem uns nem outros podem suportar por
muito tempo um crescimento desenfreado da economia.
Talvez você nunca tenha ouvido falar em Herman Daly. Este
norte-americano nascido em 1938 é talvez o principal
"economista ecológico" do mundo. Professor de grandes
universidades durante a maior parte de sua vida, Daly ocupou
por seis anos o prestigioso cargo de senior economist no
incipiente Departamento Ambiental do Banco Mundial. Em 1994,
cansado de tentar sem sucesso mudar a forma de pensar dos
economistas conservadores, pediu demissão e voltou a dar
aulas e a escrever livros e artigos bombásticos.
Para se ter uma idéia, ele defende que, para que a economia
seja sustentada no longo prazo, devemos obedecer a três
preceitos fundamentais: a) limitar o uso dos recursos para
que os rejeitos possam ser absorvidos pelo ecossistema; b)
explorar recursos renováveis de forma a não exceder a
capacidade do ecossistema de regenerá-los; e c) exaurir
recursos não-renováveis a um ritmo que não exceda a taxa de
desenvolvimento de substitutos renováveis. Não é pouca
coisa.
Embasado em ricas e revolucionárias teorias econômicas que
não caberiam no espaço deste artigo, Daly defende uma
radical mudança no raciocínio econômico, que passaria a
considerar mais explicitamente que a biosfera que lhe dá
suporte é finita. O professor afirma que o crescimento da
economia está afetando cada vez mais o ecossistema à sua
volta e isso causa o sacrifício do que chama de "capital
natural" (os recursos naturais em geral, como peixes,
minerais, petróleo), que valeria mais do que o capital
criado pelo homem (estradas, fábricas, eletrodomésticos). Aí
começa o que ele chama de "crescimento deseconômico", que
produz males mais rapidamente do que bens, o que nos torna
mais pobres e não mais ricos (como, por exemplo, as
atividades madeireiras na Amazônia).
Segundo seu raciocínio, a única forma de resolver este
problema é exatamente interrompendo o crescimento econômico,
pois, considerando-se que, à exceção da energia solar, a
biosfera é finita, não cresce e é fechada, o subsistema
econômico tem que parar de crescer em algum momento. Este
momento já teria passado, segundo os cálculos de Daly. Se
não respeitarmos os limites físicos inerentes ao ecossistema
mundial, não há como mantê-lo funcionando no futuro.
Contrariando praticamente todos, em todos os países do
mundo, que comemoram recordes na produção de automóveis e
nas safras de monoculturas como grandes vitórias da
sociedade, ele defende o fim do crescimento econômico.
De forma incrivelmente lúcida, Daly afirma que os padrões
econômicos defendidos pelo que chama de economistas
neoclássicos foram definidos há muitos anos, para lidar com
um "mundo vazio", quando a idéia de 6,5 bilhões de
habitantes e da escassez de recursos não era considerada.
Para ele, devemos passar a produzir bens com vida útil mais
longa, de forma que consumam menor quantidade de recursos
naturais, dando preferência para a manutenção do antigo que
à compra de um novo; limitar os rendimentos conforme a
capacidade do meio ambiente de repor o que é consumido;
taxar não a renda (o que queremos), mas sim o que queremos
evitar (esgotamento de recursos e poluição).
Daly sabe que o sucesso de suas propostas depende de enorme
mudança de visão de mundo de todas as pessoas. Ele sabe que
muitos taxarão tal projeto de politicamente impossível. Para
estes, ele tem resposta pronta: "a alternativa a uma
economia sustentável, que mantenha permanente crescimento, é
biofisicamente impossível. Ao escolher entre enfrentar uma
impossibilidade política e uma impossibilidade biofísica, eu
escolheria a primeira opção". Para saber mais sobre as
idéias do economista, visite o link
www2.uol.com.br/sciam/conteudo/materia/materia_81.html.
É satisfação garantida ou seu mundo de fantasia de volta.
|