.ISSN 1678-8419  

Revista Partes - Ano V - 22/04/2006 22:53:03 

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A Manchete do dia
Por Neiva Pavesi

Leio, de Eduardo Alves da Costa, o poema No caminho, com Maiakóvski:” Tu sabes/ conheces melhor do que eu/ a velha história./ Na primeira noite, eles se aproximam/ e roubam uma flor/ do nosso jardim./ E não dizemos nada./ Na segunda noite, já não se escondem:/ pisam as flores,/ matam nosso cão,/ e não dizemos nada./ Até que um dia, / o mais frágil deles/ entra sozinho em nossa casa,/ rouba-nos a luz, e, /conhecendo nosso medo,/arranca-nos a voz da garganta./ E já não podemos dizer mais nada.”Qualquer semelhança com o que é noticiado, não é mera coincidência. Estamos deixando que nos roubem a voz. Pequenas ações realizadas por seres humanos desprovidos de consciência social, destroem o que de bom ainda existe no mundo. Foi somando o conjunto da obra, ao longo do tempo, que chegamos à situação crítica de hoje. Somos tão insensatos! Nada nos afeta. “Não foi comigo; não tenho nada com isso”. É comigo, sim, mesmo que aconteça com o outro. É preciso gritar agora, antes que sejamos calados para sempre. Questionar a injustiça social, o preconceito, o preço dos pedágios; o ônibus que pára no meio da rua, para a subida e descida de passageiros; o motorista descontente que manda os mais idosos entrarem pelas portas de saída; os idiotas que não respeitam a faixa amarela para os ônibus e nela estacionam seus carros; os caminhões de entrega e de mudança que param no ponto de ônibus, desalojando os usuários; a CET que não toma providências; o lixo que entope os bueiros; a falta de cidadania, de valores, de respeito próprio do povo; a falta de visão dos gestores municipais que não implantam uma seleção e coleta decentes de lixo limpo nos prédios da cidade; os deputados e senadores que legislam em causa própria; os corruptos que esbanjam o dinheiro do povo; a família que não forma suas crianças; os gestores da educação e seus projetos mirabolantes de execução duvidosa; a falta de estrutura para os educadores e de muitos educadores; e mais uma lista infindável de desrespeito, de falta de vontade política, de falta de solidariedade, de cidadania, para resolver problemas que se cristalizam com o passar do tempo. Problemas que, mesmo não sendo comigo, certamente, me afetarão.

Das crianças até os adultos, pensamos só em direitos. Não percebemos, com clareza, que temos deveres e responsabilidades para com os que nos cercam. Não percebemos a dimensão da nossa unicidade. Interagirmos é a única maneira de evitarmos a extinção. Só os que interagem, sobrevivem. A degradação humana e ambiental, das formas mais perversas possíveis, é resultado do desrespeito mútuo, do nosso “não é comigo”.A duras penas aprenderemos que estamos todos no mesmo barco e o que prejudica um, prejudica todos. Enquanto isso, não participamos da solução dos problemas da cidade e do País. Jogamos fora a nossa voz. O resultado está nas manchetes do dia.

Neiva Pavesi é escritora, promotora de leitura, divulgadora cultural e palestrante na área de educação. Pertence ao Proler/BS/Unisanta; ao Grêmio de Haicai Caminho das Águas; ao Grupo de Leitura Mania de Ler; ao Grupo Literário Café com Letras; ao Grupo Poético Cantigas Praianas.  Estuda Filosofia do Comportamento  e cursa dramaturgia na Escola Livre de Artes Cênicas. Colaboradora do Jornal A Tribuna, de Santos, onde reside.
npavesi@uol.com.br

 



 

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