|
Leio, de Eduardo Alves da Costa,
o poema No caminho, com Maiakóvski:” Tu sabes/ conheces
melhor do que eu/ a velha história./ Na primeira noite, eles
se aproximam/ e roubam uma flor/ do nosso jardim./ E não
dizemos nada./ Na segunda noite, já não se escondem:/ pisam as
flores,/ matam nosso cão,/ e não dizemos nada./ Até que um
dia, / o mais frágil deles/ entra sozinho em nossa casa,/
rouba-nos a luz, e, /conhecendo nosso medo,/arranca-nos a voz
da garganta./ E já não podemos dizer mais nada.”Qualquer
semelhança com o que é noticiado, não é mera coincidência.
Estamos deixando que nos roubem a voz. Pequenas ações
realizadas por seres humanos desprovidos de consciência
social, destroem o que de bom ainda existe no mundo. Foi
somando o conjunto da obra, ao longo do tempo, que chegamos à
situação crítica de hoje. Somos tão insensatos! Nada nos
afeta. “Não foi comigo; não tenho nada com isso”. É comigo,
sim, mesmo que aconteça com o outro. É preciso gritar agora,
antes que sejamos calados para sempre. Questionar a injustiça
social, o preconceito, o preço dos pedágios; o ônibus que pára
no meio da rua, para a subida e descida de passageiros; o
motorista descontente que manda os mais idosos entrarem pelas
portas de saída; os idiotas que não respeitam a faixa amarela
para os ônibus e nela estacionam seus carros; os caminhões de
entrega e de mudança que param no ponto de ônibus, desalojando
os usuários; a CET que não toma providências; o lixo que
entope os bueiros; a falta de cidadania, de valores, de
respeito próprio do povo; a falta de visão dos gestores
municipais que não implantam uma seleção e coleta decentes de
lixo limpo nos prédios da cidade; os deputados e senadores que
legislam em causa própria; os corruptos que esbanjam o
dinheiro do povo; a família que não forma suas crianças; os
gestores da educação e seus projetos mirabolantes de execução
duvidosa; a falta de estrutura para os educadores e de muitos
educadores; e mais uma lista infindável de desrespeito, de
falta de vontade política, de falta de solidariedade, de
cidadania, para resolver problemas que se cristalizam com o
passar do tempo. Problemas que, mesmo não sendo comigo,
certamente, me afetarão.
Das crianças até os adultos,
pensamos só em direitos. Não percebemos, com clareza, que
temos deveres e responsabilidades para com os que nos cercam.
Não percebemos a dimensão da nossa unicidade. Interagirmos é a
única maneira de evitarmos a extinção. Só os que interagem,
sobrevivem. A degradação humana e ambiental, das formas mais
perversas possíveis, é resultado do desrespeito mútuo, do
nosso “não é comigo”.A duras penas aprenderemos que estamos
todos no mesmo barco e o que prejudica um, prejudica todos.
Enquanto isso, não participamos da solução dos problemas da
cidade e do País. Jogamos fora a nossa voz. O resultado está
nas manchetes do dia. |