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| Mangabeira e as
aventuras espaciais |
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Danilo Pretti
Di Giorgi
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| publicado em
18/06/2008 |
Vamos bem no
que diz respeito ao meio ambiente. Enquanto o novo
ministro da pasta concentra-se em conseguir mandados de
prisão para os bois amazônicos, Roberto Mangabeira Unger,
designado por Lula como o responsável por pensar o
"desenvolvimento com sustentabilidade" da Amazônia,
planeja a colonização de outros planetas, depois de
esgotados os recursos naturais da Terra.
Unger foi uma figura central, apesar de pouco observada,
no episódio da saída de Marina Silva do governo e
recebeu do presidente Lula a função de coordenar o PAS
(Plano Amazônia Sustentável) em detrimento de Marina,
que gestou o plano. Para muitos, essa foi a gota d'água
no pote já até a boca de mágoas da ex-seringueira
acreana com o presidente.
Dele, pouco se sabe, além de que, apesar de brasileiro,
fala e escreve com mais desenvoltura em inglês e que
tentou sem sucesso candidatar-se à presidência da
República em 2006. Sabe-se também que escreveu em 2005
na Folha de São Paulo que o governo Lula era "o mais
corrupto da nossa história" e que, apesar disso, é hoje
ministro de Assuntos Estratégicos deste mesmo governo.
Curioso sobre o pensamento desta misteriosa figura no
que diz respeito ao meio ambiente, fui atrás do que
Unger, tido por alguns, como Caetano Veloso, como um dos
grandes pensadores da atualidade, andou escrevendo sobre
o tema antes de assumir a gerência da Amazônia
brasileira. Descobri que escreveu pouco ou quase nada,
pelo menos na imprensa.
Nos mais de oito anos em que o professor da Harvard
manteve uma coluna semanal na Folha de São Paulo, além
de ofender com freqüência seu atual chefe, o presidente
Lula, nas poucas oportunidades em que citou a Amazônia o
fez de passagem e para defender a construção de
hidrelétricas nos seus grandes rios. Mau começo.
Curioso, resolvi ir mais além. Achei algo mais
aprofundado em seu livro
The Self Awakened: Pragmatism
Unbound (algo como O auto-despertado: o
pragmatismo libertado), publicado pela Harvard Press
University no ano passado e ainda não traduzido para o
português. As idéias expostas no apêndice Nature in its
place (A natureza no seu lugar) deixaram-me apreensivo.
Unger basicamente dá aval para a degradação ecológica,
apostando num futuro alucinado de ficção científica que
traria soluções mágicas para os problemas ambientais.
Escreve que "mesmo se a Terra definhar, acharemos um
meio de escapar para outros pontos do Universo" e tem
uma estranha visão do ser humano como cada vez mais
descolado e independente da natureza.
Para o professor Mangabeira, existem na sociedade atual
quatro formas de ver e entender a natureza. A primeira
seria o que ele chama de "deleite do jardineiro" - o
"jardim" seriam as áreas protegidas, os grandes parques.
Essas áreas seriam necessárias para fugirmos de vez em
quando das durezas do dia-a-dia e mergulharmos em uma
"liberdade estética".
Outra forma de troca entre homem e natureza é
classificada como "a fragilidade do mortal", ou a nossa
incapacidade de fazer algo para evitar as conseqüências
de grandes catástrofes ou evitar as enfermidades
incuráveis.
A terceira seria a "ambivalência do titã": defende que
chegamos num ponto de progresso no qual somos capazes de
questionar o efeito de nossas ações sobre tudo que nos
cerca e que essa consciência teria criado o dilema entre
a incapacidade de nos mantermos indiferentes a estes
efeitos e, ao mesmo tempo, não conseguirmos abrir mão do
nosso poder sobre a natureza em nome dessa consciência.
A quarta forma seria a "responsabilidade do
administrador". Diz Mangabeira que nós, seres humanos,
nos vemos como "gerentes" de um fundo finito de recursos
– os recursos naturais. Por isso, nos sentimos na
obrigação de regular o ímpeto voraz pelo consumo em nome
de uma necessidade de comedimento na utilização destes
recursos, em virtude da sua natural tendência à
escassez. Até aí tudo bem. Mas o que me assusta é que
ele define esse sentimento como uma "ansiedade baseada
em uma ilusão" e que "a necessidade, mãe da invenção,
nunca na história moderna falhou no momento de oferecer
uma resposta científica e tecnológica à escassez de
recursos, deixando-nos mais ricos do que éramos antes".
"A água vai secar? O petróleo vai acabar? (...) Seria
tolo não perceber que nunca um acontecimento como este
provou ser páreo para nossa engenhosidade", mostrando-se
neste ponto exageradamente otimista quanto às
possibilidades da ciência e tecnologia.
O perigo desta mensagem está no fato de que ela traz o
que as pessoas estão querendo ouvir neste momento de
pavor e insegurança crescentes causados pelos estudos
sobre mudanças climáticas. E o mensageiro não é uma
pessoa qualquer: é ministro de Estado, tem o aval de
Harvard e o apoio de Caetano Veloso, este último
representando uma parcela importante da assim chamada
intelectualidade brasileira.
O recado pode ser traduzido da seguinte forma: podem
continuar nesse rumo que a resposta virá em breve, não é
necessário mudar a direção, está tudo certo assim como
estamos conduzindo o mundo. Se estragarmos a Terra,
poderemos partir em busca de outro local para degradar.
Deixe de lado essa culpa besta por gastar água demais ou
se preocupar se o bife que você está comendo vem de uma
área de floresta degradada. Não se importe com o fato de
que a humanidade consome mais recursos naturais do que o
planeta pode suportar.
Relaxe e continue consumindo e produzindo sem freios. O
futuro trará respostas que você hoje imagina
impossíveis, mas elas certamente virão e resolverão
todos os problemas que hoje parecem insolúveis. Don´t
worry, sirva-se.
Unger desenvolve um raciocínio segundo o qual o ser
humano estaria descolando-se cada vez mais da natureza
como conseqüência natural da nossa evolução, como se não
fôssemos parte integrante da natureza e como se não
retirássemos dela tudo o que utilizamos, dos alimentos à
matéria prima para mísseis. O ministro parece acreditar
que, em certo momento, de alguma forma não dependeremos
mais da natureza (pelo menos da natureza terrestre, e é
aí que entra o perigoso delírio futurista).
Acima de tudo, Mangabeira ataca engenhosa e
indiretamente o princípio de defesa da parcimônia na
utilização dos recursos naturais e do planeta em si,
como local onde vivemos e de onde tiramos nosso
sustento. Para ele, este tipo de raciocínio mostra
fraqueza; não podemos "submeter nossa capacidade de ir
sempre além por causa de um sentimento de piedade".
Parece que sua filosofia se harmoniza muito bem com a
professada pelo grosso dos manda-chuvas do governo
brasileiro. A política de desenvolvimento escolhida para
o país gera mais e mais destruição e não condiz com o
recorrente discurso hipócrita em defesa do meio
ambiente. Essa política é a grande culpada pelo
crescimento da devastação em todo o país.
A ação nociva de madeireiros, pecuaristas e sojicultores
ficaria muito dificultada se o governo não desse apoio –
muitas vezes implícito e sub-entendido, mas sempre
presente - às suas ações.
Danilo Pretti Di Giorgi é jornalista.
Danilo Pretti Di Giorgi é jornalista.
E-mail:
digiorgi@gmail.com
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