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RESUMO: A cidade de
Ilhéus, fundada a partir do século XVI, continua em processo
de expansão urbana. Uma das formas desta expansão é através
do avanço da urbanização sobre áreas de manguezais, causando
sérios problemas ao ecossistema. Os manguezais são
ecossistemas de grande diversidade ecológica, considerada
por muitos, berçário do ambiente marinho. O objetivo deste
trabalho é alertar as populações de Ilhéus e região sobre o
perigo na destruição deste ecossistema e mostrar a sua
importância.
PALAVRAS-CHAVES: Manguezal – ação antrópica – expansão
urbana – impacto ambiental.
O manguezal é um ecossistema costeiro,
típico de regiões tropicais e subtropicais, de solo negro,
bem lodoso e profundo, propaga-se nas enseadas, estuários e
lagunas de água salgada, sujeito ao regime das marés. É
constituída de espécies vegetais lenhosas típicas, além de
micro e macroalgas, adaptada à flutuação de salinidade e
caracterizadas por colonizarem sedimentos predominantemente
lodosos, com baixos teores de oxigênio (SCHAEFFER-NOVELLI,
1995).
A grande quantidade de detrito vegetal, como folhas, galhos
e frutos das árvores, produzida por esse ecossistema
constitui-se de alimento energético rico em proteínas para
diversos componentes da fauna estuarina e marinha, vez que,
durante o processo de decomposição são colonizados por
microorganismos. Assim, formam a base para diversas cadeias
alimentares. Parte dessa produção é levada pela maré às
águas costeiras adjacentes, representando também no meio
marinho recurso para manutenção de várias espécies de
crustáceos de grande valor comercial, como siris e camarões
e alguns peixes (MENEZES, 1995). Este último representa uma
atividade de grande importância econômica em todo litoral
brasileiro, tanto para a pesca artesanal quanto para a
indústria. Muitos outros animais são explorados
comercialmente, como a lambreta, o sururu, a ostra, o
caranguejo-uçá e o guaiamum (LEMOS, 2006).
As áreas de manguezais são, portanto, de extrema importância
social para a população ribeirinha, uma vez que delas provém
boa parte das proteínas consumidas (mariscos e peixes), tão
essenciais para subsistência e se apresentam como fonte de
renda financeira. Para que os recursos sejam utilizados de
forma racionalmente, de forma sustentada, é preciso que o
homem entenda melhor o funcionamento desse ambiente (GRASSO;
TOGNELLA, 1995).
Como se pode notar o manguezal tem muito a oferecer, porém,
o seu potencial deve ser utilizado de maneira racional, de
forma sustentada, atendendo às suas necessidades de
recomposição como períodos de desovas, prefloração das
espécies vegetais, entre outras.
Por estar localizada próximo ao oceano Atlântico, Ilhéus
possui como vegetação predominante a Mata Atlântica,
floresta densa e exuberante, cuja existência está ligada ao
relevo e à umidade, e as áreas alagadas sob influência do
oceano apresentam vegetais halófilos (de ambientes salinos),
típicos dos ambientes de manguezal.
O município está localizado na Região Nordeste Brasileira,
no Sul do Estado da Bahia, abrangendo uma área de 1.841 km²
e com uma população de 222.127, segundo o censo de 2000
(IBGE, 2006). Limita-se ao Norte com os municípios Aurelino
Leal, Uruçuca e Itacaré; a Oeste com Itajuípe e Coaraci; a
Noroeste com Itapitanga; ao Sudoeste com Itabuna e Buerarema
e a Leste com o Oceano Atlântico. Por estar situado na faixa
litorânea sua altitude máxima é de 55 metros e a mínima e de
3 metros acima do nível do mar. O clima é ameno e salubre,
exposto às massas tropicais marítimas (ANDRADE, 2003).
A cidade situa-se, aproximadamente, entre os meridianos de
39º 00’ e 39º 30’ W, e os paralelos 14º 30’ e 15º 00’ S
(Figura), na zona fisiográfica denominada Região Cacaueira
da Bahia e Região Econômica Litoral Sul do Estado da Bahia (SEPLANTEC/CEI,
1996).

Figura - Mapa de localização da cidade de Ilhéus – BA, 2002.
Fonte: Faria Filho (2002).
Os manguezais do município ocupam uma área de
aproximadamente 1.272 ha. São formados por espécies dos
gêneros Rhizophora, Avicennia e Lagunculária. As áreas mais
representativas estão na zona urbana do município e ao longo
das margens e ilhas da porção estuarina dos rios Cachoeira,
Santana, Fundão e Almada (FIDELMAN, 1999).
Em Ilhéus, o papel socioeconômico dos manguezais está
baseado principalmente na exploração do caranguejo, siri,
aratu, guaiamum, sururu, mexilhão e lambreta, que se
constituem na única fonte de renda da população que vive em
sua proximidade. São crustáceos e mariscos bastante
apreciados e consumidos pela população local e por turistas.
Atualmente, a cidade vem experimentando acentuada expansão
urbana, resultado da migração da população rural frente à
crise da lavoura cacaueira, e do desenvolvimento turístico e
industrial que o município está proporcionando.
Embora com a economia em crise, a população foi crescendo.
Assim sendo, a cidade se expandiu, ocupando quase todos os
espaços vazios nas zonas mais centrais. Em razão do tipo de
relevo, a cidade pode crescer de cinco maneiras diferentes,
uma delas é através do entulhamento do manguezal, o que
causou sérios prejuízos ao ecossistema (ANDRADE, 2003). A
Cidade Nova, o Antigo Porto e a Avenida Canavieiras foram
criadas sobre o antigo manguezal aí existente.
No período de 1960 a 1970, a expansão prosseguiu acelerada
em direção ao Malhado, Avenida Princesa Isabel e Avenida
Esperança, também ocupando os manguezais. De 1970 a 1980,
seguiu ao norte pela Barra de Itaípe, Jardim Savóia,
enquanto ao sul, seguiu pela estrada Ilhéus-Olivença. De
1980 a 1990, continuou ocupando o manguezal, através de
aterros feitos inicialmente por invasores e, posteriormente,
consolidados pela prefeitura, com a instalação de alguns
equipamentos urbanos necessários à formação de um bairro,
como ocorreu no Teotônio Vilela, a rua da Palha e Vila
Nazaré que no começo eram apenas favelas de mangue. Depois
se transformaram em dois bairros da cidade, a Vila Nazaré e
o Teotônio Vilela, os quais, continuam crescendo entulhando
os manguezais.
O agravamento nas questões de emprego, renda e habitação,
por causa da acentuada expansão urbana, resultado da
migração da população rural frente à crise da lavoura
cacaueira e do desenvolvimento turístico e industrial, torna
a cidade pólo de atração com o surgimento de novas favelas,
da intensificação da marginalidade, aumento de desemprego e
da criminalidade. O crescimento acelerado da população
agrava seus problemas, aumentando as necessidades
individuais e coletivas de habitação.
Com o passar do tempo, os manguezais continuam sendo
invadidos para a instalação de favelas e depois bairros. Em
frente à rodoviária e ao longo da BR-415 (Ilhéus-Itabuna) e
da BA-001 (Ilhéus-Itacaré), continuam ocorrendo os aterros (entulhamentos)
no manguezal. Formam-se favelas com casas de madeiras e
algumas de tijolos e com alguns estabelecimentos comerciais
como: borracharia, oficina de carro, bar, ferro-velho, e
outros. Constroem-se casas com banheiros afastados
denominados “casinhas” (por não terem rede de esgotos) sem a
menor higiene. Como não há coleta de lixo, o material
descartado pela comunidade é todo jogado no manguezal,
juntando, assim, com outros que são trazidos pelos rios de
comunidades a montante. O lixo é transportado nas preamares
e o que não consegue ser transportado fica acumulado,
contribuindo com a degradação do manguezal.
Ainda hoje, estão cortando o mangue para dar espaço para
outras culturas como o plantio da banana, mamão, coco, cana,
etc, impedindo o reflorestamento natural dos manguezais. No
local possui energia elétrica, o que contribui para fixação
do “homem” no local e a aumentar as casas e os
estabelecimentos comerciais no local e conseqüentemente
aumentando a degradação do manguezal e posteriormente a
virar um novo bairro na cidade.
O adensamento populacional resulta na redução da qualidade
ambiental do município, nesse contexto, os manguezais e
estuários têm sido um dos ecossistemas costeiros mais
comprometidos.
O êxodo rural está levando as cidades a sofrerem um processo
de "inchação", e estas não estão preparadas para receber um
número tão grande de pessoas, pela falta de uma
infra-estrutura urbana.
As zonas urbanas têm tido problemas em maior ou menor grau
com áreas para expansão, ocupação legal do solo urbano, de
baixa qualidade e precariedade das construções e saneamento
básico, traduzindo-se em aspecto desordenado e antiestético
das cidades. A camada dos mais pobres ou mesmo dos mais
miseráveis tem constituído a maior e mais expressiva parcela
da população, que vem se concentrando adensadamente em áreas
periféricas das cidades de médio porte, como é o caso de
Ilhéus, ocupando espaços ociosos ou mais baratos,
normalmente em situação irregular, ou alugando cortiços, ou
construindo em beira-rio, manguezal e encostas entre outros
tipos de solução sem mínimas condições de segurança.
A expansão urbana na cidade efetuou-se e está efetuando-se
principalmente sobre áreas originalmente ocupadas por
manguezais. Este comportamento acarretou o surgimento de
diversos impactos negativos, entre os quais a transformação
das áreas de manguezal em depósitos de lixo, aterros para
construção de imóveis e locais de despejo de esgotos (LEMOS,
2004).
A situação dos manguezais, tanto no litoral norte e sul como
também no centro da cidade é bastante críticos no que se
refere ao corte e aterro desse ecossistema e a ocupação
dessas áreas, principalmente com a população de baixa renda,
vivendo em condições subumanas e favorecendo a degradação
desses ambientes com o lançamento de resíduos sólidos e
esgoto sanitário sem nenhum tratamento (CRA, 1995). De
acordo com Faria Filho e Araújo (2002), num período de 58
anos (1944-2002), 4,48% da área original dos manguezais
foram descaracterizadas devido à ocupação antrópica do
perímetro urbano.
A crise da lavoura cacaueira e o desenvolvimento turístico e
industrial foram determinantes para a expansão urbana sobre
áreas de manguezal no município. O êxodo rural determinou a
evasão de grande parte da população, sem escolaridade, que
se viu pressionada a ocupar estes ambientes. A implementação
do aterro nos manguezais às margens dos rios, foram sem
dúvida, um agente facilitador da expansão urbana nessas
áreas.
As invasões nos manguezais podem-se dividir em duas partes:
a primeira não apresenta mais relação de dependência do
sistema, uma vez que a área originalmente ocupada pelo
manguezal já foi aterrada ou muito modificada, pode-se
verificar que a expansão sobre a área de manguezal ocorreu
após aterramentos, foram construídas casas permanentes e
hoje a expansão está encerrada, uma vez que não mais existem
áreas disponíveis para novas construções; e a segunda parte
da área ainda está em processo de ocupação, ou seja, ainda
estão ocorrendo desmatamentos e aterros em áreas cobertas
por vegetação de mangue.
Os principais fatores que levaram à invasão no manguezal
foram à falta de espaço para moradia, falta de recursos
materiais para sobrevivência e falta de apoio das
autoridades do município, no sentido de viabilizar um outro
local para acomodar os moradores. Como conseqüência, os
efluentes domésticos lançados no manguezal podem levar ao
bloqueio das lenticelas e dos pneumatóforos, resultando na
morte das espécies de mangue do local.
A degradação causada pelo aterro nos manguezais é conhecida
pelas autoridades responsáveis pelo setor, como o IBAMA, o
CRA e a prefeitura, que nada fazem para impedir o aterro e
não se preocupam em restaurar as áreas afetadas. A EMBASA, a
COELBA e a TELEMAR, já instalaram equipamentos urbanos para
os moradores da invasão, facilitando a sua fixação no local.
Conforme Gusmão (2002), à medida que se vai ocupando,
desmatando e poluindo os remanescentes de manguezal, todo o
serviço que ele presta à sociedade, tanto do ponto de vista
econômico como ecológico, vai sendo restringido, fazendo
surgir, a partir de então, a necessidade de se criar outros
mecanismos para solucionar os problemas gerados, tais como o
controle da erosão e alternativa de renda para inúmeras
famílias.
Estudos mostram que há uma relação entre a produtividade da
pesca das regiões litorâneas e a conservação desses
ecossistemas. Em algumas regiões tropicais a diminuição do
pescado esteve diretamente associada à destruição dos
manguezais (PNDPA, 2006).
A zona costeira é declarada pela Constituição do Brasil
(2006), como competência comum da União, dos estados e dos
municípios em proteger o meio ambiente e combater a poluição
em qualquer de suas formas e preservar a fauna e a flora. A
Constituição do Estado da Bahia (2006), promulgada em 05 de
outubro de 1989, no Capítulo VIII, dedicado ao meio
ambiente, estabelece como áreas de preservação permanente,
entre outros, os manguezais e as áreas estuarinas.
A Lei orgânica do município de Ilhéus (1990), no Capítulo
XV, dedicado a Política do meio ambiente, estabelece que os
manguezais são áreas de preservação permanente a orla
marítima e que o município removerá as populações das áreas
de preservação ambiental para terrenos nas regiões
periféricas da cidade e que os agentes públicos, inclusive o
prefeito, respondam pela atitude comissiva e omissiva caso
descumpram as normas legais de protegimento ambiental.
De acordo com Varjabedian (1995), os impactos antrópicos,
tais como aterros sanitários, ocupação imobiliária, poluição
por lançamentos de esgotos, entre outros, podem representar
a destruição direta do manguezal, e em certos casos as
mudanças podem ser irreversíveis.
Todos os atores sociais envolvidos com as questões
ambientais na zona costeira de Ilhéus, afirmaram ter ciência
do status de área de preservação permanente que os
manguezais possuem. Para eles a pouca eficácia da legislação
no município estaria vinculada à falta de conscientização da
população e demais atores (dos quais eles próprios fazem
parte) sobre o papel de cada um na resolução de problemas da
coletividade, falta de cidadania; valores culturais;
omissão, ineficiência da fiscalização, associada à carência
de recursos financeiros e humanos dos órgãos competentes;
descrédito na legislação, uma vez que esta tem favorecido
interesses econômicos e políticos de certos grupos,
resultando muitas vezes em impunidade; falta de prioridade
no trato das questões ambientais; omissão dos órgãos
competentes; falta de política socioeconômica; falta de
alternativas à população de baixa renda; entre outros.
Através de observações de campo, as referidas informações
foram conferidas e atualizadas. Os impactos estão,
essencialmente, relacionados à ocupação humana e ao uso
inadequado do solo. Desmatamentos e aterros vêm sendo
realizados pela população de baixa renda como alternativa
para o problema de moradia.
A prefeitura não deveria incitar a ocupação de áreas de
manguezal, seja para abrigar populações de baixa renda, seja
para instalar projetos turísticos e econômicos. Pelo
contrário, as administrações municipais devem se
conscientizar que a identidade e o interesse de suas regiões
estarão ameaçados quando esse ecossistema desaparecer
(MARTIN; LANA, 1983).
Os administradores e a população da região precisam ser
conscientizados da importância que tem o manguezal e
preservá-lo.
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