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Danilo Pretti
Di Giorgi
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| publicado em
21/05/2008 |
É quase inacreditável que Marina Silva tenha conseguido
manter-se por tanto tempo como ministra de um governo
com uma política tão negativa para o meio ambiente,
mantendo intactos seus princípios, lutando e
conquistando vitórias até o fim. Alguns analistas mais
românticos consideram que ela abriu mão de suas crenças
em muitas de suas decisões, como, por exemplo, ao
assinar a concessão de florestas públicas e ao dividir o
Ibama de uma forma que desagradou muita gente.
São muitos os casos de pessoas bem intencionadas, que,
uma vez dentro do assustador mundo da política, acabam
abandonando suas convicções em nome do famigerado
pragmatismo. Outras não suportam a sujeira e para seguir
firme em suas crenças abandonam a vida pública. Marina é
um caso raro de pessoa pública que sabe ceder quando
isso é inevitável, pois tem a inteligência, a força e a
capacidade política suficientes para perceber quando
objetivos de longo prazo justificam recuos estratégicos
ou mesmo tomadas de decisão dolorosas.
É certo que ao governo interessava sua permanência,
apesar da pedra no sapato que ela representava para os
desenvolvimentistas. Ter à frente do Ministério do Meio
Ambiente uma ambientalista internacionalmente
reconhecida emprestava ao governo - principalmente no
exterior - um selo de qualidade que ele não merecia ter.
Por outro lado, acredito que suas poucas vitórias em
meio a tantas derrotas justificavam com sobras sua
permanência, uma vez que, considerando a realidade que
ela foi obrigada a enfrentar, não havia outra pessoa
capaz de chegar a tanto dentro do governo Lula.
Seu trabalho abnegado, aliado à força de sua imagem, foi
fundamental para segurar a instalação das hidrelétricas
na Amazônia e para forçar a adoção de critérios de
segurança muito mais rígidos para a liberação destes
projetos. Da mesma forma, acho pouco provável que Lula
tivesse assinado a demarcação contínua da reserva Raposa
Serra do Sol caso não fosse Marina a ministra do Meio
Ambiente. Mais: os 24 milhões de hectares de novas áreas
de conservação federais por ela conquistados
permanecerão lá depois do seu pedido de demissão. São
apenas alguns exemplos.
Hoje não consigo imaginar quem tenha em Brasília, como
Marina tinha, força e coragem para atacar publicamente o
projeto governamental de transformar o Brasil na OPEP do
etanol, para encarar o tanque de guerra Roussef, para
enfrentar o rolo compressor do agronegócio, para ousar
se contrapor aos objetivos do PAC ou para manter posição
firme contra as hidrelétricas nos grandes rios da
Amazônia - apesar das incomensuráveis pressões
contrárias por todos os lados. Mesmo em temas que foram
considerados derrotas políticas de sua gestão, Marina
seguia com abnegação buscando minimizar seus efeitos
negativos, como no caso da criação de reservas paralelas
à futuramente asfaltada BR-163.
As efusivas reações à sua saída por parte dos
representantes dos setores mais umbilicalmente ligados à
destruição da floresta dizem muito e não deixam margem
de dúvidas quanto à importância de seu trabalho. Foi uma
festa geral. Para parlamentares ligados ao agronegócio
ouvidos pela imprensa, Marina teria muito "ranço
ideológico", faltaria nela "bom senso" e sua gestão
teria representado "um atraso para o país". Para o
deputado Marcos Montes (DEM-MG), sua saída foi "mais um
gol" de Lula.
Marina era como um exército de um homem só. Sua visão em
defesa da floresta era praticamente única no alto
escalão do governo. Ainda assim, conquistou muitas
vitórias, muitas vezes imperceptíveis, nos detalhes da
redação de projetos, tornando-os menos nocivos, ciente
que devagar se vai longe. Vou sempre guardar sua gestão
como um exemplo de perseverança, paciência, fortaleza,
sabedoria, fé e coragem. Citando as últimas palavras da
sua carta de demissão, que Deus continue abençoando e
guardando nossos caminhos, Marina.
Danilo Pretti Di Giorgi é jornalista.
E-mail:
digiorgi@gmail.com
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