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Tenho
denunciado
com
freqüência
- de
maneira
por
vezes
agressiva
- a
insensatez
da
nossa
espécie
frente
a
sinais
mais
que
claros
de esgotamento do
modelo
de
produção
e
consumo
vigente. Questiono repetidamente as
razões
que
levam a
humanidade
a fingir-se de
cega
e
progredir
a
passos
largos
rumo
ao
precipício,
mesmo
diante
de
estudos
científicos
que,
a
cada
dia,
se tornam
mais
uníssonos
com
relação
às
suas
conseqüências
funestas.
Como
conseqüência,
eventualmente
recebo
cartas
de
leitores
que
solicitam
textos
mais
propositivos,
que
tragam
idéias
de
possíveis
caminhos
a serem trilhados
para
a
reversão
deste
quadro
desolador.
Hesitei
um
bocado
sobre
como
escrever
este
artigo,
pois,
analisando
minhas
próprias
atitudes
cotidianas,
me
dei
conta
de
que
algumas delas deveriam
ser
citadas
como
exemplos
do
que
deveria
ser
mudado.
Isso
me
fez
refletir
sobre
o
sentido
da
campanha
ambientalista.
Quem
aponta
problemas
fica automaticamente
obrigado
a
apresentar
soluções?
E
quem
aponta as
soluções
precisa
ser
exemplo
de
sua
aplicação?
Preparei uma
pequena
lista,
com
alguns
poucos
exemplos
do
que
poderia
ser
mudado
em
nosso
cotidiano.
No
universo
dos
alimentos:
reduzir
o
consumo
de
carne;
favorecer
produtos
da
estação
e de
sua
região;
cortar
industrializados;
evitar
embalagens,
comprando
comida
a
granel.
Em
suma,
se
você
adora
cerejas,
mas
vive numa
zona
tropical,
esqueça
que
elas
existem,
pois,
para
que
seu
desejo
seja
satisfeito,
elas
terão
que
ser
transportadas
por
longas
distâncias
- e pode-se
viver
sem
elas.
Coma
mangas,
cajus,
pitangas
e
acerolas.
Este
tipo
de
regra
valeria
para
qualquer
item
de
consumo.
Quanto
ao
transporte:
reduzir
drasticamente a
uso
de
veículos
automotores,
que
deveriam
ser
usados
apenas
para
o
estritamente
necessário
(transporte
de
bebês,
idosos
ou
doentes,
de
equipamentos
hospitalares
etc.). Se
não
é
possível
ir
a
pé,
de
bicicleta
ou
de
ônibus,
não
vá.
Na
construção
civil:
obrigatoriedade
do
uso
de
placas
solares,
além
de
muita
iluminação
natural,
ventilação nas
áreas
quentes
e
estruturas
que
evitem a
perda
de
calor
nas
regiões
frias;
todas as
casas
deveriam
ter
sistemas
de captação de
águas
da
chuva;
as
decisões
sobre
os
todos
os
projetos
deveriam
levar
em
conta
primordialmente
o
nível
de
impacto
para
sua
edificação.
No
mundo
do deus-consumo, seria
necessário
cortar
os
traços
mais
patológicos
de
adoração:
acabar
com
a
ligação
direta
do
comércio
com
o
Dia
dos
Pais,
das
Mães
e das
Crianças.
Retirar
do
Natal
o
espírito
consumista,
que
acaba
por
deturpar
seu
significado
primeiro.
Por
que
comprar
um
celular
novo
se o
velho
ainda
funciona e o
antigo
vai
para
o
lixo,
com
suas
baterias
venenosas? A
indústria
precisaria
dar
uma marcha-ré, retornando à
produção
de
itens
mais
duráveis, dando
preferência
para
os
reparos
(que
empregariam
muito
mais
gente,
mais
qualificada), evitando ao
máximo
o
descarte.
Na
grande
mídia,
tudo
me
diz
para
consumir:
troque a
sua
televisão
(e jogue-a no
lixo)
pela
imagem
perfeita
de uma
tela
de
plasma,
coma
o
produto
X,
que
é
mais
gostoso,
ou
o Y,
que
é
mais
magro,
e tome,
em
seguida
o
remédio
Z
para
indigestão
causada
por
comer
ambos
em
excesso.
O
ideal
por
trás
de
todo
o
raciocínio
é o da
superação.
Você
não
deve contentar-se
com
seu
“padrão
de
consumo”.
O
homem
do
século
21
quer
sempre
mais,
só
é
feliz
o
executivo
de
sucesso,
o
empresário
bem-sucedido,
o
dono
do
carro
mais
caro,
do
helicóptero
e do
iate.
Quando
o
discurso
ambiental começou a
ganhar
força,
nos
anos
70, as
garrafas
de
refrigerantes
eram
feitas
de
vidro.
As
pessoas
levavam
até
o
mercado
os
vasilhames
vazios
– os “cascos”
–
dentro
de
sacolas
de
palha
para
serem
trocados
por
outros
cheios.
Comprava-se
apenas
o
líquido.
Hoje,
apesar
de
toda
a
suposta
conscientização ambiental, as
garrafas
de
vidro
-
que
ficavam esbranquiçadas e gastas
por
tanto
uso
- praticamente desapareceram. Foram substituídas pelas de
plástico,
que
acabam
em
grande
parte
nos
lixões
ou
nos
rios.
A
produção
de
lixo
per
capita
em
todo
mundo
se multiplicou assustadoramente
desde
então.
Apesar
do
trabalho
das ONGs
ambientalistas
que
aparecem
com
freqüência
– e
que
adoram
aparecer
–
nos
meios
de
comunicação,
os
rios
estão
mais
poluídos e os
desmatamentos
batem
recordes
a
cada
ano.
O
cenário
vem se degradando a
cada
dia.
Algumas das
possíveis
propostas
–
você,
leitor,
certamente
poderia
sugerir
outras - estão
aí.
Mas
quem
estaria
disposto
a
começar
esse
regime
de
privações?
Para
surtirem
efeito,
as mudanças teriam de
ser
assimiladas
por
uma
parcela
considerável
da
humanidade.
O
que
levaria
um
indivíduo
a
sacrificar
grande
parte
dos
prazeres
de
sua
existência
sozinho?
E
como
a
sociedade
suportaria o
imenso
impacto
econômico
decorrente da
eventual
aplicação
deste
tipo
de mudanças?
Um
artigo
com
este
teor
seria ridicularizado e
classificado
como
utópico,
infantil,
irreal.
Por
isso
que
o evito há meses. As
idéias
sobre
o
que
deve
ser
feito,
sobre
as
atitudes
a serem
tomadas
para
salvar
a
vida
humana,
não
precisariam
ser
listadas
em
artigos
redigidos tendo
como
público-alvo
leitores
com
cultura
bem
acima
da
média
brasileira.
Todos
com
acesso
à
informação
temos
pelo
menos
alguma
noção
dos
caminhos
a serem trilhados
para
tanto.
O
que
nos
falta
é
coragem
para
enfrentar
a
realidade.
E a
realidade
é
que
não
podemos
seguir
nem
muito
menos
aprofundar
um
sistema
que
invariavelmente
nos
levará ao
colapso.
Como
fazer
isso
é a
grande
questão
da
humanidade
neste
momento.
Mesmo
sendo
parte
dessa
imensa
confusão
e
ainda
que
não
seja
capaz
de
traçar
com
segurança
os
caminhos
para
fugir
dela, sinto-me na
obrigação
de
levantar
a
questão
quantas
vezes
me
for
dada
a
oportunidade
e o
espaço
para
expor
esses
problemas.
Fomos
nós,
homens
e
mulheres,
que
criamos
este
nó
e
só
nós
seremos
capazes
de desatá-lo.
Nunca
disse
que
isso
seria
fácil.
Danilo Pretti Di Giorgi é
jornalista.
E-mail:
digiorgi@gmail.com |