Resumo: O
artigo aqui apresentado, diz respeito as comunidades de
faxinal, comunidades tradicionais típicas da região das Matas
com Araucária do Estado do Paraná. Busca-se analisar de que
forma vem ocorrendo a (des)tradicionalização nestes sistemas
no município de Rio Azul – PR3,
através da análise de três comunidades rurais. O estudo se deu
com base em dados primários, sendo estes observação em campo e
as entrevistas com membros das comunidades, e dados
secundários por meio de pesquisa bibliográfica.
Palavras-Chave:
Comunidades tradicionais, faxinal, (des)tradicionalização,
Rio Azul- PR.
Abstract:
The article presented here, concerns faxinal communities,
traditional communities typical of the region of the Araucaria
Forest of Paraná State. Seeks to analysis how there has been (un)traditionalization
these systems in the city of Rio Azul – PR, via the analysis
of three rural communities. The study was based on primary
data, which are based on observations and interviews with
community members, and secondary data through literature
search.
Keywords: Traditional
communities, faxinal, (un)traditionalization, Rio Azul – PR.
INTRODUÇÃO
O sistema faxinal
enquanto forma de organização camponesa, divide por meio de
cercas comunitárias as terras de criar que são de uso comum e
as terras de plantar onde cada um usufrui de sua propriedade.
As cercas ora citadas tem um papel dual, uma vez que instituem
e orientam parte da dinâmica faxinalense, e ao mesmo tempo
exigem uma forte integração dos membros quando da sua
manutenção, criando assim os laços de solidariedade entre os
faxinalenses. Este tipo de organização no campo tem em torno
de cem anos de existência, e predominou em cerca de um quinto
do território paranaense, até meados do século XX (CHANG,
1988; LÖWEN SAHR e IEGELSKI, 2003).
Estas comunidades
tradicionais estão alicerçadas através de fortes laços de
dependências entre os seus membros, de solidariedades
econômicas, sociais, familiares e culturais. O sistema se
apresenta enquanto uma “[...] alternativa de sobrevivência no
campo, por meio do trabalho comunitário, da preservação
ambiental e da policultura de subsistência dos pequenos
proprietários de terras” (LÖWEN SAHR e IEGELSKI, 2003, p. 9).
Em um levantamento
realizado por Marques (2004) dos sistemas ainda existentes no
Paraná, concluiu-se que há ainda cerca de 45 faxinais
distribuídos em dezesseis municípios, dentre os quais está Rio
Azul. Este município apresenta hoje quatro faxinais ainda em
atividade. Existe, todavia, registro de comunidades que
deixaram de ter esta forma de organização social entre 1994 e
2004.
Tendo em vista a
temática da desestruturação e extinção deste tipo de
organização camponesa, este trabalho tem como objetivo
conhecer o sistema faxinal, assim como refletir sobre a sua (des)tradicionalização
no município de Rio Azul–PR, levantando as transformações
ocorridas em três comunidades, tendo como base a memória
individual e social confrontada a dados secundários.
TRADIÇÃO E
MEMÓRIA: REFLEXÕES TEÓRICO-CONCEITUAIS
Nesta seção busca-se
por meio de algumas reflexões acerca de conceitos de memória e
tradição, apontar que a memória é uma fonte importante de
dados para pesquisa e reconstrução do passado, para seu
conhecimento no presente, tanto no que concerne a tradição,
como no levantamento de dinâmicas inerentes a comunidades
tradicionais, e suas mudanças de hábito quanto ao seu modo de
vida, onde a tradição está incluída.
A memória é uma
fonte de conhecimento, onde por meio da evocação, traz-se para
o presente fatos e dados, que muitas vezes não foram
registrados, e que estão somente na mente dos que passaram por
determinadas situações e conviveram certas dinâmicas sociais.
Com base nestas afirmações torna-se pertinente citar Chaui
(2006, p. 138) para a qual “A memória é uma evocação do
passado. É a capacidade humana para reter e guardar o tempo
que se foi, salvando-o da perda total”.
A memória torna
possível a (sobre)vivência da tradição. Ser tradicional e
viver dentro de costumes e práticas que passam de geração em
geração, e este passar se dá por meio da memória, que traz o
passado para o presente, através de seus detentores, assim
como os aspectos intrínsecos de determinada tradição, que
serão passados aos mais novos, tanto por meio do ensino quanto
pela simbiose, pelo caráter natural da convivência e da
repetição. A tradição pode ser compreendida como o
[...] conjunto dos valores dentro dos quais estamos
estabelecidos; não se trata apenas das formas de conhecimento
ou das opiniões que temos, mas também da totalidade do
comportamento humano, que só se deixa elucidar a partir do
conjunto de valores constitutivos de uma determinada sociedade
(BORNHEIM, 1997 p. 20).
Sendo assim,
relacionada à tradição tem-se a idéia de conjunto, ou seja,
para conhecer e ser parte de determinada tradição, há
necessidade de estar relacionado com o todo que ela se
constitui, seja nas formas de agir, de pensar, nos costumes, é
toda a esfera que faz do ser o que ele é, e o que vai fazer
com que ele seja identificado participante de uma tradição ou
comunidade tradicional.
Giddens (1997, p.
81) coloca que “a memória, como a tradição – em um sentido ou
outro – diz respeito à organização do passado em relação do
presente”.
Ao considerar sobre
a memória, Bosi (1994, p. 46) vai dizer que “[...] a memória
permite a relação do corpo presente com o passado e, ao mesmo
tempo, interfere no processo “atual” das representações”. É
dizer de parte das mudanças na tradição, uma vez que a
tradição existe e é repassada graças a memória, contudo como é
colocado pela autora, esta relação do presente com o passado
acaba interferindo nas formas de representação atuais. As
mudanças na tradição se devem em parte à memória, que pode ser
influenciada pela dinâmica social posta no momento em que esta
tradição está sendo repassada, e pelo sistema de
representações onde está presente o sujeito que recebe esta
tradição.
Tanto a tradição
como a memória fazem parte de um determinado contexto social,
e este enquanto um fenômeno complexo e dinâmico, muda
constantemente, envolvido por influências diversas, seja dos
meios de comunicação, ou do sistema social, além de outros
inúmeros fatores, onde tudo isso pode incluir novos elementos
na vivência do grupo, o que faz com que as tradições renasçam
e se adéqüem a esta realidade, com o objetivo de não se perder
no tempo. Contudo, a memória pode ser afetada por estas
influências, o que pode suscitar também modificações na
tradição.
É o que Halbwachs(1992)4
citado por Giddens (1997, p. 81) coloca quando aponta que “o
passado não é preservado, mas continuamente reconstruído,
tendo como base o presente. Essa reconstrução é parcialmente
individual, mas, mais fundamentalmente, é social5ou coletiva”.
Sendo assim “[...] a
memória, por seus laços afetivos e de pertencimento, é aberta
e em permanente evolução e liga-se à repetição e à tradição,
sacralizando o vivido do grupo social” (MONASTIRSKY, 2010,
s/p).
A tradição está
envolvida e tem influência no tempo do social, assim como este
influi nesta. Através da tradição os indivíduos se orientam
para e pelo o passado, o qual é reconstituído para ter uma
pesada influência sobre o presente. Contudo cabe ressaltar que
é evidentemente que “[...] em certo sentido e em qualquer
medida, a tradição também diz respeito ao futuro, pois as
práticas estabelecidas são utilizadas como uma maneira de se
organizar o tempo futuro” (GIDDENS, 1997, p. 80).
Uma tradição não é
um fim em si, mas algo imprevisível, quando se toma o caráter
flexível que ela apresenta, no que diz respeito a suas formas
de passagem, por meio da memória, e representação, pela sua
ritualização. Já a memória, é um arcabouço de valor não
estimado, quando se trata de buscar com os que a detêm, em
relação a determinada vivência social com um contexto passado,
respostas às situações sociais ora postas, para suas variantes
e mudanças.
A (DES)TRADICIONALIZAÇÃO
EM COMUNIDADES FAXINALENSES
Ao colocar o termo
destradicionalização, parece que a primeira idéia que vem é de
perda de valores que uma tradição sofreu ou vem sofrendo.
Parece uma conotação negativa (dependendo do ponto de vista),
ao se falar de perda, e não deixa de ser, contudo, há
necessidade de se colocar que, se algo se perde é por que algo
novo pode estar se tornando parte desta tradição, algo novo
que com o tempo, vem se adequando e ora pode ser posto como
tradicional.
É o que coloca
Giddens (1997) quando citado em seção anterior, da evocação do
passado por meio da memória, para a construção do presente, e
de sua orientação para um futuro. É não só manter, mas também
conseguir se adequar aos novos modos de vida “impostos” pela
modernidade.
A visão Woodhead e
Heelas (2000)6
citados por Oliveira (2005, p. 10) é bastante pertinente ao
tema ora tratado, onde estes
Afirmam que não vivemos uma pós-tradicionalização, uma
pós-modernidade, mas sim que dentro da própria modernidade
coexistem processos de manutenção da tradição, invenção e
reinvenção (retradicionalização) da tradição, assim como a
destradicionalização.
É um processo ao
mesmo tempo de destradicionalização e retradicionalização, o
primeiro referente a perda de formas da tradição e a segunda
seria a readequação da tradição, a inclusão de novas formas no
todo da tradição, tendo em vista a influência do global sobre
o local, e vice-versa, na verdade, um efeito de articulação
entre os dois (HALL, 2006, p. 77-78).
Ao tratar-se neste
trabalho das comunidades tradicionais faxinalenses, ocorre que
por meio de pesquisas, nota-se que o processo de perda da
tradição destes grupos vem se dando de forma lenta, tendo seu
começo a partir da década de 1970, quando muitos faxinais
deixam de existir devido a vários motivos, sejam eles a
modernização da agricultura, a inclusão de culturas exógenas
como a do tabaco, assim, como a alienação do sistema
capitalista, que faz com que haja esta necessidade de sempre
produzir além do que se pode (HAURESKO, 2009, pp. 269-270).
Löwen Sahr (2008, p. 216) ao tratar da
dualidade entre tradicional e moderno em comunidades
faxinalenses vai apontar que estas
[...] vêem-se constantemente em uma situação conflituosa. De
um lado, buscam manter suas características tradicionais, num
processo de integração sistêmica, e de outro lado, para
continuar existindo vêem-se obrigadas a se abrir a dinâmicas
modernas, num processo de integração social.
Esses entraves,
acabam por fazer com que os faxinalenses, percam parte de seus
valores tradicionais, como suas manifestações culturais e
dinâmicas sócio-espaciais, onde o sistema de criação e uso
comum das terras, uma característica identificadora destes
povos, passa a ser tomado pela agricultura e por outros usos,
notando-se desta forma que se perde a solidariedade que
existia dentro do grupo, onde todos partilhavam um mesmo chão
sem se colocar os interesses de um ou de outro acima.
Nesta temática, como
proposto neste trabalho, pretende-se a seguir apresentar
alguns aspectos levantados em cinco comunidades de Rio Azul –
PR, onde por meio da memória individual e social e de dados
secundários pode-se se observar o fenômeno da (des)tradicionalização.
APRESENTAÇÃO DOS
DADOS LEVANTADOS
As informações que
aqui são apresentadas, foram adquiridas por meio de
entrevistas durante o mês de julho de 2010, com pessoas
pertencentes às três comunidades do município de Rio Azul ora
colocadas como objeto de estudo, sendo elas: Lageado dos
Mello, Marumbi dos Elias e Rio Azul dos Soares. Quanto aos
dados secundários, quando trata-se nesta seção, são os
levantados pela Emater (1994) e por Marques (2004).
Seguem, desta forma
os apontamentos no que concerne as comunidades.
- LAGEADO DOS MELLO:
nesta comunidade o sistema permanece até os dias atuais. De
acordo com os dados de 1994, cerca de 30 famílias que faziam
parte do sistema apenas duas eram contra. O criadouro
apresentava algumas reduções.
Nos últimos anos
tiveram um problema quanto a uma empresa que adquiriu terras
que eram parte do criadouro e tentou cercá-las, isso causou
alguns conflitos, contudo, foram resolvidos por meio de ação
judicial, onde os faxinalenses ganharam a causa.
Em entrevista com
membro da comunidade, este coloca que o problema enfrentado
diz respeito a falta de integração entre os que residem no
criadouro comum, pois quando fazem o mutirão7
para consertar as cercas, poucas famílias participam. Contudo,
não há conflitos entre os membros do faxinal, todos se
relacionam de forma harmoniosa, e os problemas quando surgem
são resolvidos por estes por meio de conversas até chegar-se a
um acordo. Para este, hoje não há famílias contrárias ao
sistema em Lageado dos Mello.
Pode-se afirmar que
este é o faxinal existente no município que se encontra em
melhor situação, e não apresenta sinais de desestruturação. O
que nota-se é que ocorreu mudança nas tradições, pois como
aponta o entrevistado, as festas típicas8
não são mais realizadas, assim como o mutirão apresenta
características distintas das suas originais.
- MARUMBI DOS ELÍAS:de acordo com os dados secundários a comunidade em 1994 se
constituía enquanto sistema faxinal, contudo nos dados de
2004, já não consta o sistema como ativo. Em 1994 já haviam
várias famílias que não eram favoráveis ao criador comum, o
que vinha causando certos conflitos, que influenciaram em sua
desestruturação e extinção. O sistema deixou de existir no ano
de 1995.
Observando a
comunidade nota-se que a mesma apresenta pouca característica
da paisagem com araucária, está que é ainda relativamente
abundante em espaços onde os faxinais estão ativos.
Em conversa com
membro da comunidade, este aponta que o principal problema que
levou ao fim do criador comum, foi a falta de integração entre
os membros, no que concerne ao conserto das cercas. Uma vez
que estas apresentavam problemas, os animais entravam nas
terras de plantar, o que acabava em alguns conflitos dentro da
comunidade, o que fez com que o sistema fosse acabando. O
entrevistado afirma que foi uma grande perda o fim do faxinal.
Quanto as
manifestações culturais, o entrevistado afirma que se mantém
as festas aos santos venerados pelas famílias, festas estas
que já tem cerca de 90 anos de existência. Isso é um fato
relevante, uma vez que nas outras comunidades pesquisadas,
mesmo nas que ainda existe o sistema a festa já se perdeu. É
uma significante modificação nas manifestações culturais
destes povos, que ali ainda se mantém.
- RIO AZUL DOS
SOARES: de acordo com os dados secundários de 1994, nota-se
que era o maior criadouro comum do município, contudo era o
com menor uso, tendo em vista o número de animais criados a
solta. De acordo com o entrevistado este espaço diminuiu cerca
de 90%. Nota-se uma grande perda do espaço de manutenção da
tradição faxinalense, do espaço onde estava escrita, com base
na memória social, a história de muitas famílias faxinalenses
e do próprio sistema, que se não for por esta evocação, não há
mais como trazê-la para o presente.
Em 1994 as famílias
já estavam divididas quanto a permanência ou não do sistema.
Em 2004 o faxinal ainda permanecia, contudo com diversos
problemas.
Atualmente, segundo
os dados levantados com o entrevistado, a situação é difícil,
vários membros do faxinal lutam pela sua manutenção, contudo
os que são proprietários de maiores áreas de terra estão
cercando às que faziam parte do criador comum. Os conflitos
são vários, entre eles e o mais grave está morte de animais no
criadouro por envenenamento. Aqui nota-se a perda dos laços de
solidariedade, tendo em vista interesses inerentes e advindos
do sistema econômico ora posto, onde se dá mais valor aos bens
do que às pessoas e as relações que até um tempo se mantinham,
e eram parte dos fatores caracterizadores da comunidade
tradicional faxinalense.
Em observação na
comunidade, e segundo apontamentos do membro da comunidade,
pode-se afirmar que a paisagem com araucária ainda é presente,
mas muita mata foi derrubada, nos últimos dez anos, que
descaracterizou parte do faxinal.
Quanto as
manifestações culturais, o mutirão ocorre para se efetuar a
viação (limpeza da beira das estradas gerais) mas os membros
do faxinal não se reúnem para fazê-lo, cada um faz uma parte
que lhe é determinada quando há uma reunião na comunidade para
tratar do assunto. Ou seja, pode-se apontar que o mutirão está
totalmente descaracterizado. Já as festas típicas da cultura
faxinalense dedicadas a um determinado santo, deixaram de
existir a cerca de 30 anos.
Nota-se que dos
sistemas ainda ativos este é o que se encontra em estado
evidente de desestruturação e desta feita também é o mais (des)tradicional.
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
As comunidades
tradicionais faxinalenses, enquanto uma forma de organização
camponesa, vêm passando por momentos difíceis, tendo em vista
fatores da sociedade contemporânea que atingem estes espaços
de forma negativa, fazendo com que os mesmos venham sendo
modificados e na maioria das vezes extintos. Este tipo de
organização apresenta características particulares, de um modo
de vida onde a partilha do chão e a solidariedade entre os
seus membros são (eram) as mais evidentes. De toda forma isso
vem se perdendo com o correr dos dias.
Essa perda e/ou
mudança da tradição faxinalense pode ser vista em todas as
comunidades pesquisadas, onde novos elementos tomaram parte do
cotidiano das famílias, fazendo com que estas perdessem vários
valores de sua cultura, parte dos quais eram os mais
intrínsecos e de caracterização destas comunidades.
De toda forma, este
estudo teve com intuito levantar essas mudanças e conhecer as
características atuais das comunidades, onde a memória
individual e social, foram os meios que trouxeram a base
primordial de informações para a sua construção.
A memória é uma
fonte indiscutível de informação quando aqueles que são
excitados a lembrar, o fazem e trazem para o hoje, fatos
jamais registradas, e que mesmo se o fossem, não teriam a
clareza e a emoção, forma pela qual este passado é apresentado
pelos mais idosos.
Contudo, a tradição
é mantida e representada por meio desta memória, assim como em
alguns momentos pode sofrer pequenas modificações que podem
ser caracterizadas como adaptações e inclusão de novos
símbolos, fenômeno que como já explicitado em seção anterior,
pode ser encarado enquanto (des)tradicionalização. No entanto,
é uma atividade natural, influência que advêm de outros
contextos para o que estes grupos sociais estão inseridos,
esta que se caracteriza na contemporaneidade como de caráter
global.
Essas comunidades
apesar de apresentarem algumas situações distintas enquanto as
suas dinâmicas atuais, nota-se que apresentam problemas
similares, os quais levaram uma das pesquisadas a
desestruturação e extinção, e que podem estar levando para a
mesmo caminho as que ainda permanecem, que é a falta de
integração entre os membros da comunidade.
Um fator que deve
ser apontado, pois influência na dinâmica das comunidades
pesquisadas, é o modelo atual de produção, o capitalismo, que
faz com que se encare a área do criador comum enquanto uma
terra sem valor para aqueles mais abastados, que normalmente
tem mais propriedade neste espaço. E assim, acaba ocorrendo
que estes tomam sua parte do criadouro, e a cercam e
posteriormente usam para agricultura ou plantio de pinus ou
eucalipto, o que vai tornar esta terra “produtiva” na
mentalidade destes proprietários, que vai gerar capital.
De toda forma,
pode-se concluir que todas as comunidades analisadas,
apresentam mudanças significativas no que concerne às suas
práticas tradicionais. Essas mudanças atingem diretamente a
tradição, que pode ser encarado como este trabalho ora
apontou, enquanto uma (des)tradicionalização, por esta perda
de valores, o quer seja pela adequação de novos, por meio de
uma (re)tradiconalização. São dinâmicas que ocorrem até certo
ponto de maneira natural, com o andar dos dias, que derivam de
influências diversas.
Não coube neste
trabalho discutir ou apontar se o fenômeno da (des)tradicionalização
é negativo ou positivo, pois estas mudanças podem ser
encaradas das duas formas. De toda forma foi possível conhecer
por meio deste trabalho alguns efeitos deste fenômeno nas
comunidades analisadas em Rio Azul.
REFERÊNCIAS
BORNHEIM, Gerd.O
conceito de tradição. In: BORNHEIM, Gerd
et al.Cultura Brasileira: tradição
contradição.2 Ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,
1997.
BOSI, Ecléa.
Memória e sociedade: memória de velhos. 3. Ed. São Paulo:
Companhia das letras, 1994.
CHANG, Man Yu.
Sistema Faxinal: uma forma de organização camponesa em
desagregação no Centro-sul do Paraná. In: IAPAR, Boletim
Técnico. Londrina, 1988.
CHAUI, Marilena.
Convite à Filosofia. 13 Ed.São Paulo: Ática, 2006.
EMATER.
Levantamento dos faxinais no Estado do Paraná.
Apontamentos, Curitiba, 1994.
LÖWEN SAHR, Cicilian Luiza; IEGELSKI, Francine. O
Sistema Faxinal no Município de Ponta Grossa: Diretrizes
para preservação do ecossistema, do modo de vida, da cultura e
da identidade das comunidades e dos espaços faxinalenses.
Ponta Grossa: PMPG, 2003 (Relatório Técnico).
GIDDENS, Anthony. A
vida em uma sociedade pós-tradicional. In: GIDDENS, Anthony.
BECK, Ulrich. LASH, Scott. Modernização reflexiva:
política, tradição e estética na ordem social moderna. São
Paulo: Editora da UNESP, 1997.
HALL, Stuart. A
identidade cultural na pós-modernidade. 11 Ed. Rio de
Janeiro: DP & A, 2006.
HAURESKO, Cecilia.
Entre a tradição e a modernidade: o lugar das
comunidades faxinalenses na contemporaneidade. In: Anais do IX
Seminário de Pós-Graduação em Geografia da UNESP Rio Claro.
São Paulo: 2009.
IPARDES, Instituto
Paranaense de Desenvolvimento Social e econômico. Caderno
estatístico do município de Rio Azul. 2010. Disponível em:
<www.ipardes.gov.br>. Acesso em 02 outubro de 2010.
LÖWEN SAHR, Cicilian Luiza. Os “mundos faxinalenses”
da floresta com araucária do Paraná: racionalidades duais
em comunidades tradicionais. Revista Terra Plural: Ponta
Grossa – PR, julho/dezembro de 2008.
MARQUES, Claudio
Luiz G. Levantamento Preliminar Sobre o Sistema Faxinal no
Paraná. Guarapuava, 2004. (Relatório Técnico) – Instituto
Ambiental do Paraná.
MONASTIRSKY, Leonel
Brizolla. Espaço urbano: memória social e patrimônio
cultural. Material de disciplina – Mestrado em Gestão do
Território, Universidade Estadual de Ponta Grossa – PR: 2010.
NERONE, Maria
Madalena. Terras de Plantar, Terras de Criar – Sistema
Faxinal – Rebouças – 1950 – 1997. (Tese de Doutorado),
UNESP, Assis, 2000.
OLIVEIRA, Fabiana
Luci de. O campo da sociologia das religiões:
secularização versus a “revanche de Deus”. Revista
Internacional Interdisciplinar Interthesis. Florianópolis: v
2, nº 2, julho/dezembro de 2005.
RUPP, Marla Luciana
Treichel. MARTINS, Valter. Mudanças culturais nos faxinais.
In: SOCHODOLAK, Hélio. CAMPIGOTO, José Adilçon. Estudos em
História Cultural: na região sul do Paraná. Guarapuava:
UNICENTRO, 2008.
TOLEDO, Ilma
Aparecida de. Representações e práticas culturais do sistema
faxinal. In: SOCHODOLAK, Hélio. CAMPIGOTO, José Adilçon.
Estudos em História Cultural: na região sul do Paraná.
Guarapuava: UNICENTRO, 2008.
1
Bacharel em turismo (Unicentro/Irati – PR), mestrando em
geografia (UEPG/Ponta Grossa – PR). E-mail: joelciosoares@yahoo.com.br
2
Pós-doutora em Planejamento Urbano e Regional na
Universidade de Heidelberg (Ruprech-Karls). Doutora em
Geografia Humana pela Universidade de Tübingen (Alemanha),
Professora dos Programas de Pós-Graduação em Geografia, da
Universidade Estadual de Ponta Grossa, e da Universidade
Federal do Paraná. E-mail: cicilian@uol.com.br
3
O município localiza-se nas coordenadas 25o
43’58” de latitude sul, 50o 47’47” de longitude
oeste, tendo como municípios limítrofes, Irati ao norte,
Mallet e São Mateus do Sul a sul, Rebouças a leste e Inácio
Martins e Cruz Machado a oeste. Está a 183,5 km de Curitiba
a Capital do Estado (IPARDES, 2010).
4
HALBWACHS, Maurice. The Social Frameworks of Memory.
Chicago: University of Chicago, 1992.
6
HEELAS, P. e WOODHEAD, L. Religion in Modern Times.
Oxford/Cambridge: Blackwell Publishers, 2000.
7
Mutirão: denominado também como puxirão (trabalho coletivo
realizado num dia determinado, por um grande grupo de
homens, em favor de alguém da comunidade) pixirum ou pitoco,
cuja marca comunitária estava presente também nos dias de
viação ou limpeza das estradas e caminhos, assim como no
consertos de pontes e bueiros e na manutenção das cercas (NERONE,
2000).
8
Festas típicas: a) as realizadas ao final do dia de mutirão,
onde toda a comunidade se reúne, para festejar pelo dia de
trabalho; b) novenas com rezas, danças e festejo realizado
em homenagem determinado santo de devoção da família que
oferecia a festa (TOLEDO, 2008; RUPP e MARTINS, 2008).