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| Negócios e
sustentabilidade |
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Danilo Pretti
Di Giorgi
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| publicado em
26/04/2008 |
Um dos maiores problemas da sociedade contemporânea
mostrou sua cara feia em meados de março na cidade de
São Paulo, quando conseguimos bater todos os recordes
históricos de congestionamento nas ruas e avenidas da
metrópole. Durante quatro dias, as marcas foram sendo
sucessivamente superadas, até chegarmos no dia 13 de
março a incríveis 221 quilômetros de vias travadas.
Nas semanas seguintes, pipocaram nos meios de
comunicação opiniões de especialistas propondo soluções:
pedágios urbanos, melhoria da rede de transporte público
e ampliação do rodízio foram algumas das principais
idéias. Sabemos que, apesar de serem soluções de
aplicação necessária a curto prazo, são apenas
paliativas, pois temos exemplos de cidades européias
onde todas as propostas acima citadas foram adotadas e o
crescimento do número de veículos em circulação continua
provocando o entupimento crescente das ruas.
Uma análise estratégica de longo prazo mostra que o
problema está basicamente no excesso do número de carros
em circulação (somente na capital paulista, a cada dia
são emplacados quase mil novos veículos). A idéia ganhou
força para mim depois que li a edição da revista Exame
do dia 20 de março e percebi a grande preocupação dos
responsáveis pela publicação em desmentir esta tese.
Ironicamente, a capa da referida publicação anuncia uma
"edição verde", prometendo o fino para quem está
interessado em "negócios e sustentabilidade". São dez
matérias sem nada de substancial, sem tocar em nenhum
tema nevrálgico da questão ambiental. Trata-se de uma
aula de enrolação. Para se ter uma idéia da "nobreza de
propósitos" dos jornalistas encarregados da edição, uma
das novidades em prol do meio ambiente mais destacada,
lembrada em mais de uma matéria, é uma iniciativa
governamental que estuda incentivar a população de baixa
renda a descartar um milhão de geladeiras antigas,
comprando novas com fortes subsídios governamentais.
Isso mesmo, você não leu errado. Um milhão de geladeiras
no lixo, e um milhão de novas sendo produzidas,
consumindo todos os recursos naturais necessários para
tanto. Ah, claro, essas novas geladeiras serão "mais
eficientes energeticamente". Genial. É a cada vez mais
divulgada tese de que podemos ajudar a resolver o
problema ambiental consumindo "mais e melhor" e não
reduzindo o consumo.
Mas voltemos ao trânsito, ou melhor, ao engarrafamento.
Fora da sessão de matérias "verdes", uma reportagem da
revista analisa exatamente o caos no março paulistano.
Merecem ser transcritas na íntegra a manchete: "De quem
é a culpa?" e o subtítulo: "Não é do crescimento. Não é
das montadoras. O colapso do trânsito em São Paulo é uma
mostra de um país que não se preparou para o progresso".
Bem, acho que quase tudo já está dito apenas com a
leitura do enunciado da reportagem. Exame é talvez a
revista que melhor representa no Brasil o pensamento da
turma dos suicidas inveterados, aqueles capazes de
defender o atual sistema de produção e consumo mesmo se
estiverem naufragando num mar de saquinhos plásticos.
Todo o texto da matéria dedica-se a desconstruir com
ferocidade qualquer possibilidade de raciocínio que,
ainda que remotamente, considere a venda recorde de
veículos na metrópole como uma das culpadas pelos
problemas no trânsito. Lê-se pérolas como as seguintes:
"É um enorme equívoco culpar o crescimento do país ou a
indústria automobilística - que em 2007 vendeu 28% mais
do que no ano anterior - pelo trânsito parado. Pensar em
restringir a venda de carros para melhorar a circulação
nas ruas seria o mesmo que reduzir as exportações
brasileiras porque os portos estão lotados. Ou torcer
para que os brasileiros desistam de viajar de avião para
que não haja filas nos aeroportos. São soluções que
equivaleriam a abraçar o fracasso".
Este tipo de preocupação em uma publicação como a Exame
é na verdade um sinal de avanço na discussão ambiental,
que vem ganhando espaço de forma crescente desde a
segunda década do século passado e que tem multiplicado
sua força nos primeiros anos deste milênio. Apesar do
viés absolutamente equivocado da "edição verde", que
traz como foco apenas as formas pelas quais as empresas
podem obter maiores lucros com a "onda ambientalista", o
fato é que a revista está se dedicando cada vez mais ao
tema meio ambiente.
Em condições normais de temperatura e pressão, os
editores desta publicação não dariam a mínima bola para
um tipo de raciocínio "tão retrógrado", com "ranço
socialista", como a hipótese de que a produção e venda
de carros podem ser as culpadas pelo caos do trânsito. A
preocupação explícita e até mesmo desesperada – como se
pode perceber em termos fortes como "abraçar o fracasso"
– contra este tipo de pensamento pode mostrar que está
crescendo entre as pessoas mais conscientes
ambientalmente a percepção de que o nó está exatamente
na produção e consumo sem limites e na perigosa idéia de
crescimento econômico infinito. Tanto que, para quem
aposta na continuidade do funcionamento da máquina da
morte que se tornou o sistema no qual vivemos, essa
consciência precisa ser atacada, uma vez que começaria a
tomar forma e representar real perigo.
Não há outro caminho para a civilização a não ser uma
drástica redução da produção e do consumo. Essa verdade
pode ser verificada em um sem-número de problemas que
enfrentamos nos dias de hoje: as milhões de toneladas de
sacos plásticos emporcalhando os oceanos e matando
animais aquáticos por sufocamento, a poluição do ar e
dos rios, a falta de saída para o drama da superlotação
dos aterros sanitários, a crise da água potável e o
aumento da temperatura da Terra são apenas alguns
exemplos. Para não falar do crescimento da devastação da
Amazônia para atividades comerciais, nossa grande
vergonha nacional. Todos estes problemas têm na sua raiz
a impulsividade humana pela produção e pelo consumo
ilimitados, o que vai contra a incontestável limitação
de recursos naturais disponíveis no planeta Terra.
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