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RESUMO
O paradigma
socioambiental
contemporâneo vem
evidenciando a temática
ambiental como algo a
ser pensado em vista das
mazelas provenientes da
crescente degradação da
natureza e da sociedade.
No entanto é este mesmo
paradigma, sob a forma
do Modo de Produção
Capitalista, a causa
para os problemas
ambientais que nos
assolam. Diante dele,
é-nos necessário estar
atentos às medidas
“sustentáveis” adotadas
por empresas, industrias
e pelo setor de serviços
a fim de compreendermos
de que forma elas vêm
participando como mais
uma das estratégias de
sobrevivência do
Capital.
Palavras-chave:
modo de produção
capitalista, paradigma
socioambiental,
sustentabilidade.
RESUMEN
El paradigma de la
actual socio-ambientales
en evidencia la cuestión
ambiental como algo que
debe considerarse a la
luz de los crecientes
esfuerzos de la
degradación de la
naturaleza y la sociedad.
Sin embargo, es este
mismo paradigma, en la
forma del modo de
producción capitalista,
la causa de los
problemas ambientales
que nos aquejan. Antes
de él, somos conscientes
de las medidas
necesarias para ser "sostenible",
adoptado por las
empresas, industrias y
el sector servicios con
el fin de entender cómo
están participando como
uno más de las
estrategias de
supervivencia de lo
Capital.
Palabras clave:
el modo capitalista de
producción, el paradigma
social y ambiental,
sostenibilidad.
Falamos tanto em nossos
tempos sobre a
famigerada
sustentabilidade, sobre
formas mais viáveis,
menos degradantes de
relacionarmo-nos com a
natureza e em sociedade,
formas mais humanas de
agir e pensar, que,
seduzidos pelo discurso,
acabamos por esquecer um
detalhe indissociável do
Modo de Produção
Capitalista do qual
participamos: não existe
sustentabilidade quando
a preocupação com o bem
estar e a qualidade da
vida humana, bem como
com a conservação da
natureza é substituída,
estrategicamente,
sutilmente camuflada,
pela busca incansável do
lucro.
A alteração da natureza
vem sendo evidenciada
pelo surgimento de
organizações sociais
cada vez mais complexas
e elaboradas, cujas
demandas antes
inexistentes ou
existentes em menor grau
exigem hoje a exploração
intensa dos recursos
naturais. A maneira como
nós humanos estamos nos
produzindo, e a forma
como intervimos na
natureza em nossa
sociedade contemporânea
tem sido responsável por
um crescente paradigma
de insustentabilidade
ambiental.
O atual Modo de Produção
Capitalista se articula
em torno de uma tal
opacidade, repleto de
sutilezas e eufemismos
que, muitas vezes, a sua
natureza exploradora e
predatória não é
evidente aos nossos
olhos. E quando essa
forma complexa e
elaborada de organização
social tenta se passar
por “mocinho” da
história acaba, muitas
vezes, sendo bem
recebida, quando nos
deixamos enganar pelos
discursos “ambientais”
que pretendem mascarar a
verdadeira face da
lógica capitalista.
Há no paradigma
socioambiental
contemporâneo o
constante investimento
na promessa de
sustentabilidade. No
entanto, se olharmos
para a forma como vem se
dando a continuidade e a
expansão do capitalismo,
embora pontuado por
crises, iremos perceber
que esta
“sustentabilidade” se
trata de uma falácia,
mais um discurso baseado
na suspeita
possibilidade de
coexistência entre o
progresso, o
desenvolvimento, ou, o
crescimento de
justificativa puramente
econômica juntamente a
uma política de proteção
ambiental.
Tal coexistência não
pode ser admitida como
padrão de vida para que
possamos amenizar o ônus
de sermos participantes
de um modo de produção
baseado na exploração
humana e da natureza, no
desperdício, na geração
de resíduos, poluentes,
na destruição dos
ecossistemas, enfim, na
causa e no agravo dos
problemas ambientais.
Desenvolvimento
sustentável, ou ainda
sustentabilidade são
conceitos construídos
sob pressupostos
desejáveis, quando se
referem à necessidade de
minimizarmos os danos
causados ao meio
ambiente pelo processo
de desenvolvimento da
humanidade. Esse
desenvolvimento se faz
legítimo quando seu
intuito é atender às
necessidades humanas,
sem que isso venha a
comprometer o
atendimento às
necessidades das
gerações subseqüentes à
nossa.
Porém não é aceitável
que o desenvolvimento da
humanidade - e aqui
reside o grande equívoco
desse tão divulgado
modelo de
desenvolvimento em nossa
sociedade organizada sob
a égide de um modo de
produção incompatível
com o bem estar humano,
bem como da natureza –
aconteça da forma
exploratória e
predatória como nosso
modo produtivo vem
propagando.
A característica
principal do Modo de
Produção Capitalista é
obter o máximo de lucro
às custas da degradação
humana e da natureza,
exaurindo a força de
trabalho de homens e
mulheres e exaurindo os
recursos naturais.
Sustentabilidade
construída sobre uma
forma organizacional de
sociedade mantida por
práticas como estas, não
é sustentabilidade.
Em artigo publicado em
maio de 2010 no Portal
online EcoDebate
– Cidadania e Meio
Ambiente – o autor
Atílio A. Boron nos traz
importante contribuição
para o entendimento de
como procede o Modo de
Produção Capitalista
quando diz que “o
sistema obedece a uma
lógica implacável
centrada na obtenção do
lucro, o que concentra a
riqueza e aumenta
incessantemente a
pobreza e a desigualdade
econômico-social”.
O autor ainda nos mostra
uma conseqüência desse
modelo de organização
social quando
acrescenta: “nenhuma
sociedade sobrevive
quando seu impulso vital
reside na busca
incessante do lucro, e
seu motor é a ganância.
Mais cedo do que tarde,
isso provoca a
desintegração da vida
social, a destruição do
meio ambiente, a
decadência política e
uma crise moral”.
Os impactos gerados
pelas relações sociais
estabelecidas no Modo de
Produção Capitalista são
inegáveis. Por mais que
o mesmo se defenda e
tente amenizar a
impressão negativa
causada pelos excessos
decorrentes de sua
prática, a causa
ambiental vem emergindo
de forma crescente,
tanto nos meios de
comunicação quanto nas
representações feitas
pelas pessoas diante do
cenário marcado por
catástrofes ambientais,
poluição, destruição dos
recursos naturais e
comprometimento de
ecossistemas, incluindo
a viabilidade da própria
espécie humana frente
aos padrões produtivos
e, por conseguinte, de
consumo proliferados em
nossa organização social
contemporânea.
Frente a essa grande
projeção da causa
ambiental surgem novas
alternativas de
minimizar os impactos
causados à natureza,
muitos dos quais
encontram suas causas ou
agravo em grande parte
nas atividades humanas.
Surgem então novas
formas de aliar
progresso e proteção
ambiental quando falamos
em termos como
sustentabilidade,
responsabilidade
ambiental, consumo
consciente, produtos
ecologicamente corretos.
Esses termos, e suas
diversas atribuições,
significados e
apropriações, vêm
impregnando a sociedade
nos mais variados
âmbitos da produção de
mercadorias e
fornecimento de
serviços, às relações de
consumo e descarte de
resíduos e das
mercadorias
inutilizadas, não
funcionais ou obsoletas.
As formas de utilização
dos recursos naturais
também vêm sendo
contaminadas por essas
novas alternativas de
produção, consumo e
descarte. As empresas,
as indústrias e os
fornecedores de serviços
vêm sofrendo grande
pressão para se
adequarem às novas
tendências a fim de
assegurar-se frente à
competitividade de
mercado e às exigências
do consumidor. Portanto
temos uma notável
tendência à apropriação
de alternativas de
proteção ambiental
aliada ao progresso por
parte da classe
empresarial.
Muitas vezes os
interesses são meramente
lucrativos e visam
melhorar a imagem da
empresa frente ao
mercado competitivo e
frente ao consumidor, o
qual vem se tornando
cada vez mais exigente
em relação às políticas
de proteção ambiental
implementadas pelas
empresas, tanto nos seus
processos de produção,
quanto na
comercialização de seus
produtos e destino
adequado dos resíduos
gerados.
Na ordem social
capitalista, o consumo
tem lugar bem definido e
consistente quando
comparado ao passado. O
ritmo constante e
incansável de produção
exige que haja consumo a
fim de que o metabolismo
capitalista se mantenha
ativo e “saudável”. Aqui
verificamos que a origem
da questão está na
verdade condicionada à
produção específica e
particular do Modo de
Produção Capitalista,
sendo este o estopim
para a proliferação das
práticas consumistas.
Cessar o consumo
significa a falência
orgânica do modo de
produção resultando em
crise econômica.
No entanto, o que nos
interessa aqui é a
consolidação e o
agravamento de uma outra
forma de crise que é a
crise socioambiental, a
qual devemos estar
atentos, já que a mesma
diz respeito à
degradação, à falência
da existência humana bem
como do ambiente que a
mediatiza.
O meio ambiente já foi
considerado, no mundo
dos negócios, como um
obstáculo ao crescimento
empresarial. Atualmente,
e de forma cada vez mais
evidente, o mesmo vem
sendo visto como aliado
para o crescimento das
empresas. Trata-se do
chamado desenvolvimento
sustentável: uma forma
de manter o progresso
empresarial, em acordo
com algumas políticas de
pseudoproteção ao meio
ambiente.
Aqui, é preciso atentar
para o caráter
estratégico - embora
essa responsabilidade
ambiental possa ser
vista como uma forma
altamente desejável de
proceder diante da crise
socioambiental da qual
participamos, e quanto a
isso, não há
discordância -
largamente utilizado
pelo ramo empresarial,
de aliar ao seu processo
produtivo ações de
proteção e conservação
ambiental, como forma de
desviar a atenção dos
consumidores e nas
relações de concorrência
dentro do mercado
empresarial para o fato
dessas empresas serem em
grande parte
responsáveis pelo
agravamento dos
problemas ambientais.
Como exemplos podemos
citar a ação
exploratória sobre os
recursos naturais (e, no
âmbito social, da força
de trabalho humana),
liberação de poluentes e
resíduos de produção,
destruição de
ecossistemas, danos à
saúde humana e de outros
seres vivos, entre
demais fatores que
comprometem o meio
ambiente na medida em
que o mesmo é utilizado
de maneira inadequada e
incompatível com o seu
equilíbrio e capacidade
de recuperação.
Sob o ponto de vista dos
negócios, é importante
tecermos um pouco sobre
as implicações do tema
ambiental nesse
contexto. De acordo com
publicação do Instituto
Internacional de
Educação do Brasil (IEB),
organizada por Rocha,
Dorresteijn e Gontijo
(2005), sob o título:
Empreendedorismo em
negócios sustentáveis –
Plano de Negócios como
ferramenta do
desenvolvimento,
várias empresas apostam
hoje em suas estratégias
de negócios no tripé da
sustentabilidade:
respeito ao meio
ambiente, variabilidade
econômica e
responsabilidade social.
No texto O que são
negócios sustentáveis?
contido na publicação
referida acima, o autor
Frank Lam define
sustentabilidade como
“a característica que
permite ao negócio a
satisfação das atuais
necessidades sem
comprometer a capacidade
das futuras gerações de
satisfazer as suas
necessidades”
(p.23). Nesta definição
podemos perceber
claramente a tendência a
considerar o termo em
seu caráter de
“negócio”.
Porém, não podemos
esquecer que as
necessidades a que o
autor se refere são
necessidades humanas. O
empenho em torno destas
não deve estar voltado à
satisfação do “mundo dos
negócios”, mas deve
preocupar-se com a
continuidade e com o
desenvolvimento da
humanidade. Não deve ser
a causa de seu
retrocesso, de sua
degradação, de sua
inviabilidade social, e
nas relações com a
natureza.
Neste ponto, pensamos
ser conveniente
esclarecer que não
pretendemos nos colocar
contra as propostas de
sustentabilidade
sugeridas como uma forma
de desenvolvimento
diferenciada, que leve
em conta as questões
socioambientais. Ações
de
preservação/conservação
da natureza, redução de
impactos ambientais,
equidade social, todas
são, sem dúvida,
desejáveis e necessárias
para que possamos nos
desenvolver como espécie
em harmonia social e nas
relações que
estabelecemos com a
natureza.
Almejamos, porém, a
existência de uma
criticidade própria de
quem, após sistematizar
uma série de
conhecimentos
necessários, possa ter
uma tal “consciência de
mundo” que lhe permita
enxergar as motivações
do Modo de Produção
Capitalista para
reconhecer os interesses
envolvidos nessa
aproximação cada vez
mais artificial,
pragmática e estratégica
entre homem e natureza.
Podemos inferir que nos
discursos “ambientais”
amplamente difundidos
está contida toda a
intencionalidade de um
modo produtivo que
deseja manter-se dentro
de uma condição de
aceitação dos
envolvidos. Para tal
reveste-se com as
melhores intenções
frente à crise
socioambiental instalada
em nosso contexto.
Demonstrar preocupaçãoi
com os problemas
ambientais e sociais vem
se tornando o “clichê”
das empresas e
industrias como forma de
sustentar-se frente às
cobranças dos
consumidores e garantir
competitividade nas
relações de mercado.
Os autores Vellani e
Nakao (2009) de alguma
forma afirmam esta
pressuposição quando
colocam que, abandonando
a atitude de não
reflexão quanto às
conseqüências de suas
atividades produtivas,
as empresas vêm
permitindo espaço ao
pensamento ecológico em
seu cotidiano, devido ao
fato de que o
investimento voltado ao
desenvolvimento
sustentável pode trazer
vantagem competitiva.
Em similar sentido Silva
(2003; p.15) sinaliza
esta alteração nas
prioridades das empresas
quando nos traz que:
as pressões mundiais
acerca da questão
ambiental e os danos
provocados pelas
empresas ao meio
ambiente têm levado
parte dos empresários a
uma reflexão quanto à
realização de
investimentos no
desenvolvimento de
ferramentas gerenciais,
que garantam ou amenizem
os efeitos ambientais
gerados pela consecução
de suas atividades
operacionais, sejam
estas no setor
industrial ou de
serviços.
As atitudes “verdes”
adotadas pelas empresas
representam interesses
de negócios, ou seja,
são uma estratégia de
marketing cujo
objetivo é angariar
formas de lucrar mais,
iludindo a opinião
pública sobre elas
próprias e sobre seus
produtos. Essa é
essencialmente uma
estratégia de
autopreservação da
empresa, já que, caso
não modifique sua forma
de explorar os recursos
naturais e sociais
adequando a técnica de
produção e as formas de
apropriação desses
recursos, a degradação
ambiental será evidente
aos olhos do povo.
Sendo assim, para que a
opinião pública seja de
satisfação com a empresa
e seu produto, torna-se
essencial o investimento
em ações sustentáveis.
No entanto, uma
consciência crítica
desenvolvida nos
sujeitos consumidores de
que a empresa pode ser
muitas vezes a causa, e
não a solução, para os
problemas ambientais
poderia levá-los a
rejeitar o produto e
olhar com maus olhos a
empresa.
O exemplo em seu nível
particular, no caso da
empresa, leva-nos a
verificar que o mesmo
ocorre no âmbito do modo
de produção, quando este
se obriga a reestruturar
suas técnicas de
produção e suas formas
de apropriação dos
recursos naturais e
sociais a fim de manter
a continuidade da
produção, sem, contudo,
modificar a essência do
modelo produtivo, que é
a obtenção do excedente
gerador de lucro,
explorando nesse
processo a natureza e os
seres humanos.
Portanto, caso continue
em suas práticas
agressivas, predatórias,
alheias à crise
socioambiental que se
instala, num processo
que atesta as inúmeras
dimensões em que se
expressa o seu fracasso,
poderá o modo produtivo
antecipar o seu próprio
término, à medida que se
acentua o paradigma de
insustentabilidade no
âmbito social e nas
relações com a natureza.
Essa capacidade de
moldar-se, ou melhor,
reestruturar-se frente à
determinada conjuntura
lhe permite continuar
existindo por meio de
mudanças, adaptações,
reformas sem transformar
sua essência de
funcionamento. A
reestruturação, portanto
é algo necessário para
que o Capital possa
continuar concretizando
a sua lógica e impedir,
ou, ao menos, minimizar
a possibilidade da
ocorrência de processos
revolucionários que
significariam o seu
término, já que
pretendem estes
transformar a própria
essência do Capital.
O que estamos dizendo se
aproxima do que Mészáros
(2009) vem chamando de
“metabolismo do
Capital”. Ao entender,
analogamente aos
sistemas orgânicos, que
o capital estrutura-se e
funciona de forma
metabólica, o autor
coloca que, o mesmo
precisa de todos os seus
elementos constitutivos
para que possa
funcionar, sendo este
conjunto de relações
essencial para a
continuidade do sistema.
Quando um, ou vários dos
órgãos não responde
adequadamente ou
simplesmente fale, isso
compromete todo o
metabolismo.
No entanto, e aqui temos
o que Mészáros pretende
nos dizer com a
analogia, por se tratar
de uma estrutura viva, o
metabolismo tenta de
todas as formas
recuperar-se do dano
causado, das agressões
externas: implementa
mutações a si próprio,
cria processos
alternativos,
reorganiza-se, a fim de
manter-se vivo.
Em nossa sociedade, as
práticas sustentáveis
são práticas
compensatórias,
imediatistas ou de
remediação, já que esta
sociedade se sustenta
com a estratégia de
resolver o urgente na
questão social e
ambiental a fim de não
tornar os conflitos, ou
seja, as contradições,
insustentáveis,
atenuando-os. Porém, não
se trata de uma
sustentabilidade
legítima (pelo menos não
são confiáveis os
interesses que a
legitimam) nos
princípios proferidos em
seu próprio discurso; é
uma sustentabilidade que
visa manter a estrutura
social inalterada,
evitando a atenção ao
foco dos conflitos
ambientais e sociais
existentes.
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http://www.regen.com.br/ojs/index.php/regen/article/view/108/288.
Acesso: 07/05/10.
Licenciada em Ciências
Biológicas pela
Universidade Federal
de Pelotas (UFPEL) e
Mestranda da
Pós-Graduação em
Educação Ambiental da
Universidade Federal
do Rio Grande (PPGEA-FURG).
E-mail: andreisadamo@yahoo.com.br.
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