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Danilo Pretti
Di Giorgi
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| publicado em
26/12/2007 |
O que é essencial para alguém colocar em marcha um
projeto que pode oferecer riscos ao meio ambiente?
Dinheiro. E como conseguir dinheiro para executar
projetos ambientalmente nocivos? Nos bancos. Isto posto,
como conter a degradação ambiental financiada por
volumes razoáveis de recursos financeiros? Com os bancos
mantendo um controle rígido sobre o destino do dinheiro
que emprestam. Parece simples e é.
Faz já algum tempo que alguns ambientalistas perceberam
essa interessante realidade. Chico Mendes, por exemplo,
conseguiu notoriedade internacional ao recomendar ao
Banco Mundial a suspensão do financiamento para
pavimentação de rodovias que cortam o Acre. Ainda nos
ano 80, algumas ONGs começaram o duro trabalho de fazer
com que os maiores ícones do capitalismo mudassem os
critérios de avaliação para as concessões de
empréstimos. A intenção era (e ainda é) que os
banqueiros levem em conta algo mais do que simplesmente
o lucro que pode ser gerado com o negócio.
A pressão, de início, foi feita sobre os bancos
multilaterais, como o Banco Mundial, o BID e o FMI. Na
época, estas instituições respondiam pela maior parte
dos grandes investimentos nos países então chamados de
"subdesenvolvidos" (hoje temos o politicamente mais
correto "emergentes". Na prática, quase nada mudou na
relação de forças entre as nações, mas o nome ficou
"mais bonito").
Aos poucos, este cenário foi se modificando. Já nos anos
90, a artilharia começou a ser direcionada para os
bancos privados, de onde saem hoje a maior parte dos
grandes empréstimos para grandes obras. Um dos
resultados disso foi a Declaração de Collevecchio,
endossada em 2003 por mais de 200 ONGs de todo o mundo,
que convoca as instituições financeiras a aceitar seis
compromissos e a adotar as medidas apresentadas para
implementá-los. São eles sustentabilidade dos mercados e
governança, não provocar dano, responsabilidade,
prestação de contas, sustentabilidade e transparência.
Quase todos os grandes bancos brasileiros são
signatários dos Princípios do Equador. Definido em 2002,
suas regras exigem cuidados especiais do ponto de vista
socioambiental em projetos com empréstimos superiores a
US$ 50 milhões (em 2006, o valor foi reduzido para US$
10 milhões). Os diretores destes bancos gostam muito de
lembrar estes princípios, para passar a imagem de
ambientalmente corretos. No entanto, raramente citam que
essas regras estão limitadas aos chamados "project
finance", destinados a grandes obras, como
hidrelétricas, cujos empréstimos só começam a ser pagos
quando o empreendimento entra em operação.
O total destinado aos "project finance" não chega perto
de 5% do total emprestado pelo sistema financeiro
mundial. Os outros 95% vão ao sabor do vento. Não existe
qualquer controle para saber se o dinheiro que sai dos
bancos será usado para desmatar ou queimar reservas
florestais, poluir rios, destruir manguezais ou promover
o trabalho escravo.
Para citar apenas um exemplo próximo, em julho deste ano
o Ministério do Trabalho libertou mais de 1.100
trabalhadores escravizados pela Pagrisa, uma usina de
cana do Pará. A empresa produzia 50 milhões de litros de
álcool por ano e tinha como sua maior cliente a
Petrobras. Entre seus financiadores, HSBC, Bradesco e
Banco do Brasil.
É muito bonita a propaganda do Bradesco, que está
passando na televisão, sobre o "banco do planeta". Tem
bela trilha sonora, criança fofinha, golfinho, igarapé e
planeta visto do espaço. Mas o projeto parece não ir
muito, além disso. Pelo menos o banco não se preocupa em
informar as ações práticas do "banco do planeta". No
sítio do Bradesco na internet, encontrei, além do vídeo
de 30 segundos, um discurso vazio sobre ações pontuais e
alguns princípios de conduta cheios de generalidades e
imprecisões, sem fatos concretos.
É também muito bom saber que o Banco Real economiza
papel e eletricidade nas suas agências e departamentos.
Mais, afirma ter inaugurado uma agência em São Paulo
considerada a primeira construção sustentável da América
do Sul, certificada conforme os critérios da organização
norte-americana Leadership in Energy and Environmental
Design. Tudo isso é importante, mas a forma como os
bancos podem realmente ajudar é modificando
profundamente os critérios de concessão de crédito,
coisa que ainda está longe de acontecer.
Fico contente ao perceber que os bancos estão
preocupados com sua reputação e que estão investindo em
campanhas milionárias de marketing para construírem uma
imagem de ambientalmente corretos. Melhor que outros,
como o Grupo Santander, que nem mesmo os Princípios do
Equador assinou. Bancos como o Bradesco e o Real podem
não perceber, mas estão enroscando-se lentamente numa
teia de compromissos ambientais, da qual terão
dificuldade para desvencilhar-se.
Gustavo Pimentel, gerente do
Eco-Finanças, projeto da ONG Amigos da
Terra – Amazônia Brasileira, foi muito feliz ao cunhar o
termo "passivos reputacionais" para designar esta teia.
Os bancos têm assumido compromissos importantes, mas
muitas vezes, acredito eu, sem refletir sobre as reais
conseqüências. As cobranças para que suas ações no
futuro realmente reflitam toda essa boa vontade com a
Natureza virão, e virão com força.
Danilo Pretti Di Giorgi é jornalista.
Email:
digiorgi@gmail.com
Publicado originalmente no Correio da Cidadania
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