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Resumo:
O contato
interétnico provocou
profundas mudanças no
modo de viver dos povos
indígenas e de suas
culturas. Na Amazônia
esse processo continua a
ocorrer em função da
vasta dimensão
territorial e
consequentemente, do
processo de povoamento e
expansão das fronteiras,
de forma que ainda hoje
etnias continuam
desconhecidas. No caso
do povo Zoró, o contato
acontece no ano de 1977,
o que permitiu conhecer
as práticas tradicionais
de produção através dos
relatos dos anciãos e
também porque muitas
delas estão vivas no
cotidiano.
Palavras-chave:
Índios
Zoró; Amazônia; Contato
interétnico; Atividades
Produtivas.
Resumen:
El
encuentro o sea, el
contacto interetnico,
ha cambiado el modo de
vivir de los pueblos
indígenas y de sus
culturas. En Amazonia
sigue ocurriendo este
proceso devido al largo
territorio de las
fronteras, de forma que
encontramos todavía
etinias desconocidas.
Tenemos como ejemplo la
etnia de los Zoro, que
en el anõ de 1977, se
pudo conocer sus
prácticas tradicionales
de producción por
intermedio de los
indios de edad y que
siguen vivas hasta hoy.
Palabras-llave:
Indios
Zoro; Amazonia; Contacto
interetnico; Actividades
productivas.
Introdução
A ocupação da
região amazônica pelo
não-índio de forma mais
incisiva é decorrente
dos modelos de
exploração econômica. As
primeiras incursões na
região se dão pelos
espanhóis na busca das
cidades míticas feitas
em ouro, mas a
instalação de povoados
ocorre primeiro pela
exploração do
extrativismo vegetal
chamado de drogas do
sertão, segundo pela
extração do látex ou
ciclos da borracha, e
por último pela
colonização agrícola a
partir de 1970. Nos dois
primeiros modelos de
exploração econômica os
caminhos utilizados para
penetração do interior
são os grandes rios
existentes,
diferentemente, a
colonização utiliza as
estradas de terras
firmes.
Para os povos
indígenas a chegada do
não-índio foi uma
verdadeira catástrofe:
escravidão, morte por
doenças e guerras, e
expropriação de suas
terras. O povo Zoró só
vai conhecer essa
realidade com a
colonização acontecida a
partir da década de 70
do século passado. Esse
fato possibilitou
conhecer aspectos
culturais desse povo que
talvez tivessem sido
perdidos se a época do
contato fosse outra,
como aconteceu com
outros povos da região.
Este artigo
pretende descreve de
forma sucinta as
atividades produtivas
tradicionais do povo
Zoró, habitantes da
região Noroeste do
estado do Mato Grosso,
que manteve contato
permanente com a
sociedade nacional
envolvente no ano de
1977. Embora o povo
conserve parte da
cultura tradicional,
algumas práticas estão
sendo substituídas pelo
modelo ocidental. O
texto não tem conotação
saudosista, mas, o
interesse em descrever
práticas antigas e
diferentes das
utilizadas no presente.
COMO SE ORGANIZAVA A
PRODUÇÃO ZORÓ
As atividades produtivas
do povo Zoró antes do
contato permanente com a
sociedade nacional
envolvente podem ser
divididas em três
modalidades: roçados,
expedições coletivas de
coleta de alimentos e
atividades produtivas
individuais. Os roçados
são atividades mais
relacionadas à família,
uma responsabilidade do
homem guerreiro que
provê os seus
descendentes. Tanto é
realidade que muitas das
histórias falam sobre a
necessidade da
disponibilidade do homem
para o trabalho, e nas
narrativas sobre o
casamento, o sogro
escolhia o genro com
coragem de trabalhar.
Este também era
requisito básico para
tornar-se um zawi-ai –
ou cacique, como
popularmente se conhece
os chefes indígenas no
Brasil. Dessa forma, o
trabalho se
caracterizava como um
atributo importante de
status. Embora os
roçados pertencessem (ou
pertençam) às famílias,
o uso dos produtos
sempre se dá de forma
coletiva, porque
culturalmente não há um
controle rigoroso sobre
os bens ou uma ideologia
da individualidade.
As expedições coletivas
faziam parte de
atividades de caça ao
porco, pesca com timbó,
coleta e exploração do
território. Conforme
Carmen Junqueira em um
artigo sobre os Cinta
Larga – povo vizinho aos
Zoró, de língua
Tupi-Mondé, com mitos e
forma de organização
bastante parecidos –
algumas dessas
expedições “[...] se
desdobram em longas
perambulações”
(JUNQUEIRA, 1984, p.
1285). Mais à frente, no
mesmo artigo ela afirma
que:
As
expedições são
organizadas para coletar
mel, castanha, taquara
para flecha, ou visam o
consumo farto, em plena
mata, do produto das
caçadas ou pescarias.
Durante as andanças o
ambiente é detidamente
observado: verifica-se o
desenvolvimento dos
frutos silvestres, das
plantas medicinais, das
reservas de
matéria-prima, enfim,
localizam-se as fontes
dos recursos disponíveis
que serão coletados no
retorno à aldeia ou em
outra oportunidade.
(JUNQUEIRA,
1984, p. 1285)
As
atividades produtivas
individuais estão
relacionadas geralmente
à caça de pequenos
animais e a pesca, à
coleta nas proximidades
da aldeia e a confecção
de instrumentos e
artefatos úteis no
provimento das famílias.
Porém, se em algumas
dessas investidas o
resultado gera uma
quantidade acima do
esperado para a família,
o excedente é repartido
com os demais da aldeia.
De forma geral essa era
a forma que o povo se
organizava para
produzir, distribuir e
consumir os alimentos. A
produção dos
instrumentos de uso
habitual no trabalho ou
em outras atividades era
uma atividade individual
orientada pela divisão
sexual do trabalho. É
considerada nesse texto,
como produtiva, porque
em determinado momento
poderia ser utilizada
como forma de pagamento
por um serviço
realizado.
Em
relação à divisão
temporal das atividades
produtivas, eram os
fenômenos ambientais ou
o regime climático que
orientava os períodos
adequados para sua
realização. Para
construção daquilo que
pode ser chamado de
calendário Zoró, sete
fenômenos eram
observados. A melhor
forma de representá-lo é
em forma circular
(conforme figura 1
abaixo), uma vez que não
é possível determinar o
início ou o fim dos
períodos de forma
quantitativa como no
calendário ocidental. É
como falou um índio Zoró
durante a pesquisa: “não
existe calendário para
nós, é tudo direto”.
FIGURA 1.
Calendário Zoró.

O
calendário representado
na figura acima surgiu
em decorrência de um
exercício feito pelos
professores indígenas e
assessoria pedagógica
das escolas das aldeias
junto aos anciãos do
povo para representar
graficamente a
organização do tempo dos
Zoró. Esse calendário
mostra como o povo
organizava seu tempo
para dar conta das
diferentes atividades
culturais e de produção.
Cada uma
das sete partes do
círculo representa um
período importante.
Didaticamente os
períodos foram
comparados aos meses do
calendário gregoriano em
que se começa a observar
os fenômenos ambientais.
O ano começa quando a
árvore do murici
floresce. Nesse período
os índios se preparavam
para roçar a mata
(cortar os cipós e as
árvores mais finas) e
depois fazer a derrubada
das árvores do local
onde será plantada a
roça. No segundo
período, muitas estrelas
grandes, está começando
o frio, continua a
roçada da mata e em
alguns casos começa a
derrubada propriamente
dita, é o fim do período
chuvoso nessa parte da
Amazônia. O terceiro
período muito frio e
começando sol quente é
início da estação seca e
época de derrubada da
mata. O quarto, muito
sol quente e rio seco,
bom para matar o peixe
com timbó, é a época das
queimadas e de andanças
pelos rios para fazer a
pesca com timbó. No
quinto período está
começando chuva, é época
de plantio das roças. No
sexto período, todos os
dias há chuva, coleta do
fruto conhecido como
pama (Clarisia
ilicifolia). O
último, muitas chuvas.
Fim do ano. Estrelas
pequenas. É o período de
maior intensidade das
atividades culturais, da
coleta de frutos como a
castanha (Bertolethia
excelsa), preparação
para os rituais
religiosos e colheita de
milho. Se comparado ao
calendário ocidental,
corresponde ao período
de novembro a abril.
Algumas
atividades produtivas
não precisavam de um
período específico
regido pelo sistema
climático para que
fossem executadas,
embora o resultado
variasse bastante, é o
caso da caça e da pesca.
Quanto à coleta, a
floresta sempre
disponibiliza certa
quantidade de frutos e
sementes durante o
decorrer do ano, mas é
na época da estiagem (ou
verão amazônico) que é
mais evidente.
Considerações
Os povos
indígenas deixaram um
grande legado para
humanidade como bem
lembra Berta Ribeiro
(1987) em sua obra “O
índio na cultura
brasileira”. Reconhecer
a sua importância na
cultura brasileira e
conhecer seus modos
tradicionais de vida é
colocá-los no lugar de
destaque que merecem.
A divisão
temporal das atividades
produtivas do povo Zoró
leva a imaginar a
previsibilidade das
ações e da vida, bem
como a baixa expectativa
de mudança social.
Mostra também formas
eficientes de viver e de
se relacionar com o meio
ambiente de forma
considerada
sustentável.
Referências
JUNQUEIRA, Carmen.
Sociedade e cultura: os
Cinta-larga e o
exercício do poder do
Estado. Ciência e
Cultura, v. 36, n.
8, p. 1284-1287, ago.
1984.
RIBEIRO,
Berta G. O índio na
cultura brasileira.
Rio de Janeiro: Revan,
1987.
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