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Todo ano é a mesma
coisa. Chega a ser cansativo: desde que me entendo
por gente que a ocorrência de inúmeras queimadas no
Brasil nesta época do ano se repete. Do fim de julho
até outubro, pipocam notícias de incêndios em
parques e áreas protegidas no Cerrado, na Amazônia e
no que resta da Mata Atlântica. Além disso, neste
período um número assustador de focos de calor é
detectado do espaço em todo o território nacional. A
explicação para tal propagação de incêndios é
simples: nesta época, a estação seca está em seu
auge na maior parte do Brasil. Assim, todos, do
grande fazendeiro ao trabalhador rural mais humilde,
aproveitam que a vegetação está mais ressequida e,
antes que as primeiras chuvas de verão comecem,
lançam fogo no pasto ou em áreas de mata (embora a
magnitude dos efeitos de uns e outros sejam
obviamente diferentes). A prática vem de tempos
imemoriais, e alguns dos indígenas que aqui viviam
em tempos pré-colombianos já se utilizavam dela
(assim como ainda o fazem atualmente).
Em agosto deste ano, como não poderia
ser diferente, a situação repetiu-se e o número de
focos superou a casa dos 21 mil. Em setembro, com
dados apurados apenas até o dia 27, já foram
contabilizados quase 22 mil. O total em 2007 já
ultrapassa os 64 mil focos de calor. Só no próprio
dia 27 foram 1339 focos. Detalhe: todos estes dados
são de apenas um satélite, o NOOA-15. Outros
satélites detectam focos adicionais, elevando estes
valores (os sítios do PROARCO – Programa de
Prevenção e Controle de Queimadas e Incêndios
Florestais na Amazônia Legal – no
IBAMA e no
INPE fornecem
maiores detalhes sobre a definição de focos de
calor, limitações da metodologia, diversas formas de
consulta de dados atuais e históricos e um grande
número de outras informações úteis).
Em áreas já
desmatadas, com pastagens, a queimada serve para
estimular a rebrota das gramíneas, pois as plantas
mais jovens são mais apreciadas pelo gado. Porém,
sempre existe o perigo, e isso freqüentemente
acontece, de que o fogo se espalhe para áreas com
vegetação nativa. Muitas vezes, isto é até
intencional, para que se ampliem as áreas de
pastagens. Observei o alastramento diversas vezes no
Pantanal, onde a prática da queimada, como em outras
regiões do país, faz parte da cultura local de
criação de gado.
Outras queimadas são
feitas para acabar de "limpar" áreas que foram
recentemente desmatadas, com as toras e galhos
empilhados em montes e aguardando a sua vez de
arder. Pior ainda: em muitos locais, o fogo é usado
diretamente para queimar a mata ainda em pé e limpar
o terreno para a agricultura ou a pecuária. Tosco é
o adjetivo mais suave que consegui encontrar para
classificar esta prática.
Os problemas
relacionados às queimadas são muitos: entre eles
estão os riscos à saúde humana, à segurança de
rodovias e à integridade das linhas elétricas. Mas
alguns de seus piores efeitos são, sem dúvida, os
ambientais. A vegetação florestal desaparece, sendo
substituída por formações abertas. Os animais
silvestres sofrem de diversas formas: de morte
direta no fogo à redução de recursos alimentares e
de locais para viver, além da maior exposição a
predadores. Uma imagem emblemática é a do
tamanduá-bandeira que, com sua visão e audição
ruins, é às vezes apanhado desprevenido pelas
chamas, e sua cauda transforma-se numa tocha, com a
qual o animal, correndo em desespero, espalha ainda
mais o fogo.
Outro problema,
talvez até mais grave devido às implicações de longo
prazo, são as conseqüências para o aquecimento
global. As queimadas em áreas de mata lançam uma
enorme quantidade de gás carbônico na atmosfera em
um curto período de tempo, que não é absorvido de
volta. O motivo é que a massa total de matéria
orgânica presente numa mata é muito maior do que a
massa que irá se acumular na área recém-queimada.
Toda a diferença permanece na atmosfera. Por causa
destas queimadas que o Brasil é um dos grandes
países poluidores. O impressionante total de 75% das
nossas emissões de carbono está ligado ao
desmatamento, boa parte do qual é feito através do
fogo.
A prática das queimadas é mais um
ingrediente danoso da perspectiva míope (do ponto de
vista do desenvolvimento do país como um todo) de
fortalecermos o agronegócio exportador de
commodities agrícolas. O pior de tudo é que não
auferimos praticamente nenhum benefício para a nossa
população. Já a poluição dos países desenvolvidos,
conseqüência de sua industrialização, ao menos
trouxe junto consigo a melhoria na condição de vida
de seus habitantes. No Brasil, temos uma situação em
que se ganha pouco e se perde
A análise dos dados
históricos do PROARCO fornece pistas interessantes
sobre tendências temporais e espaciais. Por exemplo,
basta olhar os mapas com a localização dos focos que
uma conclusão salta aos olhos. A maior parte deles
está justamente no arco de desmatamento da Amazônia,
numa larga faixa que começa em Rondônia, passa pelo
norte de Mato Grosso (estado que detém o recorde
absoluto de queimadas), avança por todo o Tocantins
e o sul-sudeste do Pará e termina cortando quase
todo o estado do Maranhão. Não por coincidência, a
mesma área de expansão do agronegócio,
principalmente de soja e gado.
Sem medo de errar, eu diria que a
maioria destas queimadas é ilegal, feita sem os
devidos cuidados ou desrespeitando ainda a
manutenção das áreas de Reserva Legal. Mesmo com
este quadro de incapacidade de fiscalização efetiva
por parte dos órgãos governamentais (apesar do
esforço de muitos), de desrespeito às leis e de
ausência do Estado em boa parte da região amazônica,
o governo aposta suas fichas no projeto de concessão
de florestas públicas (cuja exploração madeireira,
pela abertura de clareiras e pelo inevitável dano
colateral, aumentará sua vulnerabilidade a incêndios
florestais descontrolados) como panacéia dos
problemas na região. O primeiro deles, em Rondônia,
na Floresta Nacional do Jamari, está para ter o seu
edital publicado. Ingênuo, muito ingênuo, para dizer
o mínimo. |