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Revista Partes - Ano V - 18/12/2006 20:55:27 

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O Rio Madeira por água abaixo
Por Rogério Grassetto Teixeira da Cunha


Recentemente, Lula foi longe, ao incluir a demora no licenciamento ambiental para a implantação de grandes obras entre os entraves ao desenvolvimento do país. Coerente com essa lógica, o governo federal pretende enviar um projeto de lei à Câmara Federal no qual pretende mudar os critérios de definição sobre o órgão competente para realizar o licenciamento.


Durante a campanha que reelegeu Lula, ficou evidente o desconhecimento ou a pouca importância dada por ele aos problemas ambientais e suas implicações para a vida do povo brasileiro, ao defender a implementação de projetos extremamente danosos ao meio ambiente. Um dos casos mais dramáticos é o das mega-hidrelétricas na região Amazônica, sendo duas no rio Madeira (Jirau e Santo Antônio), em Rondônia, a serem construídas pela parceria Furnas-Odebrecht, e a sempre controversa usina de Belo Monte, no rio Xingu.

Recentemente, Lula foi mais longe, ao incluir a demora no licenciamento ambiental para a implantação de grandes obras entre os entraves ao desenvolvimento do país. Coerente com essa lógica, o governo federal pretende enviar um projeto de lei à Câmara Federal no qual pretende mudar os critérios de definição sobre o órgão competente para realizar o licenciamento. No caso de grandes empreendimentos, passaria a ser necessária somente a análise do IBAMA, um órgão federal. A intenção é evitar conflitos de competência, os quais, segundo o governo, são o que mais atrasam os licenciamentos. Isto em si não traria grandes mudanças, apenas tiraria do jogo órgãos estaduais e municipais, para os quais ficaria reservado o licenciamento de médias e pequenas obras, respectivamente. De qualquer forma, é bom ficar de olho no tal projeto, para ver se não haverá mais presentinhos escondidos que facilitem as obras em detrimento da preservação ambiental.

Mas por que a construção de hidrelétricas na Amazônia é tão preocupante? Para começar, grandes obras de infra-estrutura funcionam como vetores de destruição na região. No caso, as estradas construídas para acessar as usinas tornam-se novos eixos de desmatamento, algo totalmente ignorado pelos engenheiros que defendem os projetos. O próprio afluxo de um grande número de pessoas para o canteiro de obras representa um grande impacto local, pois muitas delas estabelecem-se por lá após o término das obras e atraem outras pessoas, catalisando o processo de colonização.

O processo de construção em si, com a movimentação de cimento, tintas e outros produtos tóxicos, também é danoso. Quem já construiu ou reformou sabe a quantidade de lixo que isto gera – imagine então uma mega-usina! Mais: a nova energia disponível localmente pode facilitar a implantação de indústrias, quase sempre ambientalmente inapropriadas. Os imensos lagos que serão produzidos pelas barragens podem ainda contribuir para o aquecimento global: após cobrir uma extensa área de mata, os troncos passam a apodrecer, liberando gases de efeito estufa para a atmosfera. Suspeita-se que este efeito possa ser tão extenso que não se poderia chamar de forma alguma a energia gerada de "limpa". Isto sem falar na proliferação de mosquitos com potencial de transmissão de doenças, como a malária e a febre-amarela. Tucuruí está aí como um mau exemplo, apresentando diversos destes problemas e servindo como previsão do que nos aguarda.

Pode-se contra-argumentar afirmando que os problemas acima são especulativos, que, com fiscalização e planejamento adequados, podem ser resolvidos, que tudo não passa de conversa de eco-chatos, e toda aquela lenga-lenga usual. Porém, a ONG RioTerra protocolou um documento ao diretor de Licenciamento do IBAMA (disponível em www.riomadeiravivo.org/fiquepordentro/audiencias%20publicas.pdf), no qual cita diversos pesquisadores respeitados que analisam riscos bem específicos (e sérios) para a região:

O Dr. Philip Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas na Amazônia (INPA), menciona que falta analisar impactos nos umirizais, um ecossistema raro existente na região, e nos lagos de várzea a jusante. Argumenta ele que a mudança nos ciclos de pulso do rio pode ter efeitos sérios sobre o depósito de sedimentos e nutrientes nestes lagos.

Já os Drs. Ronaldo Barthem, do Museu Goeldi, e Michael Goulding, do INPA, citam que, nos planos realizados por Furnas, não há menção sobre as espécies de peixes endêmicas ou dependentes de corredeiras que seriam mais afetadas, e levantam suspeitas sobre os mecanismos de transposição de peixes apresentados. Listam ainda diversas outras possíveis influências negativas ou catastróficas na reprodução de peixes, o que poderia levar à extinção local de várias espécies, comprometendo seriamente a pesca tanto acima quanto abaixo da barragem. Os efeitos poderiam estender-se até a pesca no estuário do Amazonas, dada a importância do rio Madeira para a maior bacia hidrográfica do planeta.

Por fim, o Dr. Horácio Schneider, da Universidade Federal do Pará, lembra a extrema importância ambiental da região de Porto Velho, com um mosaico de diversos ambientes, além de um grande número de espécies endêmicas (que não ocorrem em outros locais). O pesquisador enfatiza ainda o fato de a região estar situada na transição entre Cerrado e Amazônia, uma zona ecologicamente muito importante e diversa, mas frágil.

Resumindo, a gama de possíveis efeitos ambientais negativos é bastante ampla e não foi devidamente considerada até agora. Isto sem falar nos efeitos sociais que as barragens normalmente acarretam, expulsando centenas de famílias de suas casas, quase sempre com indenização inadequada; que estes impactos seriam somente ampliados pelos efeitos sobre a pesca citados acima; na existência de índios isolados que não foi considerada nos estudos de Furnas, ainda segundo o documento da RioTerra. Alguns dos possíveis problemas, como inundações rio acima e proliferação de doenças, preocupam inclusive o governo boliviano (o Rio Madeira nasce na Bolívia), que está estudando a questão para conversar com o governo brasileiro.

Em tempo. Explica-se tanta pressa: o custo das obras das grandes hidrelétricas é da ordem de R$ 20 bilhões. Há muito interesse em jogo e meia dúzia de ambientalistas e ribeirinhos "chatos" não pode atrapalhar os negócios.

 

Rogério Grassetto Teixeira da Cunha, biólogo, é doutor em Comportamento Animal pela Universidade de Saint Andrews.

Publicado originalmente no jornal Correio da Cidadania

 

Rogério Grassetto Teixeira da Cunha, biólogo, é doutor em Comportamento Animal pela Universidade de Saint Andrews.
E-mail: rogcunha@hotmail.com

 



 

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