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"Emissões recentes de gases do efeito estufa
colocam a Terra perigosamente próxima de mudanças climáticas dramáticas que
poderiam fugir de controle, com graves perigos para os seres humanos e
outras criaturas". Não, a notícia acima não faz parte de um panfleto de
algum grupo ambientalista. Na verdade, é o alerta de um estudo científico
publicado no conceituado periódico "Philosophical Transactions of the Royal
Society" por seis especialistas dos EUA e divulgado para o grande público
pelo jornalista Steve Connor no jornal britânico "The Independent".
No artigo, os cientistas (quatro do Instituto Goddard para Estudos
Espaciais, da Nasa, e os outros dois de prestigiosas universidades
norte-americanas) analisam dados de climas do passado geológico da Terra, de
mecanismos de alterações bruscas do clima, da emissão de gases causadores do
efeito estufa e chegam a conclusões alarmantes. Eles acreditam, por exemplo,
que a elevação do nível do mar até 2100 poderá ser de vários metros, ao
invés dos 40 centímetros previstos no relatório do Painel
Inter-governamental sobre Mudança Climática (IPCC) - os quais, aliás, já
causariam grandes problemas em regiões costeiras. Em outras partes do texto,
algumas lembranças algo desconfortáveis: mudanças dramáticas do clima da
terra já ocorreram diversas vezes e estão ligadas a extinções; uma dessas
mudanças envolveu aquecimento global, liberações extensivas de carbono para
a atmosfera e um processo de extinção em massa.
Mas, perguntará o leitor, já não constava do tal relatório do IPCC,
elaborado por uma enorme equipe de cientistas, que a temperatura do planeta
vai aumentar, que o nível do mar vai subir e que eventos climáticos extremos
como secas, inundações, temperaturas recordes e vendavais serão mais
freqüentes e intensos? Sim, mas este artigo mostra que não há unanimidade
quanto à magnitude dos efeitos. O pior é que as vozes discordantes (de
respeito) prevêem efeitos mais catastróficos que aqueles geralmente aceitos.
Por isto, os pesquisadores não economizam nos adjetivos. "Perigo iminente",
"mudança climática dramática" e "cataclismo" são algumas das expressões
empregadas no artigo. Repita-se, aquele é um texto científico publicado em
uma revista internacional, ou seja, rigorosamente avaliado ponto a ponto por
qualificados cientistas da área atuando como revisores anônimos, e não um
manifesto de ambientalistas convictos e apaixonados (como os autores desta
coluna). Os autores referem-se especificamente à possibilidade de
derretimento generalizado nas gigantescas coberturas de gelo da Groenlândia
e da Antártica, causado por alguns mecanismos de "feedback positivo" (termo
que se refere a situações nas quais um determinado processo gera
conseqüências que estimulam este mesmo processo, e assim sucessivamente,
numa espécie de espiral crescente, um efeito cascata), os mesmos
responsáveis por pelo menos uma das mudanças catastróficas anteriores,
acreditam eles.
Acontece que aquelas regiões abrigam uma quantidade inimaginável de gelo. E
é por isso que os tais cientistas não estão para brincadeira. Simplesmente
sugerem que, a continuarmos do jeito em que estamos, a própria civilização
está em risco real. Ao lembrar que as mudanças produzirão um planeta
diferente (pior) daquele em que a sociedade se desenvolveu e no qual a nossa
infra-estrutura foi construída e que o desenvolvimento da sociedade e da
infra-estrutura ocorreu sob um clima bastante constante, sugerem que podemos
não estar preparados para o que está por vir.
Mas antes de nos desesperarmos, enfatize-se que ainda há esperanças, embora
o relógio esteja andando rápido e não vá esperar. E o que eles sugerem?
Medidas draconianas (segundo palavras do líder da pesquisa, em entrevista ao
jornalista britânico) para reduzir a emissão de CO2 e as influências de
outros gases do efeito estufa (metano e óxido nitroso principalmente).
Sugerem ainda que talvez devêssemos empregar também meios de extrair estes
gases da atmosfera, por meio, por exemplo, de sua captura em termelétricas e
armazenamento. Injeção de CO2 abaixo do assoalho oceânico também é
mencionada. Segundo os cálculos deles, o limite da quantidade de gás
carbônico na atmosfera antes que os mecanismos de "feedback" fossem
acionados de forma praticamente irreversível seria de 450-475 ppm (partes
por milhão), sendo que já passamos de 380 e a taxa não pára de crescer. Para
se ter uma idéia, o valor anterior à revolução industrial situava-se em
torno de 280 ppm, cresceu para 300 por volta de 1918, pulou para 326 em
1970, ultrapassou os 350 na década de 80 e tem crescido constantemente.
O que a humanidade fará a respeito deste e de outros avisos igualmente
sérios que vêm sendo continuamente feitos pelos cientistas vai determinar o
futuro da vida no planeta (ou de parte dela).
Há vários caminhos que podem ser seguidos. Um é desqualificar os cientistas,
tentar encontrar brechas nos argumentos ou tentar provar que há outras
interpretações possíveis dos dados. Este é o caminho adotado por algumas
empresas petrolíferas que estão financiando estudos que apontem falhas no
relatório do IPCC. E é conveniente para quem quer seguir o resto dos seus
dias com o mesmo padrão de consumo a que está acostumado e sem sofrer de
culpa por isto.
Outro é acreditar, meio cegamente e com pouco fundamento, que conseguiremos
resolver o problema com base em uma crença genérica e difusa na capacidade
humana de solucionar suas dificuldades por meio da tecnologia.
Este parece ser o posicionamento de parcela da mídia brasileira, com alguns
veículos, como o jornal "O Estado de São Paulo", por exemplo, adotando uma
perspectiva dúbia sobre o tema, ora informando, ora criticando levemente,
ora recorrendo a tal crença. É o popular "um no cravo, um na ferradura".
Também é conveniente para o consumidor convicto da necessidade de seus
hábitos.
Um terceiro é reconhecer que há um problema sério, mas, acreditando que
ninguém nem governo algum farão nada de significativo para resolvê-lo, não
ligar para nada e agir o mais egoisticamente possível. É a tática avestruz.
Por fim, pode-se agir para reverter o problema em longo prazo, tanto em
nossas vidas particulares quanto cobrando atitudes mais firmes e radicais de
nossos líderes. Cada um escolha a sua. Em jogo: o futuro de nossos
descendentes e da nossa espécie.
Publicado originalmente no Correio da
Cidadania
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