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O enfrentamento de problemas ambientais vem colocando importantes desafios relacionados à natureza e aos limites do conhecimento científico moderno. Dentre as discussões de caráter epistemológico e metodológico, destacam-se aquelas acerca do papel das disciplinas científicas e as possíveis alternativas de superação de seus limites, buscando a construção de novas estratégias de produção/integração de conhecimentos, bem como uma interação ética e política mais adequada entre tais conhecimentos com o conjunto de interesses da sociedade e os processos decisórios que acabam por definir tanto o que devemos evitar quanto o que queremos perseguir, onde a natureza, artificialmente reduzida aos modelos e experimentos de laboratório da ciência normal, agora reverte o quadro e rompe, com sua força essencial.
Uma das principais estratégias científicas de superação dos limites da ciência normal para enfrentar a abrangência e complexidade dos problemas ambientais vem se dando através do desenvolvimento de estudos interdisciplinares, onde a investigação interdisciplinar surge como resposta científica à necessidade de serem estudados sistemas complexos, inserindo neste contexto os problemas ambientais, pois os mesmos envolvem simultaneamente diferentes dimensões de uma mesma realidade, como o meio físico e biológico, a produção, a tecnologia, a organização social e a economia. A interdisciplinaridade se fundamenta enquanto possibilidade de investigação em torno de problemas concretos envolvendo sistemas complexos, entendidos pela interdefinibilidade e mútua dependência das funções entre os vários subsistemas ou elementos que os compõem. Ou seja, entender a natureza complexa do objeto - como um ambiente degradado numa dada região - significa compreender suas características estruturais e dinâmicas de evolução mais importantes.
Os avanços das investigações interdisciplinares se dão no sucessivo jogo dialético de interações entre as fases de diferenciação - onde predominam os estudos específicos realizados por especialistas, sejam eles qualitativos ou quantitativos -, e as fases de integração - onde seriam realizadas as integrações dos resultados obtidos no momento anterior, redefinindo a concepção do próprio sistema estudado, verificando e reformulando hipóteses de trabalho, e finalmente estabelecendo-se propostas alternativas de solução para os problemas em diferentes níveis, envolvendo desde novas alternativas tecnológicas de processos e produtos, até programas educativos e políticas públicas de médio e longo prazo. Como resultado de tais estudos, espera-se contribuir para a reversão da degradação do sistema sócio-ambiental analisado, através da reorientação de sistemas produtivos, políticas e práticas institucionais envolvendo setores como o planejamento, meio ambiente, saúde e saneamento, melhorando a qualidade de vida das populações afetadas pelo problema.
As questões ambientais, com a sua complexidade, e a interdisciplinaridade emergem no final dos anos 60 e começo da década de 70 como problemáticas contemporâneas, compartilhando o sintoma de uma crise de civilização, de uma crise que se manifesta pelo fracionamento do conhecimento e pela degradação do ambiente, marcados pelo logocentrismo da ciência moderna e pelo transbordamento da economização do mundo guiado pela racionalidade tecnológica e pelo livre mercado. A crise ambiental e a crise do saber surgem como a acumulação de “externalidades” do desenvolvimento do conhecimento e do crescimento econômico reclamando a “internalização” de uma “dimensão ambiental” através de um “método interdisciplinar”, capaz de reintegrar o conhecimento para apreender a realidade complexa, propondo-se o desenvolvimento de uma educação ambiental fundada em uma visão holística da realidade e nos métodos da interdisciplinaridade.
Os problemas ambientais são sistemas complexos, nos quais intervêm processos de diferentes racionalidades, ordens de materialidade e escalas espaços-temporais. A problemática ambiental é o campo privilegiado das inter-relações sociedade-natureza, razão pela qual seu conhecimento demanda uma abordagem holística e um método interdisciplinar que permitam a integração das ciências da natureza e da sociedade; das esferas do ideal e do material, da economia, da tecnologia e da cultura. Nessa reflexão epistemológica e metodológica sobre a complexidade e a interdisciplinaridade nas relações sociedade-natureza, tem predominado uma visão naturalista, biologista e ecologista; no campo da educação ambiental, a atenção tem se concentrado nos problemas de conservação dos recursos naturais, na preservação da biodiversidade e na solução dos problemas da contaminação do ambiente.
A educação relativa ao ambiente tem como meta permitir ao ser humano compreender a natureza complexa do ambiente, tal como esta resulta da interação de seus aspectos biológicos, físicos, sociais, econômicos e culturais, oferecendo os meios para interpretar a interdependência desses diversos elementos no espaço e no tempo, para favorecer uma utilização mais sensata e prudente dos recursos do universo para a satisfação das necessidades da humanidade. Paulatinamente passou-se da noção de ambiente que considera essencialmente os aspectos biológicos e físicos, a uma concepção mais ampla, que dá lugar às questões econômicas e sócio-culturais, reconhecendo que, se os aspectos biológicos e físicos constituem a base natural do ambiente humano, as dimensões socioculturais e econômicas definem as orientações conceituais, os instrumentos técnicos e os comportamentos práticos que permitem ao homem compreender e utilizar melhor os recursos da biosfera para a satisfação de suas necessidades.
A reflexão em torno dos problemas do conhecimento que apresenta a questão ambiental foi orientada para a incorporação de um saber ambiental emergente nos paradigmas “normais” de conhecimento, buscando com isso estabelecer bases para uma gestão racional do ambiente. Da concepção de uma educação ambiental fundada na articulação interdisciplinar das ciências naturais e sociais, se avançou para uma visão da complexidade ambiental aberta a diversas interpretações do ambiente e a um diálogo de saberes. Nessa visão se confluem a fundamentação epistemológica e a via hermenêutica na construção de uma racionalidade ambiental que é mobilizada por um saber ambiental que se inscreve em relações de poder pela apropriação social da natureza e da cultura.
A interdisciplinaridade implica assim um processo de inter-relação de processos, conhecimentos e práticas que transborda e transcende o campo da pesquisa e do ensino no que se refere estritamente às disciplinas científicas e a suas possíveis articulações. Dessa maneira, o termo interdisciplinaridade vem sendo usado como sinônimo e metáfora de toda interconexão e “colaboração” entre diversos campos do conhecimento e do saber dentro de projetos que envolvem tanto as diferentes disciplinas acadêmicas, como as práticas não científicas que incluem as instituições e atores sociais diversos. A noção de interdisciplinaridade se aplica tanto a uma prática multidisciplinar, assim como ao diálogo de saberes que funciona em suas práticas, e que não conduz diretamente à articulação de conhecimentos disciplinares, onde o disciplinar pode referir-se à conjugação de diversas visões, habilidades, conhecimentos e saberes dentro de práticas de educação, análise e gestão ambiental, que, de algum modo, implicam diversas “disciplinas” – formas e modalidades de trabalho –, mas que não se esgotam em uma relação entre disciplinas científicas, campo no qual originalmente se requer a interdisciplinaridade para enfrentar o fracionamento e a superespecialização do conhecimento.
Essas considerações colocam a necessidade de voltar a uma reflexão crítica sobre os marcos conceituais e as bases epistemológicas que podem impulsionar uma prática da interdisciplinaridade mais aprofundada e mais bem fundamentada em seus princípios teóricos e metodológicos, orientada ao manejo, gestão e apropriação dos recursos ambientais. A pesquisa visando à solução de problemas ambientais complexos exige uma abordagem global apoiada em conhecimento científico e desenvolvimento tecnológico objetivando entender e equacionar as interações sociedade-natureza.
O conhecimento científico, necessário para compreender a dinâmica dos processos socioambientais, situa-se além do conhecimento disciplinar. O saber ambiental descobre as ciências ambientais constituídas por um conjunto de especializações que incorporam enfoques ecológicos às disciplinas tradicionais e se estende, mais além do campo de articulação das ciências, para o terreno dos valores éticos, dos conhecimentos práticos e dos saberes tradicionais, onde o saber ambiental surge do conhecimento fracionado em disciplinas para construir um campo teórico e prático orientado para as articulações da sociedade-natureza. Para entender a problemática ambiental, torna-se necessária uma visão dinâmica e holística do ambiente através de equipes multidisciplinares, atuando de forma interdisciplinar na busca de objetivos comuns, padronizando métodos e processos para gestão ambiental que garantam a manutenção dos recursos naturais e da qualidade de vida da população.
A interdisciplinaridade, enquanto princípio mediador entre as diferentes disciplinas, não poderá jamais reduzir as ciências a um denominador comum, que sempre acaba destruindo a especialidade de cada uma, dissolvendo conteúdos vivos em formulações vazias, que nada explicam, podendo transformar-se em estratégias de exclusão e de domínio absoluto. De forma inversa, tal princípio deverá possibilitar a compreensão da ciência, além das formas de cooperação a um nível bem mais crítico e criativo entre os cientistas.
A interdisciplinaridade deve ser vista como o princípio da máxima exploração das potencialidades de cada ciência, da compreensão dos seus limites e, acima de tudo, como o princípio da diversidade e da criatividade. O processo interdisciplinar surge com o propósito de reordenar a formação profissional através de um pensamento capaz de apreender a realidade de forma total para solucionar os complexos problemas gerados pela racionalidade social, econômica e tecnológica dominante. Tal processo busca fundamentar-se em um método capaz de reunir as atenções dispersas dos saberes disciplinares, formando uma realidade homogênea, racional e funcional, eliminando as divisões estabelecidas pelos limites dos campos científicos, para reconstruir um mundo unitário. A especificidade teórica das ciências absorve-se em um sistema generalizado de conhecimentos, que busca complementar suas estruturas teóricas e dar fundamento a um intercâmbio analógico de conceitos, através de uma terminologia unificada. Daí o propósito de construir uma tecnologia interdisciplinar orientada por um objetivo prático, comum a diferentes campos do saber. A prática da interdisciplinaridade é necessária para mediar à comunicação entre os cientistas e entre eles e o mundo do senso comum. Para se comunicar com outro cientista, o pesquisador precisa deslocar seu conjunto de proposições para fora de sua linguagem específica. Cria-se uma linguagem comum entre os cientistas de diferentes campos ou disciplinas ou, ainda, de especialidades.
Não se cria uma nova teoria, mas a compreensão do que cada um está fazendo, bem como a descoberta de estratégias de ação que eram desconhecidas a ambos, tanto no interior de sua própria ciência como com relação às outras e ao mundo exterior do cidadão comum. Assim como na comunicação entre cientistas de diferentes especialidades, tanto quanto na interação com o cidadão comum, torna-se necessário um processo de decodificação/recodificação saindo da linguagem específica de sua disciplina e conduzindo às diversas partes do conhecimento, fornecendo meios de percepção dos limites dos diversos métodos, fazendo emergir a universalidade, a liberdade e a democracia inerentes à ciência. A interdisciplinaridade, no campo do conhecimento, e os conceitos de desenvolvimento sustentável, no âmbito das ciências ambientais, surgem como duas problemáticas contemporâneas em resposta a uma crise da racionalidade econômica e teórica da modernidade. As questões de desenvolvimento adquirem uma complexidade que vão além da perspectiva disciplinar, exigindo um conhecimento holístico, reunindo problemas ecológicos com realidades sociais. O processo de interdisciplinaridade tem assumido a característica de reunificar a ciência permitindo reordenar a realidade existente.
