| As audiências
públicas para o licenciamento ambiental da hidrelétrica de Belo
Monte, na primeira quinzena de setembro, trouxeram a região de
Altamira de volta à grande imprensa, mas como sempre de forma
tendenciosa e manipulada. Como explicou em entrevista ao Instituto
Humanitas Unisinos o professor Oswaldo Sevá, da Faculdade de
Engenharia Elétrica da Unicamp, a audiência não pesa no
licenciamento. "Ela é uma espécie de mise-en-scène que o
empreendedor faz questão que seja realizado, porque depois tem que
demonstrar que houve participação pública, e que o IBAMA também faz
questão de realizar para ter um álibi. Mas a decisão, no caso de
Belo Monte, já está tomada lá em cima, lá na Casa Civil, que já
mandou dizer ao Carlos Minc logo que entrou no ministério, que Belo
Monte vai ter a licença prévia ambiental concedida".
Participei da audiência pública de Altamira
realizada no domingo, 13 de setembro. Além de fazer parte da
população diretamente atingida, faço parte do Painel de
Especialistas composto por professores de várias
universidades brasileiras, que analisou cuidadosamente o Estudo de
Impacto Ambiental de Belo Monte, no qual foram detectados inúmeros
problemas e inconsistências. Posso então afirmar com convicção que,
mais do que insuficiente, a audiência pública de Altamira (marcada
pela presença de centenas de homens da Força Nacional, Polícia
Federal e Polícia Militar, fortemente armados com fuzis,
metralhadoras e bombas de gás lacrimogêneo, mas quase nenhum
jornalista), foi inadequada quanto ao propósito de ouvir os
questionamentos da população sobre os impactos do projeto.
Boa parte da população de Altamira parece viver
indiferente à questão e ignorar a dimensão das transformações que
assombram sua cidade, apesar de estar a poucos quilômetros do que
pode vir a ser o canteiro de obras da terceira maior hidrelétrica do
mundo. Uma obra com previsão de escavações maiores que aquelas
feitas na abertura do canal do Panamá, que pretende desviar o rio
Xingu (um rio colossal como poucos de nosso planeta) para devolvê-lo
novamente uma centena de quilômetros mais abaixo na mesma margem.
Mas aquele domingo foi uma exceção: o ginásio poliesportivo de
Altamira reuniu uma multidão de opositores ao represamento do rio.
Algumas semanas antes, os defensores da barragem
haviam espalhado pela cidade dezenas de outdoors com promessas de
"desenvolvimento" e "responsabilidade social", e vinham usando
alto-falantes para convocar o povo para apoiar a sua construção. Com
o passar do tempo, as manifestações da oposição também foram
espalhando-se na forma de pichações "Fora Belo Monte" e bombas de
tinta vermelha lançadas por sobre os outdoors, que deram a Altamira
o aspecto de uma cidade dividida.
Quando cheguei ao local da audiência, uma multidão
de manifestantes já se agitava com faixas e bandeiras do lado de
fora do ginásio, deixando claro que a oposição à obra está viva e
convicta da sua posição. Mas a dinâmica da audiência não
privilegiava a discussão.
As primeiras horas foram dedicadas à apresentação
e defesa do projeto pelos políticos locais, pela Eletronorte e pela
Leme engenharia, em uma espécie de evento multimídia. E com direito
até mesmo a uma apresentadora pretensamente simpática, "estilo Ana
Maria Braga", andando com um head fone diante de projeções de
imagens do projeto da barragem e outras fantasiosas, como bairros
lindamente urbanizados sobrepostos às atuais palafitas da cidade,
sendo que isso não está previsto em parte alguma do projeto.
Em alguns momentos nossas vaias eram tão fortes
que a obrigavam a fazer longas pausas para continuar e se fazer
ouvir, principalmente quando tentou falar das praias artificiais que
seriam criadas para compensar as que seriam destruídas. Eu sei bem
como são estas praias artificiais criadas em substituição às
destruídas sob lagos de hidrelétricas. Estive há poucos anos em
Porto Nacional (TO), à beira do rio Tocantins, hoje inundado pelo
lago da represa da usina Luiz Eduardo Magalhães. Antes da obra, as
praias do Tocantins atraíam visitantes de localidades distantes,
movimentando a economia local. Com o enchimento do lago, os turistas
desapareceram. Sem a renovação natural do ciclo das cheias, as
areias das praias artificiais acumulam detritos. Latas e sacolas
plásticas bóiam na água parada, dando-lhe um aspecto pouco
convidativo, e são poucas as pessoas, mesmo sob o forte calor local,
que se arriscam a sentar na areia ou entrar na água.
Por outro lado, aqui em Altamira, as nossas praias
ainda estão vivas e limpas. E vamos lutar por elas até o fim. Por
isso que não nos interessava escutar nada sobre praias artificiais.
Impossibilitados de nos expressar de forma mais efetiva, vaiávamos
tão forte quanto podíamos, como faria qualquer cidadão que dê mais
valor às suas praias que à ganância pelo dinheiro vindo da
destruição do rio.
Cada pessoa inscrita tinha direito a três minutos
para uma pergunta oral, havendo três para a resposta dos
proponentes, com direito a réplica e tréplica. Ou seja, quem fechava
a sessão eram sempre os empreendedores. Algumas perguntas foram
bastante duras, expondo a precariedade e o alto risco ambiental do
projeto. Como no momento em que foi questionada a contaminação dos
poços, com a inevitável elevação do lençol freático. Responderam que
os nove poços estudados pela sua equipe já apresentavam níveis de
contaminação que os tornavam inapropriados para o consumo de água.
E daí? Trata-se da água que mais se bebe por aqui.
Já que já estão contaminados não faz mal aumentar esta contaminação
uma dezena, ou uma centena de vezes? Altamira só não é um esgoto a
céu aberto como os bairros da periferia de Belém porque todo o
resíduo in natura é drenado livremente para o rio em seu nível
normal. Então, feita a barragem, provavelmente moraríamos numa
situação semelhante àqueles bairros degradantes que circundam a
capital paraense. Raciocínios do tipo "não tem problema
contaminarmos a sua água porque ela já é inadequada para o uso" são
uma síntese do pensamento dos proponentes do EIA (Estudo de Impacto
Ambiental). Na verdade eles dizem: "não tem problema destruirmos a
sua cidade, porque ela já não era adequada mesmo para se viver".
Aliás, a nossa vida (de quem depende da mata e da
força da correnteza das águas do Xingu) já não era adequada para se
viver. Então não tem problema que se construa uma nova cidade sobre
a velha, três ou quatro vezes mais populosa, com todos os problemas
das grandes cidades amplificados ao cubo, por ter crescido num
período de poucos anos montada em função da instalação da
mega-hidrelétrica, baseada num delírio mentiroso, megalomaníaco e
provavelmente frustrado mesmo sob o ponto de vista econômico. A não
ser, é claro, para os corruptos e as multinacionais que sempre saem
ganhando, com o ônus todo para todo o Brasil devido aos pesados
investimentos prometidos pelo BNDES.
O professor Philip Fearnside, do Instituto
Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPE), enviou a sua pergunta por
escrito, que transcrevo integralmente a seguir: "Qual a garantia
real e legal de que não serão construídos outros barramentos futuros
acima de Altamira, já que a energia firme de Belo Monte é apenas 39%
da potência instalada e precisaria de mais água para turbinar?". A
resolução do Conselho Nacional de Política Energética não é
suficiente. Trata-se de Conselho Consultivo da Presidência da
República que se reúne com a freqüência que se queira e pode revogar
suas decisões anteriores, não é instância superior ao Congresso
Nacional nem às altas esferas do poder judiciário. Exemplos do que
já ocorreu no passado sobre resoluções: em 2005, o Congresso
Nacional subitamente aprovou a construção de Belo Monte, sem debate
e muito menos com consultas aos povos indígenas, como mencionado na
Constituição. A facilidade com que a proteção da Constituição foi
rompida no caso de Belo Monte levanta a possibilidade de contar com
a regulação do rio Xingu com Babaquara/Altamira. Outro caso foi o
enchimento de Balbina, que era para permanecer durante vários anos
na cota de 46 metros acima do nível do mar, mas foi diretamente
enchido, além da cota originalmente prevista de 50 metros".
O recurso dos defensores da barragem mais uma vez
não foi a argumentação, mas a retórica e a desclassificação do
oponente (ora nos chamam de contrários ao desenvolvimento, ora de
desinformados). Agradeceram a pergunta e lamentaram que ele
estivesse equivocado, pois a relação entre a energia firme e a
potência instalada de Belo Monte fora recalculada para cima. Mas não
disse como, nem para quanto. Para quem não sabe, cabe lembrar que o
professor Fearnside é um dos cientistas mais respeitados do mundo
nesta área, com publicações sobre o assunto nas principais revistas
internacionais. E ainda assim suas observações foram descartadas
pelos defensores do EIA como equivocadas por desinformação. Imaginem
então aquelas do cidadão comum, incapaz de entrar tão a fundo nessas
tecnicalidades. E não só ele, mas diversos especialistas batem nesta
tecla.
E o problema destacado por Philip Fearnside é
fundamental e conseqüência da fortíssima sazonalidade climática do
Xingu. Enquanto escrevo, observo da minha janela o Xingu
aproximando-se de seu nível mais baixo. Faz meses que não chove na
região e é até estranho falar-se tanto em hidrelétrica diante de um
rio que está praticamente parado. Nessa época do ano, toda aquela
hidrelétrica que custaria bilhões e bilhões de dólares também
estaria parada. Da mesma forma que estariam paradas as operações de
mineração que se multiplicariam alucinadamente pela região, com base
na futura energia hidrelétrica barata.
É a pilhagem do capital internacional. A principal
conexão britânica é a londrina BHP Billiton, a maior empresa de
mineração do mundo, com histórico de extensivas operações na África
do Sul e que produz bauxita no estado do Pará, através da Mineração
Rio do Norte no rio Trombetas. As suas operações estão em plena
expansão. BHP Billiton está à busca de energia "barata" para as
atividades eletro-intensivas. Como se viu recentemente, seguindo as
indicações do governo Lula, será priorizado (até devido à falta do
projeto das linhas de transmissão) o consumo da energia da Belo
Monte dentro do estado. Ou seja, na fabricação de alumínio e
processamento de metais como cobre e níquel.
Note que, ao exportarmos materiais processados com
base em tal energia, não estamos exportando materiais, e sim energia
barata, à custa da devastação da floresta. Outros países
indiretamente compram esta energia, mas os ônus dos custos sociais e
ambientais ficam conosco. Porém, é bom que se repita que esta farra
é financiada por você, leitor contribuinte, através do BNDES. A
solução técnica para o problema da forte variação no fluxo do Xingu
é fazer rio-acima as barragens de Babaquara, Ipixuna, Kokraimoro e
Jarina (já previstas há muitos anos), que alagariam grandes áreas,
normalizando o fluxo do rio e aproximando a energia firme da
potência instalada. Que é o ideal sob o ponto de vista do capital
investido, mas desastroso para esta região da Amazônia. Então
realmente coube questionar a real garantia de que não serão
construídos outros barramentos acima de Altamira. Aí os defensores
da barragem assumiram um tom indignado, defendendo a palavra da
presidência da República, como se estes futuros barramentos que
aconteceriam ao longo das próximas décadas fossem um problema do
governo Lula e como se sua palavra fosse lei imutável.
Chamado para fazer a minha questão oral,
perguntei: "Se é sabido que (1) o aumento da imigração e o
aprimoramento da infra-estrutura de transportes associados à
construção de uma hidrelétrica do porte de Belo Monte são causadores
de desmatamentos em larga escala e que (2) o município de Altamira
já concentra as maiores taxas de novos desmatamentos da Amazônia
brasileira, por que no Estudo de Impacto Ambiental não foram feitas
projeções com base em modelos computacionais de desmatamentos para
as próximas décadas, comparando cenários com ou sem a construção da
hidrelétrica?".
É o velho questionamento que repito há muitos anos
em minhas críticas a esta hidrelétrica (e que é sempre solenemente
ignorado pelos defensores da barragem), dos efeitos indiretos da
construção da barragem sobre as taxas gerais de desmatamentos nas
suas áreas de influência (globalmente, os maiores impactos). E que,
naquela audiência, foi novamente ignorado pelos defensores dos
estudos de impacto, que se limitaram a dizer que foram feitas
análises dos desmatamentos dos anos anteriores. E tentaram diminuir
a importância do fato de terem sido registradas este ano em Altamira
as maiores áreas de floresta devastadas, justificando com o fato de
ser Altamira um dos maiores municípios da Amazônia (o que significa
apenas que é possível seguir desmatando muito por muitos anos). Não
foram feitas previsões do desmatamento induzido porque não
reconhecem qualquer responsabilidade do empreendimento além da
própria obra e do desmatamento que ela provoca de modo direto.
Como observou Francisco Hernandez, pesquisador da
Universidade de São Paulo (USP) e coordenador do Painel de
Especialistas, perguntas polêmicas não eram respondidas, nem
cobradas suas respostas pela direção da mesa, a exemplo da questão
de quanto seria gerado de energia na casa de força principal se a
vazão do rio Xingu chegasse próxima de 700 m³/s, como já ocorreu no
passado. Nesta situação não haveria água bastante para turbinar e a
potência instalada na casa de força principal (11000 MW) não geraria
nada. Segundo conclusões do Painel de Especialistas, o EIA-Rima
procura de maneira insistente esquecer e ocultar que as populações
ribeirinhas e indígenas submetidas ao trecho de vazão reduzida
(quase cem quilômetros de praias, cachoeiras e corredeiras que
sofrerão drásticas reduções na oferta de água) terão seu meio
ambiente e condições de vida severamente degradados.
Sofreriam com o comprometimento dos transportes,
porque o rio, bem mais raso - e até interrompido em vários pontos -,
não seria mais totalmente navegável. Sofreriam também com o
rebaixamento dos lençóis freáticos, levando à mortalidade de árvores
e desertificação. E a pesca, tanto de peixes ornamentais quanto para
a alimentação, seria arrasada. Sendo que, para estas populações,
mais de 70% da alimentação protéica vem dos animais retirados do
rio. Isso tudo é ignorado, porque, se não for jogado para baixo do
tapete, a propaganda de Belo Monte não se sustentaria. Se por um
lado o projeto alaga relativamente pouco, por outro lado seca três
quartos da Volta Grande do Xingu. Seria a pá de cal em cima de
qualquer imagem de sensibilidade ambiental que o governo Lula ainda
possa sonhar em ter.
Resumidamente, são necessárias novas audiências
públicas porque os defensores do projeto de Belo Monte passaram
vinte anos enganando a todos, inclusive alguns governantes, sobre as
maravilhas de algo absurdo e que foi concebido apenas para algumas
empresas ganharem dinheiro sem qualquer controle. Como questionou o
professor Sevá, como é possível alguém achar normal empresas
estatais e um banco como o BNDES dizerem que apóiam um projeto de
vários bilhões de dólares que até hoje ninguém sabe direito quanto
vai custar? Um projeto cuja engenharia não está detalhada e que pode
a qualquer momento se tornar bem diferente do que vem sendo
apresentado. Você compraria um terreno que não sabe direito onde
fica, e não sabe se embaixo tem pedra ou areia? Ou um carro usado de
uma loja que você sabe que maquia seus automóveis e às vezes vende
sem documentação completa? Os grupos sociais e de pesquisadores
querem fazer um debate público e democrático sobre um projeto com
muitos problemas. Não tem nada a ver com forças demoníacas ("Lobão
diz que forças demoníacas prejudicam Belo Monte") ou o próprio
demônio. Aliás, ao contrário: é este último que utiliza artimanhas e
dissimulações e não gosta de mostrar sua cara feia em público.
Rodolfo Salm, PhD em Ciências Ambientais pela
Universidade de East Anglia, é professor da Universidade Federal do
Pará. |