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Os verdadeiros
interesses por trás do projeto
de represamento do Xingu, os
impactos indiretos causados pela
construção da Usina de Belo
Monte e suas represas e a
emissão de gases do efeito
estufa decorrentes da putrefação
de matéria orgânica nos
gigantescos lagos artificiais
que seriam criados (porque é
ingenuidade achar que seria
apenas um represamento e não
vários ao longo de todo o rio)
ainda são questões bastante
obscuras até mesmo para os
brasileiros bem informados, como
os leitores do Correio da
Cidadania.
Imaginem então
para a população que vive na
região e que seria diretamente
atingida, e para o povo
brasileiro de modo geral. Sendo
assim, é uma pena que o Sr.
Joaquim Francisco de Carvalho,
após rápida e rica discussão
sobre as hidrelétricas na
Amazônia, tenha respondido à
minha
carta
aberta (ver
comentário postado ao fim do
artigo) apenas reafirmando seu
compromisso de não voltar ao
tema.
Eu gostaria de
saber se o compromisso do
engenheiro vale só para os
textos publicados no Correio ou
se ele se estenderá também para
artigos nos veículos da grande
imprensa, onde ele escreve com
freqüência e onde a defesa dos
nossos pontos de vista têm pouco
espaço para divulgação. De toda
forma, mesmo que ele abrisse mão
de escrever em aguerrida defesa
da instalação de hidrelétricas
na Amazônia, essa decisão não
anularia o efeito nocivo dos
artigos por ele já publicados,
que continuarão circulando por
aí. Se o Sr. Joaquim Francisco
"tratou boa parte das questões"
de forma privada com
colaboradores do Correio, isto
não tem serventia alguma para
mim nem para os leitores, que
não tivemos acesso às suas
ponderações.
Esta semana,
por exemplo, Roberto Smeraldi,
da ONG Amigos da Terra -
Amazônia Brasileira, publicou um
artigo
na Folha da S. Paulo afirmando
que, segundo inventários
oficiais de emissões de gases,
as quatro grandes usinas que
temos na Amazônia contribuem bem
mais para o efeito estufa do que
o fariam usinas a carvão
produzindo a mesma energia. E
que as usinas do Xingu seguiriam
o mesmo padrão nefasto, sob o
ponto de vista do aquecimento
global. Estariam errados os
"dados oficiais"?
Eu concordo
com o senhor Joaquim Francisco
quando ele diz que muitos dos
críticos das barragens assumem
uma postura quase que religiosa
em sua oposição. Realmente,
podemos até debater os detalhes,
mas acho que estou entre esses
críticos. Sou fundamentalmente
contra o barramento do Xingu
(termo merecidamente escolhido
para nomear o rio e que
significa a "a grande casa dos
deuses" na língua indígena
ancestral) e sempre serei contra
esta idéia, independentemente de
qualquer argumento. Pois acho
que travar artificialmente o
curso daquele gigante,
prejudicando permanentemente
toda uma incalculável cadeia
ecológica interligada que
depende do curso livre dessas
águas e simultaneamente atraindo
para esta região, ainda bastante
preservada, hordas de um povo,
em sua grande maioria ignorante
e freqüentemente devastador,
seria um imenso pecado.
Mas é bom que
se diga que os defensores do
desenvolvimento a todo custo
também parecem fazê-lo de forma
fanática e pouco racional (como
agora quando um dos debatedores
se recusa terminantemente a
abordar um aspecto da questão).
Daí se conclui que realmente,
novamente concordando com o
senhor Joaquim Francisco,
trata-se em muitos casos de um
"debate ocioso", uma vez que
sempre recuamos até pontos de
princípios básicos, dos quais
nenhum dos dois lados abre mão.
Evidentemente que isso não
significa deixar de tratar da
questão das hidrelétricas. Mas é
preciso definir melhor os nossos
interlocutores. E a quem dirigir
a nossa crítica, para que ela
seja de alguma forma efetiva.
***
Verdade seja
dita, os opositores ao
barramento do rio Xingu estão
lamentavelmente desorganizados e
perdendo espaço na guerra de
informações com os barrageiros
profissionais. O pífio resultado
do 9º Fórum Social Mundial, em
Belém, no que se referiu à
divulgação deste problema
reforça esse meu ponto de vista.
Como observou o professor
Antonio Julio de Menezes,
em artigo
recente ao Correio,
faltava à juventude
participante, em clima de
"(re)vivendo o Woodstock", maior
consciência política. Além
disso, predominaram movimentos,
como a CUT e a UNE,
"umbilicalmente vinculados ao
governo Lula".
Por tratar-se
de uma questão da maior
importância para a toda a
humanidade, imaginei que o Fórum
Social Mundial seria uma
oportunidade de ouro para dar à
questão de Belo Monte a
evidência que merece. Mas, para
a minha surpresa, o encontro
serviu mais como um espaço de
propaganda do projeto da usina,
que não tem nada a ver com o
conceito de "outro mundo
possível". Aliás, está muito
mais para o oposto disso.
Por que isso
aconteceu? Uma das principais
razões foi o fato de a defesa da
represa ter sido realizada por
funcionários da Eletronorte (bem
preparados e bem pagos para
isso) e por membros do Sindicato
dos Urbanitários do Pará, ligado
à CUT, enquanto a maior parte
dos ameaçados pela barragem mal
teve condições financeiras de
sair de sua região. Mais: a
Eletronorte foi uma das
patrocinadoras do evento e uma
parte da programação ficou por
conta do governo do Pará, que
também tem interesse direto na
construção da usina. Então, os
organizadores do FSM certamente
poderiam ter previsto a questão
a fim de organizar mais
democraticamente o debate e dar
mais condições aos críticos
deste projeto pernicioso de
contornar a blindagem a qualquer
crítica a Belo Monte, montada
pelo dinheiro, pela hipocrisia e
pela grande imprensa.
Vejamos um
problema concreto: os defensores
da usina levaram ao evento uma
maquete, feita pela Eletronorte,
de como ficaria a região após a
obra de represamento na Volta
Grande do Xingu. Esta maquete,
entretanto, já é velha conhecida
como mentirosa e foi descrita no
livro Tenotã-mô, do professor
Osvaldo Sevá, com não sendo
"minimamente realista".
Realmente, eu já examinei tal
maquete e, para citar apenas um
exemplo das suas imprecisões
nada acidentais, ela
simplesmente ignora o fato de
que as ilhas do rio, tão
apreciadas pelos seus moradores
e visitantes, desapareceriam com
a construção da barragem.
Parece que os
defensores do rio ainda
tentaram, sem sucesso, impedir
que ela entrasse no Fórum, o que
gerou alguma confusão. Uma vez
que se trata de um fórum de
debates, provavelmente uma
censura à maquete que
consideramos mentirosa não fosse
realmente adequada. Mas se
houvesse, por parte dos
organizadores do Fórum,
preparação e planejamento do
trato dado a questões
específicas e prioritárias,
poderíamos ao menos ter o
"nosso" modelo , que
considerássemos realista, para
exprimir o nosso ponto de vista.
Pode parecer
absurdo querer que os
organizadores do Fórum
estivessem cientes de um detalhe
como as implicações de uma
maquete, uma vez que lidam com
milhares e milhares de questões
para organizar o evento. Mas
Belo Monte, por estar
geograficamente tão próxima do
local onde foi realizado o FSM,
certamente seria um dos temas
evidentes para o encontro se os
fóruns fossem organizados tendo
eixos temáticos como ponto de
partida (sem excluir outras
questões como de "raça", gênero
etc.). Assim, sua abordagem
deveria estar sendo
cuidadosamente preparada nos
mínimos detalhes com meses ou
anos de antecedência. Isso
evitaria que a boa idéia de se
fazer um fórum como este não
fosse cooptada – como aconteceu
– em favor da máfia corrupta de
tecnocratas defensores de um
modelo comprovadamente
destruidor de desenvolvimento
para a região amazônica e para o
mundo.
Por outro
lado, se o destino do rio Xingu
e da Amazônia paraense é apenas
uma questão dentre muitas
outras, porque fazer o encontro
em Belém do Pará e deslocar toda
aquela multidão até a Amazônia?
Neste caso, realmente, talvez
fosse mais interessante o modelo
proposto para 2010, com fóruns
locais, nacionais e regionais ao
mesmo tempo. Os defensores das
barragens são profissionais. Têm
dinheiro e sabem fazer uso dele.
Produzem, usam
e distribuem, para dar um
exemplo, adesivos para carros
com os dizeres "Eu quero a
hidrelétrica de Belo Monte".
Hipócrita, a Eletronorte repete
que debate a questão com a
sociedade, quando o que querem é
apenas abusar do marketing para
conquistar corações e mentes, de
preferência aproveitando-se da
ingenuidade e da baixa
escolaridade de seu
público-alvo. Enquanto isso, em
um muro aqui e outro acolá, a
oposição picha "Fora Belo
Monte". Mas a maior parte do
tempo esse pessoal aprecia, se
banha e vive no rio como se
esquecesse da ameaça que sofre e
como se ele fosse ficar ali para
sempre da forma como a natureza
o criou. É certo que quando o
barulho das máquinas começar,
muitos se levantarão, mas aí
pode ser tarde demais. É chegada
a hora de se organizar.
Rodolfo
Salm, PhD em Ciências Ambientais
pela Universidade de East Anglia,
é professor da Universidade
Federal do Pará.
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