Desde a visita de George W. Bush ao Brasil,
multiplicaram-se os temores de vários setores da
sociedade quanto às conseqüências do aumento da
produção de etanol de cana-de-açúcar para o meio
ambiente. A visita fez crescer os olhos dos
usineiros, transfigurados nos novos xeiques do
petróleo verde, e também a possibilidade desta
"terra tornar-se um imenso canavial" (repetindo
a alusão de frei Betto à música de Chico Buarque
feita na semana passada).
São tantos os dados e as análises comparando o
consumo de combustível de um carro com as
necessidades alimentícias de não sei quantas
pessoas, lembrando as péssimas condições de
trabalho no corte da cana (mesmo no estado de
São Paulo), a poluição dos rios, a degradação do
solo, as queimadas, os desmatamentos, que fica
difícil escolher um gancho para escrever um
artigo original.
Mas chamaram-me a atenção dois artigos
disponíveis no APARTE (um sítio acadêmico
"voltado para o debate sobre os rumos da
política econômica e social brasileira e as
formas de promoção da inclusão social", ligado à
UFRJ,
),
o economista Marcello Averbug reconheceu a
omissão de seus pares no que diz respeito à
questão ambiental, observando que, apesar do
aquecimento global estar previsto há muitos
anos, quase nada foi feito pela ciência
econômica para "esquematizar meios financeiros,
transformações no sistema produtivo e, de um
modo geral, as políticas públicas" necessárias
para se lidar com o fenômeno. O autor definiu a
violência cometida contra o planeta como
suicida, e concluiu que as instituições onde os
economistas atuam deveriam dedicar-se a formular
e divulgar propostas sobre como reformar a
estrutura produtiva mundial (transporte,
indústria, agricultura e energia) para torná-la
menos agressiva ao meio ambiente.
Os textos em princípio não discordam um do
outro, pois, certamente, no mundo dos desejos do
professor Lessa, em que será possível "combinar
produção de cana e soja e libertar os
equipamentos mecânicos da lavoura do uso de
combustível fóssil, substituindo-o por biodiesel
derivado da soja associada com a lavoura de
cana", haveria sistemas de financiamento
destinados a reduzir a emissão de agentes
poluentes e recuperar áreas contaminadas, como
sugeriu Marcello Averbug. O problema é que o
argumento de Averbug é genérico (e estou de
pleno acordo com ele, não há no que criticá-lo),
enquanto que o texto do professor Lessa é
específico e defende a atividade sucroalcooleira
que, segundo ele, "tem um balanço térmico
extremamente adequado para o meio ambiente
nacional e mundial".
Apesar do argumento geopolítico de peso, sou
obrigado a discordar do eminente professor em um
ponto crucial. Explico: com "balanço térmico",
ele certamente se refere ao fato de que, para
cada molécula de carbono eliminada com a queima
do etanol da cana-de-açúcar, foi ou será
absorvida uma molécula equivalente. Desta forma,
se os equipamentos da lavoura fossem movidos por
biocombustíveis, fechadas as contas, teríamos
uma fonte energética que não agride o meio
ambiente, pois não colabora para o efeito
estufa. Certo? Apenas e tão-somente se olharmos
para o problema do carbono de maneira exclusiva,
mas a questão ambiental é muito mais ampla. A
conta de emissão e reabsorção de carbono é
atraente pela simplicidade, e pode seduzir os
interessados em reformar a estrutura produtiva
para torná-la menos agressiva ao meio sem afetar
o crescimento econômico. Mas a "grande omissão"
perdurará enquanto não se atentar para a
natureza específica dos organismos biológicos e
suas relações com outros organismos e com o meio
físico.
O
balanço do cultivo de cana-de-açúcar é
extremamente inadequado para o meio ambiente,
pois deixa resíduos tóxicos na forma de poluição
dos rios, degradação do solo, queimadas e
desmatamentos. Por que colocar os recursos
restritos do BNDES a serviço da cultura de
cana-de-açúcar, se temos no Brasil uma gama de
espécies mais produtivas e mais adequadas ao
nosso contexto ecológico?
Palmeiras arborescentes de grande porte podem
ser mais produtivas que a cana-de-açúcar na
produção de biocombustíveis, pois esta precisa
ser colhida todo ano, a cada ciclo produtivo,
deixando o solo exposto para que as novas
plantas desenvolvam sua estrutura fotossintética
praticamente a partir do zero. Palmeiras vivem
da acumulação bruta de material ao longo de
muitos anos, como o grande capitalista, enquanto
que as gramíneas, como a cana, são como os
operários que sobrevivem da corrida do
dia-a-dia, conforme comparou E.J.H Corner,
grande estudioso das palmeiras, em "The Natural
History of Palms" (a cana tem que investir todo
ano em caule, folhas etc., enquanto que as
palmeiras, por serem perenes, depois de
desenvolvidas têm um investimento muito menor
nisso).
Já o botânico russo Gregório Bondar,
especialista nas palmeiras brasileiras,
descreveu o seu fruto como um carvão mineral que
cresce em árvores, sem a mina nunca se esgotar.
De suas sementes podem-se produzir óleos que
facilmente substituiriam o óleo dos motores a
diesel. É possível também produzir a um custo
modesto carvão a partir da parte dura dos cocos
e coquinhos, carvão esse que pode ser vendido
para a indústria siderúrgica e as companhias de
navegação e de transporte ferroviário.
Investindo nas palmeiras, em detrimento das
espécies anuais, nunca seríamos "amaldiçoados
pelo sol" — o que pode ser dito da
cana-de-açúcar e da soja, dada a extensão dos
estragos ambientais causados por seu cultivo —,
como os povos do Oriente Médio podem dizer que
são "amaldiçoados pelo petróleo" (como bem
observou o professor Carlos Lessa), dada a
extensão dos conflitos que se desenvolvem em sua
região.
Os muitos milhões de hectares de florestas já
desmatados do Brasil, se reflorestados com
palmeiras nativas (que se dão muito bem em áreas
degradadas), além de recuperarem o ambiente,
produziriam uma quantidade de óleo e carvão que
nos colocaria, estrategicamente, na liderança
isolada do comércio mundial de biocombustíveis,
com soberania, autonomia e, melhor do que sem
danos, com recuperação ambiental.
Alternativa à monocultura canavieira que seja
social e ambientalmente muito mais interessante
há, mas a julgar pelas declarações, um tanto
bizarras, digamos, do presidente Lula, alçando
os usineiros à categoria de "heróis nacionais",
parece mesmo que o ideal desta terra é de fato
tornar-se um "imenso canavial".
PS. O que aparentemente também está bem para
frei Betto (que diz que a nossa "alegria
nacional [...] está ameaçada de se transformar
numa grande tristeza nacional caso o governo
federal não tome, o quanto antes, severas
medidas para impedir que o país se torne um
imenso canavial em mãos estrangeiras" e que "o
mínimo que se espera do presidente Lula é que
siga o exemplo de Chávez e defenda os interesses
nacionais"), desde que seja um canavial 100%
nacional. Discordo. O que se esperaria de um bom
presidente seria o desenvolvimento de
alternativas e a contenção da expansão do
canavial, esteja nas mãos de brasileiros ou
estrangeiros.