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A biologia da
conservação é uma ciência
totalmente dependente de
contexto. Para mim, fiel
defensor da plantação de
coqueiros nas terras indígenas
brasileiras como estratégia de
conservação dessas áreas e em
vastas regiões do Brasil, de
modo geral, um bom exemplo para
ilustrar esta afirmação é uma
notícia
sobre coqueiros que estariam
"destruindo as florestas
tropicais australianas",
destaque do jornal inglês The
Independent do dia 4 de abril de
2004. Nela, a jornalista enviada
a Sydney conta como os
coqueiros, que "exalam o
paraíso", pois a "visão de uma
bela praia de areias brancas e
com fileiras de palmeiras
dançando ao vento alegram o
coração de qualquer turista",
viraram alvo de movimentos de
ambientalistas "anti-palmeiras".
Basicamente,
assim como no Brasil, os
coqueiros não são nativos da
Austrália (mas sim do Sudeste
Asiático, não muito longe dali).
Segundo os ambientalistas
citados na matéria, estas
palmeiras estariam destruindo
formações vegetais únicas ao
avançar sobre as florestas
tropicais litorâneas
australianas, sendo necessário
"arrancá-los pela raiz" para
evitar "conseqüências terríveis"
(em contradição com os
representantes da indústria do
turismo, que estariam
interessados em preservar a
"imagem tropical" das suas
praias).
Conta o texto
que o Dr. Hugh Spencer, biólogo
conservacionista, que ostenta o
título de "o matador de cocos" e
deplora o que chamou de "cocotização
das praias do mundo", defende a
ação radical: "eles têm que ser
totalmente eliminados. Os
coqueiros não são daqui, são
muito mais vigorosos que a
floresta nativa e são muito
fecundos. Onde quer que derrubem
um coco, uma palmeira germina e
no fim das contas o que temos é
um coqueiral, se nada for feito
nós não teremos nenhuma floresta
nativa em nossas praias".
Para colocar o
problema em perspectiva, vamos
retornar um bocado no tempo. É
provável que, desde a chegada
dos humanos às ilhas do sudeste
asiático, onde o coco-de-praia
(aqui conhecido como
coco-da-bahia) evoluiu, há
milhares de anos, consideramos a
espécie útil e começamos, em uma
relação mutuamente vantajosa
entre o homem e a espécie, a
consumir e dispersar variedades
selecionadas de seus frutos (as
tais ilhas são em sua maioria
baixas e diminutas e
caracterizadas pela pobreza
extrema de recursos terrestres).
Então as pessoas que
domesticaram os coqueiros
naqueles tempos provavelmente
usavam-no integralmente para
praticamente todas as suas
necessidades diárias. A história
da sempre crescente distribuição
do coco teve seu momento
fundamental com a expansão
marítima européia, quando os
colonizadores, impressionados
com os múltiplos usos do enorme
fruto em sua região de origem,
promoveram a sua dispersão
através dos mares. Hoje, os
coqueiros são uma fonte de
matéria-prima para dezenas de
produtos, em cerca de cem países
tropicais, que variam do leite
de coco a estofamento de bancos
para carros (a partir da fibra
da casca do coco) e
lubrificantes para avião.
Provavelmente
aconteceu na Austrália o mesmo
que no Caribe e no Nordeste do
Brasil, onde o coco se alastrou
tão rapidamente que, depois de
algum tempo, todos passaram a
acreditar tratar-se de uma
espécie nativa. Do litoral os
coqueiros foram (e ainda são)
dispersados, sempre por humanos,
para o interior das ilhas e dos
continentes. Este movimento de
interiorização do coco continua
no mundo todo e, no Brasil, há
uma expansão contínua das áreas
plantadas de coqueiros em toda a
Região Norte. Então é provável
que tenhamos sim florestas neste
momento sendo substituídas por
coqueirais (em um ritmo que,
evidentemente, não pode ser
comparado ao dos principais
itens do agronegócio), o que é
lamentável, como qualquer forma
de desmatamento ou degradação
florestal. Mas isso sempre
acontece pela ação de humanos e
não por propagação natural.
Então é perfeitamente
controlável.
É verdade que,
em sua argumentação quanto ao
seu poder de invasão, o Dr.
Spencer caracterizou os
coqueiros como "muito fecundos"
e criou uma imagem segundo a
qual teremos um novo coqueiro
brotando onde quer que caia um
coco. A idéia de um imenso
coqueiral no lugar da mata
nativa pode ser aterrorizante.
Entretanto, diferentemente do
que acontece nas praias
australianas freqüentadas por
turistas europeus, na floresta
os cocos são avidamente
consumidos pelos índios, que
carecem de recursos materiais.
Assim, nas aldeias indígenas do
Brasil, onde quer que derrubem
um coco, um coco terá seu
conteúdo comido. Justamente por
isso, temos na Amazônia o
problema inverso: periga nunca
conseguirmos cultivar nestas
áreas um coqueiral da proporção
pretendida para atender
plenamente às necessidades de
subsistência dessas comunidades.
Falo com conhecimento de causa,
de como é difícil que economizem
um coco para, por exemplo, a
produção de uma muda.
Sempre pode
acontecer que um coco caia
desapercebido. Se estiver à
beira da água, e uma enxurrada o
carregar até o rio, podemos até
imaginar que ele poderia ter a
sorte de ser levado e germinar
em uma praia ensolarada
rio-abaixo. Mas esse é um evento
tão improvável que imagino que
vários milhares de cocos teriam
que cair no rio para que um
único coqueiro sobreviva. Dada a
avidez pelo consumo de cocos nas
aldeias, trata-se de um "risco"
absolutamente desprezível. Mesmo
nas tais praias australianas os
coqueiros não são totalmente
exterminados em poucas semanas
porque têm os seus defensores
entre aqueles que miram os
turistas que buscam naquelas
praias a associação
estereotipada entre o coqueiro e
o paraíso tropical. Do
contrário, o Dr. Hugh Spencer e
seus seguidores "coco-exterminadores",
com uma pequena moto-serra, ou
alguns machados, acabariam com
os coqueiros de uma centena de
quilômetros de praias em poucas
semanas. Isso é totalmente
diferente do que acontece com
gramíneas invasoras, por
exemplo, que se espalham com uma
velocidade e tenacidade
superiores à capacidade de
controle humano.
Eu defendo que
a expansão do coco em terras
indígenas é uma medida que pode
promover a conservação dessas
áreas por oferecer uma fonte
significativa de nutrição e
hidratação para a sua população.
Mas, como eu dizia, a biologia
da conservação é dependente de
contexto. Se, ao invés de
trabalhar em áreas desmatadas da
Amazônia, eu estivesse nas
praias australianas abarrotadas
de turistas europeus apaixonados
por coqueiros, onde os
coqueirais ameaçam a
biodiversidade praieira, sem
temer cair em contradição,
também passaria a engrossar o
movimento anti-cocos.
Rodolfo
Salm, PhD em Ciências Ambientais
pela Universidade de East Anglia,
é pesquisador do Museu Paraense
Emílio Goeldi. |