Começou, na
última segunda-feira, com a
presença maciça da imprensa, e
grande excitação, mais uma
manifestação dos povos indígenas
do Xingu contra a construção da
hidrelétrica de Belo Monte.
Batizada de Xingu Vivo para
Sempre, as atividades estão
programadas para acontecer até o
dia 23 de maio, no ginásio
poliesportivo de Altamira, no
centro-norte do Pará. Em 1989,
quando os índios protestaram
pela primeira vez em Altamira
contra a construção desta
hidrelétrica, a índia Tuíra
Kayapó encostou a lâmina de seu
facão no rosto do então
presidente da Eletronorte, José
Antônio Muniz Lopes, num gesto
de advertência. Desde então, Tuíra (que este ano voltou a
prometer que os Kayapó e outras
tribos do Xingu não deixarão que
a usina seja construída)
tornou-se uma referência dos
índios e não-índios na luta
contra as hidrelétricas do
Xingu. Desta vez, após a
apresentação do representante da
Eletrobrás, Paulo Fernando
Rezende, foi cercado por vários
índios, gritando, chacoalhando-o
pela camisa e ameaçando-o com
facões e bordunas — o que
(acidentalmente, eu presumo)
resultou em um corte em seu
braço direito.
Depois da confusão, o engenheiro
da Eletrobrás foi ouvido pela
Polícia Federal e fez exame de
corpo de delito. O Ministério
Público Federal pediu à Polícia
Federal a abertura de inquérito
para apurar o caso e a diretoria
da Eletrobrás declarou que
tomará todas as providências
para que os responsáveis sejam
punidos e que considera ainda
retirar seus técnicos do
encontro em Altamira. A empresa
alega não haver clima para a sua
permanência na cidade. Porém, a
empresa e os sucessivos governos
por trás dela já deveriam ter
percebido há muito tempo que, na
verdade, não há clima é para a
construção da hidrelétrica,
forte e continuamente rechaçada
por boa parte da população
local. Mas não, insistem,
insistem e insistem em
empurrá-la goela abaixo da
população. O procurador federal
Felício Pontes Júnior, que
participou do encontro, disse
que a agressão ao técnico da
Eletrobrás "é um de que os
índios vão resistir, fisicamente
se preciso, contra o barramento
do Rio Xingu".
Estava programado para
sexta-feira, dia 23, no último
dia do evento (depois, portanto,
da publicação deste artigo),
aquele que seria o seu ponto
alto: a saída dos manifestantes
para as ruas de Altamira, em
passeata e ato público contra a
construção da hidrelétrica. Até
lá estão programadas palestras,
debates e mesas redondas sobre
as principais conseqüências da
provável hidrelétrica à
integridade ambiental da bacia
do Xingu (com implicações
alimentares para as populações
tradicionais) e aos povos da
região, índios e não índios.
Além dos conflitos fundiários
exacerbados pela instalação da
obra, prevê-se a perda do acesso
à água potável e o envenenamento
e assoreamento dos rios, além de
impactos sobre as populações de
peixes e sobre o regime de secas
e cheias do rio.
Espera-se discutir
detalhadamente por que querem (e
quem quer) construir as
hidrelétricas. Estes interesses
vão muito além da necessidade de
levar energia elétrica para
todos, ou de "sustentar o
crescimento da economia", como
se diz de forma genérica (aliás,
argumentos fortes para a maior
parte dos brasileiros e de
difícil contraposição com
discursos ambientalistas ou de
defesa dos direitos dos povos
tradicionais). Quantas são (ou
podem ser), realmente, as usinas
previstas? Em que estágio
encontra-se o caso de Belo
Monte? Questiona-se também a
viabilidade econômica e jurídica
do atual estudo de inventário do
Xingu. Também será discutido o
que já vem sendo feito para que
o Xingu seja um lugar melhor
para se viver com investimentos
em desenvolvimento aliado à
preservação ambiental. Tudo
muito organizado, com o apoio da
Igreja Católica, de ONGs, e a
participação de professores de
grandes universidades
brasileiras, juízes e
representantes do Ministério
Público Federal. Mas este não é
exatamente o estilo dos Kayapó,
que usualmente, e esta é uma
característica muito particular
sua, dizem logo de cara a que
vieram (diferentemente de tantos
outros índios Brasil afora,
muito mais dóceis).
Os Kayapó não quiseram ouvir a
palestra do representante da
Eletrobrás, que criticou o
trabalho do professor Oswaldo
Sevá, da Faculdade de Engenharia
Mecânica da Unicamp, muito
admirado pelos índios, que
organizou a magistral revisão "Tenotã-mõ
– Alertas sobre as conseqüências
dos projetos hidrelétricos no
rio Xingu", discutido por mim,
anteriormente,
nesta coluna.
Ininterruptamente vaiado em toda
a sua apresentação, parece que
Rezende elevou o tom do
discurso. Isto provavelmente foi
tomado como uma ofensa entre os
índios que, desinteressados de
sua versão dos detalhes técnicos
do projeto, começaram a cantar e
a dançar logo após o término da
sua apresentação, cercando-o e
dando início às ameaças que
terminaram já se sabe como. A
mensagem já foi clara
anteriormente e o é novamente
agora. Não querem a obra. Ponto.
Para que se interessariam por
detalhes técnicos? Imagine
alguém chegar e tentar lhe
convencer de que quer construir
uma mega obra bem dentro da sua
casa. Você não vai querer saber
dos detalhes. Será contra e
pronto.
Paralelamente ao início do
encontro, o ministro das Minas e
Energia, Edison Lobão,
confirmava que o leilão da usina
hidrelétrica no Xingu está
previsto para 2009. Ignorando
que o licenciamento ainda não
foi concedido e que o Xingu é um
rio sazonal, que tem o seu
volume de água extremamente
reduzido em boa parte do ano,
ele argumenta, sem explicar de
onde tirou este número, que a
usina terá capacidade para gerar
11.000 megawatts, o que
representaria quase o dobro da
capacidade somada das duas
usinas do rio Madeira, Santo
Antônio e Jirau. Aliás, a ONG
Amigos da Terra Amazônia
Brasileira entrou com duas ações
civis públicas para tentar
barrar a construção das usinas
do Madeira, dado que o seu
leilão não deveria ter ocorrido.
Isto porque, em tese, ainda pode
sair uma decisão contrária ao
empreendimento quando as obras
já tiverem começado, o que seria
um desastre tanto para as
empresas como para quem financia
essas obras, como o BNDES.
Segundo eles, o processo de
licenciamento ambiental foi
falho devido a pressões
políticas do próprio presidente
Lula, da ministra Dilma Rousseff
e do Ministério de Minas e
Energia sobre o Ibama e o
Ministério do Meio Ambiente, e
pareceres desfavoráveis à
concessão do licenciamento
ambiental às usinas de Jirau e
Santo Antônio foram engavetados
(o que deu continuidade ao
procedimento) e prevaleceu uma
decisão política tomada às
pressas dentro do Ibama.
Voltando ao caso do Xingu, eu já
naveguei muito pelo rio Rizinho,
seu afluente de segunda ordem, e
sei que na época da seca a água
mal corre nos leitos dos rios da
região. O que o professor
Oswaldo Sevá e várias outras
autoridades no assunto
(desinteressadas do fabuloso
montante de dinheiro que será
repassado para as empreiteiras
que, como urubus, já cercam esta
obra) alertam é que, dada esta
limitação, a usina só poderá
funcionar plenamente durante
parte do ano e precisará do
apoio de outras barragens a
montante que lhe dêem suporte.
"Não teremos mais dificuldades
de energia elétrica neste país.
Nem agora, nem amanhã, nem
nunca", exagerou Lobão em um
delírio megalomaníaco. Ridículo,
pois se sabe bem que
hidroeletricidade tem um
potencial limitado e cedo ou
tarde o crescimento econômico
terá que se adaptar a esta
oferta limitada de energia. Como
isso não é discutido a sério,
toda esta lengalenga, com ou sem
a construção desta hidrelétrica,
virá novamente daqui a alguns
anos. E mais uma vez, sempre com
os velhos argumentos, novas
barragens, novas degradações,
novos ataques aos últimos
trechos de rios preservados do
país.
Neste contexto, preocupa o fato
de termos agora, com a saída de
Marina do Ministério do Meio
Ambiente, um ministro
assumidamente performático,
vestido em colete de bolinhas e
reconhecido por agilizar
processos de licitação ambiental
e que impôs "condições" para
aceitar o cargo, que depois
viraram "sugestões" e logo mais
não tinha importância se não
fossem aceitas (na verdade,
muito mais a cara deste governo
Lula do que a muito séria e
respeitada Marina Silva). Aliás,
estranha a sua proposta de uma
moratória total nos
desmatamentos dentro de sete
anos. Por que sete anos, no
próximo governo? Moratória de
qualquer espécie não se anuncia
para o futuro. Decreta
imediatamente quem pode. E
"sete", como dizem, "é conta de
mentiroso". Sua proposta de usar
o exército para patrulhar
unidades de conservação foi
rechaçada e de toda sua agitação
inicial só sobraram bravatas
inócuas contra Blairo Maggi (de
que ele, se pudesse, plantaria
soja até nos Andes) e o
"poluidores tremei" (que me
parecem mais jogadas de
marketing). Eu queria vê-lo
encontrando-se com os Kayapó
para convencê-los da necessidade
de Belo Monte: Carlos Minc,
tremei!
Finalmente, é bom que se
destaque que o engenheiro não
foi exatamente "atacado a golpes
de facão" pelos índios, como
noticiou o Jornal da Globo
naquela noite. Se ele tivesse
realmente sido atacado a golpes
de facão pelos kayapó com a
intenção de ferir ou matar,
dificilmente escaparia vivo,
dada a grande habilidade dos
índios com estes instrumentos,
utilizados inclusive para caçar.
Mesmo resultando em
(relativamente pequeno)
derramamento de sangue, aquela
ainda foi uma ameaça simbólica.
Ainda assim, agressiva e
lastimável como toda forma de
violência. Mas explicável, pois
vai contra um "inimigo" (não
especificamente o sr. Paulo
Fernando Rezende, mas o que ele
representa) que se vale de todos
os meios (legais e ilegais),
inclusive da violência física,
para atingir os seus objetivos
corruptos e desenvolvimentistas,
independente da vontade ou da
opinião dos índios, e que
insiste em ameaçar a sua terra e
o seu modo de vida.
Rodolfo
Salm, PhD em Ciências Ambientais
pela Universidade de East Anglia,
é pesquisador do Museu Paraense
Emílio Goeldi. |