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Há pouco mais de
dez anos, quando pus meus pés
pela primeira vez na cidade de
Redenção, no sul do Pará, senti
que aquilo era cinema puro: o
faroeste brasileiro, com índios,
"cowboys" e o processo de
colonização da Amazônia, um
mistério para o morador da
Região Sudeste (eu vivia em São
Paulo então), mas perfeitamente
claro para quem conhece a região
e cuja descrição é difícil de
colocar em palavras. Mas meu
objetivo não era Redenção: de lá
eu partiria para a Terra
Indígena (TI) Kayapó para dar
início aos meus trabalhos de
pesquisa de doutorado. Com a
idéia de fazer um filme-denúncia
juntando todos estes
ingredientes, liguei para um
amigo de infância chegado ao
pessoal de vídeo e teatro (que
hoje trabalha num circo) e, ao
cabo de dois anos, quando já
acabava minha coleta de dados
para a tese, consegui levar um
grupo de "gente do meio" para a
aldeia Aukre para "fazer um
filme". Não pretendo tomar o
precioso tempo do leitor com a
narrativa das desventuras da
tragicomédia que foi esta
operação frustrada. Mas,
basicamente, nunca conseguimos
fazer filme algum, pois, como
concluí mais tarde, tínhamos
várias câmeras na mão (grandes e
sofisticadas) e nenhuma idéia
definida e em comum na cabeça.
Mais tarde, eu pude canalizar
esta necessidade de
manifestar-me sobre o tema na
forma de artigos para o Correio
da Cidadania.
Esta introdução é
para dizer que, agora, com o
advento do YouTube (o sítio na
Internet que permite que
usuários carreguem, assistam e
compartilhem vídeos em formato
digital) e das câmeras
fotográficas digitais que
filmam, ficou muito mais fácil
voltar ao vídeo. Então,
para começar, há dois filmes,
ligados ao nosso trabalho na TI
Kayapó, que eu gostaria de
divulgar.
O primeiro
deles (uma espécie de introdução
geral aos problemas ambientais
da região) é "Protegendo
a floresta tropical amazônica",
uma entrevista em inglês
concedida pela Dra. Bárbara
Zimmerman, diretora do Projeto
Kayapó, da ONG Conservação
Internacional, ao programa
ambientalista Enviro Close-Up,
da AOL Television. Bárbara
inicia a entrevista contando
como aconteceu seu primeiro
envolvimento com os índios
Kayapó, no final dos anos 1980.
Ela recebeu um telefonema do WWF
no Canadá, perguntando se
poderia trabalhar como tradutora
para uma liderança indígena
vinda da Amazônia com o objetivo
de levantar fundos para um
protesto contra o mega-projeto
de uma hidrelétrica no rio
Xingu. O interessante aqui é que
o índio era Paulo Paiakan, que
através deste protesto teve um
papel fundamental na preservação
do Xingu, para depois ser
atacado injustamente pela mídia
em função de um suposto caso de
"estupro de uma estudante". E
que a hidrelétrica era Kararaô,
hoje rebatizada Belo Monte,
fonte de muita polêmica nos
últimos anos e ainda hoje quando
os planos de sua construção
voltam à pauta do governo
federal.
Bárbara
explica que o que há de tão
especial quanto aos Kayapó é sua
vitória na demarcação legal de
uma área de mais de 110 mil km²
, tamanho equivalente ao
território da Nova Zelândia (ou
três vezes o estado do Rio de
Janeiro) e três vezes
maior que o Parque Nacional do
Jaú, que é o maior parque
nacional do Brasil. Ela lembra
que a reserva dos Kayapó é de
longe a maior área de floresta
tropical do mundo sob algum tipo
de proteção legal; Bárbara fala
do sucesso destes índios em
proteger suas fronteiras,
mantendo-as livres da onda de
desmatamentos que chegaram até
elas e estão progressivamente
contornando-as (com agricultura,
pastagens e atividades
madeireiras).
Aliás, as
imagens de satélite do avanço
dos desmatamentos e do "abraço"
que estão promovendo na TI são
verdadeiramente impressionantes.
A diretora do Projeto Kayapó
conclui afirmando que os
conservacionistas que estamos
trabalhando nesta área "vemos
este investimento (nos Kayapó)
como algo de longo prazo, não
como um projeto em que se entra,
trabalha-se cinco ou dez anos e
encerra-se"; que sabemos que ele
pode levar décadas devido à
complexidade da "capacitação"
para que os Kayapó possam lidar
com todas estas mudanças; e que
este investimento é uma forma de
"pagamento" pelos serviços
ecossistêmicos que eles prestam
ao mundo, pois sem os Kayapó boa
parte deste pedaço de floresta
já teria ido literalmente para o
espaço.
O segundo
vídeo é "Açaí
com os Kayapó no Brasil"
(com partes em inglês, em
português e em kayapó), uma
produção da antropóloga Lisa
Feder sobre o trabalho de apoio
ao cultivo de açaí que
pretendemos desenvolver na terra
indígena. Nele, o cacique
Okiaboro, líder geral da nação
Kayapó, confortavelmente sentado
na varanda da sua casa, explica,
em bom português, por que
precisam de projetos: "para
ajudar as comunidades a não
destruírem a natureza". Além de
mostrar as canções das mulheres,
os homens fazendo artesanato e
as aldeias e as casas em estilo
tradicional, Lisa, que é a
narradora do vídeo, conta como
os Kayapó tradicionalmente
dependem da natureza à sua volta
para conseguir comida e bens
materiais, caçando e coletando
na floresta, pescando no rio e
cultivando roçados. No caso do
açaí, coletam os frutos em
novembro e dezembro, a partir de
palmeiras espalhadas na mata,
que constituem importantes
fontes para sua nutrição.
Lisa mostra
como os índios passaram a
cultivar açaí nos quintais de
suas casas e como o cultivo
destas palmeiras pode ser
importante para sua alimentação.
Ela também lembra que os Kayapó
eram semi-nômades até meados do
século passado, quando foram
criadas as aldeias atuais, sendo
que hoje, com a sua população
crescendo e com o progressivo
esgotamento da floresta, os
índios têm que se deslocar para
cada vez mais longe de suas
casas, a fim de atender a suas
necessidades. Então, cita a
nossa expedição de novembro do
ano passado, quando enviamos 8
mil mudas de coqueiro-anão para
uma dezena de aldeias Kayapó no
sul do Pará e norte do Mato
Grosso, como uma forma de
apoiá-los em sua nutrição e
hidratação. E conclui, tomando
açaí com os índios em suas
casas, contando como pensamos
que o apoio aos índios no
cultivo da palmeira poderia ser
benéfico para a sua alimentação.
Rodolfo
Salm, PhD em Ciências Ambientais
pela Universidade de East Anglia,
é pesquisador do Museu Paraense
Emílio Goeldi. |