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A
relação
entre
as mudanças climáticas
globais
e os
fenômenos
que
deixaram
mais
de uma
centena
de
mortos
e
cerca
de 80
mil
desabrigados
em
Santa
Catarina é
ainda
uma
incógnita.
Mas
a
relação
entre
a
tragédia
e o
fracasso
das
políticas
de
acesso
à
moradia
e de
ocupação
do
espaço
urbano
é uma
certeza.
As
mudanças climáticas poderão
aumentar
os
riscos
de
eventos
extremos
–
como
as
chuvas
que
causaram as
inundações
em
Santa
Catarina –, criando a
necessidade
de
adaptações.
Mas,
antes
de
pensar
em
problemas
futuros,
será
preciso
encontrar
soluções
para
os
antigos.
Os
problemas
que
precisamos
enfrentar
imediatamente
são
resultado
do
processo
brasileiro
de urbanização. As
mortes
em
Santa
Catarina estão relacionadas à
nossa
política
de
acesso
à
moradia
e
não
à
mudança
climática.
As
conseqüências
das mudanças no
clima
precisam
ser
levadas
em
conta,
mas
elas
ainda
estariam inseridas
em
um
quadro
de
incerteza
–
isto
é,
um
cenário
no
qual
estaria confirmada a possibilidade de
ocorrência
de
certos
eventos
sem
que
se possa
definir
sua
probabilidade.
Vetores
importantes,
como
o
aumento
na
temperatura
e a variação de
chuvas,
ainda
não
são
conhecidos
com
precisão.
Por
isso,
não
se pode
aferir
os
impactos
das mudanças climáticas nas
cidades
brasileiras.
Mesmo
assim,
temos
que
trabalhar
com
o
pior
cenário
possível
para
pensar
em
adaptações.
A
maior
freqüência
de
chuvas
causada pelas mudanças climáticas, se for confirmada, vai
agravar
problemas
já
conhecidos.
Cuidar
das
áreas
de
risco
hoje,
no
caso
do Brasil, é
pagar
uma
dívida
social
–
não
se
trata
de
prever
mudanças climáticas. Trata-se de
reparar
um
processo
de urbanização
muito
intenso
que
ocorreu
sem
planejamento,
dirigido
sob
uma
lógica
de
mercado
e
exploração
imobiliária
agressiva.
Para
Luis Carlos Molion, do
Departamento
de
Meteorologia
da
Universidade
Federal
de Alagoas (Ufal), as mudanças climáticas
não
tiveram
relação
com
as
chuvas
torrenciais
que
devastaram
Santa
Catarina.
“Os
impactos
desastrosos
das
chuvas
em
Santa
Catarina
não
são
conseqüência
do
aquecimento
global,
mas
do
péssimo
planejamento
da
ocupação
do
espaço.
Muita
gente
foge da
região
ribeirinha
para
evitar
inundações
e se instala nas
encostas.
As
mortes
ocorreram nessa
situação”,
afirmou.
Molion,
conhecido
por
fazer
críticas
severas às
conclusões
do
Painel
Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), afirma
que
as mudanças climáticas estão
mais
ligadas
a
fenômenos
naturais
que
ao
aumento
de
emissões
de
carbono
pela
atividade
humana.
“Chuvas
como
essas
já
ocorreram no
passado.
A
mais
recente
aconteceu
em
maio
de 1983,
mas
também
houve
desastres
naturais
semelhantes
no Vale
do Itajaí nas
décadas
de 1950 e 1960. Os
primeiros
registros
são
do
século
19”, afirmou.
A
hipótese
levantada
por
ele
é
que
as variações na
temperatura
do
oceano
Pacífico
controlam
grande
parte
das
oscilações
climáticas. “O
Pacífico
teve
fases
de
aquecimento
entre
1925 e 1946 e
entre
1977 e 1998. Esfriou
entre
1947 e 1976 e está esfriando
nos
últimos
dez
anos.
Esses
ciclos
coincidem
com
momentos
de
alta
e
baixa
das
médias
de
temperatura”,
disse.
De
acordo
com
ele,
no
entanto,
os
fenômenos
não
tinham
conseqüências
tão
importantes
em
décadas
passadas,
no Brasil,
porque
a
concentração
populacional nas
cidades
era
bem
menor.
Nas
áreas
urbanas impermeabilizadas,
segundo
ele,
uma
chuva
de 100
milímetros
provoca
um
fluxo
d’água
de 100
mil
metros
cúbicos
a
cada
quilômetro
quadrado.
“Hoje,
80% da
população
está nas
cidades,
que
absorveram essa
população
sem
planejamento
urbano.
Para
consertar
isso,
serão
necessários
investimentos
muito
maiores
do
que
os
recursos
necessários
para
o
planejamento
há 30
ou
40
anos”,
disse.
Segundo
Molion, é
preciso
que
as
cidades
pequenas
e
médias
comecem a se
planejar
a partir
de
agora.
Para
ele,
seria
preciso
investigar
melhor
a
dinâmica
da
várzea
dos
rios
e
estudar
as
séries
históricas de
registros
hidrológicos e meteorológicos a
fim
de
entender
o
tempo
de
retorno
de
chuvas
fortes,
acima
de 100
ou
200
milímetros.
“Temos
cerca
de 250
municípios
com
mais
de 100
mil
habitantes.
A
grande
maioria
dos
mais
de 5
mil
municípios
do
país
está começando a
crescer.
Seria
aconselhável
pensar
em
medidas
de
planejamento
para
minimizar
problemas
do
tipo
no
futuro”,
afirmou.
Para
Oswaldo Massambani,
professor
titular
do
Instituto
de
Astronomia,
Geofísica
e
Ciências
Atmosféricas (IAG) da USP,
não
há
dúvida
de
que
o
clima
global
passa
por
uma fase
de
abrupto
aquecimento
e
que
os
distúrbios
são
causados
pela
atividade
antropogênica.
“Cresceu
muito
a
capacidade
científica
para
entender
o
clima
global.
De
fato,
os
modelos
climáticos têm
deficiências,
porque
são
modelos
matemáticos
que
tentam
representar
fenômenos
de
um
sistema
complexo.
Mas
à
medida
que
se associam
vários
modelos
e
cenários
eles
se tornam
mais
precisos”,
afirmou.
“A
relação
de causa
e
efeito
entre
a
temperatura
e as
emissões
de
dióxido
de
carbono
não
é
algo
claro,
mas
há
sem
dúvida
uma
relação
de
associação
entre
os dois
fatores.
Já
a vulnerabilidade aos
eventos
extremos
é de
fato
uma
questão
de
natureza
política”,
disse.
Segundo
Massambani, o clima global é controlado por um sistema extremamente
sensível e complexo, que, além dos fatores relacionados à atmosfera e à
superfície terrestre, é determinado também por fatores externos, como a
radiação solar e a geometria variável do sistema Terra-Sol.
“O
Sistema Solar se formou há 4,5 bilhões e chegou ao atual equilíbrio
passando por um processo de crescente complexidade. Esse complexo
sistema não-linear está relacionado ao sistema climático, que possui uma
variabilidade intrínseca e é muito sensível a processos radiativos, com
uma camada atmosférica muito fina, de apenas 20 quilômetros. Isso fez
com que o clima oscilasse ao longo da história”, afirmou.
[*]
Geógrafo - Universidade Estadual da Paraíba -
UEPB.
Pós-graduado em Ciências Ambientais - FIP/PB. Pesquisador
do Terra - Grupo de Pesquisa Urbana, Rural e Ambiental da UEPB/CNPq.
e Coordenador de Projetos Educacionais da Secretaria Municipal
de Educação de Passa e Fica - RN. E-mail:
cavalcantegeo@bol.com.br
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