Resumo
O texto versa sobre
alguns processos sociais como o poder, ambiente, território e educação e
sustentabilidade em conexão com fatos históricos que lhes dão
conformação e o ritmo musical brasileiro, numa alusão descontraída a
produção sociocultural brasileira, com destaque a realidade
soteropolitana.
Palavras-chave:
Ritmo, Território, poder e sustentabilidade
Poder: Você samba
de que lado, de que lado você samba?
Brasil, terra do
suingue e da contradição, já disse a multifacetada Fernanda Abreu em
uma melodia. Um país de dimensões continentais, riquezas naturais com
grande variedade de espécies, de biomas e disposição de recursos
hídricos. Sua diversidade populacional e cultural é responsável por
embalar diferentes ritmos e manifestações, alimentando um imaginário
social arraigado a musica e a dança, produções que entremeadas e
articuladas a diferentes motes, correspondem sistematicamente às imagens
do coletivo e seu espaço temporal. Neste mosaico de expressões, temos um
símbolo dos estilos musicais brasileiros, esta cadência é o samba,
exemplo básico, marca de uma imagem internacional deste país, retratando
em suas categorias, alegrias, dores e o cotidiano da gente brasileira e
seus estereótipos.
Nação que nos últimos
anos tem despontado enquanto liderança na América Latina, isto, claro,
ao ver de alguns líderes deste bloco. Congrega dois fatores cruciais ao
entendimento da sua realidade definidos por Paugan como: a pobreza, que
para muitos é fruto, também, de sua entrada na sociedade industrial,
antes de conquistas sociais e regulações estatais; e a exclusão,
resumida em crise estrutural de seus fundamentos. Do ponto de vista dos
agentes, pobreza é geralmente hereditária e a exclusão é resultado do
acúmulo de dificuldades concretas e de rupturas progressivas de laços
sociais.
Portanto, no seio
desta sociedade, estigmas como a violência, um dos muitos reflexos
diretos destes 2 fatores, atinge a todas as camadas, tanto os que têm a
sua disposição os avanços tecnológicos e a liberdade de mercado,
acumulam informação, riquezas e circulam pela dita aldeia global (DUPAS,
1998); quanto aos que sobrevivem em sub-moradias, desempenham atividades
informais para garantirem o sustento familiar e dependem dos precários
serviços públicos essenciais como saúde, segurança e educação dando
forma ao neologismo criado por Souza, (2005) de “Fobópole”
-expressão oriunda da fusão das palavras gregas phobos que
significa medo e polis que quer dizer cidade - para expressar um
sentimento presente nas grandes e pequenas cidades.
O Estado Brasileiro
que tem por finalidade precípua, organizar o poder político nacional
promovendo o bem comum fundamentado na soberania, cidadania, dignidade
da pessoa humana, no valor social do trabalho, da livre iniciativa, e na
pluralidade política (KOAMA, 1996); tem muito que se aprimorar para
transformar em prática o citado referencial principiológico. Na
administração pública, a organização do poder é fundamentada na doutrina
formulada por Montesquieu (1748), a mecânica político-administrativa
oriunda da sua obra “Le Espirit des Lois” (JAPIASSU, 2006).
Esferas que são equilibradas e independentes numa estrutura
hierarquizada com graduação de autoridade, correspondendo às diversas
categorias funcionais ordenada pelo poder executivo, de forma que
distribua e escalone as funções de seus órgãos e agentes, estabelecendo
relações de subordinação.
Para Cavalcante (2008)
as múltiplas facetas das relações Sociedade X Estado, também podem
traduzir-se na metáfora de um tenso jogo de xadrez, que envolve
diferentes interesses, seja de instituições, grupos ou indivíduos,
perfazendo nossa cultura organizacional histórica, tanto nas criações,
reproduções, reações, quanto nas resistências que dos idos do século XVI
até o nascente XXI, dão o tom de um ritmo, um compasso muitas vezes
sub-reptício e idiossincrático caracterizado por ranços e avanços de um
projeto de sociedade.
O período colonial foi
de onde gestaram as instituições com as quais convivemos até hoje. Nele,
deu-se o processo de mestiçagem biológico e cultural. Fincaram-se
também, as características do nepotismo e do clientelismo das quais hoje
queremos nos desfazer. Ali, o país adquiriu sua fisionomia geográfica, e
que devido ao escravismo, também um rosto social que continuamos
identificando com a pobreza e a exclusão (PRIOSTE, 2003).
Nas sociedades
modernas, sobretudo a partir do século XVIII há uma reorientação
relacionada ao exercício do poder que não é mais concebido como forma
apenas repressiva. Desenvolvem-se mecanismos de dominação sutis e pouco
conhecidos, inclusive pela história e pela filosofia política (REZENDE,
2005). Subentende-se daí a vinculação deste elemento á produção do
real, em domínio de objetos, rituais simbólicos e expressivos de
verdade, de conhecimento e de ciência; um bailado que nunca esta acima
ou separado, mas, sempre com o poder. Michel Focault, sobretudo a partir
de sua obra Vigiar e Punir realiza uma genealogia do poder
enfatizando que poder é produção do saber, do conhecimento. Por outro
lado, saber, além disso, engendra poder, produz “efeitos do poder” um e
outro se articulam, no que Pierre Bourdieau define enquanto poder
simbólico, uma espécie de círculo cujo centro esta em toda parte e em
parte alguma, é invisível sendo exercido com a cumplicidade daqueles que
lhe estão sujeitos, ou mesmo o exerce (meu samba é assim!).
Confirma a sentença a ex-premier do Reino Unido da Inglaterra
Margaret Thatcher “estar no poder é como ser uma dama. Se tiver que
lembrar as pessoas que você é, você não é” ou seja “com que roupa que eu
vou ao samba que você me convidou”.
Os tempos atuais são
marcados pelo fenômeno do global, emerge ressignificada uma forma
peculiar de influência, designada de poder local. Atentando-se que é
pelo uso do território que se pode observá-lo enquanto objeto de análise
social, portanto uma forma impura, um híbrido segundo Milton Santos
(1993), que carece de constante revisão histórica, sendo nele permanente
o fato de ser nosso “quadro de vida”. Um elemento fundamental, portanto
para a sua leitura é a noção de alteridade, ou seja, a clara distinção
do que é o outro. Neste sentido as diferentes formas de associação e
organização como associações de moradores, terreiros de candomblé, ligas
de esporte amador e inclusive, sistemas de atores articulados pelo
cotidiano e hierarquizado pelo respeito que detém, ou por meio de
mecanismos históricos de defesa denominados de “anteparos culturais” por
Cornel West apud Soares (2008), são redes submersas no dia a dia
que articulam interesses coletivos em oposição aos vetores operacionais
da mundialização e da globalização.
AMBIENTES E
TERRITÓRIOS: Essa onda que tu tira qual é? Periferia é Periferia
O ser humano é
certamente o principal predador das reservas naturais do planeta. O
chamado drama ambiental esta intimamente ligado às cidades, um espaço
geográfico transformado pelo homem por meio de um conjunto de
construções com caráter de continuidade e contigüidade. Espaço este que
congrega atividades de residência, governo, indústria e comércio;
pontuando umas das mais célebres e preocupantes questões: o binômio
sociedade-natureza, relações que a todo o momento são colocadas em
cheque, um drama ambiental folhetinesco com variadas facetas, seja pelo
abastecimento de água, solos contaminados, resíduos, desconforto físico
e psicológico, dentre tantos outros (SCARLATO, 1999).
O contexto social
contemporâneo da terra brasilis representado, sobretudo pela
urbanização, com suas frívolas e incessantes reconfigurações
espaço-comportamentais, é uma expressão autêntica da globalização e do
capitalismo, despontando enquanto um conjunto complexo de formas de
desenraizamento em brutais migrações, aumento do consumo de massa, a
concentração de renda e da mídia escrita, falada e televisiva, assim
como a dogmatização das escolas e a externalização do egoísmo enquanto
lei superior. Fatores entre muitos que são apontados por Santos (2002)
em capítulo intitulado a elaboração do brasileiro não-cidadão.
Indivíduo que para o autor, esgota seu papel de protagonista no momento
do voto, sua dimensão é singular como é a do consumidor “esse imbecil
feliz” de que fala Laborit (1986) (apud SANTOS, 2002) também
chamado de usuário, em parcialidades e satisfação limitada a busca da
ascensão social, em lugar da cidadania e do entendimento do ethos.
Não obstante (DEMO, 1995) ao discorrer em seu livro sobre “a cidadania
tutelada e a cidadania assistida” coloca como desafio maior da cidadania
a eliminação da pobreza política, enraizada na ignorância acerca da
condição de massa de manobra. Para ele não-cidadão é, mormente, quem por
estar coibido de tomar consciência crítica da sua marginalização
imposta, não atinge a oportunidade de conceber uma história alternativa
e de organizar-se politicamente, para tanto entende injustiça como
destino. Faz a riqueza do outro sem dela participar, luta para o
processo dos outros acontecerem. São utilizados, normalmente pela
burguesia mascarada com o dom da solidariedade, muitas vezes tornam-se
ferramentas humanas e por que não dizer voz ideológico-financeira do
próximo, que por sinal esta bem distante.
Desta feita,
parece-nos que para avançarmos nas discussões acerca de fenômenos como
globalização e suas implicações no espaço vivido nacional, temos que
tomar como símbolo e interprete o território usado de Santos (1993)
enquanto sinônimo de espaço ambiental, geográfico e de suas relações;
diga-se, relações que são a priori de poder, em um dos seus mais
caros instrumentos: a questão em torno da territorialidade.
No ambiente das
cidades os problemas de uma sociedade tecnológica combinam-se as
carências e a Nós Górdios, como a fome e a desnutrição,
narcotráfico, refletindo as aviltantes disparidades sociais como as
luxuosas disputas imobiliárias (Downtown, Lê Parc, Mandarin e etc)
em face de crescente favelização e da moradia de rua, o favorecimento de
alguns em detrimento a justiça coletiva; alimentam a conhecida
fragmentação do tecido sócio-político-espacial (SOUZA, 1993), um
fenômeno tão velho quanto à própria cidade, evidenciando um contraponto
a globalização econômico-financeira, defendida como a instauração da
suposta aldeia global.
Souza (2005),
entretanto, lembra que por muitos, o mesmo termo “fragmentação” é
utilizado desprovidamente do sentido de pejoração ou negatividade, para
simbolizar a diversidade de culturas. Reforça o autor a possibilidade
deste termo nem sempre ser lamentado, podendo inclusive em situações
especificas, ser celebrado. É justamente da perspectiva de variações
lingüísticas culturais no espaço citadino, sobretudo nos denominados
“aglomerados de exclusão” (OLIVEIRA, 2006) um aspecto da expansão
desordenada da periferia, em que sua população, base operacional da mão
de obra; por encontrar dificuldades a circulação e interação com outros
nichos urbanos, intenciona uma produção cultural criando espaços e
linguagem específica, muitas vezes, apropriadas pela cultura de massa.
Um exemplo marcante é
o fortalecimento da cena Hip Hop tupiniquim, que em meio à pobreza e a
necessidade de lazer alternativo nos guetos alinha o acesso,
mesmo limitado, as diversas poéticas tecnológicas musicais e
informacionais para questionar o modelo social vigente, numa chamada
contra-cultura frente à alienação, bom ratificar que neste momento nos
referimos aos “pornôs music” representados na programação televisiva,
sobretudo, dominical e das Fms usuais que “concreta” na periferia
baluartes como os arremedos dos calipsos, pagodes e axés da vida.
O estilo que promulga
a insatisfação com o quadro, vem assumindo o papel de agentes de
mobilização e afirmação identitária, um amalgama que versa sobre as
questões urbanas, composto basicamente por quatro elementos: RAP,
breaking, grafite e o D.J. e envolve a um só tempo música, dança, artes
plásticas e discotecagem. O que se vê é mais do que o meneio dos ombros
presentes no samba ou dos exagerados requebro dos quadris do que,
indignamente, “costumaram” chamar de seus “derivados”. Esta manifestação
tem ascendido às barreiras do simples entretenimento pela adoção de
posicionamentos críticos e reinvidicativos, tanto no ritmo marcado,
quanto na força impressa a palavra cantada em crônicas do cotidiano,
amores, mazelas sociais e uma constante mensagem de denuncia a
violência, marginalização e a favor da paz. Segundo Miranda (2006) a
cultura e o movimento congregam um grande potencial de mobilização,
uma forte herança deixada pelos griôs africanos (velhos
contadores de estórias) e a influencia do movimento dos Black Panthers
(panteras negras) partido político que lutou sobre enorme repressão
pelos direitos civis do povo negro norte americano. Elemento assimilado
por Bambaataa e outros artistas que fundaram em 1973 a organização Zulu
Nation, definindo princípios universais para o movimento
(MIRANDA, 2006).
No Brasil o espaço
desta expressão artística vem se ampliando com a profissionalização do
gênero e a propagação de artistas, tanto no cenário nacional, a exemplo
de Marcelo D2, Negra Li, Helião, Sabotagem, MV Bil, o grupo Racionais
Mcs (...); quanto no contexto regional, formando diversificadas redes de
interação e fortalecimento não só da cultura, mas inclusive da sua
feição de movimento social intervencionista que atua nas diversificadas
comunidades populares em ações socio-educativas (meio ambiente, relações
raciais, cidadania, direitos humanos e etc). Um exemplo é a nordestina
Rede Aye Hip Hop, composta por uma infinidade de grupos tanto da capital
quanto do interior da Bahia.
A conquista do espaço
na mídia se dá em função da identificação do jovem a linguagem
codificada e a atitude impressa, dando visibilidade a temas e atores
sociais nunca antes enfatizados, rompendo inclusive, com o estigma de
“musica de preto favelado”, já que também possui como apreciadores
jovens das classes mais abastadas, configurando, portanto, a partir do
espaço vivido (ambiente e território) uma oposição veemente a
capitalização das atmosferas e das suas relações sociais em processos
que, infelizmente sabemos, continuam excluzórios da Periferia. Nicho que
se enxerga valorizado e que ao menos às vezes o é, muitas vezes se não
por um pequeno período por uma determinada “casta”. Contudo,...
Periferia que jamais, jamais, deixará de ser ela mesma, a franja. Uma
fronteira... Todavia, agora “ex(r)ótica”.
Educação, sempre uma
Nova Bossa, que já nasce velha
O desafio de educar em
tempos tão turbulentos exige mais do que o acúmulo de informações. É
necessário o florescer e o despertar para múltiplos valores, a prática
de educar no Brasil sempre se deu numa espécie de arena, um terreno
fértil para os usos e abusos do “nosso” poder social: simbólico;
oligarca; hoje oficiosamente não mais laico e que nos versos do poetinha
de “beleza que não é só minha e que passa sozinha”.
De bom alvitre é,
reconhecer que como fio condutor, a experiência social ou o vivido
histórico desde a gênese do nosso país, não deixa dúvidas quanto à
importância que as metodologias educativas tiveram em nossa sociedade,
principalmente se além consideramos a educação no sistema formal e
corrente, contabilizarmos as diferentes sinergias da informação, da
comunicação, e da formação de mentalidades em diferenciados contextos
que não só o da sala de aula. Presenciamos atualmente uma modificação da
função do educador que deixa apenas de transmitir conteúdos, para
tornar-se um sujeito formador e formativo. A trilha das diferentes
“pegadas educacionais” do nosso processo histórico, identifica pistas
importantes para a arquitetura desta realidade social em que
utopicamente comparamos a educação que temos com a que queremos.
Ao investigar o
germinar e o amadurecer ideológico entorno do ensino formal em nosso
país, é fundamental remeter-se a alguns marcos referenciais, como a
conhecida pedagogia tradicional, visão trazida com os Jesuítas, onde as
missões religiosas nas aldeias indígenas ocuparam-se de uma atividade
catequética fora dos interesses e dos propósitos das comunidades
indígenas envolvidas, buscando acultura-los ao estabelecer de forma
impositiva uma nova cultura. Por outro lado, entre as décadas de 20 e 30
tivemos êxitosas experiências da pedagogia da Escola Nova qual o maior
representante fora o educador Anísio Teixeira, seguindo a linha do
“aprender a aprender”. Já no período de 60 incorporou-se o ideal de
“aprender a fazer” com a pedagogia Tecnicista. Concomitante, surge à
pedagogia Histórica Crítica, indo até a década de 70, um dos seus
baluartes foi o laureado Paulo Freire. A idéia de “aprender a
questionar”, debruçando-se inclusive sobre qual a função social da
escola deixou marcas significativas, ao versar sobre as relações e
estruturas de poder. Já o período de 90 é marcado pela pedagogia
sócio-interacionista de Piaget, levando em conta o cognitivo, a
percepção e o valor afetivo, bem como pela pedagogia da complexidade,
versando sobre o “aprender a conviver e se relacionar”.
Seguramente, a
práxis sobre a chamada educação dos movimentos populares, atuantes desde
a década de 50, passando inclusive pelo período do regime militar, muito
foi influenciada pelo contexto formal. O diferencial está na
consolidação de conceitos e práticas, por muitos “vista” como
subversiva, porém, salutares a emancipação política como a conexão
direta do indíviduo ao seu meio e o seu saber, introjetando pressupostos
originários do Marxismo sobre a transformação social. Os antagonismos se
configuram, por exemplo, nos métodos oficiais utilizados em projetos de
simplificação da realidade e subserviência a noções de sucesso
doutrinário como o MOBRAL (Movimento Brasileiro de Alfabetização)
caracteristicamente desideologizado; frente a iniciativas de educação
crítica, referenciada em pensamentos oriundos de personalidades como
FREIRE e YOUNG (Brasil); ARTHUSEN, BERESTEIN, ILICH, BOURDIEAU e ORTEGA
Y GASSET (Europa); BOWLWES, MACLAREM e APPIC (Estados Unidos). Colocando
a educação popular para além do universo escolar.
Contemporaneamente fala-se em muitos pontos de vista para os processos
de instrução. Destes, dois chamam atenção, o primeiro é a noção de
“espaços do conhecimento” (DOWBOR, 1993 et al) um esforço para
repensar dinamicamente novos enfoques para o conhecimento, exemplos
afloram como a educação corporativa; o espaços midiáticos: rádio, TV,
vídeo, internet; cursos técnicos; o espaço cientifico, domiciliar e
comunitário. A idéia é que não há mais um único eixo formativo, integrar
e interrelaciona-los são o que se espera de uma sociedade dita do
conhecimento.
O segundo circunda
sobre a noção de “educação holística” (YUS, 2003) Dede a clássica
contenda filosófica grega entre atomistas e holistas; passando pelo
reconhecimento de Descartes às teses atomistas; o pensamento
cartesiano-analítico e o reforço por Newton nas teses mecanicistas
newtonianas; a visão da realidade enquanto fragmento tomou status de
paradigma nas culturas ocidentais, influenciando na vida destas como um
todo. Em Ximenes (2000) holismo é uma doutrina que prega a interconexão
e influencia mútua de todos os elementos do universo. Ao longo do século
XX as teses holísticas obtiveram reconhecimento, inclusive da própria
pesquisa cientifica, um exemplo é a Física Quântica. Oposta a primeira,
apresenta uma visão mais complexa da realidade, mantendo integrações
produtoras de propriedades e efeitos entre as partes, diferente do
pensamento analítico que se empenha em separá-las. Para Rafael Yus
(2002) a influencia do holismo na educação se expressa em muitas
inovações educacionais e embora de forma retórica em discursos, normas,
leis e currículos, (no que ele chama de tentativas débeis como os Temas
Transversais) preconiza uma educação integrada do individuo concebendo o
ser como um todo.
A similitude
de suas abordagens aproxima estes dois enfoques propedêuticos,
inicialmente da visão de comunidades de aprendizagem e conseqüentemente
à educação ambiental, oferecendo “insigths” aos interessados no
tema. Evidenciando uma maleabilidade necessária à construção de
procedimentos contínuos e permanentes em todas as fases do ensino a
caminho da interdisciplinaridade, versando sobre questões locais,
regionais e nacionais, no sentido de que, segundo Dias (1999) sobre os
mais diversos e dramáticos apelos, seja em documentos e encontros às
nações, governos e povos, possamos reagir e buscar uma forma de vida
menos cretina, que nos tire imediatamente do hipócrita Woodstock que se
instalou nos nossos quintais intelectuais e nos “vê” – indivíduos – com
poucas distinções de forma cega e vazia. Igualmente, Brandão (2005)
discorre sobre a necessidade de sair de si mesmo em direção ao outro
para estabelecermos o que seria o âmago da vocação da vida humana: o
diálogo. Termo que nas salas de aula continua a ser tolhido nas ações de
identidade que deixam de perpassar os conteúdos programáticos de
instituições e seus mestres. Assim, no executar de uma dada atividade de
educação ambiental, cujo objetivo seja oferecer conhecimento, esse
conhecimento possa, realmente, levar a uma dada habilidade, tal
habilidade pode levá-lo a alguma iniciativa, enfim, tudo leva a tudo
(DIAS, 1999). Escancarando o comprometimento a uma nova ética traduzida
em práticas e princípios reguladores do crescimento e de uma conservação
e preservação dos recursos naturais e humanos, ensaiando anular
omissões, complacências e até alianças em iniciativas exploratórias que
privilegiam o econômico e as “comodidades”. Ao despir-se de uma
ingenuidade romântica, tal visão reforça inclusive a necessidade de
supressão de idéias e estigmas como a ligação direta do desemprego a
baixa qualificação escolar e profissional, responsabilizando, para
Borges (2005), o próprio trabalhador como “um inempregável”, camuflando
questões mais profundas referentes à capacidade de geração de
oportunidades pela economia brasileira. Lembrando, aqui, as pautas
políticas educacionais emergenciais, então postas “a toque de caixa”,
vide a mercantilização do ensino superior no país. Conseqüência disso é
a elevada taxa de desemprego dos mais escolarizados, onde credenciais
prerrogativas a uma ocupação como o diploma, cada vez mais servem para
engrossar as fileiras do ERT (Exército de Reserva dos Titulados),
em todos os níveis, inclusive doutores, que são forçados a aceitar
ocupações muito aquém da sua qualificação (BORGES, 2005), ou pior, o
pós-Doc, em troca da bolsa de ajuda de custo.
Destarte, cabe aos
atuantes nas áreas sócio-ambientais, discutir, sugerir e experimentar
idéias no espectro da militância, capazes de viabilizar a auto-formação
(o individuo), a étero-formação (o outro) e a eco-formação (o meio)
esferas diretamente ligadas a plataformas coletivas tencionadas por
lutas pela qualidade de vida através do acesso ao desenvolvimento e a
sociedades sustentáveis (CAVALCANTE, 2008).
Sustentabilidade: Um
bolero em descompasso
Contemplar as
necessidades, tanto atuais, quanto futuras seja nas escalas locais,
regionais como também nas nacionais e internacionais. Esses seriam os
princípios básicos da noção de sustentabilidade, um processo de mudança
no qual a exploração de recursos, dinâmicas de investimentos e
orientações das inovações tecnológicas e institucionais, seja feita de
maneira consistente para o bem da coletividade. (Svendi, 1987 in
Sachs, 1997). No entanto, reconhecido o grau de complexidade que envolve
o tema, não há um acordo consensual entre países e setores da sociedade,
a Agenda 21 é o instrumento que chega próximo a um consenso implementar
do processo em voga. Ferraro (2002) enfatiza a sustentabilidade enquanto
um conceito relacional diretamente ligado às esferas da cultura,
ambiente e tecnologia. Para o docente há uma indissociabilidade entre os
mesmos, caso contrário corre-se o risco deste elemento ser utilizado de
maneira esvaziada do seu sentido, visto que o termo é portador de uma
polissemia referente tanto a internalização de aspectos ecológicos que
sustentam o processo econômico, quanto à permanência deste mesmo
processo econômico (LEFF 2000 apud FERRARO, 2002). Em muitas
circunstancias esta noção tem sido apropriada para os mais
diversificados aplicativos e interesses, consubstanciando narrativas a
mercê de questionamentos, divulgadas com sensacionalismo no propósito
deliberado de gerar impacto diante da opinião pública, influenciando-a.
Conseqüentemente, não raro são os casos em que materializa o termo em
questão, um “factóide” expressão cunhada pelo escritor americano Norman
Mailer, biógrafo de ninguém menos que Marilyn Monroe. “Em resumo, é um
enunciado que designa uma noticia amplamente difundida, mas sem ancora
na vida real, prática muito antiga que vem ganhando novos contornos na
mídia contemporânea” (STAROBINAS, 2007).
Que dados da
realidade, nosso olhar deve privilegiar e que leitura o impacto dessa
transformação causa? Na cidade, por exemplo, há pouca ênfase em seu
planejamento para uma de suas características básicas, se trata de um
sistema heterotrófico, ou seja, um sistema incompleto que depende de
áreas externas para a obtenção de energia, alimentos, água e etc. (SCARLATO,
1999). Do ponto de vista de seus agentes, no ano de 2008 a Declaração
Universal dos Direitos Humanos completa 60 anos, consolidada inclusive
na constituição de 1988, abandonando velhos conceitos e consagrando a
dignidade da pessoa humana como núcleo formador da interpretação de todo
o ordenamento jurídico, já que a dignidade é inerente a toda e qualquer
pessoa vedada a discriminação. Mas, o que sabemos, é que na prática o
que se vê nos indicadores sociais é uma realidade muito distante disso,
na rua temos um elemento revelador da experiência, da rotina, dos
conflitos das dissonâncias, bem como o desvendar da dimensão do urbano,
das estratégias de subsistências, marca da simultaneidade do cheio e do
vazio de direitos (CARLOS, 2000). A tão sonhada sustentabilidade é
transmitida em ondas que se propaga num bolero com passos lentos e
descompassados e ainda se revela utilizando música que se assemelha a um
tango para os mais incautos.
Em conclusão...
Há um antigo
provérbio chinês que diz “se você não muda a direção, terminará
exatamente onde partiu” Será este o destino da humanidade? O tracejar
desta breve reflexão a luz de pensamentos mais diversificados desemboca
na constatação de que para se avançar nas questões entorno do bailado do
conhecimento é sim necessário agir com razão e criticismo, porém
aliando-os a uma disposição afetiva relacionada às coisas de ordem moral
e intelectual. Sentença confirmada por POPPER ao reconhecer que a razão
crítica é melhor que a paixão, especialmente em assuntos referentes à
lógica. Mas ele dispõe-se inteiramente a admitir que nada jamais se
realize sem uma dose de paixão. Brandão (2005) vai além ao colocar que
não há conceito porventura mais cientifico do que o amor, emoção humana
fundadora do ser e da vida em todos os seus planos e domínios. James
Hunter (2004) cita o depoimento do empresário Vince Lombardi, para
ilustrar de qual amor nos referimos: “Não tenho necessariamente que
gostar de meus jogadores e sócios, mas como líder, devo amá-los”. O amor
em questão é lealdade, trabalho de equipe, respeito à dignidade e a
individualidade, força de qualquer organização. O amor a Gaia (mãe
terra) define-se então enquanto liderança, que direcione a racionalidade
ecológica, traçando um complemento de ordem emocional, afetivo, de
matriz poética, estético ontológica (FERRARO, 2002).
Platão abre seu livro
Republica VII com uma alegoria denominada “o mito da caverna”,
dissertando sobre a evolução do processo de conhecimento, uma das mais
famosas historia da filosofia. Por meio de metáforas ele desenvolve um
raciocínio de rápida apreensão e compreensão. Na historia, alguns homens
vivem numa caverna desde crianças, desprovidas de qualquer contato com a
vida exterior, pois, são acorrentados vendo somente resquícios da
realidade por meio das sombras refletidas na caverna. Para eles a
verdade não é mais do que a imagem artificial sob efeito da luz. Porém
um deles se liberta e com muita dificuldade consegue se levantar e
andar, o primeiro impacto é o da luz que lhe causa dor, deslumbramento e
sentimento de incapacidade para distinguir os objetos que vira somente
às sombras. O olhar diretamente a luz é ofuscante, mas aos poucos o
homem foi se acostumando e apropriando-se da realidade recém descoberta,
chega a contemplar o sol e o mundo envolta. Lembra-se então, da antiga
morada e de seus companheiros e lá retorna para lhes trazer as novas
(CHAUÍ, 2003; COTRIM, 2002; NICOLA, 2005).
Transpor essa
digressão para nossa linha de raciocínio é imaginar que a caverna seja o
contexto capitalista global em que vivemos. As sombras seriam as
parcialidades introjetadas em nossa realidade como as necessidades
consumistas do “ter”, os grilhões e as correntes seriam os pré-conceitos
e as opiniões manipuladas sagazmente pelos detentores do poder para
fazer-nos pensar em consonância a interesses alheios e maquiados. O
prisioneiro que se liberta seria o cidadão que adquire posicionamento
crítico. O sol representa a possibilidade de haver outras verdades e o
instrumento que liberta o prisioneiro seria a emancipação política que
traz a tona o senso de coletividade construtivo e alternativo por meio
da arquitetura de redes de sustentabilidade local, via Educação
Ambiental, um instrumento que esta além do processo cognitivo vertical e
hierárquico de transmissão do conhecimento e supervalorização de
atitudes comportamentalistas, passando, portanto por uma sofisticada
discussão na busca pela compreensão das relações de poder na sociedade
(CAVALCANTE, 2007). Um grande e honorável baile, onde todos os
conhecimentos, estilos e ritmos são contemplados e apreciados, nas suas
proporções de competências e atribuições.
Referências
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e os Trabalhadores depois da Reestruturação: Algumas Inquietações.
Caderno do CEAS N 220 Salvador nov/dez 2005;
BRANDAO, C. R. As
Flores de Abril: Movimentos Sociais e Educação Ambiental Campinas
Autores Associados 2005;
CARLOS, A.F.A. O lugar
e as Praticas Cotidianas in: GONÇALVES, N.M. S; SILVA, M.A.; LAGE, C.S.
(org.) Os Lugares do Mundo a Globalização dos Lugares. Salvador UFBA
Dep. E Mestrado em Geografia, 2000;
CAVALCANTE, L.O H.
Entre a Caatinga e a Minha Casa Tem Todo um Mundo a Cuidar...: Quando a
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CAVALCANTE, L.O H.
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Especialização em E. A . UEFS/SRH/INUHIDROS, Salvador, 2008;
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