.ISSN 1678-8419  

Revista Partes - Ano V - 17/09/2006 21:51:44 

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A verticalização de São Sebastião
Por Rogério Grassetto Teixeira da Cunha



O município de São Sebastião, no litoral norte de São Paulo, é famoso pela qualidade da maioria de suas praias e por sua beleza natural, emoldurada pelo Oceano Atlântico de um lado e pela Serra do Mar do outro. O que pouca gente sabe, porém, é que o zoneamento da cidade difere do de todas as outras da costa paulista. Ali não é permitida a construção de prédios com mais de dois pavimentos (três no centro), o que preserva a beleza de sua paisagem.

A restrição à altura das edificações também tem um efeito positivo sobre o meio ambiente, pois impede o adensamento populacional. Ainda assim, há sérios problemas de lotação durante feriados e ao longo do verão. O sistema de tratamento de esgotos do município não é dos melhores, o que compromete a qualidade de algumas praias nestes períodos. Além disso, há extensos engarrafamentos, desabastecimento de água em alguns locais e filas enormes nos estabelecimentos comerciais. A triste notícia é que essa situação pode agravar-se seriamente com mudanças na legislação que pretendem amenizar as limitações à altura de construções na cidade.
Em São Sebastião, como em qualquer lugar, a população mais pobre ocupa a periferia da malha urbana, neste caso, as encostas dos morros que, a partir de certa altitude, são protegidos pelo Parque Estadual da Serra do Mar. Assim, multiplicam-se os loteamentos clandestinos, as favelas, a ocupação irregular, quase sempre em áreas de alto risco de deslizamento. Nestes locais, faltam saneamento básico, água encanada de qualidade, serviços públicos, e são altos os índices de violência. Há também invasões do parque, desmatamento em regiões não oficialmente preservadas, depósitos irregulares de lixo, além da caça e extração de madeira e palmito nas matas remanescentes do município.

Ironicamente, o agravamento da situação, através da liberação de construções mais altas, vem justamente de medidas supostamente concebidas para resolver esta situação. Em fevereiro deste ano, o prefeito da cidade, Juan Manoel Pons Garcia, enviou à Câmara Municipal projeto de lei complementar que dispõe sobre a criação de Zonas de Especial Interesse Social (ZEIS). Nele, encontramos que estas zonas são “porções do território destinadas exclusivamente à recuperação urbanística e ambiental, à regularização fundiária por assentamento irregular já existente e produção de Habitações de Interesse Social - HIS” e, ainda, “área ocupada por população de baixa renda, abrangendo favelas, loteamentos, parcelamentos irregulares e empreendimentos habitacionais de interesse social”.

O projeto de lei e as ações decorrentes do mesmo contemplariam, em tese, a caracterização e o levantamento pormenorizados das áreas das ZEIS e de seus habitantes, a proibição de novas construções, a participação dos moradores dos locais afetados, o respeito a leis ambientais e urbanísticas. Tudo aparentemente muito apropriado e louvável, dado o eterno esquecimento dos prefeitos da cidade em relação aos seus habitantes menos favorecidos. Contudo, um pequeno detalhe da lei (e problema central deste artigo) gerou uma enorme polêmica: o projeto prevê construções de HIS de até cinco andares (incluindo o térreo), embora explicite que apenas elas poderiam ter esta altura. Para os demais terrenos do município, continuariam valendo as restrições anteriores ou novas que venham a ser definidas na Lei de Uso e Ocupação do Solo.

O problema é que se abre assim uma possível brecha para que as construtoras entrem posteriormente na Justiça para que possam ter direitos iguais às habitações populares no que diz respeito à altura das edificações. Mesmo que isto não ocorra, após consumar-se o fato da construção de HIS com tal altura, ficaria muito fácil para a prefeitura estender o benefício para as demais propriedades, recebendo de quebra valores mais altos de IPTU por isso. E não seria difícil vislumbrar um futuro mais sombrio ainda, após a ampliação nos limites ter sido consumada e os opositores devidamente enfraquecidos. A permissividade relativa à altura das edificações poderia aumentar paulatinamente, até o ponto em que os problemas ambientais, sociais e urbanos causados pelo adensamento populacional se tornem intoleráveis e se perca a vista da Serra do Mar, que encantou os índios e os descobridores e hoje encanta os paulistas e turistas do litoral.

Publicado originalmente no Correio da Cidadania.

 

Rogério Grassetto Teixeira da Cunha, biólogo, é doutor em Comportamento Animal pela Universidade de Saint Andrews.
E-mail: rogcunha@hotmail.com

 



 

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