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Terceira Idade |
Ano I - Nº8 - novembro de 2000 |
O idoso e a família: os dois lados da mesma moeda Fátima Teixeira
Você
tem um idoso em sua família? Qual
o grau de convivência e responsabilidade presente na relação entre você
e esse idoso? Neste artigo vamos procurar abordar a questão do idoso dentro do âmbito familiar sobre dois enfoques. De um lado, o ponto de vista do idoso com suas necessidades e expectativas e do outro a família moderna com sua organização e dinâmica nem sempre entendendo o processo que o idoso vem experimentando nessa etapa da vida. A
família é definida como um grupo enraizado numa sociedade e tem uma
trajetória que lhe delega responsabilidades sociais. Especialmente
perante o idoso, a família vem assumindo um papel importante e inovador,
na medida em que o envelhecimento acelerado da população que estamos
constatando é um processo recente e ainda pouco estudado pelas ciências
sociais. A
Constituição Federal de 1988, apresenta a família como base da
sociedade e coloca como dever da família, da sociedade e do Estado
“amparar as pessoas idosas assegurando sua participação na comunidade,
defendendo sua dignidade e bem estar e garantindo-lhes o direito à
vida”. Neste
sentido, cabe aos membros da família entender essa pessoa em seu processo
de vida, de transformações, conhecer suas fragilidades, modificando sua
visão e atitude sobre a velhice e colaborar para que o idoso mantenha sua
posição junto ao grupo familiar e a sociedade. Aqui
cabe uma primeira indagação: Como os filhos, de uma maneira geral
acostumados a serem cuidados e dependentes dos pais por bons anos de suas
vidas, num dado momento passam a experimentar uma inversão nessas relações
quando os pais começam a necessitar de atenção e ajuda? Com
as fragilidades que muitas vezes acompanham o processo de envelhecimento
é comum surgirem conflitos entre os filhos quando a situação dos pais
passa a lhes exigir novas responsabilidades e cuidados. O filme “Parente
é Serpente” de Mário Monicelli, 1993, Itália, aborda, entre outros
aspectos, essa problemática quando a mãe, percebendo suas limitações físicas
e senilidade do marido, delega aos filhos a decisão pelo futuro do casal. Na
realidade, a família precisa de um período de adaptação para aceitar e
administrar com serenidade a nova situação, de forma a respeitar as
necessidades dos pais e evitar que se sintam um encargo para os filhos. Daí
a importância do idoso concentrar esforços para , nos mais diversos
sentidos, não se entregar à inatividade evitando o mais possível o
sentimento de dependência da família que tanto aflige o idoso. Percebemos, em nossa experiência prática , que os idosos carregam a expectativa de receberem atenção e cuidados dos filhos e netos no momento em que perderem ou tiverem suas capacidades diminuídas, sendo este um fantasma constante a perseguir e preocupar os mais velhos. Outra
questão importante diz respeito à conjuntura atual, cujo desemprego
estrutural vem colocando à margem do processo produtivo significativo número
da chamada população economicamente ativa. Os idosos, ainda que
empobrecidos, tiveram a oportunidade de viver uma fase anterior na qual
havia trabalho em abundância e salário suficiente para sustentar sua família,
adquirir a casa própria e o direito à aposentadoria. Observamos que em
alguns casos de separação conjugal ou desemprego os filhos retornam à
casa dos pais em busca de apoio. Eles se constituem para os filhos numa
retaguarda e acolhimento em momentos de necessidade e se estabelecendo na
família uma relação de dependência material e afetiva. A
dependência entre as gerações, no nosso entender, se revela de duas
naturezas distintas: de um lado a dependência material dos filhos que por
precisarem cada vez mais e por mais tempo da proteção dos pais, não
hesitam em aceitá-la, até por entenderem como obrigação. Do outro lado
a dependência emocional dos pais, fruto do modelo familiar estabelecido.
Neste modelo a família é entendida como uma forma natural de organização
da vida coletiva, uma instituição estável da sociedade, sendo a união
entre seus membros a principal responsável pela integração e harmonia
da vida familiar. Essa
dependência se caracteriza, no nosso ponto de vista, num verdadeiro
acordo tácito, ou seja, uma negociação na qual os pais acalentam a
expectativa de obter no momento que necessitarem a retribuição pela
dedicação oferecida à família. As
mudanças que estão ocorrendo nas representações de família nas novas
gerações estão exigindo formas alternativas de convívio familiar e
conseqüentemente a reformulação de valores e de conceitos. A
família brasileira do terceiro milênio está cada vez mais distanciada
do modelo tradicional, no qual o idoso ocupava lugar de destaque. Estamos
vivendo um
importante período de transição e mudanças, no qual se faz necessário
o entendimento das transformações sociais e culturais que vem se
processando nas últimas décadas, para enfrentarmos o nosso próprio
processo de envelhecimento dentro de expectativas condizentes com as novas
formas de organização familiar. No entanto, qualquer que seja a
estrutura na qual se organizará a família do futuro, há a necessidade
de se manterem os vínculos afetivos entre seus membros e os idosos. Nesta
fase da vida, o que o idoso necessita é sentir-se valorizado, viver com
dignidade, tranqüilidade e receber a atenção e o carinho da família. Fátima Teixeira é assistente social com mestrado pela PUC/SP
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