Durante o trabalho de parto do
sétimo filho a mulher morreu e a criança não teve melhor sorte. Pobre
homem, viúvo, seis filhos para cuidar, não sabia o que fazer.
Eis que logo depois surgiu em
seu caminho, uma viúva com um filho. Na opinião dele não era preciso
amar, bastava respeitar. E na base do respeito “juntaram os trapos” e os
dramas.
“Casados” morando na mesma
casa, marido, mulher, 6 filhos e 1 enteado. Ou mulher, marido, 1 filho e
6 enteados, dependendo da perspectiva que se olhasse.
A relação não era das
melhores, mas para ele o importante é que havia uma mulher tomando conta
da casa. E para ela havia um homem para sustentá-la, ao seu filho e a
tropa dele.
Foi assim que todos cresceram,
tornaram-se adultos e se casaram. Como o terreno da casa onde moravam
era muito grande, foram ficando por ali mesmo no famoso puxadinho, um
puxava de um lado, outro puxava do outro, outro ainda puxava no fundo e
outro puxava para cima e todos foram se acomodando.
Dependendo do recurso de cada
um, o puxadinho podia ser maior ou menor, melhor o pior, mas o que
importava é que a família continuava unida e dividida ao mesmo tempo.
Certo dia, num domingo à
tarde, quando todos estavam na calçada sentados tomando “a fresca”, como
era o hábito antigamente, enquanto as crianças corriam, brincavam e os
adultos conversavam, um grupo de ciganas passou pela rua oferecendo-se
para ler a sorte em troca de alguns réis.
Alguém da casa, irado com aquela conversa mole, as espantou aos xingos e
ameaças.
A cigana mais velha, ofendida,
gritou com o agressor e com palavras ditas de forma muito clara, rogou a
maldição:
-: até o final do mês alguém
há de morrer nesta casa!
O pânico tomou conta de todos!
Na hora houve briga entre eles, discussões e os dias se tornaram tensos!
Não admitiam, mas pairava no ar a angústia da superstição. Queriam que o
tempo acelerasse e o mês terminasse logo para voltarem a viver.
O filho da viúva para aliviar
o clima, começou a fazer piada da situação. E piada de mau gosto. Dizia
que se alguém dali fosse morrer, seria o velho, seu padrasto, porque ela
já estava mesmo com o pé na cova, vinha capengando, a tosse era
constante e o pigarro dava indícios de algum problema no pulmão.
Toda vez que cruzava com o
velho, por trás fazia o sinal da cruz. É certo que os irmãos “postiços”
ficavam furiosos com os comentários e gestos dele, mas para não piorar
ainda mais a situação ficavam quietos. Só a mãe sentia-se no direito de
ralhar com ele.
Mas, foi no último dia daquele
mês que a fatalidade aconteceu...
O enteado do velho, que vivia
gorando-o, teve um infarto fulminante morrendo na hora! Deixou a viúva
inconsolável, três filhos pequenos e um na barriga.
A mãe chorava dia e noite e
acusava as ciganas de terem matado seu amado filho.
Quanto ao velho, bem, ele
viveu por mais 10 anos tossindo e pigarreando com seu cigarrinho de
palha no canto da boca...
* Advogada, Mestre em
Políticas Sociais, Pós-Graduada em Gestão e Organização do 3º Setor,
Psicogerontologia e Memórias. Palestrante, professora, dirige o PEEM
Ponto de Encontro e Estudo da Maturidade, voluntária da 3ª Idade e
Recanto do Idoso Nosso Lar.
Email: cidamell@uol.com.br