Revista Virtual Partes - A Cuia
spacer

 

ISSN 1678-8419         última atualização em: domingo, 16 de outubro de 2011 20:13:57                                               
Ambientais Agenda Colunistas Reportagens Terceiro Setor blog Normas Crônicas Poesias e Contos Turismo Terceira Idade Educação
 
  Principal
 Cultura
 Crônicas
 Editorial
 Educação
 Em Questão
 Em Rhede
 Entrevistas
 Política e Cidadania
 Reportagens
 Notícias
 Outras edições
 Poesia e Contos
 Reflexão
 Expediente
 Sócio Ambiental
 Terceira Idade
 Terceiro Setor
 Turismo
 
   Participe
 Cartas
 Blog
 Fale Conosco
 Institucional
 
   Especiais
 Igrejas
 Meio Ambiente
 SP 450 anos
 
   Blogs
 Artes e Artesanato
 Colunistas
 Econotas
 Humor
 Memória Sindical
 Mirim
 Assédio Moral
 Vitrine do Giba
 Nosso Dáimon
 O Grito do Ipiranga
 Mirim
 Feiras e Mercados
 Em RHede
 Econotas
 Ambientais
 Esportes
 Agenda
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Terceira Idade
A Cuia    

Aparecida Luzia de Mello*

publicado em 01/10/2011

Com 23 anos, ela já tinha casado, dado à luz a duas meninas e se separado. O sentimento de culpa era grande, pois sentia o gosto amargo do fracasso. O sonho do “foram felizes para sempre” não durou cinco anos.

Agradecia a Deus por ter imposto, na época do casamento, ao então marido que só se casaria se ele permitisse que ela continuasse a trabalhar, já que o sujeito era o tipo machão que batia no peito e dizia:

-: mulher minha...

Com a separação teve que vender a casa comprada por meio de financiamento, pois não conseguiria arcar com todas as despesas, e não tinha coragem de entrar na justiça para pedir a pensão das meninas. Tudo por causa do sentimento de culpa.

Alugou uma casa perto dos pais e contratou uma pessoa para cuidar das meninas, uma de quatro anos e outra de três, durante a semana. Trabalhava de sol a sol, considerava que tinha um bom emprego pelo pouco grau de instrução que tinha e um bom salário, assim tocava o barco.

As garotas foram para uma escola tradicional do bairro, ali fizeram o jardim, o pré-primário e cursaram o antigo primário e ginásio. Em paralelo tiveram oportunidade de fazer datilografia, inglês, natação, informática, entre outros.

Quando estavam com 14 anos, foram transferidas de escola. A mãe queria que fizessem um curso técnico. Na década de 80 havia boas escolas que ofereciam o colegial junto com o curso profissionalizante. A mais velha escolheu publicidade, enquanto a caçula patologia clínica.

A mãe sentia-se mais tranqüila, pois não sabia se teria fôlego para pagar o curso superior para as duas.

O período da adolescência é desde sempre jogo duro, com a mãe trabalhando o dia todo, as duas abusavam, era o tempo todo falando no telefone, queriam comprar muita coisa e o orçamento doméstico era “super enxuto”...

Como naquela época o jovem poderia começar a trabalhar a partir dos 14 anos, a mãe não pensou duas vezes, conversou com um amigo contador e propôs a ele que aceitasse sua filha mais velha por meio período em seu escritório, já que ela estudava de manhã.

Sem a garota saber, ofereceu-se para pagar o ½ salário mínimo que ele repassaria para a menina, ou seja, ela mãe, pagaria o salário da filha. Era uma forma de dar-lhe ocupação para evitar conflitos e despesas exageradas em casa. Ao mesmo tempo aproveitava para ensiná-la a valorizar o dinheiro ganho com seu próprio suor.

Assim foi feito. Curiosamente, um mês depois o amigo chamou-a e lhe disse, sua filha é muito esperta, já está me ajudando, eu mesmo pago o salário dela.

No ano seguinte a garota passou a estudar no período noturno e trabalhar o dia todo. Em paralelo começou a procurar trabalho na área de publicidade.

Quando conseguiu uma colocação a proposta era indecente, mas a mãe resolveu bancar.

A agência de publicidade era pequena, tinha o dono e mais “meia dúzia de gato pingado”. A menina entraria às 9 horas e sairia às 17 horas, sem ganhar nada, nem mesmo o dinheiro da condução, apenas a experiência. Teria direito ao almoço preparado no próprio local, onde a faxineira era servente e cozinheira também.

A garota, visionária, acreditou que ali teria chance de aprender tudo que rolava numa agência de propaganda. Bingo! Deu certo. Dali foi para um grande jornal e custeou a própria faculdade. Começou no jornal como auxiliar da auxiliar, mas foi mostrando trabalho, tornou-se Contato Junior, Contato Pleno e Contato Sênior ou algo parecido na escala de promoções.

Em dado momento começou a atender grandes empresas e era comum almoçar com os principais clientes em restaurantes de renome.

Como era comum, nos finais de semana a família toda se reunia na casa da avó para tomar o café da tarde. A jovem contou empolgada que naquela semana tinha ido almoçar num restaurante muito chique. O Le Coq Hardy - Um típico restaurante Frances, freqüentado por um público refinado e muito exigente.

Contou que o restaurante era muito sofisticado, com bela decoração, cardápio seleto e caríssimo. No almoço, participou, ela, o diretor do departamento comercial e dois clientes. A conta tinha sido uma fortuna e bla, bla, bla...

A avó simplória interrompe e pergunta:

-: mas... Minha filha você almoçou na mesa com eles?

A neta estupefata com a pergunta olhou para avó, respirou fundo e com ironia respondeu:

-: não vovó! Eles trouxeram uma “cuinha” de madeira para mim e colocaram um tapetinho no chão para eu me sentar! Enquanto eles comiam na mesa eu comia no chão. Oras que pergunta!?!

A avó respirou fundo, sorriu e respondeu aliviada:

-: ah, filha eu só queria saber. Ainda bem, imagino a vergonha que você iria passar se tivesse que comer na mesa com eles.

Foi uma gargalhada só!!!

Hoje a neta é executiva de uma multinacional, viaja o mundo a serviço da empresa. E para brincar com a avó, sempre que embarca lhe diz:

-: oi vó, sabe que eu estou levando na mala? A “cuinha” para não correr riscos...


 

* Advogada, Mestre em Políticas Sociais, Pós-Graduada em Gestão e Organização do 3º Setor, Psicogerontologia e Memórias. Palestrante, professora, dirige o PEEM Ponto de Encontro e Estudo da Maturidade, voluntária da 3ª Idade e Recanto do Idoso Nosso Lar.

Email: cidamell@uol.com.br 


 

 

Pesquisa personalizada

 
  

spacer
::sobre o autor::
Aparecida Luzia de Mello é  Advogada, Mestre em Políticas Sociais, Pós-Graduada em Gestão e Organização do 3º Setor, Psicogerontologia e Memórias. Palestrante, professora, dirige o PEEM Ponto de Encontro e Estudo da Maturidade, voluntária da 3ª Idade e Recanto do Idoso Nosso Lar.  cidamell@uol.com.br
::contato com o autor::

Fale com o autor clicando aqui.

 
::uma foto::


 
   ::participe::
 Cartas
 Blog
 Fale Conosco
 
 

::outros artigos::

Casinhos
Aparecida Luzia de Mello
publicado em 05/07/2011

 

A Voz de Deus
Aparecida Luzia de Mello
publicado em 02/06/2011

Aventuras no Motel
Aparecida Luzia de Mello
publicado em 04/03/2011

Bigode

Aparecida Luzia de Mello

publicado em 04/03/2011
 

 

Natal Social
Aparecida Luzia de Mello
publicado em 04/01/2011

A Cigana
Aparecida Luzia de Mello
publicado em 01/012/2011


Imaginação
Aparecida Luzia de Mello
publicado em 04/01/2011

 

A galinha do ano novo
Aparecida Luzia de Mello
publicado em 02/10/2010

De novo vovô!
Aparecida Luzia de Mello
publicado em 03/09/2010

A gringa elegante
Aparecida Luzia de Mello
publicado em 01/11/2010

De novo vovô!
Aparecida Luzia de Mello
publicado em 03/09/2010

Molho Holandês
Aparecida Luzia de Mello
publicado em 01/07/2010

Leite Compensado
Aparecida Luzia de Mello
publicado em 02/06/2010

Morreu feliz!
Aparecida Luzia de Mello
publicado em 03/05/2010

Tanto riso...
Aparecida Luzia de Mello
publicado em 31/03/2010

Amor Mofado
Aparecida Luzia de Mello
publicado em 11/03/2010

Batom Vermelho na Maturidade
Aparecida Luzia de Mello
publicado em 04/02/2010

 

 

Normas para publicar artigos Revista Virtual Partes

::apoiadores::






© copyright Revista P@rtes 2000-2011
Editor: Gilberto da Silva (Mtb 16.278)
São Paulo - Brasil
spacer