
Com 23 anos, ela já tinha
casado, dado à luz a duas meninas e se separado. O sentimento de culpa
era grande, pois sentia o gosto amargo do fracasso. O sonho do “foram
felizes para sempre” não durou cinco anos.
Agradecia a Deus por ter
imposto, na época do casamento, ao então marido que só se casaria se ele
permitisse que ela continuasse a trabalhar, já que o sujeito era o tipo
machão que batia no peito e dizia:
-: mulher minha...
Com a separação teve que
vender a casa comprada por meio de financiamento, pois não conseguiria
arcar com todas as despesas, e não tinha coragem de entrar na justiça
para pedir a pensão das meninas. Tudo por causa do sentimento de culpa.
Alugou uma casa perto dos pais
e contratou uma pessoa para cuidar das meninas, uma de quatro anos e
outra de três, durante a semana. Trabalhava de sol a sol, considerava
que tinha um bom emprego pelo pouco grau de instrução que tinha e um bom
salário, assim tocava o barco.
As garotas foram para uma
escola tradicional do bairro, ali fizeram o jardim, o pré-primário e
cursaram o antigo primário e ginásio. Em paralelo tiveram oportunidade
de fazer datilografia, inglês, natação, informática, entre outros.
Quando estavam com 14 anos,
foram transferidas de escola. A mãe queria que fizessem um curso
técnico. Na década de 80 havia boas escolas que ofereciam o colegial
junto com o curso profissionalizante. A mais velha escolheu publicidade,
enquanto a caçula patologia clínica.
A mãe sentia-se mais
tranqüila, pois não sabia se teria fôlego para pagar o curso superior
para as duas.
O período da adolescência é
desde sempre jogo duro, com a mãe trabalhando o dia todo, as duas
abusavam, era o tempo todo falando no telefone, queriam comprar muita
coisa e o orçamento doméstico era “super enxuto”...
Como naquela época o jovem
poderia começar a trabalhar a partir dos 14 anos, a mãe não pensou duas
vezes, conversou com um amigo contador e propôs a ele que aceitasse sua
filha mais velha por meio período em seu escritório, já que ela estudava
de manhã.
Sem a garota saber,
ofereceu-se para pagar o ½ salário mínimo que ele repassaria para a
menina, ou seja, ela mãe, pagaria o salário da filha. Era uma forma de
dar-lhe ocupação para evitar conflitos e despesas exageradas em casa. Ao
mesmo tempo aproveitava para ensiná-la a valorizar o dinheiro ganho com
seu próprio suor.
Assim foi feito. Curiosamente,
um mês depois o amigo chamou-a e lhe disse, sua filha é muito esperta,
já está me ajudando, eu mesmo pago o salário dela.
No ano seguinte a garota
passou a estudar no
período noturno e trabalhar o dia todo. Em paralelo começou a procurar
trabalho na área de publicidade.
Quando conseguiu uma colocação
a proposta era indecente, mas a mãe resolveu bancar.
A agência de publicidade era
pequena, tinha o dono e mais “meia dúzia de gato pingado”. A menina
entraria às 9 horas e sairia às 17 horas, sem ganhar nada, nem mesmo o
dinheiro da condução, apenas a experiência. Teria direito ao almoço
preparado no próprio local, onde a faxineira era servente e cozinheira
também.
A garota, visionária,
acreditou que ali teria chance de aprender tudo que rolava numa agência
de propaganda. Bingo! Deu certo. Dali foi para um grande jornal e
custeou a própria faculdade. Começou no jornal como auxiliar da
auxiliar, mas foi mostrando trabalho, tornou-se Contato Junior, Contato
Pleno e Contato Sênior ou algo parecido na escala de promoções.
Em dado momento começou a
atender grandes empresas e era comum almoçar com os principais clientes
em restaurantes de renome.
Como era comum, nos finais de
semana a família toda se reunia na casa da avó para tomar o café da
tarde. A jovem contou empolgada que naquela semana tinha ido almoçar num
restaurante muito chique. O Le Coq Hardy - Um típico restaurante
Frances, freqüentado por um público refinado e muito exigente.
Contou que o restaurante era
muito sofisticado, com bela decoração, cardápio seleto e caríssimo. No
almoço, participou, ela, o diretor do departamento comercial e dois
clientes. A conta tinha sido uma fortuna e bla, bla, bla...
A avó simplória interrompe e
pergunta:
-: mas... Minha filha você
almoçou na mesa com eles?
A neta estupefata com a
pergunta olhou para avó, respirou fundo e com ironia respondeu:
-: não vovó! Eles trouxeram
uma “cuinha” de madeira para mim e colocaram um tapetinho no chão para
eu me sentar! Enquanto eles comiam na mesa eu comia no chão. Oras que
pergunta!?!
A avó respirou fundo, sorriu e
respondeu aliviada:
-: ah, filha eu só queria
saber. Ainda bem, imagino a vergonha que você iria passar se tivesse que
comer na mesa com eles.
Foi uma gargalhada só!!!
Hoje a neta é executiva de uma
multinacional, viaja o mundo a serviço da empresa. E para brincar com a
avó, sempre que embarca lhe diz:
-: oi vó, sabe que eu estou
levando na mala? A “cuinha” para não correr riscos...
*
Advogada, Mestre em Políticas Sociais, Pós-Graduada em Gestão e
Organização do 3º Setor, Psicogerontologia e Memórias. Palestrante,
professora, dirige o PEEM Ponto de Encontro e Estudo da Maturidade,
voluntária da 3ª Idade e Recanto do Idoso Nosso Lar.
Email:
cidamell@uol.com.br