Ele, hoje com 90 anos, tem um
olhar distante, como se procurasse no passado as emoções perdidas....
Se alguém puxar conversa logo
ri e não perde a oportunidade, emenda um assunto a outro, evitando
perder o interlocutor.
Foi assim naquela tarde em que
se comemorava o nascimento da neta mais nova. Alias, para ele não era
novidade, pois é pai de 11 filhos, todos vivos, o mais velho tem quase
70, o mais novo 44 anos.
Quanto aos netos, a mais velha
tem 50 e a primeira bisneta já completou 30 anos, por obra do destino
ainda não há tetranetos, ou melhor, o primeiro ou primeira já está
encomendado, mas o sexo ainda não foi confirmado. Portanto aquele
encontro de gerações e agregados era apenas mais uma reunião como tantas
do passado, em que ele buscava alguém para papear.
Enquanto ele estava ali para
comemorar o nascimento de mais um membro da família, ela comemorava o
nascimento da segunda netinha, e para aproximar as duas famílias foi
marcado um chá na casa onde a “bebezinha” iria morar. O encontro dos
dois, portanto, não se deu por acaso já que o filho caçula dele é casado
com a filha dela.
Ela sentou-se ao seu lado,
único lugar vazio, a esposa dele olhou “torto”, depois se soube que era
por receio que ele cometesse algum deslize, já que em sua opinião, ele
fala demais, fala o que não deve e abusa do ouvido dos outros.
Apesar das preocupações e
cutucões que ele levou da mulher, começou a falar, devagar e sempre... E
ela ofereceu-se por inteira para ouvir.
Ele aproveitou e contou que
viera do nordeste, como retirante. Aqui conheceu a mulher, por quem se
apaixonou imediatamente e com 22 anos já estava casado. Adorava tocar
modinhas no violão, dançar nos bailes, jogar futebol de várzea,
participar de festas, comemorações, mas a mulher, por ciúmes, foi
cortando aqui, ali e para evitar brigas há muito tempo ele não participa
de mais nada. Ficou enferrujado por causa da mulher.
Através
das atividades, o idoso obtém a manutenção de suas funções
cardiovasculares e pulmonares, bem como sua saúde mental, o que traz
melhoria em sua autonomia, bem–estar, autoestima, autoconhecimento,
descontração e integração como grupo, desinibição, além de minimizar os
efeitos negativos que a velhice pode causar. (SOUZA, 2006, p. 30)
Disse que a cada dia vem
necessitando de mais cuidados e atenção, já que tem diabetes,
hipertensão e enxerga pouco. Gosta de fazer compras no comércio local
onde é bem conhecido, mas alguém tem que o acompanhar, pois já caiu
algumas vezes.
Com o
passar do tempo, as pessoas mais velhas, mesmo aquelas que apresentaram
um envelhecimento saudável, tendem a necessitar de maior ajuda para
executar suas tarefas diárias, principalmente as tarefas externas
(compras, idas ao médico etc.). (OLINO e FORTE, 2006, p. 23).
Confidenciou que adora
saborear doces e comida bem condimentada, mas não pode comer, adora
vinho, mas não pode beber. Às vezes se esconde no banheiro com uma
destas preciosidades e abusa, mas os efeitos acabam entregando-o a
família, que ralha com ele, como se fosse uma criança, esquecendo que
ele já foi o chefe da casa e muito respeitado.
Em
geral, não estamos preparados para a passagem do tempo. Relutamos em
aceitar a fragilidade das pessoas que sempre foram o nosso suporte, o
nosso porto seguro. (OLINO e FORTE, 2006, p. 24).
Até do cigarrinho, que era seu
companheiro de horas duras, teve que abdicar por causa do pulmão
congestionado. Tudo que gostava lhe foi tirado, já não tem prazer na
vida.
Se o
idoso não iluminar o seu caminho, predispondo-se às novas tecnologias,
costumes, conhecimentos e situações, transformar-se-á em uma pessoa
misoneísta – aquele que tem verdadeira aversão a tudo quanto é novo; um
neófobo, isto é, alguém inflexível e impermeável ao novo conhecimento
que se lhe apresenta pela frente. (COSTA, 1998, p. 63).
Reclamou que a mulher já não
cuida dele com o mesmo desvelo do passado. Comentou que ela era mulher
de fazer tudo para agradar um homem. Neste momento seu rosto se ilumina,
dá uma boa gargalhada com olhar malicioso como se voltasse aos áureos
tempos de conquistas.
Lembrou, frisando, que sempre
que chegava ao lar a comida estava pronta, quentinha, só esperando por
ele para que todos pudessem comer. Não adiantava reclamar, sem a
presença do pai em casa não havia janta. Bons tempos aqueles!
A esposa era formosa,
trabalhava muito em casa, cuidava de tudo sozinha e próximo da hora dele
chegar tomava banho, penteava o cabelo, passava batom e se perfumava.
Algumas das crianças podiam estar sem banho, ainda, mas ela nunca!
Com o dedo apontando-a, falou
que com o passar do tempo ela foi esquecendo-se destes detalhes, além de
não cuidar-se como antes, também não tem mais a mesma atenção para com
ele.
Sussurrou aos ouvidos da
confidente que, atualmente, quando ele convida a esposa para sentar-se
ao seu lado para assistir televisão, ela reclama que está cansada;
quando a convida para conversar, ela reclama que está com sono; quando
ela a convida para dar uma volta na rua, ela reclama que está com dor na
perna; quando pede um abraço, ela reclama que ele está muito assanhado;
sexo então nem pensar! Ela vira para o lado e dorme, dorme e ronca,
deixando-o na saudade! Termina a frase com mais uma gargalhada.
A esposa olha para ele e não
entende o porquê de tanta risada...
O velho
não comprometido psicologicamente é aquele que ainda “vive” e quer
continuar vivendo a vida em toda a sua plenitude, usufruindo daquilo que
ela ainda pode lhe oferecer e para a qual ele pode responder. O velho
que não vive à sombra das perdas ou à sombra do que não pode mais
atingir, em razão de sua idade, ainda tem, mesmo com medo, desejos de
realização pessoal. (COSTA, 1998, p. 43).
Ele finaliza a conversa
dizendo que outro dia numa discussão disse à mulher que ela já não
cuidava mais dele como outrora e ela resmungou dizendo que cuidava sim,
ele argumentou que ela cuidava, mas era um cuidado sem zelo, sem
carinho, agia como se ele fosse um estorvo. Amuado, baixou o olhar e
contou que neste dia perguntou a esposa:
-: mulher, onde está o nosso
amor?
Ela respondeu:
-: ah, ele já está mofado!
Quem olhasse para ele naquele
momento perceberia que de seus olhos corriam lágrimas. Lágrimas repletas
de saudade!
Bibliografia:
COSTA, Elisabeth Maria Sene.
Gerontodrama: a velhice em cena. São Paulo: Ágora, 1998.
OLINO, Rita. FORTE, Silvia.
Desenvolvimento Humano: Algumas considerações sobre o idoso e o
envelhecimento. In: BERTELLI, Sandra Benevento. Rio de Janeiro:
Qualitymark, 2006.
* Advogada, Mestre em
Políticas Sociais, Pós-Graduada em Gestão e Organização do 3º Setor,
Psicogerontologia e Memórias. Palestrante, professora, dirige o PEEM
Ponto de Encontro e Estudo da Maturidade, voluntária da 3ª Idade e
Recanto do Idoso Nosso Lar.
Email: cidamell@uol.com.br