O Marido é da área tecnológica e
participa sempre que pode de eventos, treinamentos, lançamentos e tudo que
esteja relacionado à sua área já que este é um dos setores que mais sofre
mudanças.
Ela em contrapartida é da área
social. Sempre preocupada com pessoas, sentimentos, emoções. Seu
conhecimento e interação com a área tecnológica é apenas como usuária.
Como o casal tem por hábito fazer
muitas atividades juntos, desde que a agenda permita, ela sempre que pode o
acompanha e vice-versa, todavia quando os eventos tecnológicos são de
treinamentos ou lançamentos, às vezes os assuntos parecem verdadeiros ETs,
pois os jargões das áreas de conhecimento específico tornam os assuntos
incompreensíveis. Claro que isto se dá principalmente com ela. Afinal de
gente todo mundo fala, mas de bits e bytes nem todos.
Nem por isto ela desistiu de
acompanhá-lo e para não sentir-se enfadonha nestas situações, ela inventou
algumas artimanhas que até agora trouxe resultados positivos.
Para garantir que o momento não
será cansativo demais, ela tem sempre na bolsa um livro e um caderninho. Se
o momento é de espera, aproveita para ler, se for uma palestra com tema
muito complicado onde só “rola” bits, bytes e outros bichos, ela abre seu
caderninho...
Neste caderninho há diversos
títulos de contos para desenvolver, previamente registrados com a ideia
central, comentários feitos por pessoas a sua volta, familiares, alunos,
amigos, conhecidos, colegas de trabalho, conversas ouvidas na condução ou
nas filas de espera enquanto aguarda para ser atendida, incluindo
experiências da própria vida. Uma vez o caderninho aberto deixa a imaginação
voar e rapidamente começa a escrever.
Assim alia seu interesse em
escrever, a falta de tempo e o prazer de acompanhar o marido. O palestrante
ou técnico do assunto nem percebe e não se constrange, pois ela não dorme,
não faz cara de “estou viajando” e ainda talvez imagine que ela seja expert
no assunto e interessada anota as principais informações passadas.
O resultado tem sido tão bom que
já tem material suficiente para lançar um livro, afinal nunca se sabe. Mas
num destes eventos técnicos esta atitude rendeu um fato curioso, que ela
jamais imaginou que fosse acontecer.
Depois de uma longa e complexa
palestra tecnológica em que ela escrevera todo o tempo fazendo pequenas
paradas para ajustar as ideias, levantando a cabeça e olhando para o
palestrante “sem vê-lo” e voltar a escrever, o profissional informou que ia
sortear alguns equipamentos da empresa aos participantes como fazia
costumeiramente.
Começou dizendo que naquele dia em
especial dois presentes de “peso” seriam oferecidos, mas um deles seria
entregue, sem sorteio, a uma pessoa que havia participado ativamente de sua
palestra, e, completou:
-: tenho certeza que o ganhador
registrou quase tudo que falei.
E sem mais rodeios apontou para
ela com largo sorriso, convidando-a por meio de gestos a subir na tribuna. A
estas alturas ela o contemplava com cara de “retrato”.
O marido percebendo que ainda não
tinha “caído a ficha”, já que ela não reagia, cutucou-a para ir receber o
prêmio. Apavorado, vendo-a levantar-se toda atrapalhada depois do cutucão
tentando “processar o que estava acontecendo”, ele cochichou em seu ouvido:
-: vá receber seu premio, mas
cuidado com o que você vai falar. Melhor mesmo será ficar calada!
Como se estivesse em transe,
constrangida, foi em direção ao palco ainda com o bendito caderninho na mão.
O palestrante perguntou seu nome,
mas ela rubra de vergonha balbuciou com dificuldade:
-: desculpe não entendi?
Ele então olhando para o crachá
que ela trazia no peito, leu o nome dela e o da empresa que ela
representava, ou seja, a empresa do marido. Cumprimentou-a com efusivo
abraço e pedindo licença tomou o caderninho das mãos dela, levantou o dito
cujo e disse:
-: pessoal, com a surpresa ela
está tão emocionada que não consegue falar, mas tudo que falamos durante a
palestra está registrado aqui. Querem ver...
Abriu-o e tentou ler algo. Mas...
Não conseguiu e rindo disse:
-: gente, ela anotou tudo mesmo,
mas por meio da taquigrafia! Certamente depois ela vai traduzir.
Aliviada ela agradecia a Deus, em
pensamento, pelos garranchos e abreviações que utiliza para não perder o
raciocínio enquanto está escrevendo, já que o raciocínio é mais rápido que a
mão, e ao mesmo tempo por começar a entender o que estava acontecendo.
Limitou-se a sorrir e finalmente
disse:
-: não tenho palavras para
agradecer porque estou muito emocionada. Eu não esperava por isto. Muito
obrigada!
No outro dia o site da empresa
divulgava dados do evento citando o número expressivo de participantes, o
profundo interesse demonstrado por alguns profissionais, os sorteios
promovidos e ao lado do texto a foto do palestrante abraçado com ela. A foto
retratava-a com um “sorriso amarelo” e o netboock, que ganhara de presente,
nas mãos!
*
Advogada, Mestre em Políticas Sociais, Pós-Graduada em Gestão e Organização
do 3º Setor, Psicogerontologia e Memórias. Palestrante, professora, dirige o
PEEM Ponto de Encontro e Estudo da Maturidade, voluntária do Núcleo de
Convivência de Idosos Nosso Lar.
Email: cidamell@uol.com.br