Ele tinha mais ou menos 17 anos, não se
recorda exatamente. O pai, querendo dar-lhe uma força, aproveitou-se de
seu cargo de diretor comercial de uma multinacional e pediu ao dono de
uma empresa, fornecedora de produtos e serviços, que desse uma
oportunidade para seu filho.
O empresário, querendo agradar seu cliente
maior, não pensou duas vezes. De pronto pediu que o garoto fosse até sua
empresa no outro dia e o procurasse pessoalmente.
O jovem, esperto, no outro dia estava lá,
antes da hora marcada. Falou com a secretária, que o anunciou e foi
recebido de imediato.
Sentado, numa conversa descontraída o
empresário perguntou-lhe sobre a vida, família, futebol e no meio da
conversa, o que ele sabia fazer.
O garoto que já atuava na área comercial
fazendo alguns bicos em vendas de produtos diversos, comentou das suas
habilidades em fazer negócios. Falante quis impressionar o futuro patrão
e comentou sobre o curso que fizera até aquele momento - técnico em
produtos químicos.
Na verdade o homem só queria ter uma ideia
de onde o colocaria na empresa já que era filho de seu melhor cliente,
cujo faturamento representava mais de 50% no ano.
Como o rapaz comentou sobre vendas, não
teve dúvidas, chamou o gerente do setor, que era bigodudo, e o
apresentou, dizendo:
-: este rapaz é filho de um amigo meu e eu
resolvi emprega-lo, por favor, faça uma entrevista com ele, veja uma
região onde ele possa atuar e a documentação necessária para começar
conosco imediatamente.
Na cabeça do profissional, o diretor, em
outras palavras, estava dizendo que o garoto trabalharia na empresa para
atender os interesses de um amigo, sem levar em conta sua capacidade
profissional e os interesses da própria empresa, até porque o pedido
feito pelo fornecedor era confidencial, e, portanto, o bigodudo não
tinha como saber que por trás daquela contratação havia sim, muitos
interesses do patrão.
O gerente bigodudo, não gostou! Mas não
disse nada. Pediu ao rapaz que o acompanhasse e despediu-se educadamente
do chefe.
Ao chegar a sua sala, mandou o jovem
sentar-se e ficou algum tempo olhando para ele, como se estivesse
analisando-o, enquanto isto enrolava uma ponta do bigode, até que
quebrou o silêncio para fazer comentários sobre a roupa do futuro
funcionário.
Começou falando da calça que ele vestia –
era um jeans – uma roupa não apropriada para atender clientes... O rapaz
contra-atacou na hora – comentou sobre a praticidade do jeans, mas
informou que se necessário fosse, ele usaria calça social para
trabalhar.
Novo olhar e fixou os pés do jovem, mais
uma enrolada desta vez na outra ponta do bigode, e comentou sobre o
tênis. O jovem mais uma vez falou que estava disposto a cumprir as
regras da empresa e se necessário usaria sapato social também.
Mais um olhar, desta vez enrolando as duas
pontas do bigode, e, encarando o rapaz olho no olho, lhe disse:
-: puxa, mas você nem bigode tem ainda!?!
O garoto sabia que era realmente muito
novo, mas não era bobo, e já tinha sacado que o bigodudo não tinha
gostado nada da atitude do patrão querendo faze-lo engolir goela a
baixo, um funcionário não recrutado por ele.
Sem titubear respondeu:
-: ter eu tenho, mas raspo, porque acho
muito anti-higiênico!
Conversa encerrada. O gerente bigodudo
levantou-se estendeu a mão e disse:
-: estamos conversados! Aguarde uma
ligação minha informando o dia que você deverá começar.
Este diálogo aconteceu há 30 anos. Nesta
semana saiu o pedido de falência da empresa e o jovem de outrora, hoje
respeitável representante de produtos químicos do concorrente daquela
empresa, nunca foi chamado para trabalhar.
Detalhe até hoje não usa bigode, por
questão de higiene!
* Advogada, Mestre em Políticas
Sociais, Pós-Graduada em Gestão e Organização do 3º Setor,
Psicogerontologia e Memórias. Palestrante, professora, dirige o PEEM
Ponto de Encontro e Estudo da Maturidade, voluntária da 3ª Idade e
Recanto do Idoso Nosso Lar.
Email: cidamell@uol.com.br