A relação do casal era puro
conflito. Ainda assim ela suportava tudo em nome dos filhos.
Para ajudar no orçamento
doméstico foi trabalhar de auxiliar numa escola onde as crianças
estudavam.
O marido a humilhava na frente
dos amigos, familiares e até em lugares públicos. Ela perseverante não
se deixava abalar, embora fosse interiorizando a mágoa e a frustração
pelas atitudes inconvenientes dele.
Voltou a estudar, fez
supletivo, prestou concurso e foi aprovada para trabalhar num grande
banco público.
Mesmo assim o marido
ironizava. Se agora não podia criticar o trabalho humilhante, falava da
incompetência dela em dirigir um carro. Ela era habilitada, mas por medo
não pegava o carro e portanto ia trabalhar de ônibus.
As chacotas do marido
continuavam. Com os filhos adolescentes prestou o vestibular e começou
um curso de nível superior, que ele também não tinha.
Com o certificado do curso de
administração nas mãos, pode pleitear outros cargos no banco e chegou à
gerência.
Foi procurar uma autoescola
especializada em pânico, fez aulas e saiu dirigindo. Finalmente tomou
coragem e deu o grito de alforria. Neste momento já não havia mais
ironias, chacotas ou gozações, mas ela já não suportava mais a companhia
dele.
A separação foi inevitável e o
desgaste emocional também. A casa ficou com ele, já que era herança de
família. Os filhos já adultos seguiram seus caminhos e ela não querendo
briga saiu com uma mão na frente e outra atrás.
Morou com os pais e amigas
temporariamente, algum tempo depois conseguiu comprar um belo sobrado.
Coisa de ocasião.
Ao mudar-se para a nova casa
descobriu que ao lado morava um crioulo sarado, meia idade de olhar
insinuante que a deixava encabulada.
Movida por esta novidade,
começou a olhar-se no espelho e descobriu um cabelo prateado entre os
fios negros, percebeu que sua pele estava áspera, que seu corpo estava
acima do peso e seu olhar sem brilho. Olhando para si mesma disse em voz
alta:
-: nada que uma boa clínica de
beleza não resolva!
Algum tempo depois ela surgiu
mais magra; cabelos tingidos com corte da moda; pele sedosa; brilho nos
olhos; lentes de contato coloridas, roupas modernas e elegantes.
Para comemorar a NOVA mulher
que estava nascendo, seu novo armário e sua nova moradia, tratou de
convidar as amigas mais chegadas para um brinde em sua casa.
Chegou uma, chegou outra e
mais outra e assim por diante. A cada chegada ouviam-se muitos:
–: oh! Como você está Linda!
-: oh! Como você está
Maravilhosa!
Suspiros, cochichos e muitos
abraços foram trocados.
Até que chegou uma amiga que
estava entre as mais queridas, aquela que nos momentos de acolhimento,
como não tinha palavras de consolo para lhe dizer, oferecia-lhe o ombro
para que ela chorasse, e este, às vezes, era o melhor remédio.
A amiga já entrou de abraços
abertos para um longo abraço e foi logo dizendo bem alto:
- noooossa como você está
linda!!! Maravilhosa!
Beijaram-se, abraçaram-se,
elogiaram-se sob os olhos das demais amigas que aplaudiam a cada
comentário. Depois de tantos carinhos trocados, a amiga lhe pergunta:
-: mas me diga uma coisa, você
agora também está de CASINHO?!?
De repente ela corou. Não
tinha dito a ninguém sobre o vizinho, nem para aquela amiga... Como ela
ficara sabendo? E por quem? Será que a amiga tinha visto alguma coisa?
Vivia a mesma situação? Enfim um monte de perguntas que não queriam
calar... Ela ainda não se sentia preparada para contar sobre suas nossas
andanças... O casamento frustrado de mais de 20 anos tinha deixado
marcas que a limitavam e ainda sentia-se envergonhada por se interessar
por alguém.
Ela só conseguiu balbuciar..
-: que.. quem.. EU!?!
A amiga sorrindo:
-: sim! Ah, eu sei o quanto é
maravilhoso, não precisa justificar, gosto é gosto... Só quem tem é que
sabe como é gostoso! Eu também adoro! Chega de preconceito. Não quero
mais saber...
Ela ainda gaguejando pergunta:
-: Como você soube?
A amiga então, com ar de
surpresa responde:
-: oras, eu vi! O meu pretinho
está aí em frente a sua casa, agora só saio com ELE!
Com os olhos arregalados ela
corre para a varanda da sala para confirmar.. E lá estava um carro da
marca FORD, modelo KA (zinho) na cor preta estacionado, reluzindo ao sol
porque tinha sido lavado, encerado e polido!
Ela respirou fundo, e sorrindo
disse:
-: ah... O Kasinho que
está na garagem não é meu, é da minha filha... Eu agora tenho um SUBARÚ
VERMELHO!
E riu aliviada!
OBS: depois de beber meia
dúzia de doses de vodca, ela perdeu a vergonha e revelou o segredo da
sua transformação - “Um vizinho crioulo, sarado, meia idade e de olhar
insinuante!” - com quem ela estava tendo um CASINHO!
* Advogada, Mestre em
Políticas Sociais, Pós-Graduada em Gestão e Organização do 3º Setor,
Psicogerontologia e Memórias. Palestrante, professora, dirige o PEEM
Ponto de Encontro e Estudo da Maturidade, voluntária da 3ª Idade e
Recanto do Idoso Nosso Lar.
Email: cidamell@uol.com.br