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ISSN 1678-8419         última atualização em: terça-feira, 05 de julho de 2011 23:04:10                                               
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TERCEIRA IDADE
Casinhos    

Aparecida Luzia de Mello*

publicado em 05/07/2011

 

A relação do casal era puro conflito. Ainda assim ela suportava tudo em nome dos filhos.

Para ajudar no orçamento doméstico foi trabalhar de auxiliar numa escola onde as crianças estudavam.

O marido a humilhava na frente dos amigos, familiares e até em lugares públicos. Ela perseverante não se deixava abalar, embora fosse interiorizando a mágoa e a frustração pelas atitudes inconvenientes dele.

Voltou a estudar, fez supletivo, prestou concurso e foi aprovada para trabalhar num grande banco público.

Mesmo assim o marido ironizava. Se agora não podia criticar o trabalho humilhante, falava da incompetência dela em dirigir um carro. Ela era habilitada, mas por medo não pegava o carro e portanto ia trabalhar de ônibus.

As chacotas do marido continuavam. Com os filhos adolescentes prestou o vestibular e começou um curso de nível superior, que ele também não tinha.

Com o certificado do curso de administração nas mãos, pode pleitear outros cargos no banco e chegou à gerência.

Foi procurar uma autoescola especializada em pânico, fez aulas e saiu dirigindo. Finalmente tomou coragem e deu o grito de alforria. Neste momento já não havia mais ironias, chacotas ou gozações, mas ela já não suportava mais a companhia dele.

A separação foi inevitável e o desgaste emocional também. A casa ficou com ele, já que era herança de família. Os filhos já adultos seguiram seus caminhos e ela não querendo briga saiu com uma mão na frente e outra atrás.

Morou com os pais e amigas temporariamente, algum tempo depois conseguiu comprar um belo sobrado. Coisa de ocasião.

Ao mudar-se para a nova casa descobriu que ao lado morava um crioulo sarado, meia idade de olhar insinuante que a deixava encabulada.

Movida por esta novidade, começou a olhar-se no espelho e descobriu um cabelo prateado entre os fios negros, percebeu que sua pele estava áspera, que seu corpo estava acima do peso e seu olhar sem brilho. Olhando para si mesma disse em voz alta:

-: nada que uma boa clínica de beleza não resolva!

Algum tempo depois ela surgiu mais magra; cabelos tingidos com corte da moda; pele sedosa; brilho nos olhos; lentes de contato coloridas, roupas modernas e elegantes.

Para comemorar a NOVA mulher que estava nascendo, seu novo armário e sua nova moradia, tratou de convidar as amigas mais chegadas para um brinde em sua casa.

Chegou uma, chegou outra e mais outra e assim por diante. A cada chegada ouviam-se muitos:

–: oh! Como você está Linda!

-: oh! Como você está Maravilhosa!

Suspiros, cochichos e muitos abraços foram trocados.

Até que chegou uma amiga que estava entre as mais queridas, aquela que nos momentos de acolhimento, como não tinha palavras de consolo para lhe dizer, oferecia-lhe o ombro para que ela chorasse, e este, às vezes, era o melhor remédio.

A amiga já entrou de abraços abertos para um longo abraço e foi logo dizendo bem alto:

- noooossa como você está linda!!! Maravilhosa!

Beijaram-se, abraçaram-se, elogiaram-se sob os olhos das demais amigas que aplaudiam a cada comentário. Depois de tantos carinhos trocados, a amiga lhe pergunta:

-: mas me diga uma coisa, você agora também está de CASINHO?!?

De repente ela corou. Não tinha dito a ninguém sobre o vizinho, nem para aquela amiga... Como ela ficara sabendo? E por quem? Será que a amiga tinha visto alguma coisa? Vivia a mesma situação? Enfim um monte de perguntas que não queriam calar... Ela ainda não se sentia preparada para contar sobre suas nossas andanças... O casamento frustrado de mais de 20 anos tinha deixado marcas que a limitavam e ainda sentia-se envergonhada por se interessar por alguém.

Ela só conseguiu balbuciar..

-: que.. quem.. EU!?!

A amiga sorrindo:

-: sim! Ah, eu sei o quanto é maravilhoso, não precisa justificar, gosto é gosto... Só quem tem é que sabe como é gostoso! Eu também adoro! Chega de preconceito. Não quero mais saber...

Ela ainda gaguejando pergunta:

-: Como você soube?

A amiga então, com ar de surpresa responde:

-: oras, eu vi! O meu pretinho está aí em frente a sua casa, agora só saio com ELE!

Com os olhos arregalados ela corre para a varanda da sala para confirmar.. E lá estava um carro da marca FORD, modelo KA (zinho) na cor preta estacionado, reluzindo ao sol porque tinha sido lavado, encerado e polido!

Ela respirou fundo, e sorrindo disse:

-: ah... O Kasinho que está na garagem não é meu, é da minha filha... Eu agora tenho um SUBARÚ VERMELHO!

E riu aliviada!


 

OBS: depois de beber meia dúzia de doses de vodca, ela perdeu a vergonha e revelou o segredo da sua transformação - “Um vizinho crioulo, sarado, meia idade e de olhar insinuante!” - com quem ela estava tendo um CASINHO!


 


 


 

* Advogada, Mestre em Políticas Sociais, Pós-Graduada em Gestão e Organização do 3º Setor, Psicogerontologia e Memórias. Palestrante, professora, dirige o PEEM Ponto de Encontro e Estudo da Maturidade, voluntária da 3ª Idade e Recanto do Idoso Nosso Lar.

Email: cidamell@uol.com.br 

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Aparecida Luzia de Mello é  Advogada, Mestre em Políticas Sociais, Pós-Graduada em Gestão e Organização do 3º Setor, Psicogerontologia e Memórias. Palestrante, professora, dirige o PEEM Ponto de Encontro e Estudo da Maturidade, voluntária da 3ª Idade e Recanto do Idoso Nosso Lar.  cidamell@uol.com.br
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