Revista Virtual Partes - Vingança Feminina
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ISSN 1678-8419         última atualização em: quinta-feira, 02 de fevereiro de 2012 22:19:24                                               
Quinta-Feira, 24 de Maio de 2012
 
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Terceira Idade
Vingança feminina    

Aparecida Luzia de Mello*

publicado em 03/02/2012

 

Ela tinha aquele tipo característico de mulher decidida. Além disto, era forte, mulata, encorpada e não levava desaforo para casa.  

Já o marido era do tipo bonachão, também mulato, alto, gordinho e muito, mas muito simpático.

Certo dia, por algum motivo que ela já não lembra mais, teve que ir até a empresa onde ele trabalhava como motorista particular da diretoria.

Lá chegando, o porteiro que já a conhecia, abriu o portão e indicou a sala da secretária onde ele costumava ficar a disposição dos patrões para receber as instruções diárias.

A porta estava entreaberta e... Ela entrou!

Qual não foi sua surpresa ao encontrar o marido sentado numa cadeira de costas para a porta de entrada, fazendo “tiro ao alvo” com bolinhas de papel no decote da secretária oxigenada e esta devolvendo as bolinhas às gargalhadas.

Ela só berrou:

-: seu assanhado!!!

Bateu a porta e saiu!

Ele ficou apavorado! Reconheceu a voz e imaginou a grande encrenca que havia comprado, afinal sabia da dose de ciúmes que aquela mulher tinha. Saiu correndo atrás dela, mas ela mais rápida que ele já tinha ganhado a rua.

Ele ao alcançá-la tentou segurá-la pelo braço e argumentar, mas ela não queria saber e se desvencilhou dele. Ele insistente a seguia falando e gesticulando. Ao passar por um policial ela não teve dúvidas e gritou:

-: seu guarda, socorro, este negão está querendo me agarrar!

O policial ao ver o porte do “negão” percebeu que não conseguiria dominá-lo sozinho, mais que depressa sacou a sua arma e gritou:

-: na parede, mãos para cima! Não se mexa!

Enquanto o coitado do “negão”, com olhar assustado, encostou-se à parede... Ela seguiu seu caminho apressada e indiferente, sem olhar para trás!

O “negão” tentava argumentar com o policial, mas este apavorado com o tamanho do homem mandava o coitado calar a boca e não se mexer. Seu parceiro que estava no carro numa comunicação pelo rádio acudiu imediatamente e logo o pobre “negão” estava sendo revistado.

Com muita dificuldade ele conseguiu explicar ao policial o que havia acontecido, mas este não estava botando muita fé na história. Com as mãos na parede, ele implorou ao policial para que abrisse sua carteira e visse a foto dela que estava guardada lá. Informou ainda que na foto ela estava um pouco mais magra e mais jovem, mas poderia ser reconhecida... E com ar infeliz resmungou bem baixinho – reconhecida pelo ar de arrogância!

O policial olhou, olhou, torceu o nariz demonstrando dúvida... O “negão” percebendo a oportunidade sugeriu que fossem atrás dela, que a estas alturas seguia para o ponto de ônibus, e que ao abordá-la o policial pedisse os documentos para averiguação. Na carteira de identidade dela tinha o sobrenome dele e junto ela sempre trazia uma certidão de casamento que se exigida poderia comprovar que ele falava a verdade.

Querendo acreditar, talvez pela cumplicidade masculina, mas com ar de “se for mentira você está ferrado” o policial topou. Os três subiram no carro oficial arrancaram atrás dela, o “negão” sempre vigiado pelo segundo policial com a arma em punho.

No final da rua lá estava ela, seguia rebolando a passos firmes sem olhar para trás.

O carro da policia ligou a sirene por um minuto e encostou. O policial desceu, cumprimentou-a respeitosamente e pediu os documentos para averiguação.

Ela de pronto, argumentou:

-: mas seu guarda, se eu não fiz nada... O senhor não pode me abordar assim, eu...

Calmamente ele a interrompeu e disse:

-: a senhora tem razão, mas podemos resolver isto na delegacia e dependendo do constatado a senhora vai responder por...

Ela rapidamente, respondeu:

-: Ok. Seu guarda o Senhor venceu! Está aqui meu documento! E este safado é sim meu marido. Quer dizer ex-marido! Foi por isto que eu disse que este negão estava querendo me agarrar...

O marido desesperado lhe disse:

-: meu amor, como ex-marido? Nós somos casados há mais de 20 anos, temos três filhos, nossa casa...

E ela olhando com desprezo para ele, replicou:

-: éramos casados! Éramos casados, até meia hora atrás, não somos mais, vou procurar meus direitos!

O policial vendo que ela era “barraqueira” e a discussão do casal ia esquentar, interveio, dizendo:

-: ou vocês param com isto agora, ou levo os dois para a delegacia e vão ter que se entender no xilindró!

Ela assustada olhou para o policial, o marido esperto percebeu o medo da mulher e aproveitando a deixa, abraçou-a por trás, beijou-lhe o rosto, virou-se e disse:

-: desculpe seu guarda, já passou e a gente já fez as pazes, né neguinha? Tá tudo bem, não vai acontecer mais, eu prometo!

O policial baixou “a guarda”, deu aquele olhar que se poderia dizer: “ok, desta vez passa...”.

Ela respirou aliviada. Naquela hora tudo que ela queria era se livrar da “autoridade”. Pegou forte no braço do marido, virou as costas e puxou-o para sair dali rapidamente antes que o guarda se enfezasse novamente.

Alguns passos depois o marido, bonachão, olhou para trás, e ao ver o policial ainda parado observando os dois, lhe deu um piscada e sorriu.

Um sorriso de agradecimento!

 

* Advogada, Mestre em Políticas Sociais, Pós-Graduada em Gestão e Organização do 3º Setor, Psicogerontologia e Memórias. Palestrante, professora, dirige o PEEM Ponto de Encontro e Estudo da Maturidade, voluntária da 3ª Idade Nosso Lar.

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Aparecida Luzia de Mello é  Advogada, Mestre em Políticas Sociais, Pós-Graduada em Gestão e Organização do 3º Setor, Psicogerontologia e Memórias. Palestrante, professora, dirige o PEEM Ponto de Encontro e Estudo da Maturidade, voluntária da 3ª Idade e Recanto do Idoso Nosso Lar.  cidamell@uol.com.br
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