Ela tinha aquele tipo característico de
mulher decidida. Além disto, era forte, mulata, encorpada e não levava
desaforo para casa.
Já o marido era do tipo bonachão, também
mulato, alto, gordinho e muito, mas muito simpático.
Certo dia, por algum motivo que ela já não
lembra mais, teve que ir até a empresa onde ele trabalhava como
motorista particular da diretoria.
Lá chegando, o porteiro que já a conhecia,
abriu o portão e indicou a sala da secretária onde ele costumava ficar a
disposição dos patrões para receber as instruções diárias.
A porta estava entreaberta e... Ela entrou!
Qual não foi sua surpresa ao encontrar o
marido sentado numa cadeira de costas para a porta de entrada, fazendo
“tiro ao alvo” com bolinhas de papel no decote da secretária oxigenada e
esta devolvendo as bolinhas às gargalhadas.
Ela só berrou:
-: seu assanhado!!!
Bateu a porta e saiu!
Ele ficou apavorado! Reconheceu a voz e
imaginou a grande encrenca que havia comprado, afinal sabia da dose de
ciúmes que aquela mulher tinha. Saiu correndo atrás dela, mas ela mais
rápida que ele já tinha ganhado a rua.
Ele ao alcançá-la tentou segurá-la pelo
braço e argumentar, mas ela não queria saber e se desvencilhou dele. Ele
insistente a seguia falando e gesticulando. Ao passar por um policial
ela não teve dúvidas e gritou:
-: seu guarda, socorro, este negão está
querendo me agarrar!
O policial ao ver o porte do “negão”
percebeu que não conseguiria dominá-lo sozinho, mais que depressa sacou
a sua arma e gritou:
-: na parede, mãos para cima! Não se mexa!
Enquanto o coitado do “negão”, com olhar
assustado, encostou-se à parede... Ela seguiu seu caminho apressada e
indiferente, sem olhar para trás!
O “negão” tentava argumentar com o
policial, mas este apavorado com o tamanho do homem mandava o coitado
calar a boca e não se mexer. Seu parceiro que estava no carro numa
comunicação pelo rádio acudiu imediatamente e logo o pobre “negão”
estava sendo revistado.
Com muita dificuldade ele conseguiu
explicar ao policial o que havia acontecido, mas este não estava botando
muita fé na história. Com as mãos na parede, ele implorou ao policial
para que abrisse sua carteira e visse a foto dela que estava guardada
lá. Informou ainda que na foto ela estava um pouco mais magra e mais
jovem, mas poderia ser reconhecida... E com ar infeliz resmungou bem
baixinho – reconhecida pelo ar de arrogância!
O policial olhou, olhou, torceu o nariz
demonstrando dúvida... O “negão” percebendo a oportunidade sugeriu que
fossem atrás dela, que a estas alturas seguia para o ponto de ônibus, e
que ao abordá-la o policial pedisse os documentos para averiguação. Na
carteira de identidade dela tinha o sobrenome dele e junto ela sempre
trazia uma certidão de casamento que se exigida poderia comprovar que
ele falava a verdade.
Querendo acreditar, talvez pela
cumplicidade masculina, mas com ar de “se for mentira você está ferrado”
o policial topou. Os três subiram no carro oficial arrancaram atrás
dela, o “negão” sempre vigiado pelo segundo policial com a arma em
punho.
No final da rua lá estava ela, seguia
rebolando a passos firmes sem olhar para trás.
O carro da policia ligou a sirene por um
minuto e encostou. O policial desceu, cumprimentou-a respeitosamente e
pediu os documentos para averiguação.
Ela de pronto, argumentou:
-: mas seu guarda, se eu não fiz nada... O
senhor não pode me abordar assim, eu...
Calmamente ele a interrompeu e disse:
-: a senhora tem razão, mas podemos
resolver isto na delegacia e dependendo do constatado a senhora vai
responder por...
Ela rapidamente, respondeu:
-: Ok. Seu guarda o Senhor venceu! Está
aqui meu documento! E este safado é sim meu marido. Quer dizer
ex-marido! Foi por isto que eu disse que este negão estava querendo me
agarrar...
O marido desesperado lhe disse:
-: meu amor, como ex-marido? Nós somos
casados há mais de 20 anos, temos três filhos, nossa casa...
E ela olhando com desprezo para ele,
replicou:
-: éramos casados! Éramos casados, até meia
hora atrás, não somos mais, vou procurar meus direitos!
O policial vendo que ela era “barraqueira”
e a discussão do casal ia esquentar, interveio, dizendo:
-: ou vocês param com isto agora, ou levo
os dois para a delegacia e vão ter que se entender no xilindró!
Ela assustada olhou para o policial, o
marido esperto percebeu o medo da mulher e aproveitando a deixa,
abraçou-a por trás, beijou-lhe o rosto, virou-se e disse:
-: desculpe seu guarda, já passou e a gente
já fez as pazes, né neguinha? Tá tudo bem, não vai acontecer mais, eu
prometo!
O policial baixou “a guarda”, deu aquele
olhar que se poderia dizer: “ok, desta vez passa...”.
Ela respirou aliviada. Naquela hora tudo
que ela queria era se livrar da “autoridade”. Pegou forte no braço do
marido, virou as costas e puxou-o para sair dali rapidamente antes que o
guarda se enfezasse novamente.
Alguns passos depois o marido, bonachão,
olhou para trás, e ao ver o policial ainda parado observando os dois,
lhe deu um piscada e sorriu.
Um sorriso de agradecimento!